VI
Naquele segundo ano houve dificuldades
medonhas. Plantei mamona e algodão, mas a safra foi ruim, os preços
baixos, vivi meses aperreado, vendendo macacos e fazendo das
fraquezas forças para não ir ao fundo. Trabalhava danadamente,
dormindo pouco, levantando-me às quatro da manhã, passando dias ao
sol, á chuva, de facão, pistola e cartucheira, comendo nas horas de
descanso um pedaço de bacalhau assado e um punhado de farinha. Á
noite, na rede, explicava pormenores do serviço a Casimiro Lopes.
Ele acocorava-se na esteira e, apesar da fadiga, ouvia atento. Ás
vezes Tubarão ladrava lá fora, e nós aguçávamos o ouvido.
Uma feita distinguimos passos em redor
da casa. Olhei por uma fresta na parede. A escuridão era grande, mas
percebi um vulto. E as pisadas continuaram. O cachorro latiu e
rosnou.
— Mais esta! cochichou Casimiro
Lopes.
No dia seguinte visitei Mendonça, que
me recebeu inquieto. Conversamos sobre tudo, especialmente sobre
votos. Dirigi amabilidades às filhas dele, duas solteironas, e
lamentei a morte da mulher, excelente pessoa, caridosa, amiga de
servir, sim senhor. Mendonça, espantado, perguntou onde eu tinha
visto d. Alexandrina.
— Faz tempo. Fui morador do velho
Salustiano. Arrastei a enxada, no eito.
As moças acanharam-se, mas o pai
achou que eu procedia com honestidade revelando francamente a minha
origem. Depois queixou-se dos vizinhos (nenhum se dava com ele).
— Há por aí umas pestes que
principiaram como o senhor e arrotam importância. Trabalhar não é
desonra. Mas se eu tivesse nascido na poeira, porque havia de negar?
Tentou envergonhar-me:
— Trabalhador alugado, hein? Não se
incomode. O Fidélis, que hoje é senhor de engenho, e conceituado,
furtou galinhas.
— Enquanto ele tesourava o próximo,
observei-o. Pouco a pouco ia perdendo os sinais de inquietação que
a minha presença lhe tinha trazido. Parecia á vontade catando os
defeitos dos vizinhos e esquecido do resto do mundo, mas não sei se
aquilo era tapeação. Eu me insinuava, discutindo eleições. É
possível, porém, que não conseguisse enganá-lo convenientemente e
que ele fizesse comigo o jogo que eu fazia com ele. Sendo assim, acho
que representou bem, pois cheguei a capacitar-me de que ele não
desconfiava de mim. Ou então quem representou bem fui eu, se o
convenci de que tinha ido ali politicar. Se ele pensou isso, era
doido. Provavelmente não pensou. Talvez tenha pensado depois de
iludir-se e julgar que estava sendo sincero. Foi o que me sucedeu.
Repetindo as mesmas palavras, os mesmos gestos, e ouvindo as mesmas
historias, acabei gostando do proprietário de Bom Sucesso.
Continuava a observá-lo, mas a
observação era instintiva. Despertou. Bocejando, mostrando os
caninos amarelos e pontudos, Mendonça bateu palmas e esfarelou um
mosquito. Mosquito como bala! Tinha passado uma noite horrível.
Respondi que havia dormido como pedra.
Os pântanos em S. Bernardo estavam aterrados, não restava um
mosquito para remédio. Arrependi-me de ter falado precipitadamente.
Mendonça examinou-me de través, e suponho que não ficou
satisfeito. Tornou a referir-se á noite de insônia, e eu repeti que
tinha dormido. Pouco seguro, com a cara mexendo. Naturalmente ele
compreendeu que era mentira.
Cada um de nós mentiu estupidamente.
Empurrei de novo na palestra a minha vida de trabalhador. Resultado
medíocre: as moças cochilaram e Mendonça estirou o beiço.
Um caboclo mal encarado entrou na
sala. Mendonça franziu a testa. Quis despedir-me; receei, porém,
que o momento fosse improprio e conservei-me sentado, esperando
modificar a impressão desagradável que produzia. As moças me
achavam maçador, evidentemente.
— Se o inverno vindouro for como
este, desgraça-se tudo: isto vira lama e não nasce um pé de
mandioca.
— De certo, concordou Mendonça,
visivelmente aporrinhado com o caboclo, que me olhava tranquilo, sem
levantar a cabeça.
— Pois até logo, exclamei de
chofre. A eleição domingo, hein? Entendido. Mato um ... (Ia dizer
um boi. Moderei-me: todo o mundo sabia que eu tinha meia duzia de
eleitores) um carneiro. Um carneiro é bastante, não? Está direito.
Até domingo.
E sai, descontente. Creio que foi mais
ou menos o que aconteceu. Não me lembro com precisão.
Atravessei o pátio e entrei no atalho
que ia ter a S. Bernardo. Que vergonha! Tomar a terra dos outros e
deixá-la com aquelas veredas indecentes, cheias de camaleões, o
mato batendo no rosto de quem passava!
Percorri a zona da encrenca. A cerca
ainda estava no ponto em que eu a tinha encontrado no ano anterior.
Mendonça forcejava por avançar, mas continha-se; eu procurava
alcançar os limites antigos, inutilmente. Discórdia séria só
esta: um moleque de S. Bernardo fizera mal á filha do mestre de
açúcar de Mendonça, e Mendonça, em consequência, metera o
alicate no arame; mas eu havia concertado a cerca e arranjado o
casamento do moleque com a cabrochinha.
Dei uma vista no algodoal e
encaminhei-me ao paredão do açude. Poucos trabalhadores.
Subi a colina. Tinham-se concluído os
alicerces desta nossa casa, as paredes começavam a elevar-se. De
repente um tiro. Estremeci. Era na pedreira, que mestre Caetano
escavacava lentamente, com dois cavouqueiros. Outro tiro, ruim: pedra
miúda voando.
Quando se acabariam aqueles serviços
moles? Desgraçadamente faltavam-me recursos para atacá-los firme.
Assim mesmo, lidando com pessoal escasso, ás vezes na sexta-feira eu
não sabia onde buscar dinheiro para pagar as folhas no sábado.
Fiz algumas perguntas ao pedreiro. Um
pedreiro só. As paredes tinham um metro de altura. Se eu empregasse
muitos operários, as obras sairiam mais baratas. O paredão do açude
não ia para a frente, acuava. E a pedreira, onde uns vultos
miudinhos se moviam, era como se em seis meses de trabalho não
tivesse sido desfalcada.
Um carro de bois passou lá em baixo;
outro carro de bois veio vindo, carregado de tijolos.
Onde andaria a velha Margarida? Seria
bom encontrar a velha Margarida e trazê-la para S. Bernardo. Devia
estar pegando um século, pobre da negra. Demorei-me até que os
serventes lavaram as colheres e guardaram as ferramentas. Fiquei só.
Os homens da lavoura e os do açude foram debandando também.
Mais tiros na pedreira, os últimos.
Pensei no Mendonça. Canalha. Do lado de cá da cerca o algodão
pintava, a mamona crescia nos aceiros da roça; do lado de lá, sapé
e espinho. Quantas braças de terra aquele malandro tinha furtado!
Felizmente estávamos em paz. Aparentemente. De qualquer forma era-me
necessário caminhar depressa.
Desci a ladeira e fui jantar. Enquanto
jantava, falei em voz baixa a Casimiro Lopes, a princípio com panos
mornos, depois delineando um projeto. Casimiro Lopes desviou-se dos
panos mornos e colaborou no projeto.
Deixei o negócio entabolado, fechei
as portas e escrevi algumas cartas aos bancos da capital e ao
governador do Estado. Aos bancos solicitei empréstimos, ao
governador comuniquei a instalação próxima de numerosas indústrias
e pedi a dispensa de imposto sobre os maquinismos que importasse. A
verdade é que os empréstimos eram improváveis e eu não imaginava
a maneira de pagar os maquinismos. Mas havia-me habituado a
considerá-los meio comprados.
Em seguida consultei o Aprendizado
Agrícola da Satuba relativamente a possível aquisição dum bezerro
Limosino. Quando ia terminando, ouvi pisadas em redor da casa.
Levantei-me e olhei pela fresta. Lá estava um tipo dando estalos com
os dedos, enganando o Tubarão. Reparando, julguei reconhecer o
freguês carrancudo que tinha entrado na sala do Mendonça. Abandonei
a espreita e chamei Casimiro Lopes, que me substituiu. Deitei-me
pensando em mestre Caetano e na pedreira. Marretas, alavancas, aço
para broca, pólvora, estopim!
— Gente de lá, murmurou Casimiro
Lopes balançando o punho da rede.
— Com certeza.
No outro dia, sábado, matei o
carneiro para os eleitores. Domingo á tarde, de volta da eleição,
Mendonça recebeu um tiro na costela mindinha e bateu as botas ali
mesmo na estrada, perto de Bom Sucesso. No lugar ha hoje uma cruz com
um braço de menos.
Na hora do crime eu estava na cidade,
conversando com o vigário a respeito da igreja que pretendia
levantar em S. Bernardo. Para o futuro, se os negócios corressem
bem.
— Que horror! exclamou padre
Silvestre quando chegou a noticia. Ele tinha inimigos?
— Se tinha! Ora se tinha! Inimigo
como carrapato. Vamos ao resto, padre Silvestre. Quanto custa um
sino?
Graciliano Ramos, em S. Bernardo

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