domingo, 26 de outubro de 2025

Helen Wheels, de Paul McCartney e Linda McCartney


Helen Wheels
De Paul McCartney e Linda McCartney
Band on the Run (lançamento nos EUA), 1973

Helen Wheels é o nome de minha Land Rover. Ela era só uma pequenina Land Rover quando eu a comprei na Escócia. Eu precisava de um veículo para desbravar toda aquela acidentada paisagem rural. A tração nas quatro rodas a tornava perfeita para subir e descer encostas íngremes.
Sempre quis fazer uma canção de estrada, mas todas as que conhecíamos eram dos EUA – “Take It Easy”, “Sweet Home Alabama” e, acima de tudo, “Route 66”. Eu adorava as versões de Nat King Cole e Chuck Berry. Nessa época, o Wings fazia muitos shows. Inclusive no ano anterior tínhamos percorrido a Europa num ônibus de dois andares com teto aberto. No verão de 1973, quando eu estava compondo as canções para o que se tornaria o álbum Band on the Run, o Wings estava em turnê por todo o Reino Unido, e isso provavelmente também influenciou esta canção.
O interessante em “Route 66” é que, como minha esposa, Nancy, e eu descobrimos há uns dez anos, os nomes dos lugares na canção vêm mesmo na ordem correta. Você pode usar a canção como uma espécie de mapa.
Existe um aspecto humorístico inerente à ideia de fazer uma canção de estrada do Reino Unido. Para atravessar os EUA, você percorre 4.800 km, uma distância e tanto, já o Reino Unido você atravessa num piscar de olhos. Você precisa então de uma jornada mais longa. Por acaso, da Escócia a Londres a minha viagem demorava oito, nove horas. Eu fazia muito esse percurso, ida e volta.
O trecho de Londres a Liverpool levava quatro horas. Às vezes, dávamos uma paradinha em Liverpool para descansar um pouco. Mais quatro ou cinco horas até Glasgow e dobrávamos à esquerda. Partindo da Escócia, sempre era divertido descer ao sul pelo condado de Cúmbria, especialmente à luz do dia. Kendal fica em Lake District, mas a “autoestrada de Kendal” é quase uma piada, porque Kendal é um gargalo, como qualquer um que já tentou passar por ali pode confirmar.
Tínhamos um roadie, o Mal, que afirmava adorar essa parte da viagem quando ainda faltam uns trezentos quilômetros para chegar ao destino. A intenção dos versos “M6 south down to Liverpool/ Where they play the West Coast sound” é fazer uma referência divertida à interação dos Beach Boys e dos Beatles. “Sailor Sam” representa outra forma de entrelaçamento. De início, com “Sailor Sam”, eu só queria uma rima para Birmingham, e então pensei: “Peraí um minuto, o Sailor Sam já aparece em ‘Band on the Run’”. Aqui ele faz uma pontinha, uma participação especial, como num filme. E então encerrei o assunto dizendo que o Sailor Sam nunca será encontrado (“never will be found”). Isso amarra tudo com a sobreposição de “Band on the Run”. Intertextualidade, como chamam nos círculos sofisticados. As canções estão conversando entre si.
E o intercâmbio é transatlântico. “Spend a day upon the motorway/ Where the carburettors blast/ Slow down driver, wanna stay alive/ I want to make this journey last”. O carburador vem indiretamente de Chuck Berry, o pioneiro no que você pode chamar de “erotismo” do automóvel, especialmente na canção “No Particular Place to Go”. O que estou querendo dizer, eu acho, é que, para certas pessoas, “carburador” não é uma palavra que elas esperariam encontrar numa canção. Mas é uma palavra legal, não é? Car-bu-ra-dor. Mecânica não é o meu forte, por isso acho que essa é a única peça do motor de que já ouvi falar! E uma das sílabas é “car”, ou “carro”, em inglês.
Seja como for, a ideia de fazer uma canção de estrada no contexto da Inglaterra foi um desafio, mas recompensador. E me agrada a ideia de que uma canção como essa continue rodando. E, na verdade, eu ainda tenho a Helen Wheels. Ela está em plena forma. Essas coisas são feitas para durar.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

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