[…]
Ao que, numa tarde, seo Ornelas ―
segundo seu contar ― proseava nas entradas da cidade, em roda com o
dr. Hilário mais outros dois ou três senhores, e o soldado
ordenança, que à paisana estava. De repente, veio vindo um homem,
viajor. Um capiau a pé, sem assinalamento nenhum, e que tinha um pau
comprido num ombro! com um saco quase vazio pendurado da ponta do
pau. ― ...Semelhasse que esse homem devia de estar chegando da
Queimada Grande, ou da Sambaíba. Nele não se via fama de crime nem
vontade de proezas. Sendo que mesmo a miseriazinha dele era trivial
no bem-composta... Seo Ornelas departia pouco em descrições: ―
...Aí, pois, apareceu aquele homenzém, com o saco mal-cheio
estabelecido na ponta do pau, do ombro, e se aproximou para os da
roda, suplicou informação: ― O qual é que é, aqui, mò que
pergunte, por osséquio, o senhor doutor delegado? ― ele
extorquiu. Mas, antes que um outro desse resposta, o dr. Hilário
mesmo indicou um Aduarte Antoniano, que estava lá ― o sujeito mau,
agarrado na ganância e falado de ser muito traiçoeiro. ― O
doutor é este, amigo... ― o dr. Hilário, para se rir,
falsificou. Apre, ei ― e nisso já o homem, com insensata rapidez,
desempecilhou o pau do saco, e desceu o dito na cabeça do Aduarte
Antoniano ― que nem fizesse questão de aleijar ou matar... A
trapalhada: o homenzinho logo sojigado preso, e o Aduarte Antoniano
socorrido, com o melór e sangue num quebrado na cabeça, mas sem a
gravidade maior. Ante o que, o dr. Hilário, apreciador dos exemplos,
só me disse: ― Pouco se vive, e muito se vê... Reperguntei
qual era o mote. ― Um outro pode ser a gente, mas a gente não
pode ser um outro, nem convém... ― o dr. Hilário completou.
Acho que esta foi uma das passagens mais instrutivas e divertidas que
em até hoje eu presenciei...
Tal, e outras, contou o seo Ornelas,
senhor de prosa muito renovada. Pelo que, por todo o seroar, deixei
com ele a mão; ainda que às vezes eu ficasse em dúvida: se
competia, sendo eu um chefe, aturar que um outro fiasse e tecesse,
guiando a fala. E também, com o tardio da noite, veio a hora de se
desapear da mesa, e eu teimei em rejeitar oferta de cama em catre em
quarto ou sala, mas fui fora, caçar o meio da minha gente; por sinal
que armei rede por entre cajueiro e jenipapeiro, perto dos currais,
e, para o segundo sono, mudei de rearmar, de faveira para faveira, lá
para dentro duma cerca. Mas, na mesa, aquele menino Guirigó, na
senvergonhice inocente de sua pouca geração, tinha adormecido
completo antecipadamente, eu consenti que as mulheres carregassem o
coitadinho diabinho, pesado como um de maioridade, e levassem para
dormir sei lá onde, por entre colchão e lençol. A vida inventa! A
gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o
poder de continuação ― porque a vida é mutirão de todos, por
todos remexida e temperada. Assim eu tinha trazido o pretinho
Guirigó, do Sucruiú, e agora ele estava indo para se deitar no
limpo e fofo, nos braços das jovens e donzelas carregado. Somente
que, inteirado no sono, ele mesmo disso não soubesse, nem
aproveitasse, do que em sua existência dele era que estava se
sucedendo. ― A pois, boa noite o senhor tenha, Chefe, com um
aprazível amanhecer... ― assim seo Ornelas me saudou. Ao que eu,
regozijado e bem servido, retribuí a ele, quase com aquelas mesmas
palavras.
As partes, que se deram ou não se
deram, ali na Barbaranha, eu aplico, não por vezo meu de dar
delongas e empalhar o tempo maior do senhor como meu ouvinte. Mas só
porque o compadre meu Quelemém deduziu que os fatos daquela éra
faziam significado de muita importância em minha vida verdadeira, e
entradamente o caso relatado pelo seo Ornelas, que com a lição
solerte do dr. Hilário se tinha formado. Aí, narro. O senhor me
releve e suponha.
No outro dia, acordei com a boca
amarga e doce, e o través de baixar alguma ordem comandando; esse
dia com essa noite não se pertencia. Achamos, de recrutagem, os
cavalos que pudemos ― o que foram os dez, os burros e mulas também
contados. O seo Ornelas honrava os atos. Além do que quis que eu
falhasse, para a festa, com o meu povo; mas achei mais sobressaído
ir mesmo embora, exato. Semeei para trás de mim o bom ensejo, para
poder ser de vir a colher, mais para diante, outros assim tão bons e
melhores. Sincero o dito, a gente agradeceu, subindo todos em selas,
e a limpo seguimos ― a manhã ainda com diversas claridades. Seo
Ornelas externou as despedidas, com o xtotó de foguetes, conforme se
lembrou de mandar começar a soltação, cujos por bem uma
meia-dúzia. O pessoal deu vivas, gloriando o mastro com a bandeira
do santo. Ao que, pelo mais, puxei em frente, pondo meu cavalo: com
espora, rédea e pernas. Deciso.
Rompemos umas duas léguas, em
estradas de muita areia. Mas eu já estava agastado. O que nesta vida
muda com mais presteza: é lufo de noruega, caminhos de anta em
setembro e outubro, e negócios dos sentimentos da gente. Assim, de
repente, eu achei: que a conversa com aquele seo Ornelas tinha me
rebaixado. Aos poucos eu tivesse perdido a vigiação de minha
alçada, no acaso da presença dele, debaixo daqueles telhados. A
opinião das outras pessoas vai se escorrendo delas, sorrateira, e se
mescla aos tantos, mesmo sem a gente saber, com a maneira da ideia da
gente! Se sério, então, um tinha de apertar os dentes, drede em
amouco, opor seus olhos. A cuspir para diante. Alguma instância, das
outras pessoas, pegava na gente, assim feito doença, com retardo.
Apartado de todos ― era a norma que me servia ― no sutil e no
trivial. A culpa minha, maior, era meu costume de curiosidades de
coração. Isso de estimar os outros, muito ligeiro, defeito esse que
me entorpecia. O tanto que, daí depois, essas pessoas andavam em
minha desilusão: de repente todos estavam endoidecendo... Do agravo,
como ia em pensar, achei asperezas até na goela; e o cuspe não
cabia em minha boca, salgado como um suadouro de cangalha. Aí então,
estou lembrado, vendo como vi o Alaripe de mim a curta distância ―
e que, em tudo comedido, guardava o balanceio brando no coxim da
sela, de vaqueiro de gado tangedor. Chamei para ele vir.
― Ah, o velho entregou os cavalos,
hem, Alaripe? Coração dele aguou... ― blasonei. ― ...Deu por
paz. Alaripe, ei, essa paz não te enjôa? ― Ah, é deveras... A
uns, é o que sucede...
― Mas a paz não é boa? Então,
como é que ela enjôa, assim mesmo? ― Natureza da gente, mal
completada... ― Tudo tu vê, Alaripe! eu acho que o enjôo da paz
será também algum outro medo da guerra... ― Pode que seja. ― E
mas só o medo da guerra é que vira valentia... ― Mal bem não
entendo, meu chefe, mas deve de ser... ― Pois não é? Só quando
se tem rio fundo, ou cava de buraco, é que a gente por riba põe
ponte...
Assaz essas coisas, eu inventava em
fala, para ter meus eixos, meus aços. A boca do boi quer sal ― o
sal do barro vermelho. Eu estava chamando umas bizarrias. Força
dessa minha maneira! eu estava pelo calor de tudo. E a gente ia indo,
aquela comprida cavalhada. Um ribeirão raso e estreito se passou ―
nem bem seis braças. Riacho desses que os que vão morrer chamam de
rio-Jordão. Todo o mundo passou, por tanto, diante de mim, eu
esbarrado em pé ― isto é, a cavalo.
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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