44.
Há
um sono da atenção voluntária, que não sei explicar, e que
frequentemente me ataca, se de coisa tão esbatida se pode dizer que
ataca alguém. Sigo por uma rua como quem está sentado, e a minha
atenção, desperta a tudo, tem todavia a inércia de um repouso do
corpo inteiro. Não seria capaz de me desviar conscientemente de um
transeunte oposto. Não seria capaz de responder com palavras, ou
sequer, dentro em mim, com pensamentos, a uma pergunta de qualquer
casual que fizesse escala pela minha casualidade coincidente. Não
seria capaz de ter um desejo, uma esperança, uma coisa qualquer que
representasse um movimento, não já da vontade do meu ser completo,
mas até, se assim posso dizer, da vontade parcial e própria de cada
elemento em que sou decomponível. Não seria capaz de pensar, de
sentir, de querer. E ando, sigo, vagueio. Nada nos meus movimentos
(reparo por o que os outros não reparam) transfere para o observável
o estado de estagnação em que vou. E este estado de falta de alma,
que seria cómodo, porque certo, num deitado ou num recumbente, é
singularmente incómodo, doloroso até, num homem que vai andando
pela rua.
É
a sensação de uma ebriedade de inércia, de uma bebedeira sem
alegria, nem nela, nem na origem. É uma doença que não tem sonho
de convalescer.
É
uma morte alacre.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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