quinta-feira, 3 de julho de 2025

Quinto caderno de Kindzu


JURAS, PROMESSAS, ENGANOS

Farida dormia na cabina do capitão. Enquanto eu dormia fora, deitado entre cordas e panos velhos. O anão nunca saía do porão, de guarda aos donativos. Caso estranho: Farida não era capaz de ver o tchóti. Pior ainda: ela desacreditava da sua existência. Eu lhe apontava lá em baixo no porão, a sombra escura e minusculinha do anão. Ela se ria, como se fosse brincadeira. Eu lhe notava os barulhos que o baixito fazia, ela respondia que era o mar ecoando no navio. Desisti de provar a presença do tchóti. Aliás, mesmo eu comecei a duvidar. Cheguei a descer ao porão para provar se o baixito ali permanecia. Chamei por ele, vasculhei, passei tudo pela finura de um pente. Nada. Nem vestígio do anão. Farida tinha razão? Será que só em sonho a criaturita preenchera alguma existência? Ou seria, mais outra vez, obra de meu pai?
Essas perguntas me perseguiam enquanto procurava ninho para dormir. Do lugar onde me ensonava eu podia ver o céu, todo redondo, estrelinhoso. Nas noites mais claras eu já enxergava a torre do farol. No princípio eu não conseguia distinguir a ilha mais sua construção. Agora, sim. Já os via tanto quanto deixara de ver o anãozito. Eu e Farida trocáramos de ilusões? E lá estava o farol, esse da esperança. Parecia uma zebra descansando sobre uma só perna. Muitas vezes nem se via a pequena ilha onde tinha sido construído. As ondas cobriam os rochedos, em crinas de espumas. Nas ventanias, o mar se agravava e parecia o barco ia ser arrancado. Eu pensava: “lá vamos partir de viagem, sem rumo nem comandante”. Contudo, o barco apenas rangia, cansado. Nenhuma força conseguia libertar aquele náufrago. Tinha teimosias iguais às de Farida, só que de contrárias direcções. Um queria ficar, outro ansiava partir. Nada parecia demover aquela mulher de sair de sua terra, abandonar tudo. Seu filho era sua única dúvida, a última âncora.
Antes de deitar, Farida passeava pelo convés. Vagueava, espreitando no escuro. Nesses momentos, ela me recordava meu pai, andando pelo mato à procura de sonhos.
Não sentes, Kindzu? O barco está a mexer!
Não mexia. Só ela sentia o navio ceder. Naquele destroço, o tempo parecia também naufragado. Nesse enquanto, fui um ouvidor. De cada vez que sofria uma dessas estranhas febres que lhe roubavam o corpo, Farida contava sua estória, fiava e desfiava lembranças. Eu escutava até anoitecer. Meu pai costumava dizer que a escuridão nos faz nascer muitas cabeças. Os relatos de Farida me faziam entrar no passado dela como se eu fosse natural desse seu tempo. Minha companheira perdia a noção do mundo enquanto duravam suas recordações. Era eu que alertava para a fome, para a sede, para o frio. Comíamos e bebíamos da despensa do navio. Havia ainda demais reservas. Farida podia ficar aqui por tempos e tempos. E parecia era esse o desejo dela. E as estórias se seguiam, se repetiam, trocavam e multiplicavam.
Me estás a ouvir, Kindzu?
Na realidade, eu já desistira de escutar. Pensava sobre as semelhanças entre mim e Farida. Entendia o que me unia àquela mulher: nós dois estávamos divididos entre dois mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia. Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no desenho do nosso futuro. Culpa da Missão, culpa do pastor Afonso, de Virgínia, de Surendra. E sobretudo, culpa nossa. Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria desembarcar numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria encontrar um outro continente dentro de África. Mas uma diferença nos marcava: eu não tinha a força que ela ainda guardava. Não seria nunca capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doença da baleia que morre na praia, com olhos postos no mar.
Certa vez ela se chegou grave. Colocou suas mãos nas minhas e deixou um silêncio pousar. Depois, me pediu:
Quando saíres daqui quero que vás procurar meu filho. Hei-de levar Gaspar comigo.
Não posso, Farida. Vou sair daqui e procurar os naparamas.
Tu nunca vais encontrar esses teus naparamas. Esquece isso.
Não posso.
Não vês que essa gente também é filha da guerra? Quando vencerem ficam iguais aos outros. Vão querer dividir as vantagens com os outros.
Cala-te, tu não sabes nada sobre esta guerra. Tu queres fugir, não tens nenhum direito de falar.
Farida se ofende. No resto do dia ela me evita. Eu também me afastei. Aquela mulher tinha maltratado a minha maior aspiração. Eu precisava acreditar que existia uma causa nobre, uma razão pela qual valia a pena me entregar. Farida não tinha o direito de manchar aquela crença. Ao fim de um tempo, porém, reconsiderei: procurando uns naparamas bem podia procurar também o tal Gaspar. Não valia a pena acender briga naquele tão pequeno espaço. Me cheguei a Farida e perguntei como se não tivesse nenhum empenho:
Como posso encontrar teu filho?
Farida se espanta. Queres mesmo ir procurar o miúdo, pergunta ela. A sua mão pousa em meu braço: espera, não vás já! O melhor é aguardar por uma noite de luar para a tua canoa não virar nas pedras. Repeti a pergunta: onde deveria eu vasculhar para encontrar seu filho? Ela fingiu que pensava naquele momento. Mais de catorze anos se tinham passado desde que entregara seu filho na missão. E se eu procurasse tia Euzinha? Ou quem sabe Virgínia ainda estivesse por ali? Na missão? Na missão nem valia a pena, Gaspar nunca haveria de lá voltar. Enfim, eu que tentasse tudo em toda a parte. O menino não poderia ter desaparecido assim, qualquer maneira.
Procura onde teu peito suspeitar. Mas promete me trazer de volta o meu menino.
Prometi. Eu começaria a busca mal chegasse a terra. Mas eu sentia em mim uma guerra de quereres: parte de mim desejava que ela nunca mais encontrasse o filho. Seria uma maneira de ela ir ficando por ali, um modo de eu guardar sua companhia. Outra parte de mim queria merecer afectos. Redescobrir Gaspar seria o modo vitorioso de conquistar esse afecto. Depois, porém, eu comecei a duvidar se aquela mulher merecia tantas juras de minha parte. Porque as suas estórias foram mais e mais entrando na confusão. Dizia e desdizia. Uma certa vez, quando eu queria aprofundar o caso de seu filho ela me inquiria, surpresa:
Meu filho? Qual filho?
Seu filho Gaspar!
Demorou um tempo até se recordar. Afinal, ela se deslembrara assim do pé para a mão? Ou inventara tudo de sua criação? Comecei a pôr muita sobrancelha nas seguintes escutas. Farida se multiplicava em Faridas. Até que uma noite, o calor me fazia rebulir sobre os panos. Acordei estremungado. Ouvi barulhos. Um pequeno barco a motor se aproximava. Farida veio e gritou agitada:
São eles, me vêm buscar!
Eles, quem? Farida não respondeu. Me agarrou pelos braços e implorou defesa. Mas não foi preciso eu fazer nada. Porque uma grandiosa tempestade subitamente rebentou. O barquinho dos visitantes não conseguia encostar ao nosso. Tentaram várias vezes. Mas depois, desistiram e se retiraram, escuro adentro. Voltei a perguntar:
Mas Farida, quem eram?
Me querem vir matar, Kindzu.
Um assassinato? Que motivo teria? Me pareceu pouco acontecível, mais um delírio daquela mulher. Daquela vez, porém, seu comportamento me estranhou, em convincência. Ela se encerrou em seu quarto e me pediu que me mantivesse à espreita, não fossem os outros regressar. Fui para o convés, molhado até dentro dos olhos. A chuva redigia suas gordas gotas, hesitantes entre trovoar e tropousar. As nuvens se acotovelavam, sem gentileza. Podiam se tocar, pedirem desculpa e continuar caminho. Enquanto não: brigavam, cuspiam lumes, resmungos celestiais. Será que aprenderam dos homens as impaciências terrestres?
Aquelas nuvens me fizeram recordar quantos dias passaram desde que chegara ao barco encalhado. Já me fartava daquela sozinhidão. Farida nem se importava com a espera. Muitas vezes eu lhe pedia:
Vem, volta comigo para terra.
Por que razão eu não queria que ela fosse em sua viagem? Por que me doía pensar que alguém pudesse vir-lhe buscar e levar-lhe para terras muito estrangeiras? Será que já me afeiçoara tanto assim àquela mulher? Ou simplesmente sentia inveja de não poder partir também, sair daquela terra enlouquecida? Quem sabe eu tinha medo de aceitar esse desejo do longe, tão igual ao de Farida? Afinal, ali sob a grossa chuva, de sentinela aos obscuros saltinhadores, eu apenas fingia proteger Farida. Era ela quem realmente me protegia, era ela quem governava os espíritos daquele navio. Meu único espírito, o anão, já se havia extinguido.
Uma coisa me certificava: pouco a pouco eu me amarrava à presença daquela mulher. Nunca eu tinha tocado em mulher de amar. As autênticas, reais mulheres me temorizavam. Ao invés, Farida era quase irreal, ela se sonhava e eu me deliciava naquele fingimento que punha nela. Mas quanto mais me ardia em paixão mais eu sentia que me devia ir embora. Minha missão era outra. Por muito que começasse a duvidar, eu não podia esquecer meu original motivo: ser um naparama, um guerreiro de justiça. Farida me roubava coragem do caminho, me roubava força de decidir. Cada dia que passava, meu coração semelhava mais e mais aquele barco. Eu estava parado naquela mulher, como os ferros preguicentos do barco estavam cravados no banco de areia. Não podia adiar mais, se quisesse ainda ser dono de mim. Deveria partir, imediatamente. Desci o porão apenas para descarregar consciência sobre o anão. E se ele realmente existisse? Essa minha dúvida aumentou quando de um lado do porão vi pacotes e caixotes arrumados em altura reduzida como se tivessem sido empilhados por criança. Gritei, chamei. Recebi nenhuma resposta. Insisti, o silêncio teimou mais que eu. Farida estava certa, não havia ninguém mais no barco a não ser nós os dois.
Saí do porão, aspirei fundo o ar salgado. Nesse dia estava Setembro, o mês que chama os temporais. O vento soprava trazendo e levando uma chuva quente. De repente, a cabina de pilotagem se acendeu, um xipefo pintou luz, em doces pinceladas. Por entre as cortinas vi o corpo de Farida. Ela se banhava. Assim, em contorno de claro e escuro a mulher se esfregava em água ou em claridade? Cheguei à escotilha, espreitei sem disfarce. Farida me notou, virou-se de lado e acenou um gesto de convite.
Entrei, perturbado, ardendo de intenção. Juntei-me a ela, chegadinho, fosse confiar-me um ilegítimo segredo. Ela se prumou, face a face. Nos olhámos como se reconhecêssemos, no outro, o único ser da terra. Eu para mim, me garantia: não chegava uma vida inteira para contemplar aqueles olhos. Cinzas, se nos olhos dela dormitavam, em brasas se acenderam. Um dedo foi entrando no canto da sua boca. Toquei primeiro em seus dentes, depois senti sua saliva. Era uma saliva quente, parecia que não era apenas um dedo mas todo eu inteiro que penetrava numa caverna aquecida. Outro dedo caminhou nos interiores dela, nervoso de contente. Lá fora, o mar esturdilhava, lançando espumas. O vento soprou com mais raiva, as ondas começaram a varrer tudo, sem respeito. Mesmo ali, no guardado da nossa sala, a água jorrava. Nem parecíamos notar. O mundo esvanecia e o mar já não importava. As mãos molhadas de Farida desataram as vestes, os dedos dela parecia eram de água. Ela se deitou, derramada no chão de ferro. Nos colámos em gestos de afogado. As vagas ondeavam nossos corpos, indo e vindo. Os dois éramos já só um, emergindo como uma ilha num imenso nada.
Depois, nos desprendemos, fatigados. Ela estremeceu, molhada. Se chegou ao xipefo, se envolveu numa manta. Permaneci, prostrado, seguindo cada movimento dela. Que idade teria? Porque se Farida dava como uma mulher, recebia como uma menina.
Tens que ir, Kindzu.
Não entendi. Antes, ela me pedira que eu aguardasse pelas noites de luar. Agora se antecipava à lua. E depois, eu é que devia anunciar a partida. Como é que ela podia ordenar a nossa separação?
Eu vou. Mas tu vens comigo, Farida.
Ela negou: não podia abandonar aquele navio. Mas é um destroço, Farida. Aqui só há outroras, isto é água riscando fósforos. Ela não recuava ideia. Aqui, Kindzu, é o meu ninho. E depois, tenho a certeza, me hão-de vir buscar.
Um barco desse tamanho não pode ser esquecido. Os donos virão rebocar esta carcaça, eu irei junto. Para longe, muito longe, Kindzu.
Praguejei. Eu sabia que a miséria se cura é com farturas. É verdade que o melhor lugar para o vivo se esconder é no meio de um enterro. Mas aquele devaneio dela não tinha conformidade nenhuma. Tanta ilusão não se concebia. Gritei, em desespero: vais é morrer aqui, apodrecer sozinha. Ela girou, furiosa. Meus modos lhe desacertavam. Parecia que ela iria responder à justa letra e tom. Mas permaneceu gesticalada, com esse surpreendimento que só as mulheres são capazes. Mais tarde, avançou, carinhenta:
É o tempo da gente ser cada um. Só isso, Kindzu.
A terra que tu procuras é esta, Farida. Não há outro lugar.
Tu não entendes, Kindzu. Eu quero sair, continuar viva.
E teu filho: vais deixá-lo?
Eu pensava que aquele seria argumento fatal. Enganei-me. Ela já não escutava. Cabisbaixei-me, desistido. Quis enrolar um cigarro, o papel estava encharcado. Amarrotei o charro e atirei para o chão como se nos meus dedos estivesse a minha vontade. Farida não percebia: eu não podia senão viver no sossego da labareda, à sombra de uma paixão mortal. Ela me roçou um gesto, terna, materna. Perguntei se algum recado havia, alguma mensagem a levar para terra. Ela trocou uns dedos de silêncio e, depois, murmurou:
Eu, Deus me esqueça, só peço uma coisa: é que meu filho já não viva.
Não diga uma coisa dessas. O que é isso, mulher?
Mas, Kindzu, acredita que eu quero mal ao meu menino? É que quase eu penso que na morte se está melhor que aqui. E, depois, são pressentimentos, coisas de mãe, nem você pode nunca entender.
Eu prometi que iria buscar seu menino. É isso que farei, Farida.
Ela sorriu, nem sei se de gratidão. Talvez se divertisse de minha ingenuidade. Pedi-lhe que prometesse esperar pelo meu regresso. Respondeu com um vago aceno. Insisti:
Virei com seu Gaspar. Promete que me espera?
Prometo. Agora vai, Kindzu. Vai dormir que sua viagem segue amanhãzinha cedo.
Fui-me deitar em meu recanto. Farida não queria que dormíssemos juntos. Quem dorme no colo de outro perde a alma, dizia. Os sonhos não encontram os respectivos donos quando homem e mulher dormitam entrelaçados. Assim, me embalei solitário, procurando vencer meu cansaço. Em vão. Já era madrugada ainda eu não dera jeito no sono. As pálpebras cabecearam só quando o dia espontava. Olhando o nascer da luz realizei que nunca mais dera atenção ao astro-dia. No fundo, me despedira da luz nas praias de minha aldeia. De bruços sobre o verão, eu deixara o sol na savana do tempo. Molhado, quase líquido, o dia brotava das fundas águas do Índico. Se ergueu com a soberania das coisas derradeiras. E a terra se via estar nua, lembrando distante seu parto de carne e lua.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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