43.
Há um cansaço da inteligência
abstrata, e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o
cansaço do corpo, nem inquieta como o cansaço do conhecimento pela
emoção. É um peso da consciência do mundo, um não poder respirar
com a alma.
Então, como se o vento nelas desse, e
fossem nuvens, todas as ideias em que temos sentido a vida, todas as
ambições e desígnios em que temos fundado a esperança na
continuação dela, se rasgam, se abrem, se afastam tornadas cinzas
de nevoeiros, farrapos do que não foi nem poderia ser. E por detrás
da derrota surge pura a solidão negra e implacável do céu deserto
e estrelado.
O mistério da vida dói-nos e
apavora-nos de muitos modos. Umas vezes vem sobre nós como um
fantasma sem forma, e a alma treme com o pior dos medos — a da
encarnação disforme do não-ser. Outras vezes está atrás de nós,
visível só quando nos não voltamos para ver, e é a verdade toda
no seu horror profundíssimo de a desconhecermos.
Mas este horror que hoje me anula é
menos nobre e mais roedor. E uma vontade de não querer ter
pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente
de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento súbito de
se estar enclausurado na cela infinita. Para onde pensar em fugir, se
só a cela é tudo?
E então vem-me o desejo
transbordante, absurdo, de uma espécie de satanismo que precedeu
Satã, de que um dia — um dia sem tempo nem substância — se
encontre uma fuga para fora de Deus e o mais profundo de nós deixe,
não sei como, de fazer parte do ser ou do não-ser.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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