A
Noite e Suas Ilusões
I
A
Cela Gótica
Nox
et solitudo plenae sunt diabolo
Os
Padres da Igreja
(De
noite, minha cela se enche de diabos.)
Oh,
a terra! — murmurava eu de noite. É um cálice perfumado cujo
pistilo e estames são a lua e as estrelas!
E
com os olhos pesados de sono, fechei a janela que incrustou a negra
luz do calvário na auréola amarela dos vidros.
Se
ao menos à meia-noite, hora brasonada de dragões e diabos, não
fosse o gnomo o único a embriagar-se com o óleo da minha lâmpada!
Se
não fosse a ama de leite a única a acalentar, com seu monótono
canto, na couraça de meu pai, também recém-nascido morto!
Se
não fosse o esqueleto do lansquenê emparedado no madeirame o único
a chamar com a testa, com o cotovelo e com o joelho!
Porém
é Scarbó, que me morde o pescoço e que, para cauterizar minha
ferida sangrenta, enfia nela seu dedo de ferro enrubescido nas brasas
da chaminé!
Livro terceiro das fantasias de Gaspar da Noite, em Livro de Sonhos, de Jorge Luís Borges
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