Sonhar é como ir ao cinema. Seus
olhos se fechando são como as luzes do cinema se apagando, e seu
sonho é como um filme projetado na tela. Só que... Só que, mesmo
que você não saiba exatamente o que vai ver no cinema, tem uma
ideia. Leu uma sinopse do filme no jornal, viu o cartaz. Sabe se vai
ver um drama ou uma comédia. Sabe quem são os atores. Sabe que, se
for filme de horror, vai se assustar. Se for um filme com o Sylvester
Stallone, vai ter soco etc. Quer dizer: você entra no cinema
preparado. Mas você nunca dorme sabendo o que vai sonhar.
Ninguém está preparado para o que
vai ver no sonho. Será um pesadelo? Será um sonho romântico?
Lúbrico? Engraçado? Um sonho estranho, com tartarugas cantantes
acompanhando em coro um dueto lírico do Stallone com aquela sua
antiga professora de matemática? Você não sabe. O sonho é sempre
uma surpresa.
E outra coisa: se não estiver
gostando do filme, você pode sair na metade. Com o sonho, isso é
difícil. O ideal seria se você pudesse escolher seu sonho. Ou pelo
menos descobrir como ele seria, para você saber o que esperar. Uma
espécie de sinopse. Por exemplo...
Drama de costumes. Você é um
cossaco na Rússia imperial e recebe ordens para arrasar um vilarejo
onde todos os homens se chamam Rimski e fazem sexo com cabras, o que
não seria tão ruim se as cabras não usassem máscaras do tzar. No
meio do entrevero surge, misteriosamente, a sua mãe e manda você
voltar para casa e não esquecer de lavar as mãos, e o seu cavalo
vai rindo o tempo todo.
Drama psicológico. Você está
num apartamento que não conhece. Sente que precisa sair dali mas não
encontra a saída. Perambula pelas peças vazias até chegar numa em
que há um homem estirado num divã. É o dr. Freud dormindo uma
sesta. Você o sacode, para perguntar onde fica a saída. Ele acorda,
sobressaltado, e diz “ach, bem na hora do chantilly no umbigo!” e
passa a persegui-lo por dentro do apartamento, obrigando você a
pular por uma janela e cair na cadeira do senador Eduardo Suplicy,
que felizmente está viajando. Você tenta fugir de Brasília mas
também não encontra a saída.
Comédia romântica. Tudo se
passa num resort do Caribe. Você confundiu as Patrícias, combinando
um fim de semana com a Pilar mas indo com a Poeta. Descobre que a
Pilar chegou no hotel atrás de você. Há cenas hilariantes, como a
de você se disfarçando de palmeira para não ser reconhecido e
fingindo ser um garçom no luau até tropeçar na Luana Piovani e
cair dentro da fogueira. A Luana leva você para fazer curativos na
sua cabana enquanto a Pilar e a Poeta, que se juntaram, procuram por
você. No fim as três se unem para jogá-lo no mar, onde você é
recolhido por um iate e adotado pela Angelina Jolie.
Horror. Você está num
bastidor e alguém acaba de lhe dar uma batuta para reger a grande
orquestra sinfônica que o espera no palco.
— Vá — diz alguém no seu ouvido.
Há ruídos de impaciência vindos da
plateia. A orquestra também está inquieta. Onde está o maestro?
Mas você não é maestro. Você não entende nada de música. Você
não sabe o que está fazendo ali. E você está nu.
— Vá — dizem outra vez.
— Eu estou sem roupa — protesta
você.
— Vai assim mesmo, agora não há
mais tempo.
Você tenta desesperadamente retardar
sua entrada no palco:
— O programa. Eu não sei qual é o
programa!
— Toca qualquer coisa — é o
conselho que lhe dão. — O importante é entrar no palco.
— Mas eu estou nu!
— Não interessa, entra!
E você é empurrado para o palco.
Ouve o som do espanto coletivo da plateia. A orquestra também está
de boca aberta. O primeiro violino recua, para evitar qualquer
contato com você. Você sobe no estrado, olha para o lado e o seu
horror aumenta. Esperando nos bastidores estão um coro de
tartarugas, o Sylvester Stallone e aquela sua antiga professora de
matemática esperando a sua vez de entrar.
Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos Impossíveis
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