sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Mateus Asato | Hendrix

Bagé



Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vêm de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas.
Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem-educada), mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.
Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.
Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.
O senhor quer que eu deite logo no divã?
Bom, se o amigo quiser dançar uma marca antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.
Certo, certo. Eu...
Aceita um mate?
Um quê? Ah, não. Obrigado.
- Pos desembucha.
Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?
Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.
Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe.
Outro...
Outro?
Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.
E o senhor acha...
Eu acho uma poca vergonha.
Mas...
Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!
Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé.
Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.
Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira...
Mas acabou concordando.
Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê. Qual é o causo?
Bem – disse o homem –, é que nós tivemos um desentendimento...
Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?
Eu não meti a espora. Não é, meu bem?
Não fala comigo!
Mas essa alta mais nervosa que gato em dia de faxina.
Ela tem um problema de carência afetiva...
Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.
Nós estamos justamente atravessando uma cris e de relacionamento parque ela tem procurado experiências extraconjugais e...
Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?
Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?
Ela ta procurando o verdadeiro tu nos outros?
O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.
Mas isto ta ficando mais enrolado que linguiça de venda. Te deita no pelego.
Eu?
Ela. Tu espera na salinha.

Luís Fernando Veríssimo, em O Analista de Bagé

Calvin e Haroldo

Uma estória de amor

A esposa – ela amava tanto o marido! – fazia­-lhe diariamente um mingau de fubá, alimento forte para manter as forças. Assim foi por toda a vida, numa fidelidade comovente, sem falhar um dia sequer: toda manhã lá estava diante do marido o prato de mingau de fubá que ele comia até o fim. Até que o inesperado aconteceu. Já bem velha, ficou doente, não conseguia se levantar da cama. O que seria do seu pobre marido sem o mingau de fubá? Desolada, chamou­-o para explicar que, infelizmente, naquele dia, ela não poderia fazer o mingau de fubá. O rosto dele se abriu num vasto sorriso. “Não se preocupe, meu bem. Pra dizer a verdade, eu nem gosto mesmo de mingau de fubá…”

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

Mas já que se há de escrever

Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem as palavras nas entrelinhas.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Ao mesmo tempo: O romancista e a discussão moral



Conferência Nadine Gordimer

[…]

Um romance não é uma série de propostas, uma lista ou coleção de programas, ou o itinerário de um passeio (de final aberto, passível de revisão). É a viagem em si mesma — feita, vivenciada e concluída.
A completude não significa que tudo foi dito. Henry James, quando se aproximava do fim da redação do seu romance mais importante, O retrato de uma senhora, confidenciou a si mesmo em seu caderno de anotações a sua preocupação com o fato de que os leitores pudessem pensar que o romance não estava terminado de fato, de que ele “não tivesse acompanhado a heroína até o final do seu problema”. (Como vocês se lembram, James deixa a sua heroína, a brilhante e idealista Isabel Archer, resolvida a não largar o seu marido, que ela descobriu ser um canalha mercenário, embora exista um pretendente anterior, muito adequadamente chamado Caspar Goodwood, que, ainda apaixonado, tem esperança de que ela mude de idéia.) Porém, argumenta James para si mesmo, o seu romance estaria concluído de forma correta com essa situação. Como escreveu James: “O todo de qualquer coisa nunca é contado; só podemos apreender aquilo que se agrupa. O que fiz possui essa unidade — se agrupa. É completo em si mesmo”.
Nós, leitores de James, podemos desejar que Isabel Archer deixe o marido horroroso em troca da felicidade com o amável, fiel e honrado Caspar Goodwood: eu certamente gostaria que ela assim fizesse. Mas James está nos dizendo que ela não o fará.
Toda trama ficcional contém indícios e vestígios das histórias que ela excluiu, ou a que resistiu, a fim de assumir a sua forma presente. Alternativas para a trama devem se manter sensíveis até o último instante. Essas alternativas constituem o potencial para a desordem (e, portanto, para o suspense), no desdobrar da história.
A pressão para que os fatos se passem de forma diferente está por trás de todas as reviravoltas infelizes, de todos os novos desafios no caminho para um desfecho estável. Os leitores contam com essas linhas de resistência para manter a narrativa instável, permeada pela ameaça de algum conflito adicional — até que seja alcançado um ponto final de equilíbrio: uma solução que pareça menos arbitrária e provisória do que os invariavelmente ilusórios momentos de imobilidade presentes no corpo da história. A construção de uma trama consiste em achar momentos de estabilidade e depois gerar novas tensões narrativas que desfaçam tais momentos — até que o fim seja alcançado.
O que chamamos de um fim “adequado” de um romance é um outro equilíbrio — um equilíbrio que, se for planejado de forma adequada, terá um status claramente distinto. Esse final irá nos persuadir de que as tensões inerentes a qualquer história difícil foram suficientemente respondidas. Elas perderam o seu poder de produzir novas mudanças relevantes. São postas em xeque pela capacidade que tem um final de lacrar tudo.
Os finais num romance conferem uma espécie de liberdade que a vida teimosamente nos nega: chegar a um ponto final, que não é a morte, e descobrir exatamente onde estamos em relação aos fatos que levam a uma conclusão. Aqui, nos diz o final, está o último trecho de uma experiência total hipotética — cuja força e autoridade avaliamos pelo tipo de esclarecimento que ela traz aos eventos da trama, sem uma coerção indevida.
Se um final parece estar lutando para alinhar as forças em conflito na narrativa, é provável que tiremos a conclusão de que existem defeitos na estrutura narrativa, oriundos talvez da falta de controle ou de uma confusão, por parte do contador de histórias, sobre aquilo que a história é capaz de sugerir.
O prazer da ficção reside justamente em que ela se desloca rumo a um final. E um final que satisfaz é um final que exclui. O que não é capaz de ligar-se ao padrão de esclarecimento do desfecho da história, o escritor supõe que pode ser deixado de fora do relato, sem nenhum risco.
Um romance é um mundo com fronteiras. Pois, para haver completude, unidade, coerência, tem de haver fronteiras. Tudo é relevante na trajetória que percorremos dentro dessas fronteiras. Podemos descrever o final de uma história como um ponto de convergência mágica para os cambiantes pontos de vista preparatórios: uma posição fixa da qual o leitor vê como as coisas inicialmente disparatadas afinal se integram.
Mais ainda, o romance, por ser um ato de forma concretizada, é um processo de compreensão — ao passo que a forma partida ou insuficiente, na verdade, não sabe, deseja não saber, o que se integra a ela.

São esses dois modelos que competem agora pela nossa fidelidade ou atenção.
Existe uma distinção essencial — como eu a vejo — entre histórias, de um lado, que têm por objetivo um final, a completude, o fechamento, e de outro lado a informação, que é sempre, por definição, parcial, incompleta, fragmentária.
Isso espelha os modelos contrastantes de narrativa propostos pela literatura e pela televisão.
A literatura conta histórias. A televisão dá informações.
A literatura envolve. É a recriação da solidariedade humana. A televisão (com sua ilusão de imediatismo) afasta — nos empareda em nossa própria indiferença.
As chamadas histórias contadas pela televisão satisfazem nosso apetite por anedotas e nos oferecem modelos de compreensão que se anulam mutuamente. (Isso é reforçado pela prática de pontuar com publicidade as narrativas da tevê.) Implicitamente, eles afirmam a ideia de que toda informação é potencialmente relevante (ou “interessante”), que todas as histórias são intermináveis — ou que, se são interrompidas, não é porque chegaram a um fim, mas sim porque foram destronadas por uma história mais nova, mais apelativa ou excêntrica.
Ao nos brindarem com um número ilimitado de histórias ininterruptas, as narrativas que a mídia conta — e cujo consumo encurtou tão dramaticamente o tempo que o público instruído antes dedicava à leitura — oferecem uma lição de amoralidade e de distanciamento que é antitética em relação àquela corporificada pelo projeto do romance.
Na narração, tal como é praticada pelo romancista, há sempre — como argumentei — um componente ético. Esse componente ético não é a verdade, em oposição à falsidade da crônica. É o modelo de completude, de profundidade sentida, de esclarecimento, proporcionado pela história, e por sua resolução — que é o oposto do modelo de estupidez, de incompreensão, de horror passivo, e o consequente embotamento do sentimento, oferecido pela glutonaria de histórias sem fim disseminada pela nossa mídia.

A televisão nos oferece, numa forma extremamente degradada e falsa, uma verdade que o romancista é obrigado a suprimir, em proveito do modelo ético de compreensão peculiar ao projeto da ficção: a saber, que o traço característico do nosso universo é a simultaneidade. (“O tempo existe para que tudo não aconteça ao mesmo tempo... o espaço existe para que tudo não aconteça com você.”)
Contar uma história é dizer: essa é a história importante. É reduzir a dispersão e a simultaneidade de tudo a algo linear, um caminho.
Ser um ser humano moral é prestar, ser obrigado a prestar, vários tipos de atenção.
Quando fazemos juízos morais, não estamos apenas dizendo que isso é melhor do que aquilo. De um modo até mais fundamental, estamos dizendo que isso é mais importante do que aquilo. É ordenar a avassaladora dispersão e simultaneidade de tudo, ao preço de ignorar ou dar as costas para a maior parte daquilo que acontece no mundo.
A natureza dos juízos morais depende da nossa capacidade de prestar atenção — uma capacidade que, inevitavelmente, tem seus limites, mas que podem ser estendidos.
Porém talvez o começo da sabedoria, e da humildade, seja baixar a cabeça e reconhecer a ideia, a devastadora ideia, da simultaneidade de tudo, e reconhecer a incapacidade do nosso entendimento moral — que é também o entendimento do romancista — de aceitar isso.
Talvez essa seja uma consciência que surja mais facilmente para poetas, os quais não crêem plenamente em contar histórias. O supremo poeta e prosador português do século XX Fernando Pessoa escreveu na sua suma em prosa, O livro do desassossego:
 
Descobri que penso sempre, e atendo sempre, em duas coisas ao mesmo tempo. Todos, suponho, serão um pouco assim. [...] Sucede comigo que têm igual relevo as duas realidades a que atendo. Nisso consiste a minha originalidade. Nisso, talvez, consiste a minha tragédia, e o que a faz cômica.
 
Sim, todos são um pouco assim... mas a consciência da duplicidade do pensamento é uma posição desconfortável, muito desconfortável, se mantida por muito tempo. Parece normal que as pessoas reduzam a complexidade daquilo que sentem e pensam, e barrem a consciência do que se encontra fora do âmbito da sua experiência imediata.
Será que essa recusa de uma consciência ampliada, que incorpora mais do que está se passando bem agora, bem aqui, não está no coração da nossa sempre confusa consciência do mal humano, e da imensa capacidade dos seres humanos de praticarem o mal? Como existem, indiscutivelmente, zonas da experiência que não são penosas, que trazem alegria, o fato de que exista tanta infelicidade e tanta maldade se torna, eternamente, um enigma. Boa parte da narrativa e da especulação que tenta libertar-se da narrativa e tornar-se puramente abstrata pergunta: Por que o mal existe? Por que as pessoas traem e matam umas às outras? Por que os inocentes sofrem?
Mas talvez o problema deva ser reformulado: Por que o mal não está em toda parte? Mais exatamente, por que ele está em certo lugar — mas não em outro? E o que devemos fazer quando ele não nos afeta? Quando a dor que se suporta é a dor dos outros?
Ao saber das notícias aterradoras do grande terremoto que arrasou Lisboa no dia 1o de novembro de 1755 e que (se acreditarmos nos historiadores) levou consigo o otimismo de toda uma sociedade (mas obviamente não acredito que uma sociedade tenha uma única atitude básica), o grande Voltaire ficou chocado diante da incapacidade de assimilar o que acontecia em outras terras. “Lisboa jaz em ruínas”, escreveu Voltaire, “e aqui em Paris nós dançamos.”
Podemos supor que, no século XX, na era do genocídio, as pessoas não julguem paradoxal nem surpreendente que alguém possa ser tão indiferente ao que está acontecendo simultaneamente longe da sua casa. Não é uma parte da estrutura fundamental da experiência que “agora” se refira tanto a “aqui” como “lá”? E, no entanto, atrevo-me a afirmar, somos tão capazes de nos surpreender — e de nos frustrar com a inadequação da nossa reação — com a simultaneidade de destinos humanos loucamente contrastantes como era Voltaire, dois séculos e meio atrás. Talvez seja nossa eterna sina ficarmos surpresos com a simultaneidade dos fatos — com a mera extensão do mundo no tempo e no espaço. Que estejamos aqui, agora, prósperos, seguros, com pouca probabilidade de dormir com fome ou de sermos despedaçados por uma explosão nesta noite... enquanto longe daqui, em outras partes do mundo, exatamente agora... em Grózni, em Najaf, no Sudão, no Congo, em Gaza, nas favelas do Rio...
Ser um viajante — e romancistas são muitas vezes viajantes — é lembrar-se constantemente da simultaneidade do que acontece no mundo, o nosso mundo e o mundo muito diverso que visitamos e do qual voltamos para “casa”.
Um início de resposta a essa consciência dolorosa é dizer: é uma questão de solidariedade... dos limites da imaginação. Também podemos dizer que não é “natural” ficar lembrando que o mundo é tão... amplo. Que, enquanto isso está acontecendo, aquilo também está acontecendo.
É verdade.
Mas, eu responderia, é por isso que precisamos de ficção: para ampliar o nosso mundo.

Os romancistas, portanto, cumprem a sua tarefa moral necessária com base no seu direito de um calculado encolhimento do mundo, tal como ele é de fato — tanto no espaço como no tempo.
Os personagens de um romance agem no interior do tempo que já está completo, onde tudo o que vale a pena guardar foi preservado — como diz Henry James, no seu prefácio a Os espólios de Poynton, um tempo “isento de acréscimos impertinentes” e de sucessão a esmo. Todas as histórias reais são histórias do destino de alguém. Os personagens de um romance têm destinos intensamente legíveis.
O destino da literatura em si é outra coisa. A literatura, como história, é repleta de acréscimos impertinentes, de exigências irrelevantes, atividades sem propósito, atenção desperdiçada.
Habent sua fata fabulae, como diz a expressão latina. Contos, histórias, têm o seu próprio destino. Porque são difundidos, transcritos, mal lembrados, traduzidos.
Claro, não queremos que seja de outro modo. A escrita de ficção, atividade necessariamente solitária, tem um destino necessariamente público, comunitário.
Tradicionalmente, todas as culturas são locais. Cultura implica barreiras (por exemplo, linguísticas), distância, intraduzibilidade. Ao passo que “o moderno” significa, acima de tudo, a abolição de barreiras, de distância; acesso instantâneo; o nivelamento da cultura — e, por sua inexorável lógica, a abolição ou a revogação da cultura.
O que serve ao “moderno” é a padronização, a homogeneização. (De fato, “o moderno” é homogeneização, padronização. O lugar essencial do moderno é o aeroporto; e todos os aeroportos são iguais, assim como todas as novas cidades modernas, de Seul a São Paulo, tendem a ser iguais.) Esse impulso rumo à homogeneização não pode deixar de afetar o projeto da literatura. O romance, marcado pela singularidade, só pode entrar nesse sistema de difusão máxima graças à ação da tradução, que, conquanto necessária, acarreta uma distorção inerente daquilo que o romance é no seu nível mais profundo — que não é a comunicação de informação, nem mesmo o relato de histórias envolventes, mas sim a perpetuação do projeto da literatura em si, com o seu convite para desenvolver o tipo de introspecção que resiste às saciedades modernas.
Traduzir é transportar algo através de fronteiras. Porém, cada vez mais, a lição dessa sociedade, uma sociedade que é “moderna”, é que não existem fronteiras — o que significa, é claro, nada mais nada menos do que: não existem fronteiras para os setores privilegiados da sociedade, que são mais móveis geograficamente do que nunca na história da humanidade. E a lição da hegemonia dos meios de comunicação de massa — televisão, MTV, internet — é que só existe uma cultura, aquela que se encontra para além das fronteiras, em toda parte, que é — ou será um dia — apenas mais do mesmo, com todos no planeta se nutrindo da mesma forma com os padronizados entretenimentos e fantasias de Eros e violência manufaturados nos Estados Unidos, no Japão, onde for; com todos sendo instruídos pelo mesmo fluxo, de final aberto, de bits de opinião e informação sem filtros (ainda que, de fato, muitas vezes censurados).
Não se pode negar que algum prazer e algum esclarecimento possam ser transmitidos por tais meios. Mas eu ponderaria que a mentalidade que eles fomentam e os apetites que alimentam são inteiramente inimigos da escrita (produção) e da leitura (consumo) de literatura séria.
A cultura transnacional, para a qual todos que pertencem à sociedade consumista capitalista — também conhecida como economia global — estão sendo recrutados, é uma cultura que, a rigor, torna a literatura irrelevante — um mero serviço público que nos oferece aquilo que já sabemos — e pode encaixar-se nas estruturas de final aberto para a aquisição de informação e para a observação voyeurística a distância.
Todo romancista espera alcançar o público mais amplo possível, transpor o máximo de fronteiras possível. Mas é tarefa do romancista, creio, e acredito que Nadine Gordimer concorda comigo — é tarefa do romancista ter em mente a geografia cultural espúria que está sendo instalada no começo do século XXI.
De um lado temos, por meio da tradução e da reciclagem na mídia, a possibilidade de uma difusão cada vez maior de nossa obra. O espaço, por assim dizer, está sendo conquistado. O aqui e o lá, assim nos dizem, estão em contato constante entre si e estão convergindo de forma pujante. De outro lado, a ideologia por trás dessas oportunidades sem precedentes de difusão, tradução — a ideologia hoje dominante no que é tido por cultura nas sociedades modernas — é projetada para tornar obsoleta a tarefa crítica, profética, e até subversiva, do romancista, que compreende aprofundar e, às vezes, conforme a necessidade, opor-se às interpretações comuns do nosso destino.
Longa vida à tarefa do romancista.

Susan Sontag, em Ao Mesmo Tempo – Ensaios e Discursos

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Mariana e Mestrinho (Ao Vivo) | Te Vejo No Palco 2025

My Dear

Chove a cântaros. Daqui de dentro penso sem parar nos gatos pingados. Mãos e pés frios sob controle. Notícias imprecisas, fiquei sabendo. É de propósito? Medo de dar bandeira? Ouça muito Roberto: quase chamei você mas olhei para mim mesmo etc. Já tirei as letras que você me pediu.
O dia foi laminha. Célia disse: o que importa é a carreira, não a vida. Contradição difícil. A vida parece laminha e a carreira é um narciso em flor. O que escrevi em fevereiro é verdade mas vem junto dram de desocupado. Agora fiquei ocupadíssima, ao sabor dos humores, natureza chique, disposição ambígua (signo de gêmeos).
Depois que desliguei o telefone me arrependi de ter ligado, porque a emoção esfriou com a voz real. Ao pedir a ligação, meu coração queimava. E quando a gente falou era tão assim, você vendo tv e eu perto de bananas, tão sem estilo (como nas cartas). Você não acha que a distância e a correspondência alimentam uma aura (um reflexo verde na lagoa no meio do bosque)?
Penso no Thomas. Passou o frio dos primeiros dias. Depois, desgosto: dele, do pau dele, da política dele, do violão dele. Mas não tenho mexido no assunto. Entrei de férias. Tenho medo que o balanço acabe. O Thomas de hoje é muito mais velho do que eu. Não liga mais, estuda, milita e amor a Martinica de longos peitos e dentes perfilados, tanta perfeição.
Atraída pelo português de camiseta que atendeu no Departamento Financiero. Era jacaré e tinha bigode de pontas. Ralhei com tesão que me deu uma dor puxada.
Só hoje durante a vista de Cris é que me dei conta qie batizei a cachorra com o nome dela. Tive discreto repuxo de embaraço quando gritei com Cris que me enlameava o tapete. Cris fugiu mas Cris não percebu (julgando-se tavez homenageada?). Gil por sua vez leu como sempre no smeus lábios e eclatou de riso típico umidificante.
O mesmo Gil jura que são de Shakespeare os versos “trepar é humano, chupar é divino” e desvia o olhar do centro da mesa, depois de diagnosticar silenciosamente minha paranóia.
Deu discussão hoje com a Mary. Segundo ela Altmann é cruel com a classe média e isso é imperdoável. Me senti acusada e balbuciei uma bela briga. Ao chegar em casa pesou a mão imperdoável na barriga. Mary tem sempre razão.
Gil diz que ela não se abre comigo porque sabe que minha inveja é maior que meu amor. Ao telefone me conta da carreira e cacacá. Por Gil porém sei dos desastres do casamento. Comigo ela não fala.
Ontem fizemos um programa, os três. Nessas ocasiões o ciúme fica saliente, rebola e diz gracinhas que nem eu mesma posso adiantar. Ninguém sabe, mas ele tem levezas de um fetinho. É maternal, põe fraldas, enquanto o trio desanca seus caprichos. Resulta um show de uva, brilhante microfone do ciúme! Há sempre uma sombra em meu sorriso (Roberto). A melancólica sou eu, insisto, embora você desaprove sempre, sempre. Aproveito para pedir outra opinião.
Gil diz que sou leoa-marinha e eu exijo segredo absoluto (está ficando convencido): historinhas ruminadas na calçada são afago para o coração. Quem é que pode saber? Eu sim sei fazer calçada o dia todo, e bem. Do contrário...
Não fui totalmente sincera.
Recebi outro cartão postal de Londres. Agora diz apenas: “What are men for?”. Sem data.
Não consigo dizer não. Você consegue?
E a somatização, melhorou?
Insisto no sumário que você abandonou ao deus-dará: 1. bondade que humilha; 2. necessidade versus prazer; 3. filhinho; 4. prioridades; 5. what are men for.
Sonho da noite passada: consultório escuro em obras; homens trabalhando; cama e tijolos; decidi esperar no banheiro, onde havia um patinete, anúncios de pudim, um sutiã preto e outros trastes. De quem seria o sutiã? Ele dormiu aqui? Já nos vimos antes, eu saindo e você entrando? Deitados lado a lado, o braço dele me tocando. Chega pra lá (sussurro). Ela deu minha blusa de seda para a empregada. Sem ele não fico em casa. Há três dias que pareço morar onde estou (ecos de Ângela). Aquele lugar de desatenção neurológica me deixa louca. Saímos para o corredor. Você vai ter um filho, ouviu?
Passei a tarde toda na gráfica. O coronel implicou outra vez com as minhas ideias mirabolantes da programação. Mas isso é que é bom. Escrever é a parte que chateia, fico com dor nas costas e remorso de vampiro. Vou fazer um curso secreto de artes gráficas. Inventar o livro antes do texto. Inventar o texto pra caber no livro. O livro é anterior. O prazer é anterior, boboca.
Epígrafe masculina do livro (há outra, feminina, mais contida), do Joaquim: “É a crônica de uma tara gentil, encontro lírico nas veredas escapistas de Paquetá, imaginética, verbalização e exposição de fantasias eróticas. Contém denúncia da vocação genital dos legumes, a inteligência das mocinhas em flor, a liberdade dos jogos na cama, a simpatia pelos tarados o gosto pela vida e a suma poética de Carlos Galhardo”.
Meu pescoço está melhor, obrigada.
Quanto à história das mães, acenando umas para as outras com lençóis brancos, enquanto a filha afinal não presta assim tanta atenção, só posso dizer que corei um pouco de ser tudo verdade. F. Pensa não percebe, mas como sempre mente muito.
Mente muito! Só eu sei. Vende a alma ao diabo negociando a inteligência alerta pela juventude eterna. Você diria? No pacto é pura Rita Hayworth, com N. Na cenografia, encaixilhando espelhos. Brincam de casinha na hora vaga. Na festa que deram Gil alto discursava que casamento é a solução, mestre da saúde. Ironias do destino. Seguiu-se é claro ressaca sonsa e ciúmes rápidos de Rita.
Não estou conseguindo explicar minha ternura, minha ternura, entende?
Fica difícil fazer literatura tendo o Gil como leitor. Ele lê para desvendar mistérios e faz perguntas capciosas, pensando que cada verso oculta sintomas, segredos biográficos. Não perdoa o hermetismo. Não se confessa os próprios sentimentos. Já Mary me lê toda como literatura pura, e não entende as referências diretas.
Na mesa do almoço Gil quis saber a verdadeira identidade de um Jean-Luc, e diante de todos fez clima de conluio, julgando adivinhar tudo. Na saída me fez jurar sobre o perfil dos sepulcros santos – Gil está sempre jurando ou me fazendo jurar. E depois você ainda diz que eu não respondo.
Ainda aguardando.
Beijo.
Júlia

P.S. 1 – Não quero que T. Leia nossa correspondência, por favor. Tenho paixão mas também tenho pudor!
P.S. 2 – Quando reli a carta descobri alguns erros ortográficos, inclusive a falta do h no verbo chorar. Não corrigi para não perder um certo ar perfeito – repara a paginação gelomatic, agora que sou artista plástica.

Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés

Téo & O Mini Mundo

Quem bate?

Cecília. Cecília que chega de um pátio da infância... Traz ainda sereno nas tranças, seus sapatinhos andaram pulando na grama... Depois assenta-se nos degraus da torre, e canta...
Mas o chaveiro do sonho pegou-lhe as tranças, teceu cordoalhas para o seu navio. Mas o chaveiro do sonho pegou-lhe a canção... E fez um vento longo e triste.
E eu pensava que toda a minha tristeza vinha apenas do vento, da solidão do mar, da incerteza daquela viagem num navio perdido…

Mário Quintana, em Sapato Florido

Confissões de um homem suficientemente insano para viver com as feras



Estava acomodado com outra pessoa. Estávamos no segundo andar de uma cabana e eu estava trabalhando. Foi isso que quase me matou, beber toda a noite e trabalhar o dia inteiro. Continuava jogando a garrafa pela mesma janela. Costumava levar aquela janela até uma vidraçaria na esquina e eles a arrumavam para mim, colocavam um novo vidro na janela. Fazia isso uma vez por semana. O homem olhava para mim estranhamente todas as vezes, mas sempre aceitava meu dinheiro, que parecia normal para ele. Eu andava bebendo muito, continuamente há 15 anos, e, certa manhã, acordei e lá estava: o sangue escorrendo pela minha boca e pelo meu cu. Cagalhões pretos. Sangue, sangue, cachoeiras de sangue. Sangue fede mais que merda. Ela chamou um médico e a ambulância veio me buscar. Os paramédicos disseram que eu era grande demais para ser carregado pelas escadas e me pediram para caminhar.
Tudo bem, caras – eu disse.
Ficamos agradecidos... não queremos que faça muita força.
Lá fora subi na maca. Eles a abriram para mim, e me estendi ali em cima como uma flor a fenecer. Uma flor infernal. Os vizinhos estavam com as cabeças para fora das janelas, ficavam nos degraus da escada enquanto eu passava. Viam-me bêbado na maior parte das vezes.
Olhe, Mabel – disse um deles –, lá se vai aquele homem terrível!
Deus tenha piedade de sua alma! – era a resposta.
Boa e velha Mabel. Escapou-me boca afora uma golfada de sangue que atingiu a ponta da maca, e alguém pronunciou:
OOOOOhhhhhh.
Embora eu estivesse trabalhando, não tinha nenhum dinheiro, então fui levado novamente para a ala de caridade. A ambulância estava cheia. Tinham compartimentos na ambulância e todos estavam tomados por outras pessoas.
Casa cheia – disse o motorista. – Vamos lá.
Foi uma viagem péssima. Balançamos e sacudimos. Fiz todo o esforço que podia para não botar mais sangue para fora, porque não queria deixar ninguém fedendo.
Oh – ouvi a voz de uma negra –, não posso acreditar que isso esteja acontecendo comigo, não posso acreditar, oh, Deus, me ajude!
Deus é muito popular em lugares como esse.
Colocaram-me em um porão escuro e alguém me deu alguma coisa para tomar em um copo com água e isso foi tudo. De vez em quando eu vomitava um pouco de sangue no pote que ficava perto da cama. Havia quatro ou cinco de nós ali. Um dos homens estava bêbado... e insano... mas parecia forte. Ele saiu de seu catre e vagueou pelos arredores, andou aos tropeços, caindo por cima de outros homens, derrubando as coisas no chão:
Eu era, era, eu, eu sou o juba, o joba, jujoba, eu era, uepa, juba.
Peguei o jarro de água para bater nele, mas ele não se aproximou o suficiente. Finalmente caiu em um canto e desmaiou. Fiquei em um porão a noite inteira e até o meio-dia do dia seguinte. Então me levaram para o andar de cima. A ala estava superlotada. Fui colocado em um canto escuro.
Oh, ele vai morrer naquele canto – disse uma das enfermeiras.
É... – disse a outra.
Levantei, numa noite, e não consegui chegar até o banheiro. Deixei sangue sobre toda a parte central do piso. Caí e estava muito fraco para me levantar. Chamei por uma enfermeira, mas as portas que davam acesso para aquela ala eram cobertas de estanho de três a seis polegadas de espessura e ninguém poderia me ouvir. Uma enfermeira vinha fazer uma ronda uma vez a cada duas horas, procurando por mortos. Levavam muitos mortos embora durante a noite. Eu não conseguia dormir e costumava ficar observando a retirada. Puxavam um sujeito de um catre para a maca e puxavam um lençol por sobre a cabeça dele. Aquelas macas estavam sempre muito bem lubrificadas. As rodinhas não faziam nenhum barulho. Gritei:
Enfermeira! – sem saber exatamente por quê.
Cale a boca! – um dos velhos me disse. – Queremos dormir!
Desmaiei.
Quando retomei a consciência, todas as luzes estavam acesas. Duas enfermeiras estavam tentando me erguer.
Disse para você não sair da cama – falou uma delas.
Eu não conseguia falar. Tambores rufavam em minha cabeça. Senti que estava me esvaziando. Parecia que conseguia ouvir tudo, mas não conseguia ver, apenas clarões de luz, era o que parecia. Mas nada de pânico nem medo, apenas uma sensação de estar esperando, aguardando por algo sem me importar.
Você é muito grande – disse uma delas –, suba nesta cadeira.
Colocaram-me em uma cadeira de rodas e me empurraram pelo corredor. Sentia-me como se não pesasse mais de três quilos.
Então estavam ao meu redor: pessoas. Lembro de um médico vestindo um avental verde, um avental de operação. Parecia estar furioso. Estava falando com a enfermeira-chefe.
Por que esse homem não recebeu uma transfusão? Ele está quase sem nada.
Seus papéis passaram pelo andar inferior enquanto eu estava no andar de cima e foram preenchidos antes que eu os visse. E, além disso, doutor, ele não tem nenhum crédito sanguíneo.
Quero um pouco de sangue aqui em cima e quero AGORA!
Quem raios será esse sujeito”, pensei, “muito estranho. Muito incomum para um médico.”Começaram as transfusões... nove bolsas de sangue e oito de glicose.
Uma enfermeira tentou me alimentar com rosbife e batatas e ervilhas e cenouras na minha primeira refeição. Ela colocou a bandeja na minha frente.
Raios, não posso comer isso – eu lhe disse. – Esse negócio vai me matar!
Coma – ela disse –, está na sua lista, é a sua dieta.
Traga-me um pouco de leite – eu disse.
Coma isso – ela disse e se afastou.
Deixei a comida onde estava.
Cinco minutos depois, ela voltou correndo pela ala.
Não COMA ISSO! – ela gritou. – Você não pode COMER ISSO!! Houve um erro na lista!
Ela levou tudo embora e voltou com um copo de leite.
Assim que a primeira bolsa de sangue esvaziou-se dentro de mim, colocaram-me em uma maca com rodas e me levaram para a sala de raio X. O doutor me mandou ficar em pé. Eu não conseguia, acabava sempre caindo de costas.
PORRA DO CARALHO! – ele gritou. – VOCÊ ME FEZ DESPERDIÇAR OUTRO FILME! AGORA FIQUE EM PÉ E NÃO CAIA!
Tentei, mas não consegui ficar em pé. Caí de costas.
Oh, merda – ele disse para a enfermeira –, leve-o daqui.
Domingo de Páscoa, a banda do Exército da Salvação tocou bem embaixo da nossa janela às cinco horas da madrugada. Tocaram músicas religiosas horrorosas, tocaram mal e muito alto, e isso era para mim como mergulhar em um pântano, sentia a música correr pelo meu corpo, quase me matou. Senti-me tão perto da morte naquela manhã como jamais tinha me sentido antes. Estava a um centímetro de distância, um fio de cabelo de distância. Finalmente foram embora para outra parte do pátio e comecei a voltar à vida. Diria que, naquela manhã, eles mataram provavelmente meia dúzia de prisioneiros com aquela sua música.
Então meu pai apareceu com a minha puta. Ela estava bêbada, e eu sabia que ele tinha dado dinheiro a ela para beber e que também a havia trazido, deliberadamente, para que eu a visse bêbada. Fez isso para me entristecer. O velho e eu éramos inimigos de longa data... ele acreditava em tudo aquilo que eu não acreditava e vice-versa. Ela cambaleava em frente à minha cama, embriagada, o rosto rubicundo.
Por que você a trouxe aqui nesse estado? – perguntei. – Por que não esperou até outro dia?
Disse que ela não prestava! Sempre disse que ela não prestava!
Você a embebedou e então a trouxe aqui. Por que você continua fazendo isso comigo?
Eu disse que ela não prestava, eu avisei, eu avisei!
Seu filho da puta, se você disser mais uma palavra, vou tirar essa agulha do meu braço e cagar você a pau!
Ele a tomou pelo braço e os dois partiram.
Acho que telefonaram para eles dizendo que eu ia morrer. A hemorragia continuava. Naquela noite, um padre veio me visitar.
Padre – eu disse –, sem ofensas, mas, por favor, gostaria de morrer sem nenhum rito, sem nenhuma palavra.
Fiquei surpreso, então, porque ele balançou e se inclinou para trás sem acreditar no que tinha ouvido, foi quase como se eu tivesse batido nele. Digo que fiquei surpreso, porque imaginava que esses rapazes levassem as coisas de maneira mais tranquila. Mas, enfim, eles também tinham que limpar os próprios rabos.
Padre, fale comigo – disse um velho –, você pode falar comigo.
O padre foi até ele e o velho e todos os demais ficaram felizes.
Treze dias depois da noite em que fui internado, estava dirigindo um caminhão e carregando sacos de 25 quilos. Uma semana mais tarde, bebi meu primeiro copo de cerveja... o copo que, diziam, iria me matar.
Acho que algum dia vou morrer em uma ala de caridade de merda. Parece que simplesmente não consigo me livrar disso.

Charles Bukowski, em Sobre bêbados e bebidas

“Você demorou.”


 “Você demorou.” Minha mãe. “Estava preocupada.” Minha mãe. “Você sabe que fico preocupada quando demora.” Minha mãe. “Por que demorou?” Minha mãe. “Voltei a pé, mãe.” “A pé? Mas é muito longe! E o dinheiro que te dei para voltar de metrô?” “Esqueci”, minto. Podia mentir muito mais, sempre menti para ela, vivo mentindo, conto com a ajuda dos outros para mentir, senão seria impossível. Desta vez rabi Shlomo. Voltei à sinagoga, tremendo, não lembro bem como cheguei lá, mas cheguei, o que falei, mas falei, como saí de lá, mas saí, como voltei para casa, mas voltei, aqui estou, minha mãe me bombardeando de perguntas, por que demorou, onde estava, minto, e agora: “Como foi a aula?”, “Posso marcar o bar mitzvah?”, “O que aprendeu?”, e começa a falar em hebraico para me testar, um hebraico com sotaque carioca, não o mesmo hebraico de rabi Shlomo, não o mesmo hebraico de Moisés, Moisés falava hebraico?, tenho que estudar, o hebraico de mamãe não tem nenhuma sacralidade, não passa de uma centena de palavras aprendidas há quase quarenta anos, não os quarenta anos de Moisés, e nunca mais usadas. “Vou para o quarto”, digo, “Tenho que estudar para a próxima aula.” Ela aquieta-se, que mãe judia não quer escutar isso? Vou para o quarto estudar. Ela se delicia com a resposta, enxuga as mãos secas no pano de prato pendurado na barra do vestido, sorri, o filho em casa, o filho obediente que vai para o quarto estudar sem ela nem pedir, mazel tov, dona Marlene, mazel tov. Mas é mentira. Sei lidar com mamãe, a vida inteira tentando ser o que ela queria, primeiro menina, Sara, errei já no nascimento, depois bom filho, esportista, e então o jogo de tênis e papai morto quando tentou fazer um voleio, e agora judeu, o bom menino judeu. Fracasso a cada tentativa, mas dissimulo, para ela sei dissimular, preciso. Fecho a porta do quarto: um erro. O espelho atrás da porta, eu refletido no espelho, um homem com olhos azuis de Jesus que brilha por trás do reflexo, uma piscadela me chamando, um dibuk, rabi Shlomo diria, diria se eu tivesse contado a verdade, outra morte, outra morte na minha frente, primeiro papai, agora Jesus, um Jesus gay me cortejava na estação do metrô, o barulho dele batendo no vidro e subindo, o eco desse barulho, depois o baque seco, pesado, do corpo dele batendo no teto do metrô, as pessoas gritando, aqueles olhos lindos gritando, azuis, lindos, para mim, azuis, para mim, para mim, para mim, Mariquinhos, Mariquinhas, Mariquinhos. Agora é mamãe que grita, “Marquinhos”, desperto, nu, na frente do espelho, “Marquinhos, o jantar em cinco minutos”, nu, na frente do espelho, pau duro, nu, na frente do espelho, pau duro, me masturbo para o Jesus gay de olhos azuis, um dibuk, me masturbo com força, raiva, até que não gozo em minha mão, mesmo fazendo toda a força o desejo permanece preso, incurável, incubado. Mariquinhos, Mariquinhas, dibuk. Limpo minhas mãos secas no lençol.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Snarky Puppy & Metropole Orkest | Recurrent

Cabeceira

O mundo se bate por uma variável
língua e não nos entendemos.
Aros na estiagem são o fonema
que faliu sem gerar comunicação.
Não houve tempo, nem vontade
para coser o pacto? Era preciso,
sob pena de se exaurir o homem.
Esperamos em vão o repasto,
tarde o centeio explodiu em pão.
Que fazer? A relva onde os cavalos
crisparam se apagou, arreios cospem
a lição de pedra. Como não ver
o golpe que vitimou a todos?
Testemunhamos o cós armado
do inimigo, a pira onde a liberdade
expirou, os prazos insondáveis.
Nós, tão confortados pela certeza
de que o passado era um bazar.
E que entre rubis, enxovais,
nenhuma traça fiava às avessas.
Ideias, no entanto, forçam as paredes.
Entre o que fizemos, e não,
algo se revela necessário ainda.

Edimilson de Almeida Pereira, em Guelras

Diário de Bernardo Soares

87.

A metafísica pareceu-me sempre uma forma prolongada da loucura latente. Se conhecêssemos a verdade, vê-la-íamos; tudo o mais é sistema e arredores. Basta-nos, se pensarmos, a incompreensibilidade do universo; querer compreendê-lo é ser menos que homens, porque ser homem é saber que se não compreende.
Trazem-me a fé como um embrulho fechado numa salva alheia. Querem que o aceite, mas que o não abra. Trazem-me a ciência, como uma faca num prato, com que abrirei as folhas de um livro de páginas brancas. Trazem-me a dúvida, como pó dentro de uma caixa; mas para que me trazem a caixa se ela não tem senão pó?
Na falta de saber, escrevo; e uso os grandes termos da Verdade alheios conforme as exigências da emoção. Se a emoção é clara e fatal, falo, naturalmente, dos deuses e assim a enquadro numa consciência do mundo múltiplo. Se a emoção é profunda, falo, naturalmente, de Deus, e assim a engasto numa consciência una. Se a emoção é um pensamento, falo, naturalmente, do Destino, e assim a encosto à parede.
Umas vezes o próprio ritmo da frase exigirá Deus e não Deuses: outras vezes, impor-se-ão as duas sílabas de Deuses e mudo verbalmente de universo; outras vezes pesarão, ao contrário, as necessidades de uma rima íntima, um deslocamento do ritmo, um sobressalto de emoção e o politeísmo ou o monoteísmo amolda-se e prefere-se. Os Deuses são uma função do estilo.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

A brasilidade no traço de Portinari

Menino com Carneiro (1953), de Cândido Portinari

O convidado agradece

Há dias, em certo jantar naquela cobertura da Zona Sul, um convidado pediu a palavra, e tal foi a surpresa que ninguém se mexeu para recusá-la. É de lembrar que há muito na Zona Sul desapareceu o hábito de usar da palavra à maneira clássica: um falando e os demais reduzidos ao silêncio, ouvindo. Há talvez meio século que se instituiu a conversa generalizada, isto é, todos falando ao mesmo tempo, com a voz ou com o garfo, pois comer é também maneira eficiente de comunicar-se: o apetite chama o apetite, e os apetites porfiam no diálogo manducativo. Esta segunda técnica de comunicação é, mesmo, a preferida.
Não se lhe tendo recusado a palavra, ela também não lhe foi concedida, pois o espanto dominava as fisionomias e os talheres. À falta de sim ou não, peremptório, o homem tomou a palavra resolutamente, e disse que ia agradecer. Agradecer o quê? perguntou a si mesmo. E a si mesmo respondeu, como o saudoso ministro Ataulfo de Paiva: tudo. E prosseguiu:
Tudo é para agradecer, a começar pelo fato de estarmos aqui reunidos, degustando o excelentíssimo arroz com castanha-de-caju, digno da mesa dos deuses, como outro igual ainda não comi, e creio que todos os presentes jurarão o mesmo. Gozar da amizade de Baby e Lulu Fontamaro é uma felicidade para o coração e para o paladar.
Mas, se estamos aqui reunidos, papando o bom arroz do casal, obviamente é porque emplacamos mais este setenta e um, e se emplacamos, é forçoso agradecer o emplacamento. Já imaginaram se todos nós houvéssemos tomado a barca de Caronte antes desta noite amena sob as estrelas, pois até estrelas Lulu e Baby providenciaram neste dezembro de chuva? Que desolação reinaria nesta casa, que abandono, que gélidas imagens de finitude — mas nem quero insistir, rendo graças à vida e à sua conservação, à maravilhosa circunstância de termos vencido todos os elementos que conspiravam contra a nossa permanência em nossos respectivos domicílios, gabinetes, escritórios, empregos e mesmo desempregos, pois há quem viva disto, e viva bem.
Agradecer à vida é agradecer inclusive os seus males, porque nos pouparam ou só de leve nos atingiram com sua farpa. Nossas gripes não se entenebreceram em pneumonias duplas; nossos embaraços gástricos e/ou financeiros não nos derrubaram. Passo os olhos em torno desta mesa florida (que soberbo arranjo de flores você conseguiu com sua criatividade, Baby!) e não vejo nenhum aleijado. Se alguém aqui usa perna mecânica, eu o felicito, pois absolutamente não se percebe, e noto nos convivas uma aérea leveza de Nureyev. Graças! graças sejam dadas à vida, em sua plenitude às vezes contraditória, mas, no fundo, dialética, perfazendo a síntese expressa nesta gratíssima reunião!
Agradeço ao charuto do nosso amigo Nivaldo, que, ao acendê-lo antes de terminado o jantar, e soprando baforadas junto às faces pulcras de Jeanete Taborda, nem por isto eleva o índice de poluição ambiente na Guanabara, pois como este índice já chegou ao máximo, pretensão inútil seria tentar aumentá-lo. Eis uma demonstração objetiva que devemos ao Nivaldo (obrigado, companheiro), ao mesmo tempo em que cabe agradecimento especial ao referido índice de poluição, de vez que ele comprovou a fortaleza de nossos organismos, resistentes a tudo. Enfrentaremos sorridentes os futuros flagelos sociais que se desencadearem sobre nossas cabeças, uma vez que o homem provou ser sempre superior a qualquer flagelo na história, sem embargo das baixas sofridas na sempiterna peleja.
Agradeço à língua portuguesa por me haver obsequiado com esta palavra sempiterna, que suponho pronunciada pela primeira vez na Zona Sul, onde se diz que tudo é passageiro, as situações não duram mais que uma estação de praia ou um drink no Country, e amanhã já é ontem. Agradeço às guerras não declaradas, ou declaradíssimas, no Vietnã, no Camboja, no Oriente Médio, no Paquistão Oriental, por absurdo que pareça meu ponto de vista: elas estimulam o estudo da geografia através de notações concretas, dão matéria a correspondentes, fotógrafos e comentaristas internacionais, e assegurando a continuidade dos debates acadêmicos na ONU, garantem trabalho infindável às delegações. Eu quisera estar lá (na ONU, não na guerra) em pessoa, mas, como nem sempre as aspirações elevadas são factíveis, dar-me-ei por satisfeito (e agradecerei) se o governo se lembrar de meu filho Joanito para assessor de qualquer coisa naquela Assembleia. Ele é habilitado.
Em suma, agradeço. De coração. A tudo. Seria impossível minudenciar as gratidões, pois chegamos à sobremesa, e quero agradecer desde logo esta espetacular musse de manga gelada, nunca outra igual saboreamos antes, ou não é de manga? ah, é de pêssego, pois eu afirmo do mesmo modo que…
Aí faltou luz, e o homem acrescentou:
Agradeço à Light: ela não falha nunca nestas horas.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

Leitura do futuro



No ano de 1256, Vincent de Beauvais, homem de vasta cultura letrada, reuniu as opiniões de autores clássicos como Lactâncio e santo Agostinho e, baseado nos escritos deles, listou em sua enorme enciclopédia do mundo, o Speculum majus, o lugar de nascimento das dez sibilas da Antiguidade - Cumes, Cime, Delfos, Eritréia, o Helesponto, Líbia, Pérsia, Frígia, Samos e Tibur. As sibilas, explicava De Beauvais, eram mulheres que falavam por enigmas - palavras inspiradas pelos deuses e que os seres humanos deveriam decifrar. No século X, na Islândia, num monólogo poético conhecido como Voluspa, uma sibila murmurara estas palavras abruptas, como refrão dirigido ao leitor inquisitivo: “Bem, entendes? Ou não?”.
As sibilas eram imortais e quase eternas: uma declarou que começara a dar voz ao seu deus na sexta geração depois do Dilúvio; outra sustentava que era anterior ao próprio Dilúvio. Mas elas envelheciam. A sibila de Cumes, que, desgrenhada, peito arfante, coração arrebatado, conduzira Dnéias ao mundo subterrâneo, viveu durante séculos numa garrafa pendente no meio do ar, e quando as crianças lhe perguntavam o que queria, respondia: Quero morrer. As profecias sibilinas - muitas delas compostas com toda exatidão por algum inspirado poeta mortal depois dos eventos previstos - eram tidas por verdadeiras na Grécia, em Roma, na Palestina e na Europa cristã. Coligidas em nove livros, foram oferecidas pela própria sibila cumeana a Tarquínio, o Soberbo, sétimo e último rei de Roma. Ele se recusou a pagar, e a sibila tocou fogo em três dos volumes.
Novamente ele se recusou: ela queimou outros três. Por fim, o rei comprou os três livros remanescentes ao preço dos nove originais, e eles foram mantidos num baú dentro de um cofre de pedra sob o templo de Júpiter até serem consumidos pelo fogo, em 83 a.C.
Séculos depois, em Bizâncio, doze textos atribuídos às sibilas foram encontrados e reunidos em um único manuscrito; uma versão incompleta foi publicada em 1545.
A mais antiga e mais venerada das sibilas foi Herófila, que profetizou a Guerra de Tróia.
Apolo ofereceu-lhe qualquer presente que quisesse: ela pediu-lhe tantos anos de vida quanto os grãos de areia que segurava na mão. Infelizmente, tal como Títono, esqueceu-se de pedir também a juventude eterna. Herófila era conhecida como a sibila eritréia, e pelo menos duas cidades reivindicavam ser sua terra natal: Marpessos, onde é hoje a província turca de Canalckale (erytrea significa barro vermelho e a terra de Marpessos é vermelha), e Eritréia, mais ao sul, na Jônia, onde é atualmente a província de Izmir. No ano de 162, no começo das guerras contra os partos, Lúcio Aurélio Vero, que durante oito anos compartilhou o trono imperial romano com Marco Aurélio, aparentemente resolveu a questão: ignorando a reivindicação dos cidadãos de Marpessos, entrou na assim chamada Caverna da Sibila, na Eritréia jônica, e colocou ali duas estátuas, uma da sibila e outra da mãe dela, declarando em versos gravados na pedra: “Nenhuma outra é minha pátria, somente Eritréia”. A autoridade da Sibila de Eritréia ficou assim estabelecida.
No ano de 330, Flávio Valério Constantino, que a história lembraria como Constantino, o Grande, tendo derrotado seis anos antes o exército do imperador rival Licínio, afirmou sua posição de chefe do maior império do mundo mudando a capital das margens do Tibre para as margens do Bósforo, em Bizâncio. Para sublinhar o significado dessa mudança de margem, rebatizou a cidade de Nova Roma; a vaidade do imperador e a bajulação de seus cortesãos mudaram o nome novamente - para Constantinopla, a cidade de Constantino.
De modo a tornar a cidade adequada ao imperador, Constantino alargou a velha Bizâncio tanto física quanto espiritualmente. Sua língua era o grego; sua organização política era romana; sua religião – em grande medida graças à influência da mãe de Constantino, santa Helena - era cristã. Criado em Nicomédia, no Império Romano do Oriente, na corte de Diocleciano, Constantino familiarizara-se com boa parte da rica literatura latina da Roma clássica. No grego, sentia-se menos à vontade; quando mais tarde foi obrigado a fazer discursos em grego aos seus súditos, escrevia-os primeiro em latim e depois lia traduções preparadas por escravos cultos. A família de Constantino, originalmente da Ásia Menor, havia cultuado o sol como Apelo, o deus inconquistado, introduzido pelo imperador Aureliano como suprema divindade de Roma em 274. Foi do sol que Constantino recebeu uma visão da Cruz com o dístico In hoc vinces (“Com isto serás vitorioso”) antes de sua batalha contra Licínio; o símbolo da nova cidade de Constantino tornou-se a coroa com raios de sol, feita, assim se acreditava, com os pregos da Santa Cruz, que sua mãe desenterrara perto do morro do Calvário. Tão poderoso era o fulgor do deus Sol que, apenas dezessete anos após a morte de Constantino, a data do nascimento de Cristo o Natal — foi transferida para o solstício de inverno - o nascimento do sol.
Em 313, Constantino e Licínio (com quem Constantino compartilhava então o governo do império e a quem mais tarde trairia) encontraram-se em Milão para discutir "o bem-estar e a segurança do reino" e declararam, num edito famoso, que, "das coisas que são de proveito para toda a humanidade, a adoração a Deus deve ser justamente nossa primeira e principal preocupação, e é justo que cristãos e todos os outros tenham liberdade de seguir o tipo de religião que preferem”. Com esse edito de Milão, Constantino eliminou oficialmente do Império Romano a perseguição aos cristãos, que até ali tinham sido considerados proscritos e traidores, recebendo a punição correspondente. Mas os perseguidos transformaram-se em perseguidores: para afirmar a autoridade da nova religião estatal, vários líderes cristãos adotaram os métodos de seus velhos inimigos. Em Alexandria, por exemplo, onde se supunha que a lendária Catarina fora martirizada pelo imperador Maximíno numa roda circundada de pontas, em 361 o bispo em pessoa comandou o assalto ao templo de Mitra, o deus persa preferido pelos soldados e único competidor sério da religião de Cristo; em 391,o patriarca Teófilo pilhou o templo de Dionísio - o deus da fertilidade, cujo culto era celebrado em mistérios de grande sigilo - e incitou a multidão cristã a destruir a grande estátua do deus egípcio Serápis; em 415, o patriarca Cirilo ordenou a uma multidão de jovens cristãos que entrasse na casa da filósofa e matemática pagã Hipatia, arrastasse-a para a rua, esquartejasse-a e queimasse seus restos em praça pública. Deve-se dizer que o próprio Cirilo não era muito querido.
Depois de sua morte, em 444, um dos bispos de Alexandria pronunciou o seguinte panegírico fúnebre: “Finalmente este homem odioso está morto. Sua partida traz júbilo aos que lhe sobrevivem, mas está destinada a atormentar os mortos. Eles não demorarão muito a se fartar dele, mandando-o de volta para nós. Portanto, ponha uma pedra bem pesada sobre seu túmulo, para que não corramos o risco de vê-lo novamente, mesmo como fantasma”.
O cristianismo tornou-se, como a religião da poderosa deusa egípcia Ísis ou do Mitra persa, uma religião da moda, e na igreja cristã de Constantinopla, superada apenas pela de São Pedro em Roma, os devotos ricos iam e vinham entre os devotos pobres, desfilando uma tal quantidade de sedas e jóias (nas quais histórias cristãs esmaltadas ou bordadas haviam substituído os mitos dos deuses pagãos) que são João Crisóstomo, patriarca da igreja, parava nos degraus e seguia-os com olhares de censura. Os ricos queixavam-se em vão; depois de transfixá-los com os olhos, o santo começou a fustigá-los com a língua, denunciando do púlpito seus excessos. Era indecente, trovejava com eloquência (o nome Crisóstomo significa “língua de ouro”), que um único nobre fosse dono de dez ou vinte casas e até 2 mil escravos, e possuísse portas esculpidas em marfim, chãos de mosaicos coruscantes e moveis incrustados de pedras preciosas.
Mas o cristianismo estava longe de ser uma força política segura. Havia o perigo da Pérsia sassânida, que, antes uma nação de partos sem força, tornara-se um estado em expansão feroz e três séculos mais tarde conquistaria quase todo o Oriente romano.
Havia o perigo das heresias: os maniqueus, por exemplo, para quem o universo não era controlado por um deus onipotente, mas por dois poderes antagônicos, a exemplo dos cristãos tinham missionários e textos sagrados e estavam ganhando adeptos até no Turquestão e na China. Havia o perigo da dissensão política: Constâncio, o pai de Constantino, controlara apenas a parte oriental do Império Romano, e, nos recantos mais distantes do reino, havia administradores que estavam deixando de ser leais a Roma.
Havia o problema da inflação) alta, que Constantino piorou inundando o mercado com ouro expropriado dos templos pagãos. Havia os judeus, com seus livros e argumentos religiosos. E havia ainda os pagãos. Não era da tolerância pregada em seu próprio edito de Milão que Constantino precisava, mas de uma cristandade autoritária, rígida, sem evasivas, de longo alcance, com raízes profundas no passado e uma promessa inflexível para o futuro, estabelecida mediante poderes, leis e costumes terrenos para maior glória do imperador e de Deus.
Em maio de 325, em Nicéia, Constantino apresentou-se aos seus bispos como “o bispo das coisas externas” e declarou que suas recentes campanhas militares contra Licínio haviam sido “uma guerra contra o paganismo corrupto”. Graças aos seus feitos, Constantino seria visto a partir de então como um líder sancionado pelo poder divino, um emissário da própria divindade. (Quando morreu, em 337, foi enterrado em Constantinopla ao lado dos cenotáfios dos doze apóstolos, isto implicando que ele se tornara um décimo terceiro póstumo. Após sua morte, foi geralmente representado na iconografia eclesiástica recebendo a coroa imperial da mão de Deus.) Constantino percebeu que era necessário determinar a exclusividade da religião que escolhera para seu estado. Com tal propósito, decidiu brandir contra os pagãos os próprios heróis deles. Na Sexta-Feira Santa do mesmo ano de 325, em Antióquia, dirigiu-se a uma congregação de seguidores cristãos, entre eles bispos e teólogos, e falou-lhes sobre o que chamou de “verdade eterna do cristianismo”. A assembleia, que batizou de “Assembleia dos Santos”, disse: "Meu desejo é derivar, mesmo de fontes externas, um testemunho da natureza divina de Cristo. Pois, diante de tal testemunho, é evidente que mesmo aqueles que blasfemam Seu nome deverão reconhecer que Ele é Deus e o Filho de Deus, se de fato acreditarem nas palavras daqueles cujos sentimentos coincidem com os deles próprios". Para provar isso, Constantino invocou a sibila Eritréia.
O imperador contou à plateia de que modo a sibila, em tempos longínquos, fora entregue “pela insensatez de seus pais” ao serviço de Apolo, e de que modo. “no santuário de sua vã superstição”, ela respondera às perguntas dos seguidores de ApoIo. “Em certa ocasião, no entanto”, explicou ele, a sibila “ficou realmente cheia de inspiração do alto e declarou em versos proféticos os propósitos futuros de Deus, indicando claramente o advento de Jesus pelas letras iniciais de uma série de versos, os quais formavam um acróstico com estas palavras: JESUS CRISTO, FILHO DE DEUS, SALVADOR, CRUZ.”
Constantino então declamou o poema da sibila.
Magicamente, o poema (cuja tradução começa com “Julgamento! (Os poros exsudantes da terra marcarão o dia”) contém de fato o acróstico divino. Para refutar todo e qualquer cético, Constantino imediatamente admitiu a explicação óbvia: “que alguém professando nossa fé e não estranho à arte poética foi o autor desses versos”. Mas descartou tal possibilidade: “A verdade, porém, nesse caso, é evidente, uma vez que a diligência de nossos compatriotas fez um cômputo cuidadoso dos tempos, não havendo espaço para suspeitar que esse poema tenha sido composto depois do advento e condenação de Cristo”. Ademais “Cícero conhecia esse poema, que traduziu para o latim e incorporou às suas próprias obras”. Infelizmente, o trecho em que Cícero menciona a sibila - a de Cumes, não a de Eritréia - não contém referências nem aos versos nem ao acróstico, sendo na verdade uma refutação das previsões proféticas. Todavia, essa maravilhosa revelação era tão conveniente que, durante muitos séculos, o mundo cristão aceitou a sibila entre seus antepassados. Santo Agostinho deu-lhe um lar entre os abençoados em sua Cidade de Deus. No final do século XII, os arquitetos da catedral de Laon esculpiram na fachada a sibila Eritréia (decapitada durante a Revolução Francesa) com suas tabuletas oraculares, no mesmo formato dos de Moisés, e inscreveram a seus pés a segunda linha do poema apócrifo. E, quatrocentos anos depois, Michelangelo colocou-a no teto da capela Sistina, como uma das quatro sibilas que complementavam os profetas do Velho Testamento.
A sibila era o oráculo pagão, e Constantino a fez falar em nome de Jesus Cristo. Em seguida o imperador voltou sua atenção para a poesia pagã e anunciou que o "príncipe dos poetas latinos" também fora inspirado por um Salvador que não poderia ter conhecido. Virgílio escrevera uma écloga em honra de seu patrono, Gaio Asínio Polião, fundador da primeira biblioteca pública de Roma; a écloga anunciava a chegada de uma nova idade de ouro, nascida sob o disfarce de um bebê:

Começa, doce menino! Com sorrisos tua mãe conhece,
Quem carregou teu peso durante dez longos meses.
Nenhum pai mortal sorriu quando nasceste;
Alegria nupcial ou deleite na Terra não conheceste.

Tradicionalmente, as profecias eram consideradas infalíveis; logo, era mais fácil mudar as circunstâncias históricas do que alterar as palavras da profecia. Um século antes, Ardachir, o primeiro rei sassânida, mudara a cronologia histórica para fazer uma profecia de Zoroastro beneficiar seu império. Zoroastro profetizara que o império e a religião persas seriam destruídos depois de mil anos. Ele vivera cerca de 250 anos antes de Alexandre, o Grande, que morrera 549 anos antes do reinado de Ardachír. Para acrescentar dois séculos à sua dinastia, o rei sassânida proclamou que havia começado a reinar apenas 260 anos depois de Alexandre. Constantino não alterou a história, nem as palavras proféticas: mandou traduzir Virgílio para o grego, com uma licença poética elástica que serviu a seus propósitos políticos.
Constantino leu trechos do poema traduzido para sua plateia e tudo o que a Bíblia contava estava lá, nas palavras antigas de Virgílio: a Virgem, o esperado Messias, os eleitos, o Espírito Santo. Constantino escolheu discretamente esquecer aqueles trechos em que Virgílio mencionava os deuses pagãos, Apolo, Pã e Saturno. Personagens antigos que não podiam ser omitidos tornaram-se metáforas da vinda de Cristo. “Outra Helena outras guerras criará, / E o grande Aquiles apressa o destino de Tróia", escrevera Virgílio. Isso, disse Constantino, era Cristo "fazendo guerra contra Tróia, entendendo por Tróia o próprio mundo”. Em outros casos, explicou Constantino ao seu público, as referências eram estratagemas com os quais Virgílio enganou as autoridades romanas.
Suponho”, disse ele (e podemos imaginá-lo baixando a voz depois de declamar Virgílio), “que tenha sido constrangido pelo sentimento de perigo que ameaçava quem atacasse a credibilidade da antiga prática religiosa. Com cuidado, portanto, e com segurança, tanto quanto possível, ele apresenta a verdade àqueles que têm faculdades para entendê-la.”
Aqueles que têm faculdades para entendê-la”: o texto tornou-se uma mensagem cífrada que só podia ser lida por uns poucos eleitos dotados das necessárias “faculdades”. Não estava aberto a qualquer interpretação; para Constantino, somente uma leitura era a verdadeira, e desta, somente ele e seus companheiros de crença tinham a chave. O edito de Milão oferecera liberdade de fé a todos os cidadãos romanos; o Concílio de Nicéia limitou essa liberdade àqueles que adotavam o credo de Constantino. Passados apenas doze anos, gente que ganhara em Milão o direito público de ler o que quisesse e como quisesse agora era informada, em Antióquia e Nicéia, de que somente uma leitura era verdadeira, sob pena de punição legal. Estipular uma leitura única para um texto religioso era necessário, segundo a concepção de Constantino de um império unânime. Mais original e menos compreensível é a noção de uma única leitura ortodoxa para um texto secular como os poemas de Virgílio.
Cada leitor confere a certos livros uma certa leitura, embora não tão forçada nem com tantas consequências como as de Constantino. Ver uma parábola do exílio em O mágico de Oz, como faz Salman Rushdie, é muito diferente de transformar um texto de Virgílio numa profecia da vinda de Cristo. E, contudo, algo da mesma prestidigitação ou expressão de fé ocorre em ambas as leituras, algo que permite aos leitores, se não forem convincentes, pelo menos mostrarem-se convencidos. Aos treze ou catorze anos, desenvolvi um anseio literário por Londres e lia as histórias de Sherlock Holmes com a absoluta certeza de que a sala enfumaçada da Baker Street, com suas chinelas turcas para tabaco e sua mesa manchada de produtos químicos perigosos, parecia-se fielmente com as moradas que eu teria quando também estivesse na Arcádia. As criaturas antipáticas que Alice encontrava no outro lado do espelho, petulantes, peremptórias e sempre resmungonas, prenunciaram muitos dos adultos da minha vida de adolescente. E quando Robinson Crusoe começou a construir sua cabana, " uma Barraca sob o Flanco de uma Rocha, cercada com uma forte Paliçada de Postes e Cabos", sem dúvida estava descrevendo a que eu construiria num verão, na praia de Punta del Este. A romancista Anita Desai, que na Índia, quando criança, era conhecida em família como uma Lese Ratte, ou “rata de biblioteca”, lembra que, ao descobrir O morro dos ventos uivantes, com nove anos de idade, seu próprio mundo, “um bangalô da Velha Déli, com suas varandas, suas paredes de gesso e ventiladores de teto, seu jardim de mamoeiros e goiabeiras cheio de periquitos estridentes, a poeira arenosa que se depositava nas páginas de um livro antes que se pudesse virá-las, tudo sumia. O que se tornava real, deslumbrantemente real, pelo poder e pela magia da pena de Emily Brontê, eram as charnecas de Yorkshire, o urzal assolado pela tempestade, os tormentos de seus angustiados habitantes que vagam sob chuva e saraiva, clamando das profundezas de seus corações partidos e ouvindo apenas respostas de fantasmas”. As palavras que Emily Brontê escolheu para descrever uma menina na Inglaterra em 1847 serviram para iluminar uma menina na Índia em 1946.
A utilização de passagens aleatórias de livros para prever o futuro tem uma longa tradição no Ocidente, e, bem antes de Constantino, Virgílio era a fonte preferida de adivinhação pagã no império; cópias de seus poemas eram mantidas para consulta em vários templos dedicados à deusa Fortuna. A primeira referência a esse costume, conhecido como sortes Vergilianae, aparece na vida de Adriano escrita por Élio Espartiano; o jovem Adriano, desejando saber o que o imperador Trajano achava dele, consultou a Eneida aleatoriamente e encontrou as linhas nas quais Enéias vê “o rei romano cujas leis deverão renovar Roma”. Adriano ficou satisfeito; Trajano de fato adotou-o como filho e ele se tornou o novo imperador de Roma.
Ao encorajar uma nova versão das sortes Vergilianae. Constantino estava seguindo uma tendência de seu tempo. No final do século IV, o prestígio atribuído a oráculos falados e adivinhos fora transferido para a palavra escrita, para Virgílio e também para a Bíblia - desenvolvera-se uma forma de adivinhação conhecida como "cleromancia dos evangelhos". Quatro séculos mais tarde, a arte da adivinhação, que havia sido proscrita no tempo dos profetas "porque o Senhor, teu Deus, abomina aqueles que se dão a essas práticas", tornara-se tão popular que em 829 o Concílio de Paris teve de condená-la oficialmente. Em vão. Escrevendo uma memória pessoal em latim, publicada em 1434 numa tradução francesa, o erudito Gaspar Peucer confessou que, quando criança, confeccionara “um livro de papel e escrevera nele os principais versos divinatórios de Virgílio, dos quais tirava conjeturas por simples brincadeira - sobre tudo o que achava interessante, como a vida e morte de príncipes, sobre minhas aventuras e sobre outras coisas, a fim de imprimir melhor e de um modo mais vívido aqueles versos em minha mente”. Peucer insistia que o jogo tinha uma intenção mnemônica e não divinatória, mas o contexto torna difícil aceitar seus protestos.
No século XVI, o jogo divinatório ainda estava tão firmemente estabelecido que Rabelais pôde parodiar o costume no conselho de Pantagruel a Panurgo sobre casar ou não.
Panurgo, diz Pantagruel, deve recorrer às sortes Vergilianae. O método correto, explica, é o seguinte: escolhe-se uma página abrindo o livro aleatoriamente; então jogam-se três dados e a soma deles indica a linha da página. Quando o método éposto em prática, Pantagruel e Panurgo chegam a interpretações opostas e igualmente possíveis dos versos.
Bomarzo, o enorme romance sobre a Renascença italiana do argentino Manuel Mujica Láinez, faz alusão a como a sociedade do século XVII estava familiarizada com as adivinhações por meio de Virgílio: “Eu confiava meu destino à decisão de outros deuses, mais soberanos que os Orsíni, por meio das sortes Vergílianae. Em Bomarzo costumávamos praticar essa forma popular de adivinhação, que confiava a resolução de problemas difíceis ou triviais ao oráculo fortuito de um livro. Não corria o sangue dos mágicos nas veias de Virgílio? Não o considerávamos, graças ao encanto de Dante, um mago, um adivinho. Eu me submetia ao que a Eneida decretava”.
O exemplo mais famoso das sortes talvez seja o do rei Carlos I em visita a uma biblioteca em Oxford durante as guerras civis, no final de 1642 ou começo de 1643. Para diverti-lo, lorde Falkland sugeriu que o rei fizesse “uma experiência de ler sua fortuna nas sortes Vergilianae, que, como todo o mundo sabe, era um tipo comum de augúrio em épocas passadas”. O rei abriu o volume no livro IV da Eneida e leu: “Que ele seja arrasado na guerra por tribos audaciosas e exilado de sua própria terra”. Na terça-feira, 30 de janeiro de 1649, condenado como traidor por seu próprio povo. Carlos I foi decapitado em Whitehal.
Cerca de setenta anos depois, Robinson Crusoe ainda se valia de um método semelhante em sua ilha inóspita. “Certa manhã”, escreveu ele, “estando muito triste, abri a Bíblia nestas palavras: Jamais vos deixarei, nem vos desertarei. Imediatamente ocorreu-me que essas palavras eram para mim. A quem mais deveriam se dirigir de tal maneira, justamente no momento em que eu lamentava minha condição, como alguém abandonado por Deus e pelos homens?” E 150 anos depois disso, Bathsheba ainda recorria à Bíblia para descobrir se deveria casar com o sr. Boldwood, em Far from the madding crowd [Longe da multidão insensata].
Robert Louis Stevenson observou com argúcia que o dom oracular de um escritor como Virgilio tem menos a ver com dons sobrenaturais do que com as qualidades miméticas da poesia, as quais permitem que, de maneira íntima e poderosa, um verso faça sinais aos leitores através dos tempos. Em The ebb tide [A maré vazante], uma das personagens de Stevenson, perdida numa ilha distante, busca conhecer sua sorte num exemplar esfarrapado de Virgílio, e o poeta, respondendo da página “com voz não muito segura ou encorajadora”, desperta no abandonado visões de sua terra natal. “Pois é o destino daqueles escritores graves, controlados e clássicos”, escreve Stevenson, “com quem travamos relações forçadas e amiúde dolorosas na escola, entrar no sangue e tornar-se nativo na memória; assim, uma frase de Virgílio fala não tanto de Mântua ou de Augusto, mas de lugares ingleses e da irrevogável juventude do estudante.”
Constantino foi o primeiro a ler significados cristãos proféticos em Virgílio, e através dessa leitura o poeta latino tornou-se o mais prestigioso de todos os escritores oraculares. De poeta imperial a visionário cristão, Virgílio assumiu um papel importante na mitologia cristã, o que lhe permitiu, dez séculos depois do elogio de Constantino, guiar Dante pelo inferno e purgatório. Seu prestígio alcançou até o passado: uma história preservada em versos na missa latina medieval conta que o próprio são Paulo viajou a Nápoles para chorar sobre o túmulo do poeta da Antiguidade.
O que Constantino descobriu naquela distante Sexta-Feira Santa, e para todo o sempre, é que o significado de um texto é ampliado pelas capacidades e desejos do leitor Diante de um texto, o leitor pode transformar as palavras numa mensagem que decifra para ele alguma questão historicamente não relacionada ao próprio texto ou a seu autor. Essa transmigração de significado pode enriquecer ou empobrecer o texto; invariavelmente o impregna com as circunstâncias do leitor Por meio de ignorância, fé, inteligência, trapaça, astúcia, iluminação, o leitor reescreve o texto com as mesmas palavras do original, mas sob outro título, recriando-o, por assim dizer, no próprio ato de trazê-lo à existência.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura