Não,
nem todo o tipo de lucidez é frieza. San Tiago Dantas, por exemplo,
que era acusado de frieza. Mas o próprio Schmidt se contradizia a
respeito.
Conheci
San Tiago em Paris. Formamos logo um grupo. E não sei por que
resolvemos que naquela noite iríamos percorrer os nightclubs de
Paris. O que fizemos até o amanhecer. Onde os violinos cantavam
finos demais e perto demais de nós, saíamos. Mas acontece que em
noite longa bebe-se. E eu não sei beber. Se bebo, ou me dá sono ou
choro um pouco. Mas se continuo a beber, começo a ficar brilhante, a
dizer coisas. E não sei o que é pior. Nessa noite aconteceram
ambas. San Tiago, se era de chorar, não demonstrava. Sua lucidez na
verdade era um grande controle e não frieza.
Ah,
quantos mortos já havia em potencial no grupo. Bluma, Schmidt,
Wainer, San Tiago. Ninguém sabia. Ou sabíamos? Tanto que não
suportávamos os finos violinos finos.
Havia
uma dona de boate que também servia de caixa. Estava com os ombros
decotados, ombros bem cheios e bem fortes. Falamos muito de ombros.
Os meus ficaram frágeis. Que é que eu bebi? O que me deram, e
misturei muito.
Até
que começou a madrugar, a quase amanhecer devagar. Ninguém tinha
sono mas era a hora. Fomos andando. E San Tiago descobriu nas
esquinas de Paris as primeiras vendedoras de flores. Não posso dizer
quantas rosas ele comprou para mim. Sei que eu andava pelas ruas sem
poder carregar tantas, e à medida que eu andava as rosas caíam pelo
chão. Se jamais fui bonita foi naquele amanhecer de Paris com rosas
caindo de meus braços plenos. E um homem que enfeita uma mulher não
tem lucidez fria.
O
quarto do hotel ficou cheio de perfume fresco, fresco. Mais morri do
que adormeci.
Ao
meio-dia acordei e mal podia abrir os olhos de tanta ressaca. Acordei
o meu então marido e pedi que tocasse a campainha chamando o garçom
e encomendando o café mais forte que houvesse.
Em
breve o garçom entrava. Mas não só com o café. Com braçadas de
mais flores: San Tiago já as tinha mandado. E enquanto eu bebia o
café tocava o telefone: era San Tiago querendo saber como eu estava.
Eu estava péssima. Perguntou se podíamos almoçar todos juntos. Mas
chega nesse ponto e não me lembro mais: parece-me que tínhamos de
tomar o trem para Berna naquela hora e não podíamos.
Quando
fui ver San Tiago de novo? No Rio. Fomos jantar na casa dele e de
Edmeia. Mas aí ele me estranhou. Eu não tinha bebido, eu não
chorava, eu não brilhava. Estava meio calada. Perguntou-me se eu
estava triste. Respondi-lhe que eu era isso.
No
meio do jantar falou-se do quadro de um museu italiano. San Tiago
perguntou se eu gostara. Disse-lhe que não me lembrava. Respondeu
com simplicidade: ah, é verdade que você é dos que só se lembram
do que aconteceu antes de ter dez anos de idade.
Passou-se
tempo. Quando ele ia a Washington dava-me a alegria de me telefonar
na mesma hora. Jantava lá em casa, ficávamos conversando até mais
de três horas da madrugada. E eu aprendia. O que aprendi, já
esqueci, mas tenho a certeza de que de algum modo ficou em mim.
Uma
vez jantamos num hotel em Washington. E ele falou muito de política
comigo. Fiquei desconfiada: não se fala de política com mulher.
Estaria eu ficando menos mulher? Perguntei-lhe com franqueza.
Respondeu que pelo contrário, e que até tomasse cuidado. Então
jantei melhor.
E
muito depois a doença dele. Um dia recebo um convite impresso para
um banquete com discurso político de San Tiago. Quem se lembraria de
me convidar para isso, senão ele? Fui. Depois do banquete,
levanta-se San Tiago, branco como uma folha de papel. Sua voz
falhava. Então ele tomava um gole de água. E recomeçava como um
herói de si mesmo, todo herói é um herói de si mesmo. Quem vence
está-se vencendo.
Depois
fui abraçá-lo, controlando minhas lágrimas. Eu abraçava a morte.
E a morte lúcida. Ele aceitou a morte, tenho a certeza.
Esqueci
de dizer que San Tiago tinha várias sobrinhas que ele muito amava.
Uma delas era a preferida. E quando ela esteve em Washington, trouxe
carta dele recomendando-a a mim. E mais: que eu tivesse uma conversa
com ela. Tivemos várias. Jantava em casa à vontade.
E
depois veio aqui no Rio o convite para o casamento dela. O noivo e a
noiva tímidos e lindos. Sentei-me num dos bancos da igreja. Olhei
San Tiago no outro. Ele estava morrendo sentado. Houve o casamento.
Quando
todos se levantaram e cumprimentaram os noivos, encontrei-me com San
Tiago. Quase não falava mais. Perguntou-me se eu estava escrevendo.
Respondi-lhe que acabara de escrever um livro e que o nome era A
paixão segundo G. H. E ele disse que gostava muito do nome.
Ia
gostar desse livro, eu sei. Mas morreu antes da publicação. Não
fui ao enterro. Porque nem todos morrem.
Clarice Lispector, em Todas as crônicas
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