terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Factótum | 5




Era uma distribuidora de revistas. A gente ficava em pé na mesa de empacotamento, verificando os pedidos para ver se as quantidades coincidiam com as faturas. Depois, assinávamos a nota fiscal e fazíamos a embalagem do pedido para enviar no correio, ou separávamos as revistas para a entrega local, que era feita de caminhão. O trabalho era fácil e sem graça, mas os funcionários estavam em um constante estado de agitação. Se preocupavam com os empregos. Eram uma mistura de mulheres e homens jovens, e parecia não haver qualquer tipo de supervisão. Passaram algumas horas e duas mulheres começaram a discutir. Alguma coisa a ver com as revistas. Estávamos embalando gibis e algo deu errado do outro lado da mesa. As duas mulheres ficaram violentas enquanto a discussão avançava.
Pessoal — falei —, não vale a pena nem ler essas revistinhas, imagina discutir sobre elas.
Tá bom — disse uma das mulheres —, a gente sabe que você se acha bom demais para esse trabalho.
Bom demais?
Sim, esse teu jeito. Você acha que a gente não percebe?
Foi aí que eu aprendi pela primeira vez que não bastava fazer o trabalho, você precisava ter interesse nele, quem sabe até ser apaixonado pela coisa.
Fiquei lá por três ou quatro dias, e na sexta-feira recebemos o pagamento referente a todas as horas trabalhadas. Nos deram envelopes amarelos com notas verdes e o valor contado. Dinheiro vivo, nada de cheques.
Perto do horário de saída, o motorista do caminhão de entrega voltou um pouco mais cedo. Sentou em uma pilha de revistas e fumou um cigarro.
Pois é, Harry — disse ele a um dos funcionários —, hoje me deram um aumento. Ganhei dois dólares a mais.
Quando saí, parei para comprar uma garrafa de vinho, subi para o meu quarto, bebi um pouco, depois desci e liguei para a firma. O telefone tocou bastante. Enfim, o sr. Heathercliff atendeu. Ele ainda estava lá.
Sr. Heathercliff?
Sim?
Aqui é o Chinaski.
Pois não, sr. Chinaski?
Eu quero um aumento de dois dólares.
Quê?
Isso mesmo. O motorista do caminhão de entrega ganhou um aumento.
Mas ele está conosco há dois anos.
Eu preciso de um aumento.
No momento estamos lhe pagando dezessete dólares por semana, e você está pedindo dezenove?
Isso mesmo. Vão me dar ou não?
Nós não temos como fazer isso.
Então eu me demito. — Desliguei.

Charles Bukowski, em Factótum

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