Retratos de uma procissão
Morro mágico de Potosí: nestes altos
páramos inimigos, que só ofereciam solidão e frio, fez brotar a
cidade mais povoada do mundo.
Altas cruzes de prata encabeçam a
procissão, que avança entre duas fileiras de estandartes e de
espadas. Sobre as ruas de prata, ferraduras de prata; soam os cavalos
luxuosos de veludo e bridões cobertos de pérolas. Para confirmação
dos que mandam e consolo dos que servem, a prata desfila, fulgurante,
pisa forte, sabedora de que não há espaço da terra ou do céu que
não possa comprar.
Vestiu-se de festa a cidade; os
balcões brilham de brasões e flâmulas; de um mar de farfalhantes
sedas, espumas de bordados e cataratas de pérolas, as senhoras
admiram a cavalgada que avança com estrépito de trombetas, pífaros
e atabaques. Uns quantos cavaleiros levam vendas negras em um dos
olhos e protuberâncias e chagas na testa, que não são marcas da
guerra e sim da sífilis; mas voando vão e vêm, dos balcões à
rua, da rua aos balcões, os beijos e os gracejos.
Abrem caminho, mascarados, o Interesse
e a Cobiça Canta a Cobiça, máscara de cobras, enquanto o cavalo
faz cabriolas:
Dizem que sou dos males a raiz
mas meu troféu é
a ninguém deixar feliz.
E responde o Interesse, calças
negras, gibão negro bordado de ouro, máscara negra sob o negro
chapéu cheio de plumas:
Se eu venci o amor
e o amor vence a morte
sou de todos o mais forte.
Encabeça o bispo um lento e longo
exército de padres e encapuçados nazarenos armados de altos círios
e candelabros de prata, até que o ruído da trombeta dos heraldos se
impõe sobre o repicar dos sininhos anunciando a Virgem de Guadalupe,
Luz dos que esperam Espelho de justiça, Refúgio de pecadores,
Consolo dos aflitos, Palma verde, Vara florescida, Pedra refulgente.
Ela chega em ondas de ouro e madrepérola, nos braços de cinquenta
índios; afogada por muitas joias, assiste com olhos de assombro o
bulício dos querubins de asas de prata e o espetacular movimento de
seus adoradores. No branco corcel irrompe o Cavaleiro da Ardente
Espada, seguido por um batalhão de pajens e lacaios de librés
brancas. O Cavaleiro atira longe o seu chapéu e canta à Virgem:
Em minha dama, embora morena
tal formosura se encerra
que suspende céu e terra.
Lacaios e pajens de libré roxa correm
atrás do Cavaleiro do Amor Divino, que vem trotando, ginete romano,
ao vento das longas casacas de seda arroxeada: frente à Virgem cai
de joelhos e humilha a testa coroada de louro, mas quando incha o
peito para cantar as rimas, explode uma fuzilaria de fumaça de
enxofre. Invadiu a rua o carro dos Demônios, e ninguém presta a
menor atenção ao Cavaleiro do Amor Divino.
O príncipe Tartáreo, adorador de
Maomé, abre suas asas de morcego, e a princesa Proserpina, cabeleira
e cauda de serpentes, lança do alto blasfêmias e gargalhadas que a
corte dos diabos celebra. Em alguma parte soa de repente o nome de
Jesus Cristo e o carro do Inferno arrebenta-se em uma explosão
descomunal. O príncipe Tartáreo e a princesa Proserpina atravessam
de um salto a fumaça e as chamas e rodam, prisioneiros, aos pés da
Mãe de Deus.
Cobre-se a rua de anjinhos, auréolas
e asas de prata cintilante, e alegram o ar o som de violões e
guitarras, cítaras e flautins. Os músicos, vestidos de donzelas,
festejam a chegada da Misericórdia, da Justiça, da Paz e da
Verdade, quatro airosas filhas de Potosí erguidas sobre poltronas de
prata e veludo. Têm cabeça e peito de índio os cavalos que puxam a
carruagem.
E chega então, atropelando, a
Serpente. Sobre mil pernas de índios se desliza o imenso réptil,
aberta a boca flamejante, metendo medo e fogo na romaria, e aos pés
da Virgem desafia e combate. Quando os soldados cortam-lhe a cabeça
a golpes de machado e espada, das entranhas da Serpente emerge, com
seu orgulho feito pedaços, o Inca. Arrastando suas assombrosas
vestes, o filho do Sol cai de joelhos frente à Divina Luz. Exibe a
Virgem manto de ouro, rubis e pérolas grandes como grãos-de-bico, e
mais que nunca brilha, acima de seus olhos atônitos, a cruz de ouro
da coroa imperial.
Depois, a multidão. Artesãos de
todos os ofícios e malandros e mendigos capazes de arrancar lágrimas
de um olho de vidro: os mestiços, filhos da violência, nem servos
nem senhores, caminham a pé. Proíbe a lei que tenham cavalos ou
armas, como proíbe aos mulatos o uso do guarda-sol, para que ninguém
dissimule o estigma que mancha o sangue até a sexta geração. Com
os mestiços e os mulatos vêm os quarterões e os cafusos e todos os
misturados, as mil cores dos filhos do caçador e sua presa.
Atrás, fecha a procissão uma
multidão de índios carregados de frutas e flores e travessas de
comida fumegante. Frente à Virgem imploram os índios perdão e
consolo.
Mais longe, alguns negros varrem o
lixo deixado por todos os outros.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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