Anunciação (1333), de Simone Martini
Em 1929, no Hospice de Beaune, na
França, o fotógrafo húngaro André Kertész, que se exercitara em
sua arte durante o serviço militar no exército austro-húngaro,
fotografou uma mulher velha sentada na cama, lendo. Trata-se de uma
composição perfeitamente enquadrada. No centro, enrolada em um xale
preto, está a pequenina mulher, tendo a na cabeça uma touca de
dormir preta que inesperadamente revela os cabelos presos na parte
posterior da cabeça; travesseiros brancos servem-lhe de encosto e
uma colcha branca cobre-lhe os pés. Em torno e atrás dela, cortinas
brancas pregueadas descem entre as colunas escuras da cama, de
desenho gótico. Uma inspeção mais atenta revela, na moldura
superior da cama, uma pequena placa com o número 19, uma corda com
nós pendendo do teto da cama (para chamar por auxílio? para puxar a
cortina da frente?) e uma mesa de cabeceira sobre a qual estão uma
caixa, uma jarra e um copo. No chão, sob a mesa, encontra-se uma
bacia de estanho. Vimos tudo? Não. A mulher está lendo, segurando
um livro aberto a uma certa distância dos olhos obviamente ainda
agudos. Mas o que ela está lendo? Porque se trata de uma
velha senhora, porque está na cama, porque a cama está num lar para
gente idosa em Beaune, no coração da Borgonha católica, achamos
possível adivinhar a natureza de seu livro: um volume religioso, um
compêndio de sermões? Se assim fosse – o exame com uma lente de
aumento não nos diz nada –, a imagem seria de algum modo coerente,
completa, o livro definindo a leitora e identificando a cama como um
lugar espiritualmente tranquilo.
Mas e se descobríssemos que o livro
era na verdade outra coisa? Se, por exemplo, ela estivesse lendo
Racine, Corneil e – uma leitora sofisticada, culta – ou, mais
surpreendente ainda, Voltaire? E se o livro fosse o Les enfants
terribles de Cocteau, aquele romance escandaloso da vida
burguesa, publicado no mesmo ano em que Kertész tirou a fotografia?
De repente, a velha senhora banal não é mais banal: ela se torna,
mediante o simples ato de segurar um determinado livro em vez de
outro, uma questionadora, um espírito inflamado de curiosidade, uma
rebelde.
Sentada diante de mim no metrô de
Toronto, uma mulher está lendo a edição Penguin de Labirintos,
de Borges. Eu quero chamá-la, quero acenar-lhe, sinalizar que também
sou daquela religião. Ela, cuja face esqueci, cujas roupas mal
notei, jovem ou velha, não sei dizer, está mais próxima de mim,
pelo mero ato de segurar aquele determinado livro nas mãos, do que
muitas outras pessoas que vejo diariamente. Uma prima minha de Buenos
Aires tinha profunda consciência de que os livros funcionam como
insígnia, como sinal de aliança, e, ao escolher um livro para levar
consigo em suas viagens, fazia-o sempre com o mesmo cuidado com que
escolhia a mala de mão. Não viajava com Romain Rolland, porque
achava que pareceria muito pretensiosa, nem com Agatha Christie,
porque pareceria vulgar demais. Camus era apropriado para uma viagem
curta, Cronin para uma longa; um romance policial de Vera Caspary ou
Ellery Queen era aceitável para um fim de semana no campo; um
romance de Graham Greene era adequado a viagens de avião ou navio.
A associação de livros com seus
leitores é diferente de qualquer outra entre objetos e seus
usuários. Ferramentas, móveis, roupas, tudo tem uma função
simbólica, mas os livros infligem a seus leitores um simbolismo
muito mais complexo do que o de um mero utensílio. A simples posse
de livros implica uma posição social e uma certa riqueza
intelectual. Na Rússia do século XVIII, durante o reinado de
Catarina, a Grande, um certo sr. Klostermann fez fortuna vendendo
longas fileiras de encadernações recheadas de papel velho, o que
permitia aos cortesãos criar a ilusão de uma biblioteca e assim
obter o favor de sua imperatriz letrada. Em nossos dias, os
decoradores enchem paredes com metros e metros de livros para dar ao
ambiente uma atmosfera “sofisticada” ou oferecem papel de parede
que cria a ilusão de uma biblioteca; os produtores de programas de
entrevistas na televisão acreditam que um fundo de estantes de
livros acrescenta um toque de inteligência ao cenário. Nesses
casos, a noção geral de livros é suficiente para denotar
atividades elevadas, da mesma forma que mobília de veludo vermelho
acaba sugerindo prazeres sensuais. Tão importante é o simbolismo do
livro que sua presença ou ausência pode, aos olhos do observador,
dar ou tirar poder intelectual a uma personagem.
No ano de 1333, o pintor Simone
Martini terminou uma Anunciação para o painel central de um altar
do Duomo de Siena o primeiro altar ocidental ainda existente dedicado
a esse tema. A cena está circunscrita por três arcos góticos: um
mais alto, no centro, contendo uma formação de anjos em ouro
escuro, em torno do Espírito Santo em forma de pomba, e um arco
menor de cada lado. Sob o arco à esquerda do observador, um anjo
ajoelhado, com vestes bordadas, segura um ramo de oliveira na mão
esquerda; ele ergue o dedo indicador da mão direita para denotar
silêncio, com o gesto retórico comum na estatuária romana e grega
antiga. Sob o arco da direita, num trono dourado incrustado de
marfim, senta-se a Virgem, com um manto púrpura franjado de ouro. Ao
lado dela, no meio do painel, encontra-se um vaso de lírios. A flor
imaculadamente branca, com seus rebentos assexuados e sem estames,
servia de emblema perfeito para Maria, cuja pureza são Bernardo
comparou à “inviolável castidade do lírio”. O lírio, a
flor-de-lis, era também o símbolo da cidade de Florença e, mais
para o final da Idade Média, substituiu o cajado de arauto levado
pelo anjo nas Anunciações florentinas. Os pintores sienenses,
arqui-inimigos dos florentinos, não podiam apagar por completo a
flor-de-lis tradicional das representações da Virgem, mas não
homenageariam Florença permitindo que o anjo carregasse a flor da
cidade. Portanto, o anjo de Martini carrega apenas um ramo de
oliveira, a planta simbólica de Siena.
Para alguém da época de Martíni,
cada objeto e cada cor da pintura tinham um significado específico.
Embora o azul tenha se tornado depois a cor da Virgem (a cor do amor
celestial, a cor da verdade vista depois que as nuvens se
dispersaram), a púrpura, cor da autoridade e também da dor e da
penitência, constituía, no tempo de Martini, um lembrete das
futuras provações da Virgem. Num relato popular do período inicial
de sua vida no apócrifo Protoevangelion de Tiago Menor, do
século II (um notável sucesso durante toda a Idade Média, com o
qual o público de Martini estaria familiarizado), conta-se que o
conselho de sacerdotes exigiu um novo véu para o templo.
Escolheram-se sete virgens imaculadas da tribo de Davi e tirou-se a
sorte para ver quem iria fiar a lã para cada uma das sete cores
exigidas; a cor púrpura caiu para Maria. Antes de começar a fiar,
ela foi ao poço para pegar água e ali ouviu uma voz, que lhe disse:
“Derrama tua arte cheia de graça, o Senhor está contigo; tu és
abençoada entre as mulheres”. Maria olhou para a direita e para a
esquerda (observa o proto-evangelista, com um toque de autor de
romance), não viu ninguém e, tremendo, entrou em casa e sentou-se
para trabalhar na lã púrpura. “E eis que o anjo do Senhor veio a
ela e disse: Não temas, Maria, pois tu encontraste favor aos olhos
de Deus.” Assim, antes de Martini, o anjo anunciador, o tecido
púrpura e o lírio representando cada um a aceitação da palavra de
Deus, a aceitação do sofrimento e a virgindade imaculada –
marcavam as qualidades pelas quais a Igreja cristã queria que Maria
fosse cultuada. Então, em 1333, Martini pôs um livro nas mãos
dela.
Na iconografia cristã, o livro ou
rolo pertencia tradicionalmente à divindade masculina, ao Deus Pai
ou ao Cristo triunfante, o novo Adão, em quem a palavra de Deus se
fez carne.
O livro era o repositório da lei de
Deus; quando o governador da África romana perguntou a um grupo de
prisioneiros cristãos o que haviam trazido consigo para se defender
no tribunal, eles responderam: “Textos de Paulo, um homem justo”.
O livro também conferia autoridade intelectual, e, desde as
primeiras representações, Cristo foi pintado com frequência
exercendo a função rabínica de professor, intérprete, erudito,
leitor. A mulher pertencia o Filho, afirmando seu papel de mãe.
Nem todos concordavam. Dois séculos
antes de Martini, Pedro Abelardo, o cônego de Notre Dame de Paris
que fora castrado como punição por seduzir sua pupila Heloísa,
iniciou com a antiga amada, agora abadessa do Paracleto, uma
correspondência que se tornaria famosa. Nessas cartas, Abelardo, que
fora condenado pelos concílios de Sens e Soissons e proibido de
ensinar ou escrever pelo papa Inocêncio II, sugeria que as mulheres
estavam de fato mais próximas de Cristo do que qualquer homem. A
obsessão masculina por guerra, violência, honra e poder, Abelardo
contrapunha o refinamento da alma e da inteligência na mulher,
"capaz de conversar com Deus, o Espírito, no reino interior da
alma em termos de amizade íntima". Uma contemporânea de
Abelardo, a abadessa Hildegard de Bingen, uma das maiores figuras
intelectuais de seu século, sustentava que a debilidade da Igreja
era uma debilidade masculina e que as mulheres deveriam usar a força
de seu sexo naquele tempus muliebre, naquela Idade da Mulher.
Mas a hostilidade arraigada contra as
mulheres não seria superada com facilidade. A advertência de Deus a
Eva no Gênesís 3:16 foi usada repetidamente para pregar as virtudes
da docilidade e brandura feminina: “teus desejos te impelirão para
teu marido e tu estarás sob o seu domínio”. “A mulher foi
criada para ser a companheira e ajudante do homem”, parafraseou
santo Tomás de Aquino. Na época de Martini, são Bernardino de
Siena, talvez o pregador mais popular de seu tempo, viu em Maria de
Martini não alguém que tivesse intimidade com Deus, o Espírito,
mas um exemplo de mulher submissa e cumpridora dos deveres. Escreveu
ele sobre a pintura: “Parece-me com certeza a mais bela, a mais
reverente, a mais modesta pose que jamais se viu numa Anunciação.
Vê-se que ela não olha para o anjo, mas está sentada numa postura
quase amedrontada. Ela sabia muito bem que era um anjo, então por
que ficaria perturbada? O que faria ela se fosse um homem? Tomem-na
como exemplo, meninas, do que devem fazer. Jamais falem com um homem,
exceto se seu pai ou sua mãe estiver presente”.
Nesse contexto, associar Maria com
poder intelectual era um ato temerário. Na introdução a um livro
escolar escrito para seus alunos em Paris, Abelardo deixou claro o
valor da curiosidade intelectual: “Duvidando chegamos a questionar,
e questionando aprendemos a verdade”. O poder intelectual vinha da
curiosidade, mas para os detratores de Abelardo – cujas vozes
misóginas são Bernardino ecoava – a curiosidade, especialmente
nas mulheres, era um pecado, o pecado que levara Eva a provar do
fruto proibido do conhecimento. A inocência virginal das mulheres
deveria ser preservada a qualquer custo.
Na concepção de são Bernardino, a
educação era o resultado perigoso da curiosidade – e sua causa
maior Como vimos, a maioria das mulheres de todo o século XIV – na
verdade de toda a Idade Média – eram educadas até o ponto em que
isso fosse útil ao lar dos homens. Dependendo da posição social
que ocupavam, as jovens que Martini conhecia recebiam pouco ou nenhum
ensinamento intelectual. Se crescessem numa família aristocrática,
seriam treinadas para ser damas de companhia ou ensinadas a dirigir
uma propriedade, atividade que exigia delas apenas uma instrução
rudimentar em leitura e escrita, embora algumas se tornassem bastante
letradas. Se pertencessem à classe mercantil, desenvolveriam alguma
habilidade nos negócios, e nesse caso era essencial um pouco de
leitura, escrita e matemática. Comerciantes e artesãos às vezes
ensinavam suas artes às filhas, que esperavam transformar em
assistentes sem salário. Os filhos dos camponeses de ambos os sexos
não costumavam receber nenhuma instrução. Nas ordens religiosas,
as mulheres às vezes exerciam atividades intelectuais, mas o faziam
sob a constante censura de seus superiores religiosos masculinos. Na
medida em que as escolas e universidades estavam, em sua maioria,
fechadas às mulheres, o florescimento artístico e intelectual do
final do século XII ao século XIV esteve centrado nos homens! As
mulheres cujas obras notáveis emergiram nessa época – com
Hildegard de Bingen, Juliana de Norwich, Cristina de Pisa e Maria da
França venceram contra todas as probabilidades.
Nesse contexto, a Maria de Martini
pede um segundo olhar, menos superficial. Ela está sentada de
maneira desajeitada, com a mão direita apertando o manto junto ao
pescoço, virando o corpo na direção oposta da estranha presença,
os olhos fixos não nos olhos angélicos, mas (ao contrário da
descrição preconcebida de são Bernardino) nos lábios de anjo. As
palavras que ele pronuncia fluem de sua boca para o olhar de Maria,
escritas em grandes letras de ouro; Maria não apenas ouve, mas vê a
Anunciação. Sua mão esquerda segura o livro que estava lendo
mantendo-o aberto com o polegar. É um volume de bom tamanho,
provavelmente um in-octavo, encadernado em vermelho.
Mas que livro é esse?
Vinte anos antes de Martini terminar
sua pintura, Giotto dera à Maria de sua Anunciação um pequeno
livro de horas azul, num dos afrescos que fez para a capela Arena, em
Pádua. A partir do século XIII o livro de horas (concebido
aparentemente por Bento de Aniano no século VIII, e como um
suplemento do oficio canônico) foi o livro de orações particular
dos ricos, e sua popularidade continuou até os séculos XV e XVI –
como se vê em numerosas representações da Anunciação, nas quais
a Virgem é mostrada lendo seu livro de horas, como se fora uma dama
real ou aristocrática. Em muitos lares mais abastados, o livro de
horas era o único existente, e mães e amas usavam-no para ensinar
as crianças a ler.
É possível que a Maria de Martini
esteja simplesmente lendo um livro de horas. Mas poderia ser outro
livro. De acordo com a tradição que via no Novo Testamento a
realização das profecias feitas no Velho – uma crença comum na
época de Martini , Maria teria consciência, após a Anunciação,
de que os eventos de sua vida e da vida de seu Filho haviam sido
previstos em Isaías e nos assim chamados Livros Sapienciais da
Bíblia: Provérbios, Jó e Eclesiastes, e dois livros dos Apócrifos,
A sabedoria de Jesus, filho de Sirach e A sabedoria de
Salomão. Na espécie de paralelismo literário que deliciava as
plateias medievais, a Maria de Martini poderia estar lendo, logo
antes da chegada do anjo, o capítulo de Isaías que anuncia o
destino dela: “Que a Virgem conceba e dê à luz um filho, e o
chame Emanuel”.
Mas é ainda mais iluminador presumir
que a Maria de Martini está lendo os Livros Sapienciais.
No nono capítulo do Livro dos
Provérbios, a Sabedoria é representada como uma mulher que
“edificou sua casa, levantou sete colunas: [...] Enviou servos,
para que anunciassem nos pontos mais elevados da cidade: Quem for
simples apresente-se! Aos insensatos ela disse: Vinde comer o meu pão
e beber o vinho que preparei". E em duas outras seções dos
Provérbios, a Senhora Sabedoria é descrita como tendo origem em
Deus. Por meio dela, Ele criou a terra (3:19) no começo de todas as
coisas: “Desde a eternidade fui constituída, antes de suas obras
dos tempos antigos” (8:23). Séculos depois, o rabino de Lublin
explicava que a Sabedoria era chamada de Mãe porque, “quando um
homem confessa e se arrepende, quando seu coração aceita a
Compreensão e é convertido por ela, ele se torna como uma criança
recém-nascida e sua volta para Deus é como a volta para sua mãe”.
A Senhora Sabedoria é a protagonista
de um dos livros mais populares do século XV, L'orloge de
Sapience [A ampulheta da Sabedoria], escrito em francês (ou
traduzido para) em 1389 por um frade franciscano da Lorena, Henri
Suso. Em algum momento entre 1455 e 1460, um artista conhecido por
nós como Mestre de Jean Rolin criou para o livro uma série de
requintadas iluminuras. Uma dessas miniaturas representa a Sabedoria
sentada em seu trono, cercada por uma guirlanda de anjos escarlates,
segurando na mão esquerda o globo do mundo e na direita, um livro
aberto. Acima dela, em ambos os lados, anjos maiores ajoelham-se num
céu estrelado; abaixo dela, à direita, cinco monges discutem dois
tomos escolares abertos diante deles; à sua esquerda, com um livro
aberto sobre um atril drapejado, um doador coroado está rezando para
ela. A posição da Sabedoria é idêntica à de Deus Pai, que está
sentado num trono dourado exatamente igual em outras incontáveis
iluminuras, em geral como peça de acompanhamento da Crucificação,
segurando um orbe na mão esquerda e um livro na direita, cercado por
anjos ardentes semelhantes.
Carl Jung, associando Maria ao
conceito cristão oriental da Sofia, ou Sabedoria, sugeriu que
Sofia-Maria “revela-se aos homens como uma amistosa ajudante e
advogada contra Jeová, e mostra a eles o lado luminoso, o aspecto
generoso, justo e amigável de seu Deus”. Sofia, a Senhora
Sabedoria dos Provérbios de Orloge de Suso, derivam da antiga
tradição da Deusa-Mãe cujas imagens esculpidas, as assim chamadas
estatuetas de Vênus, encontram-se em toda a Europa e Norte da
África, datando de 25000 a 15000 a.C., e, no resto do mundo, em
épocas posteriores. Quando espanhóis e portugueses chegaram ao Novo
Mundo levando espadas e cruzes, os astecas e os incas (entre outros
povos nativos) transferiram suas crenças em várias divindades
terra-mãe, como Tonantzin e Pacha Mama, para um Cristo andrógino
ainda evidente na arte religiosa latino-americana atual.
Por volta do ano 500, Clóvis, rei dos
francos, depois de se converter ao cristianismo e reforçar o papel
da Igreja, baniu a adoração da deusa da Sabedoria sob suas diversas
formas – Diana, Ísis, Atena – e fechou o último dos templos
dedicados a ela. A decisão de Clóvis seguia ao pé da letra a
declaração de são Paulo (I Coríntios 1:24) segundo a qual somente
Cristo é “a sabedoria de Deus”. O atributo da sabedoria, então
usurpado da divindade feminina, passou a ser exemplificado com a
vasta e antiga iconografia que representa Cristo com livros. Cerca de
25 anos depois da morte de Clóvis, o imperador Justiniano compareceu
à consagração da recém-terminada catedral de Constantinopla,
Hagia Sofia (Santa Sabedoria), uma das maiores estruturas construídas
pelo homem na Antiguidade. Ali, reza a tradição, ele exclamou:
“Salomão, superei-te!”. Nenhum dos famosos mosaicos de Hagia
Sofia – nem mesmo a majestosa Virgem Entronada de 867 – concede a
Maria um livro. Mesmo em seu próprio templo, a Sabedoria permaneceu
subserviente.
Contra esse pano de fundo histórico,
a representação de Maria por Martini como herdeira - talvez como
encarnação - da Santa Sabedoria pode ser considerada um esforço
para restaurar o poder intelectual negado à divindade feminina. O
livro que Maria segura na pintura de Martini, cujo texto está
escondido de nós e cujo título só podemos adivinhar, poderia
sugerir o último murmúrio da deusa destronada, uma deusa mais velha
que a história, silenciada por uma sociedade que escolheu fazer seu
deus à imagem do homem.
Subitamente, sob essa luz, a
Anunciação de Martini torna-se subversiva.
Sabe-se pouco da vida de Simone
Martini. É provável que fosse discípulo de Duccio di Buoninsegna,
o pai da pintura sienense; a primeira obra datada de Martini, sua
Maestà, de 1315, baseia-se no modelo de Duccio. Trabalhou em
Pisa, Assis e, evidentemente, Siena, e em 1340 mudou-se para Avignon,
para a corte papal, onde dois afrescos em ruínas no portal da
catedral são tudo o que resta de sua obra. Não sabemos nada de sua
formação, de suas influências intelectuais, das discussões que
possa ter mantido sobre mulheres e poder, sobre a Mãe de Deus e
Nossa Senhora da Sabedoria, mas, no livro encadernado de vermelho que
pintou em algum momento do ano de 1333 para a catedral de Siena,
talvez tenha deixado uma pista para essas questões e, possivelmente,
uma declaração.
A Anunciação de Martini foi
copiada pelo menos sete vezes. Tecnicamente - ofereceu aos pintores
uma alternativa para o realismo sóbrio apresentado por Giotto em sua
Anunciação de Pádua; filosoficamente, pode ter ampliado o
escopo da leitura de Maria do pequenino livro de horas de Giotto para
um compêndio teológico inteiro com raízes nas crenças primitivas
na sabedoria da deusa. Em representações posteriores de Maria, o
Menino Jesus amarrota ou rasga uma página do livro que ela está
lendo, indicando sua superioridade intelectual. O gesto do Filho
representa o Novo Testamento trazido por Cristo, substituindo o
Velho, mas aos observadores do final da Idade Média, para quem a
relação de Maria com os Livros Sapienciais talvez ainda fosse
clara, a imagem servia também como um lembrete do ditado misógino
de são Paulo.
Sei que, para mim, ver alguém lendo
cria em minha mente uma curiosa metonímia na qual a identidade do
leitor é colorida pelo livro e pelo cenário em que ele está sendo
lido.
Parece apropriado que Alexandre, o
Grande, que compartilha na imaginação popular a paisagem mítica
dos heróis de Homero, sempre carregasse consigo um exemplar da
Ilíada e da Odisseia. Eu adoraria saber qual era o
livro que Hamlet tinha nas mãos quando desprezou a pergunta de
Polônio – “O que lês, meu senhor?” – com esta resposta:
“Palavras, palavras, palavras”. Aquele título esquivo poderia me
dizer um pouco mais sobre a personagem nebulosa do príncipe. O
sacerdote que salvou Tirant lo Blanc de Joan Martorel da pira
a que ele e o barbeiro haviam destinado a biblioteca enlouquecedora
de dom Quixote resgatou para as futuras gerações uma extraordinária
novela de cavalaria; ao saber exatamente qual livro dom
Quixote estava lendo, podemos compreender um pouco do mundo que
fascinava o cavaleiro da triste figura – uma leitura através da
qual nós também podemos nos tornar, por um momento, dom Quixote.
Às vezes o processo é invertido, e o
conhecimento do leitor afeta nossa opinião a respeito de um livro:
“Costumava lê-lo à luz de velas ou da lua, com a ajuda de uma
enorme lupa”, disse Adolf Hitler sobre o escritor de histórias de
aventuras Karl May, condenando assim o autor de romances de faroeste
como O tesouro do lago prateado ao destino de Richard Wagner,
cuja música durante muito tempo não foi tocada em público em
Israel porque Hitler a elogiara.
Durante os primeiros meses da fatwa
contra Salman Rushdie, quando se tornou de conhecimento público que
um autor fora ameaçado de morte por ter escrito um romance, John
Innes, repórter da televisão americana, aparecia com um exemplar de
Versos satânicos sempre que fazia um de seus comentários sobre
assuntos variados. Não se referia em momento algum ao livro, a
Rushdie ou ao aiatolá, mas a presença do romance junto ao seu
cotovelo indicava a solidariedade de um leitor com o destino do livro
e de seu autor.
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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