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Filho de um próspero mercador de
vinhos, Chaucer foi educado provavelmente em Londres, onde descobriu
as obras de Ovídio, Virgílio e dos poetas franceses. Como era comum
aos filhos de famílias abastadas, entrou para o serviço de uma
família nobre – a de Elizabeth, condessa de Ulster, casada com o
segundo filho do rei Eduardo III. Diz a tradição que um de seus
primeiros poemas foi um hino à Virgem, escrito a pedido de uma dama
nobre, Blanche de Lancaster (para quem escreveu mais tarde The
book of the duchesse), e lido para ela e seus acompanhantes.
Pode-se imaginar o rapaz, nervoso inicialmente, depois mais
entusiasmado, gaguejando um pouco, lendo seu poema como um estudante
de hoje leria um ensaio diante da classe. Chaucer deve ter
perseverado; as leituras de suas poesias continuaram. Um manuscrito
de Troilus and Criseyde que se encontra atualmente no Corpus
Christi College, na Universidade de Cambridge, mostra um homem de pé
num púlpito externo, dirigindo-se a uma platéia de senhores e
senhoras, com um livro aberto diante dele. O homem é Chaucer; o
casal real perto dele, o rei Ricardo II e a rainha Ana.
O estilo de Chaucer combina
procedimentos tomados dos retóricos clássicos com coloquialismos e
expressões capciosas da tradição dos menestréis, de forma que um
leitor que segue suas palavras depois de séculos não só ouve como
vê o texto. Uma vez que a plateia de Chaucer iria “ler” os
poemas com os ouvidos, dispositivos como rima, cadência, repetição
e as vozes das diferentes personagens eram elementos essenciais da
composição poética; ao ler em voz alta, Chaucer poderia alterar
esses elementos conforme a reação da plateia. Quando o texto
ganhava a forma escrita, para que alguém o lesse em voz alta ou em
silêncio obviamente era importante conservar o efeito desses
estratagemas. Por esse motivo, da mesma forma como certas marcas de
pontuação tinham se desenvolvido por meio da leitura silenciosa,
agora criavam-se também sinais práticos para a leitura em voz alta.
Por exemplo, o diple – uma marca do escriba em forma de
ponta de flecha horizontal, colocada na margem para chamar a atenção
sobre algum elemento do texto – tornou-se o sinal que reconhecemos
hoje como aspas, primeiro para indicar citação e, depois, trechos
de discurso direto. Da mesma forma, o escriba que copiou Os contos
de Canterbury no manuscrito de Ellesmere do final do século XIV
recorreu a barras (o solidus) para marcar o ritmo do verso
lido em voz alta: Em Southwerk no Tabardo enquanto fico Pronto /
para seguir minha peregrinação.
Mas já em 1387, John de Trevisa,
contemporâneo de Chaucer que estava traduzindo do latim para o
inglês uma epopeia bastante popular, o Polychronicon,
resolveu fazê-lo não em versos, em prosa – um meio menos adaptado
à leitura pública – porque sabia que a plateia já não esperava
ouvir uma recitação e iria, com toda a probabilidade, ler o livro
ela mesma. A morte do autor, pensava-se, permitia ao leitor ter um
comércio mais livre do texto.
Mas o autor, o criador mágico do
texto, conservava seu prestígio encantatório. O que intrigava os
novos leitores era encontrar aquele fazedor, o corpo que abrigava a
mente capaz de inventar o doutor Fausto, Tom Jones, Cândido. E, para
os autores, havia um ato paralelo de magia: encontrar aquela invenção
literária, o público o “prezado leitor”, aqueles que para
Plínio eram pessoas bem ou malcomportadas, de olhos e ouvidos
visíveis e que agora, séculos depois, tinham se tornado uma mera
esperança para além da página. “Sete exemplares foram vendidos”,
reflete o protagonista de Nightmare abbey (A Abadia do
pesadelo), romance que Thomas Love Peacock escreveu no início do
século XIX: “Sete é um número místico e o presságio é bom.
Que eu descubra os sete compradores de meus sete exemplares e eles
serão os sete candelabros de ouro com que iluminarei o mundo”.
Para encontrar os sete que lhes cabiam (e sete vezes sete, se os
astros ajudassem), os autores começaram novamente a ler suas obras
em público.
Como Plínio explicara, as leituras
públicas pelo autor destinavam-se não somente a levar o texto ao
público, como também trazê-lo de volta ao autor. Chaucer, sem
dúvida, fez emendas no texto de Os Contos de Canterbury depois
de lê-lo em público, (talvez colocando algumas das reclamações
que ouviu na boca de seus peregrinos – como o Homem da Lei, que
considera pretensiosas as rimas de Chaucer). Molière, três séculos
mais tarde, lia habitualmente suas peças para uma criada. “Se
Molière lia para ela”, comentou o romancista inglês Samuel Butler
em seus Notebooks, “era porque o simples ato de ler em voz
alta punha a obra diante dele sob uma nova luz, e, ao forçar sua
atenção para cada linha, fazia-o julgá-las com mais rigor. Eu
sempre tenho a intenção, e em geral o faço, de ler o que escrevo
em voz alta para alguém; praticamente qualquer pessoa serve, mas ela
não deve ser tão brilhante a ponto de me fazer temê-la. Quando
leio em voz alta, percebo de imediato certos pontos fracos onde
antes, lendo apenas para mim mesmo, parecia-me que estava tudo bem.”
Às vezes não foi a preocupação com
a melhoria do texto, mas a censura, que levou o autor de volta à
leitura pública. Jean-Jacques Rousseau, proibido pelas autoridades
francesas de publicar suas Confissões, leu-as durante o longo
e frio inverno de 1768 em várias residências aristocráticas de
Paris. Uma dessas leituras durou das nove da manhã até as três da
tarde. Segundo um dos ouvintes,quando Rousseau chegou ao trecho em
que descreve como abandonou seus filhos, a plateia, de início
constrangida, desmanchou-se em lágrimas de dor.
Em toda Europa, o século XIX foi a
idade de ouro da leitura pelos autores. Na Inglaterra, a estrela foi
Charles Dickens. Sempre interessado em teatro amador, Dickens (que de
fato atuou no palco em várias ocasiões, notadamente em sua
colaboração com Wilkie Collins, The frozen deep [A
profundeza congelada], em 1857) usava o talento histriônico nas
leituras das próprias obras. Essas leituras, como as de Plínio,
eram de dois tipos: para os amigos, a fim de polir o texto final e
avaliar o efeito de sua ficção sobre o público, e leituras
públicas, apresentações pelas quais ficaria famoso mais tarde.
Escrevendo à esposa, Catarina, sobre a leitura de sua segunda
história de Natal, O carrilhão, mostrou-se exultante: “Se tivesse
visto Macready [um dos amigos de Dickens] ontem à noite –
soluçando e chorando escancaradamente no sofá enquanto eu lia –,
você teria sentido (como eu senti) o que significa ter Poder.”
“Poder sobre os outros”, acrescentou um de seus biógrafos.
“Poder de mover e controlar. O Poder de sua escrita. O Poder de sua
voz.” A lady Blessington, em relação à leitura de O
carrilhão, Dickens escreveu: “Tenho grande esperança de que
farei a senhora chorar amargamente”.
Mais ou menos na mesma época, Alfred,
lorde Tennyson, começou a assombrar as salas de visitas de Londres
com leituras de seu poema mais famoso (e mais longo): Maud.
Tennyson não buscava poder na
leitura, como Dickens fazia, mas aplauso contínuo, confirmação de
que sua obra tinha de fato uma plateia. “Allingham, desgostaria
você se eu lesse Maud? Você expiraria?” – perguntou ele
a um amigo em 1865. Jane Carlyle lembrava-se dele circulando numa
festa e perguntando se as pessoas tinham gostado de Maud, e
lendo o poema em voz alta, “falando Maud, Maud, Maud”, e “tão
sensível a críticas como se elas fossem acusações à sua honra”.
Ela era uma ouvinte paciente; na casa de Carlyle, em Chelsea,
Tennyson a forçara a aprovar o poema lendo-o três vezes seguidas.
Segundo outra testemunha, Dante Gabriel Rossetti, Tennyson lia a
própria obra com a emoção que buscava na plateia, derramando
lágrimas e “com tal intensidade de sentimento que segurava em suas
poderosas mãos uma grande almofada brocada e, quase
inconscientemente, torcia-a sem parar”. Emerson não demonstrou
a mesma intensidade ao ler os poemas de Tennyson em voz alta. Em seus
cadernos, confidenciou: “É um bom teste para uma balada, como
para toda a poesia, a facilidade de ler em voz alta. Mesmo em
Tennyson, a voz fica solene e entorpecida”.
Dickens era um intérprete muito mais
profissional. Sua versão do texto – o tom, a ênfase ou mesmo as
omissões e acréscimos para tornar a história mais adequada a uma
apresentação oral – deixava claro a todos que aquela era a
primeira e única interpretação.
Isso ficou evidente em suas famosas
turnês de leitura. A primeira turnê longa, iniciada em Clifton e
encerrada em Brighton, compreendeu cerca de oitenta leituras em mais
de quarenta localidades. Ele “lia em armazéns, salas de
assembleia, livrarias, escritórios, salões, hotéis e balneários”.
De início numa mesa alta e, posteriormente, numa mais baixa, para
permitir que a plateia visse melhor seus gestos, ele pedia que
tentassem criar a impressão de um pequeno grupo de amigos reunidos
para ouvir alguém contar uma história. O público reagia como
Dickens queria. Um homem chorou abertamente e então “cobriu o
rosto com as mãos e curvou-se sobre o assento diante dele, e
realmente tremeu de emoção”. Outro, sempre que achava que
determinada personagem estava para reaparecer, “ria e esfregava os
olhos, e, quando ela chegou, deu uma espécie de grito, como se fosse
demais para ele”. Plínio teria aprovado.
O efeito era obtido à custa de muito
trabalho. Dickens passara pelo menos dois meses trabalhando a forma
de falar e os gestos, e escrevera suas reações. Nas margens de seus
“livros de leitura” – exemplares de sua obra que editara para
essas turnês – anotara lembretes sobre o tom a utilizar, tais como
“Alegre... Duro... Pathos... Mistério... Rápido”, bem como
gestos: “Aceno para baixo... Apontar... Estremecer... Olhar em
volta com terror...” Certos trechos eram revisados de acordo com o
efeito produzido na plateia. Mas, como observa um de seus biógrafos,
“ele não interpretava as cenas, mas sugeria-as, evocava-as,
intimava-as.” Em outras palavras, continuava sendo um leitor, não
um ator.
Nenhum maneirismo. Nenhum artifício.
Nenhuma afetação. De alguma forma, criava seus efeitos
surpreendentes com uma economia de meios que lhe era peculiar, como
se os romances realmente falassem através dele". Depois da
leitura, jamais admitia aplausos.
Inclinava-se em agradecimento, deixava
o palco e mudava de roupa – a que usara estava ensopada de suor.
Em parte, era para isso que a plateia
de Dickens comparecia, e é o que leva as plateias de hoje às
leituras públicas: ver o desempenho do autor, não como ator, mas
como escritor; ouvir a voz que o escritor tinha em mente quando criou
uma personagem; comparar a voz do escritor com a escrita. Alguns
leitores vão por superstição. Querem saber como é o escritor
porque acreditam que a escrita é um ato de magia; querem ver o rosto
de alguém que pode criar um poema ou um romance da mesma forma que
gostariam de ver a face de um pequeno deus, criador de um pequeno
universo. Caçam autógrafos enfiando livros sob o nariz do escritor,
na esperança de que sairão com a dedicatória abençoada:
“Para Polônio, com os melhores
votos do Autor”. O entusiasmo deles levou William Golding a dizer
(em 1989, no festival literário de Toronto) que “um dia alguém
descobrirá um romance não autografado de William Golding: valerá
uma fortuna”. Eles são levados pela mesma curiosidade que faz as
crianças olharem atrás de um teatro de fantoches ou desmontar um
relógio. Querem beijar a mão que escreveu Ulisses, ainda que
ela tenha feito, como observou Joyce, “uma porção de outras
coisas também”. O escritor espanhol Dámaso Alonso não se
impressionava. Considerava as leituras públicas “uma expressão da
hipocrisia esnobe e da superficialidade incurável de nossa época”.
Distinguindo entre a descoberta gradual de um livro lido em silêncio,
em solidão, e o conhecimento rápido de um autor num anfiteatro
lotado, descreveu este último como “o verdadeiro fruto da nossa
pressa inconsciente. Ou seja, da nossa barbárie. Porque a cultura é
lentidão”.
Nas leituras de autores, em festivais
de escritores em Toronto, Edimburgo, Melbourne ou Salamanca, os
leitores esperam tornar-se parte do processo artístico. O
inesperado, o não ensaiado, o evento que se revelará de alguma
forma inesquecível, poderá, esperam eles, acontecer diante de seus
olhos, tornando-os testemunhas de um momento de criação – uma
felicidade negada até a Adão – de tal forma que, quando alguém
lhes perguntar em sua velhice mexeriqueira, como Robert Browning
perguntou ironicamente certa vez – “E você viu Shelley ao
natural?” – a resposta será sim.
Em um ensaio sobre as agruras do
panda, o biólogo Stephen Jay Gould escreveu que “os zoológicos
estão mudando de instituições de captura e exibição para
santuários de preservação e propagação”. Nos melhores
festivais literários, nas leituras públicas mais bem-sucedidas, os
escritores são preservados e propagados. Preservados porque sentem
(como Plínio confessou) que têm uma plateia que dá importância à
sua obra; preservados, no sentido mais grosseiro, porque são pagos
(como Plínio não o era) por seu trabalho; e propagados porque
escritores geram leitores, que por sua vez geram escritores. Os
ouvintes que compram livros depois de uma leitura pública
multiplicam aquela leitura; o autor ou autora que percebe que pode
estar escrevendo numa página em branco, mas pelo menos não está
falando para as paredes, talvez se estimule com a experiência e
escreva mais.
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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