Helen Wheels
De Paul McCartney e Linda McCartney
Band on the Run (lançamento
nos EUA), 1973
Helen Wheels é o nome de minha Land
Rover. Ela era só uma pequenina Land Rover quando eu a comprei na
Escócia. Eu precisava de um veículo para desbravar toda aquela
acidentada paisagem rural. A tração nas quatro rodas a tornava
perfeita para subir e descer encostas íngremes.
Sempre quis fazer uma canção de
estrada, mas todas as que conhecíamos eram dos EUA – “Take It
Easy”, “Sweet Home Alabama” e, acima de tudo, “Route 66”.
Eu adorava as versões de Nat King Cole e Chuck Berry. Nessa época,
o Wings fazia muitos shows. Inclusive no ano anterior tínhamos
percorrido a Europa num ônibus de dois andares com teto aberto. No
verão de 1973, quando eu estava compondo as canções para o que se
tornaria o álbum Band on the Run, o Wings estava em turnê
por todo o Reino Unido, e isso provavelmente também influenciou esta
canção.
O interessante em “Route 66” é
que, como minha esposa, Nancy, e eu descobrimos há uns dez anos, os
nomes dos lugares na canção vêm mesmo na ordem correta. Você pode
usar a canção como uma espécie de mapa.
Existe um aspecto humorístico
inerente à ideia de fazer uma canção de estrada do Reino Unido.
Para atravessar os EUA, você percorre 4.800 km, uma distância e
tanto, já o Reino Unido você atravessa num piscar de olhos. Você
precisa então de uma jornada mais longa. Por acaso, da Escócia a
Londres a minha viagem demorava oito, nove horas. Eu fazia muito esse
percurso, ida e volta.
O trecho de Londres a Liverpool levava
quatro horas. Às vezes, dávamos uma paradinha em Liverpool para
descansar um pouco. Mais quatro ou cinco horas até Glasgow e
dobrávamos à esquerda. Partindo da Escócia, sempre era divertido
descer ao sul pelo condado de Cúmbria, especialmente à luz do dia.
Kendal fica em Lake District, mas a “autoestrada de Kendal” é
quase uma piada, porque Kendal é um gargalo, como qualquer um que já
tentou passar por ali pode confirmar.
Tínhamos um roadie, o Mal, que
afirmava adorar essa parte da viagem quando ainda faltam uns
trezentos quilômetros para chegar ao destino. A intenção dos
versos “M6 south down to Liverpool/ Where they play the West
Coast sound” é fazer uma referência divertida à interação
dos Beach Boys e dos Beatles. “Sailor Sam” representa outra forma
de entrelaçamento. De início, com “Sailor Sam”, eu só queria
uma rima para Birmingham, e então pensei: “Peraí um minuto, o
Sailor Sam já aparece em ‘Band on the Run’”. Aqui ele faz uma
pontinha, uma participação especial, como num filme. E então
encerrei o assunto dizendo que o Sailor Sam nunca será encontrado
(“never will be found”). Isso amarra tudo com a
sobreposição de “Band on the Run”. Intertextualidade, como
chamam nos círculos sofisticados. As canções estão conversando
entre si.
E o intercâmbio é transatlântico.
“Spend a day upon the motorway/ Where the carburettors blast/
Slow down driver, wanna stay alive/ I want to make this journey
last”. O carburador vem indiretamente de Chuck Berry, o
pioneiro no que você pode chamar de “erotismo” do automóvel,
especialmente na canção “No Particular Place to Go”. O que
estou querendo dizer, eu acho, é que, para certas pessoas,
“carburador” não é uma palavra que elas esperariam encontrar
numa canção. Mas é uma palavra legal, não é? Car-bu-ra-dor.
Mecânica não é o meu forte, por isso acho que essa é a única
peça do motor de que já ouvi falar! E uma das sílabas é “car”,
ou “carro”, em inglês.
Seja como for, a ideia de fazer uma
canção de estrada no contexto da Inglaterra foi um desafio, mas
recompensador. E me agrada a ideia de que uma canção como essa
continue rodando. E, na verdade, eu ainda tenho a Helen Wheels. Ela
está em plena forma. Essas coisas são feitas para durar.
Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

Nenhum comentário:
Postar um comentário