quinta-feira, 3 de julho de 2025

1571 – Cidade do México

Delatarás ao próximo

Dos balcões escorrem, pendurados, os escudos de armas, tapetes coloridos, veludos, bandeirolas. Fulguram a armadura do cavaleiro de Santiago, que inclina seu estandarte ante o vice-rei. Os pajens erguem seus grandes machados, em torno da enorme cruz cravada no patíbulo.
O inquisidor-geral está chegando de Madrid. É anunciado com atabaques e clarins. Vem em lombo de mula, com arreio cravejado, no meio de uma multidão de círios acesos e capuzes negros.
Sob sua autoridade suprema serão atormentados ou queimados os hereges. Há séculos, o papa Inocêncio IV mandou agoniar com tormentos os assassinos das almas e os ladrões da fé de Cristo; e muito depois o papa Paulo III proibiu que a tortura durasse mais de uma hora. Desde então, os inquisidores interrompem um pouquinho seu trabalho a cada hora. O inquisidor-geral recém-chegado ao México cuidará que nunca se use lenha verde nas execuções, para que não feda a cidade a fumaças ruins; e as ordenará em dias de céu claro, para que todos possam admirá-las. Não se ocupará dos índios, por ser novos na fé, gente fraca e de pouca substância.
O inquisidor-geral se senta ao lado do vice-rei. É saudado por uma salva de artilharia.
Repicam os tambores e o pregoeiro proclama o edital geral da fé. Manda o edital que todos delatem o que saibam ou tenham visto ou ouvido, sem reservar mulher, marido, pai ou quem quer que seja, por mais íntimo que seja. Estão todos obrigados a denunciar vivos ou mortos que tenham dito ou acreditado em palavras ou opiniões heréticas, suspeitas, errôneas, temerárias, malsoantes, escandalosas ou blasfemas.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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