[…]
Mas, aquilo de ruim-querer carecia de
dividimento ― e não tinha; o demo então era eu mesmo? Desordenei
quase, de minhas ideias. Eu matava um tiquinho, só? Em nome de mim,
eu não matava? Só forcejei por sobrenadar alto em mente o mando
daquela vozinha. Rú, eh, masquei meus beiços, eu arrebentasse. Vi
que acabava tendo de matar, e era o que eu mesmo queria. Como que
tivessem espalhado, ombro com ombro, pelos inteiros cabíveis do
Chapadão, os diabinhos, mil e mil, tocando lindas violas ― para
acabar com o que eu mesmo me falasse, e de mim quisesse por valia me
entender, contra o que o demônio-mestre tinha determinado... Sendo
que mal resisti, nas últimas, saiba o senhor. Ah, mas. E é preciso,
por aí, o senhor ver! quem é que era e que foi aquele jagunço
Riobaldo! Pois em instantâneo eu achei a doçura de Deus! eu clamei
pela Virgem... Agarrei tudo em escuros ― mas sabendo de minha Nossa
Senhora! O perfume do nome da Virgem perdura muito; às vezes dá
saldos para uma vida inteira...
Súbito sendo ― pois, pois ― que
um recurso eu tive, e por uma greta me saí, levando a salvo comigo o
desgraçado nhô Constâncio Alves. O conforme foi! que isto eu
espiritei! que fazia a ele uma pergunta. Respondesse a mal, morresse;
mas, de outro jeito, recebia perdão. Aí a pergunta seguinte:
― Se sendo que o senhor é de minha
terra, a pois: conheceu um homem que se chamava Gramacêdo? Será, o
senhor é parente dele?
Só esperei. Ele dissesse que tinha
conhecido o outro, e, aí, morria, por eu não poder não-matar; por
quanto a salvação dele mermava, que nem morrão de candeia. E
assim, com obrigação minha mesma, eu tinha para sempre combinado.
Mas nhó Constâncio Alves era para
ganhar, no azo daquilo, pelo que deu, de resposta:
― Gramacêdo? Sinto dizer, mas esse
eu nunca vi, nem dele ouvi falar. Tenho parentescos com ninguém de
tal nome...
A minha mão já tinha estado para o
revólver, brandamente. Nhó Constâncio Alves percebeu o mal-amém.
Confuso como se rebaixou um pouquinho no tamanho: ele devia de estar
abrindo os joelhos, por tremor de medo nas pernas. Aí ele mesmo
então achasse que carecia de muito morrer? ― num pingo eu pensei,
traiçoeiro. O medo mostrado chama castigo de ira; e só para isso é
que serve. Ah , mas ― ah, não! ―; eu tinha decidido. Tinha ou
não tinha. Eu? Assim, noutro repingo: arejei que toda criatura
merecia tarefa de viver, que aquele homem merecia viver ― por causa
de uma grande beleza no mundo, à repentina. Um anjo voou dali? Eu
tinha resistido a terceira vez. Agora, nhó Constâncio Alves estava
delivrado de perigo. Só que eu gritei:
― O senhor tem seu dinheiro?
Ligeiro, novo, o homem caçou com suas
mãos o surrãozinho, que abriu: estava cheio de notas, bem enroladas
e embrulhadas num pano; e assim me dava, me presenteava. Mirei aquele
triste pescoço. O que em seco ele foi engulindo: que podiam ser as
contas todas dum terço.
Aproximei o cobre. O ele, nhô
Constâncio Alves, deixei que fosse embora. Nem espiei ― para dele
não ver as costas. Mas, aí, então, para me pacificar e enterter o
Outro, eu tive de falar alto!
― Perdoei este; mas, o primeiro que
se surgir, destas estradas, paga!
Eu disse. Eu ia cumprir?
De seguida, o primeiro veio, logo mais
adiante; quase no se inteirarem três léguas. Conforme houve fatos,
coisa que se passou. E foi numa várzea, com uns boizinhos ali bem
pastando. Demos com um sujeito, aparecido viajor. Ele vinha numa
égua. Essa égua era acastanhada, com alguma altura. Aqueles
arreios, de velhos, era que desfaziam. Um cabo da rédea estava sendo
de couro, mas o outro de sedenho. A égua também cambaiava. O homem
tinha cara de focinho, avançando o formato dos ossos da boca! não
tinha queixo. Desgraçado desse homem, pelo que em sua vida ia ser,
pelo que seus aspectos indicavam. Nem merecia dó, assim achei. Mas,
na companhia dele, atrás, vinha também um cachorrinho.
Eles esbarraram. O cachorrinho pegou a
latir, nesse ofício que quase todo cão tem, de ser presumido
valente. O homem bambeou de si, em cima da égua, ele estava pecando
de pavor. Como que, num só relance ele transformou três caras. E
para o pretinho Guirigó me virei, por perguntar!
― Aqui, este, deveras eu mato?
― Senhor mata? Senhor vai matar? ―
o pretinho só se saíu pelos olhos.
Ao que escutei queixos e dentes do
homem bater. Súdito indivíduo assim não tinha ação de voz nem
tirava um suplicar. Tudo o que não sabia, ele adivinhava. Previsse
que ia morrer só para indenizar do perdão dum outro, só por
preencher o lugar que devia de ser o do nhô Constâncio Alves?
Ah, não. Agora, a vontade de matar
tinha se acabado! Sei e soube: por certo que o demo, agora, escondia
sua intenção, por desconfiar de que eu não fosse querer cumprir.
Com ele, meu senhor, assim é: sempre escolhe seus estilos. Ao mais,
dessa vez, ele sabia que não carecesse de me azuretar. Sabia que eu
estava até com enjóo da situação daquele homem da égua, meu
gosto era permitir que ele fosse s embora, forro de qualquer castigo.
Mas sabia igual que eu estava na estrita obrigação de matar ―
porque eu não podia voltar atrás na promessa da minha palavra
declarada, que os meus cabras tinham escutado e glosado. Ah, o demo
bem me conhecia! Devia de estar no astuto, ali por perto, feitor, se
pagodeando de mim: querendo ver bem boa execução, do meu dever de
crime. E o homem da égua o nada de tudo espiava, por mais inteiriço
não se ser se forcejava, e um espírito de silêncio ele gemia. Aí
onde era que estava o anjo-da-guarda dele? Aí tinha de morrer.
Carecia de morrer, porque o diabo, por novas voltas, no nó de
compromisso tinha me pegado; e porque outro ao-menos-remédio não
havia. O cachorrinho por sua vez entendia isso, e latiu, cainhava,
ganiz; mais conseguido do que o dono ele sabia dar de gemer. Mas eu
estava pensando redobrado.
Como era que eu ia matar aquele
sujeito, anunciado de pobre, e matar em vez de um outro, sadio em
bojo, e rico? Aquilo era justiça? Vai ver, ele nem conhecesse o nhó
Constâncio Alves, nem soubesse quem fosse. Era justiça? Era
possível? Eu pensei. O que era que Zé Bebelo, numa urgência assim,
no arco, inventava de fazer? Eu tinha a preguiça de falar perguntas.
Os outros, parados em volta,
esperavam, por apreciar. Ninguém não tinha pena do homem da égua,
mirei e vi. Consideravam de espreitar meu procedimento. A aflêima de
assim loguinho ter de botar e ouvir minhas palavras no ar, me
agravou. E foi então, para retardar os momentos, que ao cego
Borromeu eu indaguei!
― Seja o que, companheiro velho? E
eh lá isso?...
Atabafado. Até porque, de pedir
avisos a um cego, assim, em públicas varas, eu tivesse de me vexar.
― Se é se é, Chefe? A-hem? Se é o
que mecê sumeteu, enhém? Senhor quer que seja que se mate um tal?
― sem-termo do cego me respondeu, sem-razão. Ao que eu tinha
trazido aquele comigo, para a nenhuma utilidade. ― Senhor mesmo é
que vai matar? ― o menino Guirigó suputou, o diabo falou com uma
flauta. ― Te acanha, dioguim, não-sei-que-diga!Vai sêbo... ― eu
ralhei. Onde os outros riram rabo.
Mas, entre isso, o homem condenável,
em cima da égua, amontado sempre, chorava por si mesmo, sensato
sério; chorava, decerto, o ter crescido de sua longe meninice. Nem
perguntei o nome dele, nem donde era que era. Um naqueles casos, de
nada carecia nem necessitava. A cara dele, pelo malaventurar, se
quebrava das formas e cor, e perpassava ― ele era um ser com a cara
desmanchada. Aí o Acauã, por um gesto de aviso meu, assestava nele,
sobrestante; porque, mesmo no magoar do terror, por vez um se assopra
de adôido, dá bote, dá nas armas. Agarrado todo na égua, só
encolhido, encarapitado ― o pobre.
― Vai sêbo! ― eu tornei a xingar
o menino-de-infância.
Adforma que eu tinha de resolver.
Antes ligeiro, para os meus homens não me acharem aparvo. Ou o demo.
O demo? Ainda que muito eu sei. Agora esse se prespiritava por lá,
sabível mas invisível; e ele estava se rindo de mim, meu próximo.
Ah, não! Somei que tive pena do
homem? A cachorrinha se latia. Mas, como era que eu podia atirar numa
triste pessoa daquelas, que semelhava com os ombros debaixo de todas
ventanias? A cachorrinha perturbava os cavalos. Aperto do dever que
eu tinha de cumprir, de editada palavra. Ou eu temi também o
Tranjão, oTibes, o Cujo, que eu mesmo ajustara por meu vigiador? Sej
a o que; hoje mais rezo. O homem nas costas da égua, desinquieta,
que agora dava debate. Decerto porque, animal de montada, no que
percebe aquele humano pavor alheio, o todo desprezo ao cavaleiro está
obrigado a demonstrar. Conseguinte que, sobre assim, todos riram
mais: ― Oé, eh, ele já está se deixando! ― algum reparou. Se
via? Se o homem dera de obrar, mesmo permeando para a sela, que se
sujava? As caçoadas, constavam de querer ver aquilo. Daí, o
cachorro, por resguardo de seu dono, agrediu os cavaleiros ― com o
qual a latição dele, e os arreganhos, os cavalos de uns desgostavam
e se empinavam, por reboliz. O homem, mesmo, era que se franzia, no
não dizer, não desbobeava. Ah, e Zé Bebelo! ― repentino
relembrei, as remotas vezes. Os cavalos saltando assim, os cavaleiros
bramando: recordação de Zé Bebelo. Só Zé Bebelo servia para
apurar um impedimento desses, no deslindar. Onde ele? Ah! Ah e foi aí
― então ― que estouradamente achei: fortes ideias! Rapatrás,
fazendo meu cavalo também se arquear e empinar, às as patas ― eu
disse. Disse, que bradei ― num entusiasmamento daqueles mesmos de
Zé Bebelo ― a fala igual à de Zé Bebelo, na baralhada em pompa
dos animais, arre crinas, na arroubagem de arruaça. Eu pronunciei:
― Rai-a-puta-pô! Não tenho
que matar este desgraçado, porque minha palavra prenhada não foi
com ele: quem eu vi, primeiro, e avistei, foi esse cachorrinho!...
Só um assarapanto de silêncio. Daí,
me vivavam. Todos entenderam, me admiraram. A tanto que sei. Agora,
eu, digo ao senhor: dele, do Demo ― naquele instante ― agora era
eu quem ria!
― Ei-ei, gente, segura o cão! ―
dei ordem. Num três-tempo a cachorrinha estava pega, se esbrabejava.
No que uma peia, um laço, ou um cabresto, eram desconformes para
isso, então o Pacamã-de-Presas e o Jiribibe arrumaram uma jarda de
fina corda, com ela se amarrou o bichinho num pé de assa-leitão.
― Não deixem ela uivar... Não
deixem ela uivar... ― foi o que o cego Borromeu disse, pelo modo
ele tinha medo de uivado de cachorro. ― A bom, cachorro a gente
enforca... ― o menino Guirigó deu atrevimento de ensinar. Mandei
que esse menino fosse para mais longe, perder as influências. Deram
uma palmada na anca do cavalo dele, que o João Vaqueiro puxou, para
ir exilar os dois em boa conveniente distância.
― Um cachorro, quando se enforca,
chora lágrimas ― os olhos dele regulam com os de gente... ― foi
o que o Alaripe disse, com simples voz. A tudo, pensei. Agora, matar
aquela cachorrinha? O que menos eu pudesse, só mesmo por pragas.
Pelo tanto que a cachorrinha se prezava correta, latindo tão
relatado. Ah, não! Ah, não, não matava. Mais, por aí, eu também
já tinha aprendido ― das sutilezas. Tornei a transdizer!
― Adonde!... E nem não foi essa
cadela. A égua, essa é que foi ― a que primeiro deu nas minhas
vistas!
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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