Era uma distribuidora de revistas. A
gente ficava em pé na mesa de empacotamento, verificando os pedidos
para ver se as quantidades coincidiam com as faturas. Depois,
assinávamos a nota fiscal e fazíamos a embalagem do pedido para
enviar no correio, ou separávamos as revistas para a entrega local,
que era feita de caminhão. O trabalho era fácil e sem graça, mas
os funcionários estavam em um constante estado de agitação. Se
preocupavam com os empregos. Eram uma mistura de mulheres e homens
jovens, e parecia não haver qualquer tipo de supervisão. Passaram
algumas horas e duas mulheres começaram a discutir. Alguma coisa a
ver com as revistas. Estávamos embalando gibis e algo deu errado do
outro lado da mesa. As duas mulheres ficaram violentas enquanto a
discussão avançava.
— Pessoal — falei —, não vale a
pena nem ler essas revistinhas, imagina discutir sobre elas.
— Tá bom — disse uma das mulheres
—, a gente sabe que você se acha bom demais para esse trabalho.
— Bom demais?
— Sim, esse teu jeito. Você acha
que a gente não percebe?
Foi aí que eu aprendi pela primeira
vez que não bastava fazer o trabalho, você precisava ter interesse
nele, quem sabe até ser apaixonado pela coisa.
Fiquei lá por três ou quatro dias, e
na sexta-feira recebemos o pagamento referente a todas as horas
trabalhadas. Nos deram envelopes amarelos com notas verdes e o valor
contado. Dinheiro vivo, nada de cheques.
Perto do horário de saída, o
motorista do caminhão de entrega voltou um pouco mais cedo. Sentou
em uma pilha de revistas e fumou um cigarro.
— Pois é, Harry — disse ele a um
dos funcionários —, hoje me deram um aumento. Ganhei dois dólares
a mais.
Quando saí, parei para comprar uma
garrafa de vinho, subi para o meu quarto, bebi um pouco, depois desci
e liguei para a firma. O telefone tocou bastante. Enfim, o sr.
Heathercliff atendeu. Ele ainda estava lá.
— Sr. Heathercliff?
— Sim?
— Aqui é o Chinaski.
— Pois não, sr. Chinaski?
— Eu quero um aumento de dois
dólares.
— Quê?
— Isso mesmo. O motorista do
caminhão de entrega ganhou um aumento.
— Mas ele está conosco há dois
anos.
— Eu preciso de um aumento.
— No momento estamos lhe pagando
dezessete dólares por semana, e você está pedindo dezenove?
— Isso mesmo. Vão me dar ou não?
— Nós não temos como fazer isso.
— Então eu me demito. —
Desliguei.
Charles Bukowski, em Factótum

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