quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

A menina de outro meio




1

A guerra com o Japão ainda não terminara. Inesperadamente, ela foi encoberta por outros acontecimentos. Pela Rússia passavam ondas da revolução, uma maior que a outra e jamais vistas.
Nesta época, chegou a Moscou, procedente dos Urais, a viúva de um engenheiro belga, uma francesa russificada por conta própria, Amália Karlovna Guichard, com seus dois filhos, Rodion e Larissa. O filho ela matriculou na escola de cadetes, e a filha no ginásio feminino, coincidentemente no mesmo ginásio e na mesma turma onde estudava Nádia Kologrivova.
Madame Guichard possuía economias do marido em ações, que antes se valorizavam mas que agora começavam a cair. Para interromper o desaparecimento de seus recursos e para não ficar de braços cruzados, madame Guichard comprou, próximo ao Arco do Triunfo, um pequeno negócio, a confecção de Levitskaia, dos herdeiros da costureira, com o direito de manter na velha empresa os antigos clientes e todas as estilistas e alunas.
Madame Guichard fez isso seguindo o conselho do advogado Komarovski, amigo de seu marido e seu próprio apoio, um negociador de sangue-frio que conhecia a vida empresarial russa como a palma de sua mão. Ela lhe escreveu sobre a mudança. Ele os recepcionou na estação e levou, atravessando toda Moscou, para os quartos mobiliados do Tchernogoria, na travessa Oruzheinaia, onde alugara um deles para madame Guichard.
Ele já havia convencido a viúva a matricular Ródia na escola de cadetes e Lara no ginásio que recomendou. Com descortesia, caçoava do menino e olhava para a menina de tal maneira, que ela ruborizava.

2

Antes de se instalar no pequeno apartamento de três quartos, anexo à confecção, eles moraram aproximadamente três meses no Tchernogoria.
Era um dos lugares mais terríveis de Moscou, antro de ladrões, ruas inteiras entregues à promiscuidade, cortiços de “seres perdidos”.
Nem as pulgas e a mediocridade do mobiliário, nem a sujeira nos quartos, impressionavam as crianças. Depois da morte do pai delas, a mãe vivia com medo constante do empobrecimento. Ródia e Lara cansavam-se de ouvir que estavam à beira da ruína. Eles sabiam que não eram crianças de rua, mas sentiam um profundo medo dos ricos, como os pupilos de orfanatos.
O exemplo vivo deste medo era infundido neles pela própria mãe. Amália Karlovna era uma loira roliça de uns 35 anos; nela, aos ataques do coração sucediam-se ataques de tolices. Era uma tremenda medrosa e morria de medo dos homens. Por isso mesmo, por susto e confusão, ela passava de mão em mão, a toda hora.
No Tchernogoria eles ocupavam o quarto 23 e no 24, desde a inauguração do hotel, morava o violoncelista Tichkevitch, um bonachão suado e careca que usava peruca e que juntava as mãos como em uma oração e as apertava contra o peito, quando tentava convencer alguém; jogava a cabeça para trás e, inspirado, revirava os olhos ao se apresentar nos círculos sociais e em concertos. Ele raramente estava em casa, passava dias inteiros no teatro Bolshoi e no Conservatório. Os vizinhos se conheceram. Favores mútuos os aproximaram.
Como a presença das crianças às vezes intimidava Amália Karlovna durante as visitas de Komarovski, Tichkevitch passou a deixar com ela a chave de seu quarto para que pudesse receber seu amigo. Logo madame Guichard se acostumou tanto com o sacrifício dele, que várias vezes bateu em sua porta, pedindo que a defendesse do seu protetor.

3

A casa de um só andar ficava perto da esquina com a Tverskaia. Sentia-se a proximidade da estrada de ferro que levava para Bretsk. Ao lado, ficavam as propriedades, os apartamentos funcionais, o depósito de locomotivas e depósitos em geral.
Lá morava Olia Demina, uma menina inteligente, sobrinha de um dos funcionários da ferrovia Moscou-Tovarnaia.
Ela era uma aluna muito capaz. A velha proprietária era atenciosa com ela e a nova, agora, começou se aproximar. Olia gostava muito de Lara.
Tudo ficou da mesma forma, como na administração de Levitskaia. As máquinas de costura rodavam feito loucas debaixo dos pés que desciam e subiam ou dos braços das costureiras que esvoaçavam. Alguém cosia calmamente, sentada à mesa, esticando o braço com a agulha e a linha comprida. O chão estava coberto de retalhos. Tinham que falar alto para superar o barulho das máquinas e o gorjeio vibrante de Kirill Modestovitch, um canário numa gaiola debaixo da abóbada da janela: o mistério de seu nome a antiga proprietária levou consigo para o túmulo.
Na recepção, um grupo de damas pitorescas cercava a mesa com revistas. Elas ficavam de pé, sentadas ou semi-encostadas, nas poses que viam nas revistas, observavam os modelos, trocavam conselhos sobre os feitios. A uma outra mesa, no lugar da diretora, estava a auxiliar de Amália Karlovna, uma das costureiras responsáveis, Faina Silantievna Fetisova, uma mulher ossuda com verrugas nas cavidades das bochechas flácidas.
Ela segurava a piteira de marfim, com o cigarro entre os dentes amarelados, apertava os olhos também amarelados e, soltando a fumaça amarela pela boca e pelo nariz, anotava no caderno as medidas, os números das notas fiscais, os endereços e as solicitações das clientes.
Amália Karlovna era uma pessoa nova e inexperiente na confecção. Ela não se sentia totalmente como dona. Mas os funcionários eram honestos e podia confiar em Fetisova. Mesmo assim, a época era inquieta. Amália Karlovna tinha medo de pensar no futuro. O desespero tomava conta dela. Tudo caía de suas mãos.
Komarovski frequentemente visitava a confecção. Quando Victor Ippolitovitch passava pela sala de costura, dirigindo-se ao fundo e assustando à sua passagem as damas elegantes que se trocavam e que se escondiam atrás dos biombos, de lá acolhendo em tom brincalhão seus gracejos atrevidos, as costureiras murmuravam pelas costas dele com maliciosa desaprovação: “Deu o ar de sua graça”. “O dela”. “O caso da Amália”. “Garanhão”. “Feiticeiro de mulheres”.
Objeto de grande ódio era ainda o seu buldogue, Jack, que às vezes o acompanhava preso na coleira e que o arrastava atrás de si com trancos tão impetuosos que Komarovski tropeçava, corria para a frente e andava atrás do cachorro com os braços estendidos, como um cego com o seu cão-guia.
Certa vez, na primavera, Jack agarrou-se à perna de Lara e rasgou sua meia.
Vou matar esse desgraçado — murmurou Olia Demina infantilmente no ouvido de Lara.
É realmente um cachorro nojento. Mas como você, sua tolinha, vai fazer isso?
Fale baixo, não grite, vou lhe ensinar. Sabe aqueles ovos de Páscoa de pedra, como os que sua mãe tem em cima da cômoda?
Sei, são de mármore e cristal...
Hã-hã, isso. Abaixe-se, vou lhe dizer no ouvido. Tem que pegar um, deixar de molho na gordura, a gordura vai grudar, então o cão tinhoso o engole, enche a pança e pronto! Patas para o alto! Morreu!
Lara ria, com inveja. A menina vivia passando necessidades, trabalhava. As crianças do povo se desenvolvem mais cedo. No entanto, veja o quanto ainda têm de bom, infantil, ingênuo: ovos, Jack, gordura... de onde vem isso? “Porque meu destino quis assim”, pensava Lara, “que tudo eu veja e com tudo sofra?”
[...]

Boris Pasternak, em Doutor Jivago

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