Acreditam
os vencidos:
Ele
voltará e pela terra andará. As mais altas montanhas sabem. Como
são as mais altas, veem mais longe e sabem.
Foi
filho do sol e de mulher boa.
Ele
prendeu o vento; e o sol, seu pai, foi por ele amarrado, para que o
tempo dure.
A
chibatadas, guiando-as, levou pedras até as alturas. Com essas
pedras fez templos e fortalezas.
Por
onde foi, foram-se os pássaros. Os pássaros o cumprimentavam e
alegravam seu passar. Por muito caminhar, derramou sangue dos pés.
Quando o sangue dos pés dele se misturou com a terra, nós
aprendemos a cultivar. Aprendemos a falar quando ele nos disse:
“Falem”. Ele foi mais forte e mais jovem que nós.
Nem
sempre tivemos medo no peito. Nem sempre andamos aos tombos, como os
besouros dos caminhos. É longa a nossa história. Nossa história
nasceu no dia em que fomos arrancados da boca, dos olhos, das axilas
e da vagina da terra.
O
irmão de Inkarrí, Españarrí, cortou-lhe a cabeça. Foi ele. A
cabeça de Inkarrí se transformou em dinheiro. Ouro e prata brotaram
das tripas cheias de merda de seu ventre.
As
mais altas montanhas sabem. A cabeça de Inkarrí está querendo
crescer rumo aos pés. Seus pedaços haverão de juntar-se algum dia.
Esse dia, amanhecerá ao anoitecer. Esse dia, ele andará pela terra
perseguido pelos pássaros.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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