Tem, por exemplo, o Victor, que não
perde oportunidade de ostentar sua cultura, para divertimento e, às
vezes, irritação da turma. Como na vez em que houve um silêncio na
mesa do bar em que eles se reuniam e o Victor disse:
— Eu conheço este silêncio de um
filme do Bergman.
O Marcão não aguentou.
— Como, de um filme do Bergman? Como
um silêncio pode ser igual a outro silêncio, que não tem nada a
ver?
O Victor apenas sorriu. Não poderia
esperar que o Marcão, logo o Marcão, entendesse. O que mais
irritava o Marcão era aquele sorriso do Victor.
Mas a melhor do Victor quem contou foi
o Mendonça, médico, que também frequentava a turma. O Victor
andava tossindo muito, e expectorando, e procurara o Mendonça no seu
consultório.
— Acho que peguei a gripe.
— Você tem muito catarro? —
perguntara o médico.
— Tenho.
— De que cor é o catarro?
E então o Victor pensara um pouco e
respondera:
— Sabe o verde daquele afresco do
Tiepolo no Palazzo Clerici, em Milão?
O Victor estava presente na mesa
quando o dr. Mendonça contou o fato e apenas sorriu diante da
gargalhada geral da turma. Depois deu de ombros e disse:
— O que eu vou fazer se vocês não
viajam?
O Marcão ficou pra morrer.
E tem o Pinheiro, também chamado
Pinho, cujo sono é lendário. Contam que o Pinho não pode ir ao
cinema porque dorme no começo do filme, sempre. Filme de caubói,
filme de guerra, inclusive intergalática... Não via nem os créditos
completos.
— Você chegou a ver o nome do
diretor, Pinho?
— Não, fui só até o produtor.
Mas não deve ser verdade o que contam
sobre a separação do Pinho.
Contam que o casamento do Pinho e da
Eneida não estava dando certo — em grande parte porque o Pinho
invariavelmente dormia quando a Eneida começava a lhe dizer alguma
coisa, às vezes no meio de uma frase. E que um dia a Eneida
levantara da cama do casal, saíra à rua, contratara uma empresa de
mudança e voltara com três carregadores, que passaram a tirar tudo
de dentro do apartamento. Tudo. Geladeira, fogão, móveis da sala,
televisão, mesa de jantar...
— Este armário também vai, dona?
— Tudo.
Deixaram o quarto de dormir, onde o
Pinho ainda roncava em cima da cama, para o fim. E o quarto também
foi esvaziado.
— E a cama, dona?
Eneida hesitou. Levava ou deixava a
cama? Decidiu:
— A cama vai.
— E o doutor?
— Fica. Deixem o colchão pra ele.
Aqui as versões divergem. Há quem
diga que a Eneida voltou atrás e mandou carregarem o colchão
também, deixando o Pinho dormindo no chão. Outros dizem que o
colchão, misericordiosamente, ficou. Mas todos concordam que, como
não havia mais nada no apartamento onde colocar o bilhete de
despedida que escrevera para o marido, a Eneida o colocara entre dois
dedos do seu pé. Para o Pinho ler quando acordasse.
Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos Impossíveis
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