Delatarás ao próximo
Dos balcões escorrem, pendurados, os
escudos de armas, tapetes coloridos, veludos, bandeirolas. Fulguram a
armadura do cavaleiro de Santiago, que inclina seu estandarte ante o
vice-rei. Os pajens erguem seus grandes machados, em torno da enorme
cruz cravada no patíbulo.
O inquisidor-geral está chegando de
Madrid. É anunciado com atabaques e clarins. Vem em lombo de mula,
com arreio cravejado, no meio de uma multidão de círios acesos e
capuzes negros.
Sob sua autoridade suprema serão
atormentados ou queimados os hereges. Há séculos, o papa Inocêncio
IV mandou agoniar com tormentos os assassinos das almas e os ladrões
da fé de Cristo; e muito depois o papa Paulo III proibiu que a
tortura durasse mais de uma hora. Desde então, os inquisidores
interrompem um pouquinho seu trabalho a cada hora. O inquisidor-geral
recém-chegado ao México cuidará que nunca se use lenha verde nas
execuções, para que não feda a cidade a fumaças ruins; e as
ordenará em dias de céu claro, para que todos possam admirá-las.
Não se ocupará dos índios, por ser novos na fé, gente fraca e
de pouca substância.
O inquisidor-geral se senta ao lado do
vice-rei. É saudado por uma salva de artilharia.
Repicam os tambores e o pregoeiro
proclama o edital geral da fé. Manda o edital que todos delatem o
que saibam ou tenham visto ou ouvido, sem reservar mulher, marido,
pai ou quem quer que seja, por mais íntimo que seja. Estão todos
obrigados a denunciar vivos ou mortos que tenham dito ou acreditado
em palavras ou opiniões heréticas, suspeitas, errôneas,
temerárias, malsoantes, escandalosas ou blasfemas.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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