quinta-feira, 12 de março de 2026

1616 – Potosí



Retratos de uma procissão

Morro mágico de Potosí: nestes altos páramos inimigos, que só ofereciam solidão e frio, fez brotar a cidade mais povoada do mundo.
Altas cruzes de prata encabeçam a procissão, que avança entre duas fileiras de estandartes e de espadas. Sobre as ruas de prata, ferraduras de prata; soam os cavalos luxuosos de veludo e bridões cobertos de pérolas. Para confirmação dos que mandam e consolo dos que servem, a prata desfila, fulgurante, pisa forte, sabedora de que não há espaço da terra ou do céu que não possa comprar.
Vestiu-se de festa a cidade; os balcões brilham de brasões e flâmulas; de um mar de farfalhantes sedas, espumas de bordados e cataratas de pérolas, as senhoras admiram a cavalgada que avança com estrépito de trombetas, pífaros e atabaques. Uns quantos cavaleiros levam vendas negras em um dos olhos e protuberâncias e chagas na testa, que não são marcas da guerra e sim da sífilis; mas voando vão e vêm, dos balcões à rua, da rua aos balcões, os beijos e os gracejos.
Abrem caminho, mascarados, o Interesse e a Cobiça Canta a Cobiça, máscara de cobras, enquanto o cavalo faz cabriolas:

Dizem que sou dos males a raiz
mas meu troféu é
a ninguém deixar feliz.

E responde o Interesse, calças negras, gibão negro bordado de ouro, máscara negra sob o negro chapéu cheio de plumas:

Se eu venci o amor
e o amor vence a morte
sou de todos o mais forte.

Encabeça o bispo um lento e longo exército de padres e encapuçados nazarenos armados de altos círios e candelabros de prata, até que o ruído da trombeta dos heraldos se impõe sobre o repicar dos sininhos anunciando a Virgem de Guadalupe, Luz dos que esperam Espelho de justiça, Refúgio de pecadores, Consolo dos aflitos, Palma verde, Vara florescida, Pedra refulgente. Ela chega em ondas de ouro e madrepérola, nos braços de cinquenta índios; afogada por muitas joias, assiste com olhos de assombro o bulício dos querubins de asas de prata e o espetacular movimento de seus adoradores. No branco corcel irrompe o Cavaleiro da Ardente Espada, seguido por um batalhão de pajens e lacaios de librés brancas. O Cavaleiro atira longe o seu chapéu e canta à Virgem:

Em minha dama, embora morena
tal formosura se encerra
que suspende céu e terra.

Lacaios e pajens de libré roxa correm atrás do Cavaleiro do Amor Divino, que vem trotando, ginete romano, ao vento das longas casacas de seda arroxeada: frente à Virgem cai de joelhos e humilha a testa coroada de louro, mas quando incha o peito para cantar as rimas, explode uma fuzilaria de fumaça de enxofre. Invadiu a rua o carro dos Demônios, e ninguém presta a menor atenção ao Cavaleiro do Amor Divino.
O príncipe Tartáreo, adorador de Maomé, abre suas asas de morcego, e a princesa Proserpina, cabeleira e cauda de serpentes, lança do alto blasfêmias e gargalhadas que a corte dos diabos celebra. Em alguma parte soa de repente o nome de Jesus Cristo e o carro do Inferno arrebenta-se em uma explosão descomunal. O príncipe Tartáreo e a princesa Proserpina atravessam de um salto a fumaça e as chamas e rodam, prisioneiros, aos pés da Mãe de Deus.
Cobre-se a rua de anjinhos, auréolas e asas de prata cintilante, e alegram o ar o som de violões e guitarras, cítaras e flautins. Os músicos, vestidos de donzelas, festejam a chegada da Misericórdia, da Justiça, da Paz e da Verdade, quatro airosas filhas de Potosí erguidas sobre poltronas de prata e veludo. Têm cabeça e peito de índio os cavalos que puxam a carruagem.
E chega então, atropelando, a Serpente. Sobre mil pernas de índios se desliza o imenso réptil, aberta a boca flamejante, metendo medo e fogo na romaria, e aos pés da Virgem desafia e combate. Quando os soldados cortam-lhe a cabeça a golpes de machado e espada, das entranhas da Serpente emerge, com seu orgulho feito pedaços, o Inca. Arrastando suas assombrosas vestes, o filho do Sol cai de joelhos frente à Divina Luz. Exibe a Virgem manto de ouro, rubis e pérolas grandes como grãos-de-bico, e mais que nunca brilha, acima de seus olhos atônitos, a cruz de ouro da coroa imperial.
Depois, a multidão. Artesãos de todos os ofícios e malandros e mendigos capazes de arrancar lágrimas de um olho de vidro: os mestiços, filhos da violência, nem servos nem senhores, caminham a pé. Proíbe a lei que tenham cavalos ou armas, como proíbe aos mulatos o uso do guarda-sol, para que ninguém dissimule o estigma que mancha o sangue até a sexta geração. Com os mestiços e os mulatos vêm os quarterões e os cafusos e todos os misturados, as mil cores dos filhos do caçador e sua presa.
Atrás, fecha a procissão uma multidão de índios carregados de frutas e flores e travessas de comida fumegante. Frente à Virgem imploram os índios perdão e consolo.
Mais longe, alguns negros varrem o lixo deixado por todos os outros.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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