86.
Penso se tudo na vida não será a
degeneração de tudo’. O ser não será uma aproximação — uma
véspera, ou uns arredores.
Assim como o Cristianismo não foi
senão a degeneração bastarda do neoplatonismo abaixado, a
judaização do helenismo pelo romano, assim nossa época, senil e
cancerígena, é o desvio múltiplo de todos os grandes propósitos,
confluentes ou opostos, de cuja falência surgiu a era com que
faliram.
Vivemos um entreato com orquestra.
Mas que tenho eu, neste quarto andar,
com todas estas sociologias? Tudo isto é-me sonho, como as princesas
da Babilónia, e o ocuparmo-nos da humanidade é fútil, fútil —
uma arqueologia do presente.
Sumir-me-ei entre a névoa, como um
estrangeiro a tudo, ilha humana desprendida do sonho do mar e navio
com ser supérfluo à tona de tudo.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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