domingo, 1 de fevereiro de 2026

A hora zero



Ah, ia ser tão animado. Que jogo! Havia anos eles não viam uma empolgação assim. As crianças catapultavam-se para lá e para cá pelos gramados verdes, gritando umas com as outras, dando as mãos, voando em círculos, subindo nas árvores, gargalhando. Acima, foguetes voando, e carros-besouros sussurrando pelas ruas, mas as crianças continuavam brincando. Tanta diversão, tanta alegria vibrante, tantos pulos e gritos vigorosos.
Mink entrou correndo na casa, toda suja e suada. Nos seus sete anos, ela era barulhenta e forte e decidida. Por pouco, sua mãe, a sra. Morris, não a viu puxar gavetas e enfiar panelas e ferramentas em um saco grande.
Nossa, Mink, o que está acontecendo?”
O jogo mais emocionante do mundo!”, disse Mink ofegante, o rosto rosado.
Pare e tome fôlego”, disse a mãe.
Não, estou bem”, disse Mink. “Posso levar estas coisas , mãe?”
Mas não as entorte”, disse a sra. Morris.
Obrigada, obrigada!”, exclamou Mink e... zum!... foi saindo como um foguete.
A sra. Morris inquiriu a menina que escapulia.
Qual é o nome do jogo?”
Invasão!”, disse Mink.
A porta bateu.
Em cada metro da rua, crianças traziam facas e garfos e atiçadores e velhos canos de fogão e abridores de lata.
O interessante é que esta fúria e alvoroço ocorria apenas entre as crianças mais novas. As mais velhas, a maioria com dez anos ou mais, desdenhavam o assunto e marchavam zombeteiramente para longe, em caminhadas, ou brincavam entre si de uma versão mais nobre de esconde-esconde.
Enquanto isso, os pais chegavam e saíam em carros-besouros cromados. Os homens da manutenção chegaram para consertar os elevadores a vácuo em casas, reparar aparelhos de televisão fora do ar ou martelar teimosos cubos de entrega de alimentos. A civilização adulta ia e vinha em meio às crianças atarefadas, invejosa da energia feroz da molecada turbulenta, tolerantemente encantada com seu desabrochar, desejosa de se unir a eles.
Isto e isto e isto”, disse Mink, instruindo os outros com suas colheres e ferramentas sortidas. “Faça isso e traga aquilo para cá. Não! Aqui, bobo! Certo. Agora, volte enquanto eu arrumo isto.” Língua nos dentes, cenho franzido de pensar. “Desse jeito. Viu?”
Éeee!”, gritaram as crianças.
Joseph Connors, de doze anos, subiu correndo.
Vá embora”, disse Mink a ele.
Eu quero brincar”, disse Joseph.
Não pode!”, disse Mink.
Por que não?“
Você ia zombar da gente.”
Acredite, não ia.”
Não. Nós conhecemos você. Vá embora ou vamos chutá-lo daqui.”
Um outro menino de doze anos passou zumbindo em seus pequenos patins motorizados.
Ei, Joe! Venha! Deixe esses mariquinhas brincarem!”
Joseph demonstrou relutância e uma certa tristeza.
Eu quero brincar”, ele disse.
Você é velho”, disse Mink firmemente.
Não tão velho”, disse Joe, com razão.
Você só vai rir e estragar a Invasão.”
O menino de patins motorizados fez um ruído mal-educado com os lábios.
Venha, Joe! Esses mariquinhas! Bocós!”
Joseph se afastou devagar. Continuava olhando para trás, quarteirão abaixo.
Mink já estava novamente ocupada. Construiu uma espécie de aparato com os equipamentos que havia reunido. Entregou bloco e lápis a uma outra garotinha para fazer anotações em garatujas dolorosamente lentas. Suas vozes subiam e desciam à luz morna do sol.
Em torno deles, a cidade toda zumbia. As ruas eram ladeadas por árvores fortes, verdes e pacíficas. Somente o vento provocava conflito na cidade, no país, no continente. Em mil outras cidades havia árvores e crianças e avenidas, executivos em seus escritórios silenciosos, gravando suas vozes ou observando monitores. Foguetes passavam como agulhas de costura no céu azul. Havia a presunção e a despreocupação universais e cômodas de homens acostumados à paz, muito certos de que nunca mais haveria problemas de novo. De braços dados, homens por toda a Terra formavam uma frente unida. As armas perfeitas eram partilhadas igualmente por todas as nações. Uma situação de equilíbrio incrivelmente belo havia se estabelecido. Não havia traidores entre os homens. Ninguém infeliz, ninguém insatisfeito; portanto, o mundo era baseado em terreno estável. O sol iluminava metade do mundo, e as árvores dormitavam em uma onda de ar morno.
A mãe de Mink, de sua janela no andar de cima, olhava para baixo.
As crianças. Ela as observava e balançava a cabeça. Bom, elas comeriam bem, dormiriam bem e estariam na escola na segunda-feira. Abençoados sejam seus corpinhos vigorosos. Ela apurou os ouvidos.
Mink conversava energicamente com alguém perto da roseira — embora não houvesse ninguém ali.
Essas estranhas crianças. E a garotinha, como era o nome dela? Anna? Anna fazia anotações em um bloco. Primeiro, Mink fez uma pergunta à roseira, depois repetiu a resposta para Anna.
Triângulo”, disse Mink.
O que é um tri”, disse Anna com dificuldade, “ângulo?”
Não importa”, disse Mink.
Como se soletra?”, perguntou Anna.
T-r-i...”, soletrou Mink, devagar, depois perdeu a paciência: “Ah, soletre você mesma!” Passou a outras palavras.
Viga”, ela disse.
Eu não escrevi tri”, disse Anna, “ângulo ainda!”
Bom, então depressa, depressa!”, exclamou Mink.
A mãe de Mink se debruçou na janela do andar de cima.
Â-n-g-u-l-o”, ela soletrou de lá de cima para Anna.
Ah, obrigada, senhora Morris”, disse Anna.
De nada”, disse a mãe de Mink, e se retirou, rindo, para limpar a sala com um removedor de pó eletromagnético.
As vozes das meninas oscilavam no ar trêmulo.
Viga”, disse Anna. A voz sumindo.
Quatro-nove-sete-A-e-B-e-X”, disse Mink, distante, séria. “E um garfo e um cordão e um... hex... hex... agonia — hexágono...!”
No almoço, Mink tomou o leite de um gole e já estava na porta. Sua mãe bateu na mesa.
Volte e sente-se”, ordenou a sra. Morris. “A sopa quente sai num minuto.”
Ela apertou o botão vermelho de seu assistente de cozinha e, dez segundos depois, algo aterrissou com um baque no receptáculo de borracha. A sra. Morris abriu-o e retirou uma lata com um par de alças de alumínio, tirou o lacre com um puxão e serviu sopa quente em um prato.
Durante isso tudo, Mink se remexia.
Depressa, mãe! É uma questão de vida ou morte! Ahh...”
Eu era a mesma coisa na sua idade. Sempre vida ou morte. Eu sei.”
Mink engolia a sopa.
Devagar”, disse a mãe.
Não dá”, disse Mink, “Drill está me esperando.”
Quem é Drill? Que nome estranho”, disse a mãe.
A senhora não o conhece”, disse Mink.
Garoto novo na vizinhança?”, a mãe perguntou.
Ele é novo sim”, disse Mink. Começou a tomar o segundo prato.
Qual deles é Drill?”, a mãe perguntou.
Ele está por aí”, disse Mink evasivamente. “Você vai zombar. Todo mundo zomba. Que droga.”
Drill é tímido?”
Sim. Não. Mais ou menos. Ih, mãe, eu tenho de ir se quisermos ter a Invasão!”
Quem está invadindo o quê?”
Os marcianos invadindo a Terra. Bem, não exatamente marcianos. Eles são... não sei. Lá de cima.” Apontou com a colher.
E de dentro”, disse a mãe, tocando a testa febril de Mink.
Mink se rebelou.
A senhora está rindo! Vai matar Drill e todo mundo.”
Eu não tive a intenção”, disse a mãe. “Drill é marciano?”
Não. Ele é... bem, talvez de Júpiter ou Saturno ou Vênus. De qualquer forma, ele tem tido dificuldades.”
Imagino.” A sra. Morris pôs a mão sobre a boca.
Eles não conseguiam arrumar um jeito de atacar a Terra.”
Somos inexpugnáveis”, disse a mãe com seriedade fingida.
Essa é a palavra que Drill usou! Inexpug... Essa era a palavra, mãe.”
Ai, ai. Drill é um garotinho brilhante. Palavrinha corriqueira.”
Eles não conseguiam achar um jeito de atacar, mãe. Drill diz... ele diz que para fazer uma boa batalha é preciso achar um jeito novo de surpreender as pessoas. Dessa forma, a gente vence. E ele diz também que é preciso obter ajuda de seu inimigo.”
Uma quinta coluna”, disse a mãe.
É. É o que Drill disse. E eles não conseguiam um jeito de surpreender a Terra ou obter ajuda.”
Não é de admirar. Somos fortes mesmo”, a mãe riu, terminando a limpeza.
Mink ficou ali sentada, olhando fixamente para a mesa, visualizando aquilo de que falava.
Até que um dia”, sussurrou Mink melodramaticamente, “eles pensaram nas crianças.”
Bom”, disse a sra. Morris alegremente.
E eles pensaram no fato de os adultos estarem tão ocupados que nunca procuram debaixo das roseiras ou nos gramados!”
Procuram somente lesmas e fungos.”
E então tem algo sobre dim... dime...”
Dim-dime?”
Dimen-sães.”
Dimensões?”
Quatro delas! E tem algo sobre crianças com menos de nove anos e imaginação. É realmente divertido ouvir Drill falando.”
A sra. Morris estava cansada.
Bom, deve ser divertido. E Drill está esperando você, e, se vocês quiserem ter sua Invasão antes do banho da noite, é melhor correr.”
Eu tenho de tomar banho?”, resmungou Mink.
Tem sim. Por que as crianças odeiam água? Não importa a época, as crianças detestam lavar as orelhas!”
Drill diz que eu não vou ter de tomar banhos”, disse Mink.
Ah, ele diz, não diz?”
Ele disse isso a todas as crianças. Chega de banhos. E podemos ficar acordadas até dez horas e ir a dois programas de televisão no sábado, em vez de um!”
Bem, é melhor o senhor Drill ter cuidado com o que diz. Eu vou ligar para a mãe dele e...”
Mink foi para a porta.
Estamos tendo problemas com caras como Pete Britz e Dale Jerrick. Eles estão crescendo. Ficam fazendo gozação. São piores do que pai e mãe. Eles simplesmente não acreditam em Drill. São tão metidos, porque estão crescendo. A gente achava que eram mais espertos. Eram pequenos apenas uns dois anos atrás. São os que eu mais detesto. Vamos matá-los primeiro.”
Seu pai e eu por último?”
Drill diz que vocês são perigosos. Sabe por quê? Porque vocês não acreditam em marcianos! Eles vão nos deixar governar o mundo. Bom, não apenas a gente, mas as crianças do outro quarteirão também. Eu posso virar rainha.”
Ela abriu a porta.
Mãe?”
Sim?”
O que é logi-cá?”
Lógica? Ora, querida, lógica é saber quais coisas são verdadeiras e quais não são.”
Ele mencionou isso”, disse Mink. “E o que é im-pres-si-o-ná-veis?” Ela levou um minuto para dizer a palavra.
Ora, significa...” A mãe olhou para o chão, rindo delicadamente. “Significa ser criança, querida.”
Obrigada pelo almoço!”
Mink saiu correndo, mas voltou, mostrando só a cabeça.
Mãe, vou garantir que a senhora não se machuque muito, mesmo!”
Ora, obrigada”, disse a mãe.
A porta bateu.
Às quatro horas, o audiovisor tocou. A sra. Morris abriu o painel.
Alô, Helen!”, ela saudou.
Alô, Mary. Como estão as coisas em Nova York?”
Bem. Como estão as coisas em Scranton? Você parece cansada.”
Você também. As crianças. Dando trabalho”, disse Helen.
A sra. Morris suspirou.
Minha Mink também. A Superinvasão.”
Helen riu.
Seus filhos também estão jogando?”
Meu Deus, sim. Amanhã, serão três-marias geométricas e amarelinha motorizada. Éramos tão levadas assim quando crianças em quarenta e oito?”
Pior. Japoneses e nazistas. Não sei como meus pais me aguentavam. Uma capetinha.”
Os pais aprendem a fechar os ouvidos.”
Silêncio.
O que houve, Mary?”, perguntou Helen.
Os olhos da sra. Morris estavam meio fechados; a língua deslizava lenta, pensativamente, sobre seu lábio inferior.
Oh”, ela disse de arranco. “Ah, nada. Só estava pensando nisso. Ouvidos fechados e coisas assim. Não importa. Onde estávamos?”
Meu filho Tim está morrendo de amores por um certo sujeito chamado... Drill, acho que é isso.”
Deve ser uma nova senha, Mink também gosta dele.”
Não sabia que tinha chegado até Nova York. De boca em boca, imagino. Parece uma campanha de coleta de metal para a guerra. Conversei com Josephine e ela disse que os filhos — lá em Boston — estão malucos com este novo jogo. Virou uma febre no país.”
Neste momento, Mink entrou trotando na cozinha para beber um copo de água. A sra. Morris se virou.
Como estão as coisas?”
Quase terminadas”, disse Mink.
Maravilhoso”, disse a sra. Morris. “O que é aquilo?”
Um ioiô”, disse Mink. “Veja.”
Ela rolou o ioiô fio abaixo.
Ao chegar ao fim do cordão, ele... ele desapareceu.
Viu?”, disse Mink. “Upa!” Esticando o dedo, ela fez o ioiô reaparecer e subir pelo cordão.
Faça de novo”, pediu a mãe.
Não posso. A hora zero é às cinco horas. Tchau!”
Mink saiu, jogando seu ioiô.
No audiovisor, Helen ria.
Tim trouxe um desses ioiôs esta manhã, mas, quando fiquei curiosa, ele disse que não ia me mostrar, e quando finalmente tentei jogá-lo, ele não quis funcionar.”
Você não é impressionável”, disse a sra. Morris.
O quê?”
Não importa. Algo em que pensei. Posso ajudá-la, Helen?”
Eu queria a receita daquele bolo preto-e-branco…”

***

O tempo passava sonolento. O dia se esvaía. O sol se punha no céu azul tranqüilo. Sombras se estendiam pelos gramados verdes. Os risos e a excitação continuavam. Uma garotinha se afastou correndo, chorando. A sra. Morris saiu à porta da frente.
Mink, aquela era Peggy Ann chorando?”
Mink estava abaixada no jardim, perto da roseira.
É. Ela é um bebê chorão. Não vamos deixá-la brincar mais. Está ficando velha demais para brincar, acho que cresceu de repente.”
É por isso que ela chorou? Bobagem. Me dê uma resposta decente, mocinha, ou já para dentro!”
Mink se virou com um misto de consternação e irritação.
Não posso sair agora. Está quase na hora. Vou ser boazinha. Me desculpe.”
Você bateu em Peggy Ann?”
Não, verdade. Pergunte a ela. Foi alguma coisa... bom, ela é só uma medrosa.
O círculo de crianças se fechou em torno de Mink, enquanto ela olhava de cenho franzido para seu trabalho com colheres e uma espécie de arranjo quadrado de martelos e canos.
Ali e ali”, murmurava Mink.
O que há de errado?”, disse a sra. Morris.
Drill está preso. A meio caminho. Se pelo menos pudéssemos trazê-lo até aqui, seria mais fácil. Então todos os outros poderiam vir depois dele.”
Posso ajudar?”
Não, mãe, obrigada. Eu vou dar um jeito.”
Tudo bem. Vou chamá-la para o banho em meia hora. Estou cansada de tomar conta de você.”
Ela entrou e sentou-se na cadeira massageadora, bebericando um pouco de cerveja em um copo pela metade. A cadeira massageava suas costas. Crianças, crianças. Crianças e amor e ódio, lado a lado. Algumas vezes as crianças amam a gente, odeiam a gente — tudo em meio segundo. Estranhas crianças, será que elas esquecem ou perdoam as surras e as ordens duras e severas?, ela se perguntava. Como esquecer ou perdoar aqueles acima de você, aqueles ditadores altos e tolos?
O tempo passou. Um silêncio curioso e expectante caiu sobre a rua, aprofundando-se.
Cinco horas. Um relógio cantou brandamente em algum lugar da casa, com voz tranqüila e musical: “Cinco horas... cinco horas. O tempo se vai. Cinco horas”, ronronando até silenciar.
A hora zero.
A sra. Morris dava risadinhas. A hora zero.
Um carro-besouro chegou zunindo pela entrada da casa. O sr. Morris. A sra. Morris sorriu. O sr. Morris saiu do carro, trancou-o e disse olá a Mink, que estava ocupada. Mink o ignorou. Ele riu e ficou por um instante observando as crianças. Em seguida, subiu os degraus da frente.
Olá, querida.”
Olá, Henry.”
Ela se esticou para a frente, na beirada da cadeira, escutando. As crianças estavam silenciosas. Silenciosas demais.
Ele esvaziou o cachimbo, encheu-o de novo.
Dia maravilhoso. Dá gosto estar vivo.”
Zumbido.
O que é aquilo?”, perguntou Henry.
Não sei.”
Ela se levantou de repente, os olhos se arregalando. Ia dizer algo. Parou. Ridículo. Os nervos em sobressalto.
Essas crianças não estão com nada perigoso lá fora, estão?”, ela perguntou.
Nada além de canos e martelos. Por quê?”
Nada elétrico?”
Caramba, não”, disse Henry. “Eu olhei.”
Ela caminhou até a cozinha. O zumbido prosseguia.
Tudo igual. É melhor você mandar que parem. Passa das cinco. Diga a elas...”
Os olhos dela se arregalaram e se apertaram.
Diga a elas que adiem sua Invasão para amanhã.”
Ela riu, nervosamente.
O zumbido ficou mais alto.
O que elas estão aprontando? Acho melhor dar uma olhada, tudo bem?”
A explosão!
A casa foi sacudida pelo som abafado. Houve outras explosões em outros jardins em outras ruas.
Involuntariamente, a sra. Morris gritou.
Para cima, por aqui!”, gritou do nada, sem saber por quê, sem nenhuma razão. Talvez tenha visto algo com o canto dos olhos; talvez tivesse sentido um cheiro diferente ou ouvido um barulho novo. Não havia tempo de argumentar com Henry para convencê-lo. Deixe que ele pense que está louca. Sim, louca! Berrando, ela subiu as escadas. Ele correu atrás dela para ver o que ela ia fazer.
No sótão!”, ela gritava. “É lá que está!”
Era apenas uma desculpa mal dada para levá-lo para o sótão a tempo. Ah, Deus... a tempo!
Outra explosão lá fora. As crianças gritavam deliciadas, como se em um grande espetáculo de fogos de artifício.
Não está no sótão”, Henry gritou. “Está do lado de fora.”
Não, não!” Respirando com dificuldade, ofegante, ela tateava a porta do sótão. “Eu lhe mostro. Depressa! Eu lhe mostro!”
Eles entraram aos tropeços no sótão, ela fechou a porta, trancou-a, tirou a chave e a jogou longe em um canto entulhado. Agora ela balbuciava coisas sem nexo. As coisas saíam de sua boca. Toda a suspeita subconsciente e o medo que se acumulara secretamente durante a tarde fermentaram nela como um vinho. Todas as pequenas revelações e informações e significados que a incomodaram o dia todo ela havia lógica e cuidadosa e sensatamente rejeitado e censurado. Agora explodiam e a reduziam a pedaços.
Ali, ali”, ela disse, soluçando contra a porta. “Estamos seguros até a noite. Talvez possamos escapulir. Talvez possamos fugir!”
Henry explodiu também, mas por outro motivo.
Ficou louca? Por que você jogou a chave longe? Droga, querida!”
Sim, sim, estou louca, se você quer, mas fique aqui comigo!”
Não sei como vou poder sair desta droga de lugar!”
Quieto. Eles vão nos ouvir. Ah, Deus, eles vão nos encontrar logo, logo...”
Lá embaixo, a voz de Mink. O marido parou. Havia por toda parte zumbido e chiado, gritos e risadinhas. No andar de baixo, o audiovisor tocava e tocava insistente, alarmante, violentamente. Será Helen ligando?, pensou a sra. Morris. E será que ela está ligando para falar do que estou pensando?
Passos entraram na casa. Passos pesados.
Quem está entrando em minha casa?”, Henry perguntou enraivecido. “Quem está andando aí embaixo?”
Pés pesados. Vinte, trinta, quarenta, cinquenta deles. Cinquenta pessoas se amontoando dentro da casa. O zumbido. As risadinhas das crianças.
Por aqui”, gritou Mink lá embaixo.
Quem está no andar de baixo?”, berrou Henry. “Quem está aí!”
Silêncio. Ah, nãonãonãonãonãonão!”, disse a esposa, com a voz sumida, abraçando-o. “Por favor, fique quieto. Quem sabe eles vão embora.”
Mãe?”, Mink chamou. “Pai?”
Uma pausa.
Onde vocês estão?”
Passos pesados, pesados, pesados, muito pesados subiam a escada. Mink os conduzia.
Mamãe?” Uma hesitação. “Papai?” Uma espera, um silêncio.
Zumbido. Passos em direção ao sótão. Mink é a primeira.
Eles tremiam juntos no silêncio do sótão, o sr. e a sra. Morris. Por alguma razão, o zumbido elétrico, a estranha luz fria repentinamente visível sob a fresta da porta, o estranho odor e o som alienígena de avidez na voz de Mink finalmente fizeram com que Henry Morris também entendesse. Ele tremia no silêncio escuro, a esposa a seu lado.
Mãe! Pai!”
Passos. Um pequeno zumbido. A fechadura do sótão derreteu. A porta foi aberta. Mink olhou para dentro, sombras azuis e altas atrás dela.
Acheeei!”, disse Mink.

Ray Bradbury, em A cidade inteira dorme e outros contos breves

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