Honra lhe seja, ao poeta
Vinicius. Coube-lhe, por volta de 1945, a iniciativa de lançar o
grito meio esportivo meio libertário:
Meninas, soltai as alças,
bicicletai, seios nus!
As meninas acataram-lhe imediatamente
a recomendação, na primeira parte; quanto à segunda, estão (suas
filhas) ensaiando ainda. Tanto tempo assim para cumprir a ordem do
poeta? Ocorreram fatores vários que justificam a demora. Em 1945,
positivamente não dava pé; nos anos seguintes, e nos seguintes aos
seguintes, também não. Ultimamente, as coisas vêm mudando, umas em
ritmo de tartaruga, outras em ritmo de cápsula espacial. A bicicleta
voltou. Este verão é bicicleta pura. Alças, não foi preciso
soltá-las; desapareceram. Apareceu o bustier, e o próprio busto
oferece fatias laterais generosas, prenúncio da auroral exposição
plena. Executado, afinal, o mandamento viniciano? Uma coisa é certa:
o verbo bicicletar foi lançado por ele, e hoje, quando as garotas
bicicleteiam em bloco, ou a uma, é o verso de Moraes que circula por
aí.
O poeta não previu o umbigo em expô,
mas que poeta pode prever tudo? Digamos que seu poema de 45 pode ser
lido de várias maneiras, e uma delas seria:
Meninas, livrai o umbigo,
bicicletai, seios nus!
Com ou sem bicicleta, o umbigo
feminino, particularmente o juvenil, é hoje uma festa da cidade. Os
olhos pousam nele antes de tudo; não mais no rosto, ou nas pernas, e
isso está certo e conforme às leis do ser humano, pois no umbigo se
localiza o centro, o ponto fundamental da figura, na estética da
natureza. Dele se irradiam as outras partes do corpo, os outros
elementos da “paisagem viva”: “No cânon ideal, a altura do
umbigo divide exatamente a altura total, segundo o corte de ouro”
(Constable, The Curves of Life).
E não se veja malícia no olhar que
vai direto a esse acidente anatômico, pois é o umbigo que o chama,
o intima, o imantiza. Ele quer ser visto e considerado em suas
variantes de flor, que não se encontram duas iguais. Uns são
recolhidos em si mesmos, por assim dizer secretos à luz do sol,
misteriosos, exigindo código. Outros, ofertantes, radiosos,
públicos, democráticos, comunicantes. Há os retorcidos como certos
vegetais que nasceram para lutar contra o vento e renunciam à
postura comum. Quem ousa dizer que o umbigo é cicatriz, memória da
gestação uterina? Estrela, sim, de ocultos raios, a iluminar a
abóbada corporal; botão de flor ou de secreta campainha, que domina
com seu timbre a orquestra dos membros; microlaguna onde boia, não
um barquinho, mas o princípio de toda vida… Tudo isso e mais o que
o obstetra, esse escultor, fez dele, ou a imaginação lhe acrescenta
escolhendo entre as infinitas virtualidades da forma.
Umbigos andam por aí, desafiando tua
capacidade de curtir o novo dentro do eterno. Se na praia eles nem
são percebidos, porque se inserem no quadro global, na rua, no
coletivo, na loja, no escritório, são uma presença nova, uma graça
diferente acrescentada ao espetáculo feminino, um dom sem
destinatário certo, que é a bonificação de um ano em que tantos
perderam na Bolsa mas acabam lucrando na vista.
O umbigo deixa-se conversar, responde
naturalmente. Há um diálogo novo entre ele e o transeunte. Certos
umbigos parecem rir da piada que anda no ar, outros sorriem com
discrição, e há os que se mostram sérios mas urbanos. De poucos
sei que podem ser chamados de antipáticos, e esses, seria melhor que
continuassem guardados. Receio que os mais pretensiosos acabem se
ostentando em moldura barroca, cercados por um cordão de ouro ou
pintura a óleo, quem sabe se com um diamante na cavidade? Nada de
artifícios. O umbigo em si, casto e cantante, esse é que merece
todo o poder e glória neste morrer de ano de 1972, em que precisamos
ansiosamente contemplar alguma coisa pura, repousante: um umbigo que
seja.
Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica
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