sexta-feira, 6 de março de 2026

Homem Gato



Esta resenha deveria ser sobre um gato, o gato mais atraente e mais ilustre da história da literatura. Bébert era um tigrado de Montparnasse, nascido provavelmente em 1935. Encontrou seu segundo dono no final de 1942, na Paris ocupada. “A própria magia, tato pelo comprimento de onda”, como disse seu dono, Bébert ia ficar para trás quando o dono e sua esposa Lucette escaparam para a Alemanha na terrível primavera de 1944. Bébert não aceitou a separação. Foi levado no saco de viagem. Passaram por imensas crateras abertas pelas bombas, por linhas de trem destroçadas e por cidades ardendo como tochas ensandecidas. Sob os bombardeios, quase morrendo de fome, Bébert se perdeu e depois reencontrou seu amo e a madame. O trio cruzou e recruzou o Reich desmoronando. Num último estirão desesperado, chegaram a Copenhague. Quando a polícia dinamarquesa veio prender os visitantes indesejados, Bébert escapou por um telhado. Apanhado, o lendário bichano ficou preso numa jaula de animais extraviados numa clínica veterinária. Quando o dono saiu da prisão e estava se recuperando, tiveram de operar Bébert por causa de um tumor cancerígeno. “Mas o bichano de Montmartre deu a volta por cima. Enfrentou o trauma e logo se recuperou, com a serenidade mais lenta e mais sábia dos gatos idosos, fiel, silencioso, enigmático.” Anistiado, o patron de Bébert se pôs de volta para casa no final de junho de 1951. Quatro gatos menores — Thomine, Poupine, Mouchette e Flûte — acompanharam a viagem. Parecendo uma esfinge pela idade, Bébert, o compartilhador de segredos, morreu num subúrbio de Paris no final de 1952. “Depois de muitas aventuras, prisões, acampamentos, cinzas, por toda a Europa […] ele morreu ágil e gracioso, impecavelmente; naquela mesma manhã tinha pulado pela janela. […] Nós, que nascemos velhos, parecemos ridículos em comparação!” Assim escreveu seu dono entristecido, Louis-Ferdinand Destouches, médico, defensor da higiene social entre os despossuídos, andarilho pela África e pelos eua, um excêntrico maluco.
É sobre Bébert que quero escrever — Bébert, o supremo sobrevivente e a encarnação da astúcia francesa. Mas o que tenho diante de mim é uma alentada biografia de seu dono desditoso — aquele médico louco que, usando o sobrenome Céline (de sua avó), escreveu algumas das maiores peças de literatura e romances verídicos não só do século xx, mas de toda a história da literatura ocidental. Falar de Bébert seria uma alegria. De Céline, não.
Céline: A Biography, de Frédéric Vitoux, numa tradução canhestra de Jesse Browner (Paragon, 1992), discorre detalhadamente sobre a história da família Destouches e a misère dos pais de Louis-Ferdinand, que moraram em vários bairros insalubres de Paris antes da Primeira Guerra Mundial. Narra a pletora atordoante dos imbróglios sexuais, dos casos amorosos, dos casamentos e das deprimentes peregrinações de Louis-Ferdinand pelos bordéis de Paris, de Londres e da África colonial. (Dr. Destouches parece ter sido um voyeur compulsivo, fascinado mais pelas experiências sexuais de suas amantes com outros do que por suas próprias.) Vitoux é incansável nas informações sobre as brigas constantes de seu herói com os editores, com outros escritores e com a vida mundana de Paris. Embora se baseie maciçamente em crônicas anteriores, Vitoux apresenta um apanhado penetrante dos anos da ocupação alemã e das reações sardônicas e friamente histéricas de Céline. Igualmente penetrantes são as descrições do fugitivo perseguido, da luta contra a extradição da Dinamarca, do retorno fantasmagórico ao país natal. O biógrafo explora a aura de santidade que cerca os feitos do “médico dos cortiços”, do patologista lutando contra a sujeira, a injustiça social e a ignorância dos despossuídos, e em certa medida essa aura é justificada. Frédéric Vitoux defende seu argumento com simpatia e serenidade.
Mas os enigmas principais continuam sem solução. (Sombras do esquivo Bébert!) O estilo alucinatório com que Céline literalmente irrompeu na linguagem e na literatura, quando lançou Viagem ao fim da noite em outubro de 1932, junto com seu ódio aos judeus proclamado pela primeira vez em 1937, tem sido sempre atribuído a um ferimento que sofreu em 27 de outubro de 1914, quando estava numa heroica missão de cavalaria em Flandres. O próprio Céline e seus defensores apontam essa lesão como causa das enxaquecas, dos ciclos maníaco-depressivos e das fúrias descontroladas que, mais tarde, vieram a marcar a peregrinação pública e privada do dr. Destouches, bem como a voz e a ideologia de seus escritos. O belo couraceiro, sabre ao vento, tinha sofrido um ferimento quase fatal e assim perdeu o juízo, tornando-se maldoso e genial. Mas mesmo o cuidadoso inventário de Vitoux não elucida os fatos. Sim, o sargento Destouches foi atingido no braço e no ombro, mas seu capitão escreveu ao pai de Louis: “O ferimento não parece sério”. Por outro lado, a citação que acompanhou a Médaille Militaire que lhe foi concedida dizia que fora “gravemente ferido”, e Céline não retornou ao campo de batalha. Terá batido a cabeça quando caiu da sela? Terá sofrido algum choque psíquico que o empurrou para um abismo de horror sem volta? Durante a convalescença atrás das linhas e durante os dias que se seguiram em Londres e Camarões, o veterano condecorado falou que sofria de insônia, ressoavam nos ouvidos barulhos medonhos, “assobios… tambores… descargas de vapor”, que enlouqueciam sua consciência. Nascia a estratégia da dor apocalíptica, do sofrimento e do furor paranoicos. A fonte fatual continua no escuro “fim da noite”.
E tampouco, apesar de seus elaborados diagnósticos, o livro de Vitoux consegue lançar uma luz decisiva sobre a origem e o crescimento do antissemitismo mortífero do dr. Destouches. A aversão aos judeus grassava na França entre as classes médias e médias baixas do final do século XIX e começo do século XX. O caso Dreyfus trouxe à tona ódios latentes. Em seus anos de obscuridade, sobretudo na clínica de Clichy, Céline tinha comentado com rancor o aparente sucesso profissional e social do que considerava ser uma maçonaria de médicos e literatos judeus. Seu pacifismo anárquico — a convicção de que a França não sobreviveria a outra onda de massacres — o levou a crer que o judaísmo europeu era a principal ameaça: o judaísmo, com seu internacionalismo e a oposição a Hitler, seria capaz por si só de mergulhar o continente europeu num segundo Armagedão. “A guerra, para nós tal como somos, significa o fim do espetáculo, a guinada final para o ossuário judeu.” Como muitos outros de sua geração, o epidemiologista da saúde pública Destouches havia absorvido várias teorias correntes sobre a contaminação racial e a eugenia. O judeu era notoriamente o bacilo que, com sua ubiquidade e resistência, infectava pela miscigenação o sangue de linhagens mais nobres debilitadas pela guerra. E o que dizer do evidente papel dos judeus no nascimento e propagação do bolchevismo, o espectro vermelho no Leste?
No entanto, mesmo misturando esse caldo de potente fermentação, muitas coisas continuam enigmáticas na convocatória ao massacre que ressoa por Bagatelles pour un Massacre [Trivialidades para um massacre] e L’École des Cadavres [Escola de cadáveres]. Conclamando a civilização ocidental a eliminar todos os judeus — homens, mulheres e crianças — e erradicar até a sombra deles da humanidade, Louis-Ferdinand Céline exibia nesses grossos tratados um virtuosismo do ódio, da instigação, que felizmente encontra poucos similares na literatura e na retórica política. É quase impossível, física e mentalmente, ler todas aquelas centenas de páginas. Apesar de tudo, quando nos obrigamos a folhear aqui e ali, lendo uma ou outra passagem, as centelhas de gênio estilístico, de incandescência verbal nos atingem como um brusco frêmito de luz cruzando o fulgor de uma cloaca. (Coleridge notou o esplendor fugidio da luz das estrelas em seu urinol cheio até a borda.) Esses escritos não são uma aberração passageira de um insano com lesões físicas e cerebrais, castigado por enxaquecas torturantes e zumbidos nos ouvidos. A força doentia e nauseante dos textos é a mesma — pelo menos momentaneamente — de Viagem ao fim da noite e das obras-primas que ainda viriam.
Talvez valha a pena levantar duas hipóteses. Como em Jonathan Swift, o nascedouro da imaginação, da eloquência desenfreada em Céline é o ódio. Normalmente, e em relação à forma estética, o ódio é de fôlego curto; não preenche grandes espaços. Mas em alguns mestres — Juvenal, Swift, Céline — uma misantropia encarniçada, uma náusea diante do mundo gera quadros completos, em plena escala. A repugnância monocórdia se torna sinfônica. Como observou Sartre, atento estudioso de Céline, há no judeu urbano algo que concentra num diapasão único toda a humanidade enfermiça do homem. O judeu não só é humano, mas é um pouco mais humano do que a maioria. A essa luz turva, o ódio aos judeus é a destilação natural de um desprezo generalizado pela espécie humana. Procurando um alvo visível para seu ódio à fealdade, à corrupção, à ganância, à vaidade, à miopia dos homens, Destouches se voltou contra o judeu. Ponha-se l’homme nas frases dementes que se referem a le youpin (pejorativo para judeu), e teremos passagens de grandiosidade bíblica — éditos decretando a condenação da Sodoma e da Gomorra em que transformamos nosso mundo.
A segunda hipótese é um pouco mais difícil de pôr em foco. A maneira pessoal e a obra literária de Céline estão mergulhadas numa negra gargalhada de proporções rabelaisianas. Há nessa hilaridade ciclópica a notória alegria que sente o estudante de medicina diante de seu primeiro cadáver. Existe um precedente na montagem enigmática, quase histérica, dos enredos trágicos (que o público acaba de vivenciar) nas peças satíricas gregas. Dante solta alguns gracejos mordazes no Inferno. Franz Kafka, depois de ler Metamorfose para um grupo de amigos íntimos, que ficaram mudos e estarrecidos, se dobrava de rir incontrolavelmente. Em algum nível bizarro, é possível compreender as efusões antissemitas de Céline como paródias, como uma espécie de piada ensandecida. Uma palhaçada surrealista, um carnaval mexicano com caveiras não estão muito longe disso. Guignol’s Band é um título típico de Céline; “massacre” combina com “bagatelle” (palavra que Céline usou originalmente no sentido das tropelias de um bufão ou um charlatão). Como convidado numa resplandecente reunião de senhores e colaboradores nazistas, o desgrenhado Céline fez uma imitação de Hitler; no clímax, um Führer bombástico garantia aos judeus que os estava reunindo em campos só para facilitar o acordo secreto que queria fazer com eles, para partilharem a hegemonia mundial. Em suma, talvez mais perto do cerne furioso da dança da morte de Céline esteja uma pantomima desvairada, a travessura endemoninhada de um pequeno vândalo. Não é uma justificativa. Na verdade, pode piorar as coisas.
A fuga e o exílio de Céline geraram outros dois clássicos. De castelo em castelo narra o ocaso grotesco do regime de Vichy em Sigmaringen, uma cidade de opereta reservada pelos alemães em retirada para seus hóspedes indesejados. As famosas técnicas telegráficas e cinematográficas que fizeram da Viagem um eixo da ficção e da prosa moderna estão aqui vigorosamente condensadas. Como apenas as grandes obras de arte são capazes de fazer, De castelo em castelo alcança uma suprema concisão dentro de uma construção ampla e de final em aberto. (Observem-se a economia, a elisão e a amplitude do título em francês, ferindo a gramática, D’un Château l’autre.) A descrição da corte em miniatura de Pétain no castelo de Sigmaringen, entre novembro de 1944 e março de 1945, é incomparável em sua gargalhada vazia. Ao acompanharmos a cena em que um combatente solitário da RAF, zanzando por um terreno mais elevado, ameaça dispersar o trêmulo séquito do marechal durante uma cerimoniosa caminhada matinal — o próprio Pétain, claro, manteve o passo, muito empertigado, inabalável, com uma majestosidade simplesmente idiota —, temos a impressão persistente de um registro shakespeariano em Céline.
Aqui, como nas peças históricas de Shakespeare, a pompa e o excremento ao lado, a magnificência das atitudes soberanas e as necessidades do baixo ventre, o monumental e o íntimo interagem em contraponto. Aqui também, tal como nos mestres quinhentistas (Montaigne, Rabelais, Shakespeare), opera uma peculiar sensualidade do pensamento: Céline modula a dinâmica complexa da ruína política e social em cheiros, sons, toques da pele e do tecido. O desespero dos valentões condenados, as compulsões eróticas exacerbadas dos fugitivos à beira do abismo literalmente deixam um gosto na boca de Céline — e do leitor. E, muito mais do que Shakespeare, Céline utiliza a extrema sensibilidade dos animais, de Bébert principalmente, para enriquecer o alcance das percepções. (Daí o maravilhoso encontro entre o marechal de campo Von Rundstedt e o gato Von Bébert em Rigodon, a mais fraca das três memórias do exílio.) O romance Norte dá prosseguimento à narrativa frenética da fuga, dos esconderijos e do encarceramento na Dinamarca. Denuncia o julgamento a que Céline foi submetido in absentia, que o relegou oficialmente ao papel de desgraça nacional: “Ministros, sátrapas, Diên Biên Phu por toda parte! Fujões e maricas!”. Vitoux acredita que Norte é talvez a maior obra de Céline. Sem dúvida contém visões do Inferno — de decomposição humana nas baixadas espectrais de Brandenburgo, em Berlim em chamas, na fronteira dinamarquesa e na falsa aura de Elsinore — que se aproximam de Dante. Os panoramas do apocalíptico em Günter Grass, em William Burroughs, em Norman Mailer, e também nos filmes mais convincentes sobre a Guerra do Vietnã e nas vinhetas jornalísticas dos céus negros sobre o Kuwait, todos são posteriores a Céline.
Os prelúdios à sua arte são menos evidentes. Rabelais está sempre presente. Rei Lear e Timão de Atenas podem ter exercido alguma influência, junto com a percepção de que existem afinidades eletivas entre os palhaços e os sádicos de Shakespeare, entre Falstaff e Iago, entre Malvólio e seus alegres torturadores. Dostoiévski é uma possibilidade. Foi muito lido, encenado e imitado em Paris nos anos 1920 e 1930. Alguns elementos da amplitude oracular dos caudalosos romances e poemas épicos histórico-filosóficos de Victor Hugo parecem encontrar ressonância na Viagem. Ao fundo ouve-se o som fugaz das execrações líricas de Rimbaud. No todo, porém, a busca doutoral dos precedentes não passa de um exercício de futilidade. Viagem ao fim da noite transborda como lava das profundezas, rompendo a crosta da linguagem, depois de tectonicamente deslocada pela guerra mundial. Numa Europa onde mais de 20 mil homens foram esmagados e viraram lama num único dia de batalha, onde 300 mil cadáveres ficaram insepultos entre as linhas em Verdun, o discurso tradicional, os símiles da razão, as estabilidades da imaginação literária se transformam em zombaria. De certa maneira, o zumbido nos ouvidos de Céline trazia consigo as novas gramáticas da histeria, da propaganda de massas, do autoensurdecimento. A primeira vez que a batida do rock e o martelar do heavy metal, do som como droga, explodiram na linguagem foi na Viagem. Seus ecos ensurdecedores não cessaram.
Mas a pergunta maior continua a importunar. A criatividade estética, mesmo de primeira grandeza, pode justificar de alguma maneira a apresentação favorável da desumanidade, para nem mencionar a instigação sistemática à desumanidade? Pode uma literatura que sugere racismo, que apregoa ou faz atraente a exploração sexual infantil, merecer publicação, estudo e apreço crítico? (Dostoiévski se detém no limiar dessa mesma zona de sombra.) O argumento liberal contra toda e qualquer censura é muitas vezes hipócrita. Se a literatura séria e as artes podem educar a sensibilidade, elevar nossas percepções, refinar nosso discernimento moral, ao mesmo tempo e pelas mesmas razões podem depravar, embrutecer, bestializar nossa imaginação e nossos impulsos de mimetização. Tenho me debatido com esse problema faz cerca de quarenta anos, lendo, escrevendo e dando aulas. O “caso” Céline (como teria dito Henry James, num misto de fascínio e perturbação) é exemplar nas duas direções. Em comparação, o fascismo virulento de Ezra Pound, o antissemitismo profundamente entranhado de T. S. Eliot e a conclamação de W. H. Auden ao “assassinato necessário” (desta vez a serviço da esquerda) são pouca coisa. É o puro peso das vituperações racistas de Céline, a convocatória efetiva ao massacre, a ausência de qualquer pesar que não seja dúbio ou sardônico, entretecidos com um talento estrutural para a revelação psicológica e a narrativa dramática, que impõem a questão. Gostaria que Vitoux tivesse enfrentado esses problemas.
Por sorte, as selvagerias brutais vêm depois da Viagem e não desfiguram, a não ser de maneira quase farsesca, talvez deliberadamente ensandecida, o melhor de De castelo em castelo e Norte. São essas criações que asseguraram a inclusão de direito de Céline na edição da Pléiade, ápice do Parnaso francês, na época em que ele morreu. Mesmo assim, não há como fugir ao lixo descomunal dos anos intermediários ou ao uníssono do ódio, do desprezo pelas mulheres e pelos judeus, que constitui a espinha dorsal da obra de Céline. Em seu caso, pelo menos, entendemos as relações causais, muito diretas, entre o homem e suas realizações. O dilema posto por seu admirador, contemporâneo e colega colaboracionista Lucien Rebatet é ainda mais espinhoso. Tanto Vichy quanto os alemães consideravam Céline um estorvo — não tinham o que fazer com suas pilhérias dilacerantes. Rebatet era um verdadeiro assassino, um caçador de judeus, de gaullistas e de combatentes da Resistência. Enquanto aguardava a execução (depois foi anistiado), Rebatet concluiu Les Deux Étendards [Os dois padrões] (ainda inédito em inglês [e em português]). Esse extenso romance é uma das obras-primas esquecidas de nossa época. Além disso, é um livro de profunda humanidade, transbordante de música (Rebatet, por algum tempo, foi o principal crítico musical da França), de amor, de percepção do sofrimento. A moça que dá o eixo da narrativa é moldada pelas pressões do amadurecimento irradiando em várias direções, tal como Natasha de Guerra e paz. O que pode nos dar alguma noção inteligível das ligações rompendo a crosta da linguagem, depois de tectonicamente deslocada pela guerra mundial. Numa Europa onde mais de 20 mil homens foram esmagados e viraram lama num único dia de batalha, onde 300 mil cadáveres ficaram insepultos entre as linhas em Verdun, o discurso tradicional, os símiles da razão, as estabilidades da imaginação literária se transformam em zombaria. De certa maneira, o zumbido nos ouvidos de Céline trazia consigo as novas gramáticas da histeria, da propaganda de massas, do autoensurdecimento. A primeira vez que a batida do rock e o martelar do heavy metal, do som como droga, explodiram na linguagem foi na Viagem. Seus ecos ensurdecedores não cessaram.
Mas a pergunta maior continua a importunar. A criatividade estética, mesmo de primeira grandeza, pode justificar de alguma maneira a apresentação favorável da desumanidade, para nem mencionar a instigação sistemática à desumanidade? Pode uma literatura que sugere racismo, que apregoa ou faz atraente a exploração sexual infantil, merecer publicação, estudo e apreço crítico? (Dostoiévski se detém no limiar dessa mesma zona de sombra.) O argumento liberal contra toda e qualquer censura é muitas vezes hipócrita. Se a literatura séria e as artes podem educar a sensibilidade, elevar nossas percepções, refinar nosso discernimento moral, ao mesmo tempo e pelas mesmas razões podem depravar, embrutecer, bestializar nossa imaginação e nossos impulsos de mimetização. Tenho me debatido com esse problema faz cerca de quarenta anos, lendo, escrevendo e dando aulas. O “caso” Céline (como teria dito Henry James, num misto de fascínio e perturbação) é exemplar nas duas direções. Em comparação, o fascismo virulento de Ezra Pound, o antissemitismo profundamente entranhado de T. S. Eliot e a conclamação de W. H. Auden ao “assassinato necessário” (desta vez a serviço da esquerda) são pouca coisa. É o puro peso das vituperações racistas de Céline, a convocatória efetiva ao massacre, a ausência de qualquer pesar que não seja dúbio ou sardônico, entretecidos com um talento estrutural para a revelação psicológica e a narrativa dramática, que impõem a questão. Gostaria que Vitoux tivesse enfrentado esses problemas.
Por sorte, as selvagerias brutais vêm depois da Viagem e não desfiguram, a não ser de maneira quase farsesca, talvez deliberadamente ensandecida, o melhor de De castelo em castelo e Norte. São essas criações que asseguraram a inclusão de direito de Céline na edição da Pléiade, ápice do Parnaso francês, na época em que ele morreu. Mesmo assim, não há como fugir ao lixo descomunal dos anos intermediários ou ao uníssono do ódio, do desprezo pelas mulheres e pelos judeus, que constitui a espinha dorsal da obra de Céline. Em seu caso, pelo menos, entendemos as relações causais, muito diretas, entre o homem e suas realizações. O dilema posto por seu admirador, contemporâneo e colega colaboracionista Lucien Rebatet é ainda mais espinhoso. Tanto Vichy quanto os alemães consideravam Céline um estorvo — não tinham o que fazer com suas pilhérias dilacerantes. Rebatet era um verdadeiro assassino, um caçador de judeus, de gaullistas e de combatentes da Resistência. Enquanto aguardava a execução (depois foi anistiado), Rebatet concluiu Les Deux Étendards [Os dois padrões] (ainda inédito em inglês [e em português]). Esse extenso romance é uma das obras-primas esquecidas de nossa época. Além disso, é um livro de profunda humanidade, transbordante de música (Rebatet, por algum tempo, foi o principal crítico musical da França), de amor, de percepção do sofrimento. A moça que dá o eixo da narrativa é moldada pelas pressões do amadurecimento irradiando em várias direções, tal como Natasha de Guerra e paz. O que pode nos dar alguma noção inteligível das ligações entre Rebatet como ser humano abjeto e distorcido e as maravilhas de sua literatura? Onde ficam as pontes nos meandros daquela alma?
Não tenho resposta. Meu instinto me diz que Morte a crédito e Bagatelles deveriam embolorar nas prateleiras. As reedições recentes me parecem uma exploração imperdoável por razões comerciais ou políticas. Os grandes “romances verídicos” permanecem. Sua canção desenfreada dá vida e traz renovação à linguagem. O indivíduo Destouches continua indesculpável. Mas mesmo neste ponto Bébert talvez pedisse licença para discordar.
24 de agosto de 1992

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

Nenhum comentário:

Postar um comentário