30.
Reconheço,
não sei se com tristeza, a secura humana do meu coração. Vale mais
para mim um adjetivo que um choro real da alma. O meu mestre Vieira.
Mas
às vezes sou diferente, e tenho lágrimas, lágrimas das quentes dos
que não têm nem tiveram mãe; e os meus olhos que ardem dessas
lágrimas mortas ardem dentro do meu coração.
Não
me lembro da minha mãe. Ela morreu tinha eu um ano. Tudo o que há
de disperso e duro na minha sensibilidade vem da ausência desse
calor e da saudade inútil dos beijos de que me não lembro. Sou
postiço. Acordei sempre contra seios outros, acalentado por desvio.
Ah,
é a saudade do outro que eu poderia ter sido que me dispersa e
sobressalta! Quem outro seria eu se me tivessem dado carinho do que
vem desde o ventre até aos beijos na cara pequena?
Talvez
que a saudade de não ser filho tenha grande parte na minha
indiferença sentimental. Quem, em criança, me apertou contra a cara
não me podia apertar contra o coração. Essa estava longe, num
jazigo – essa que me pertenceria, se o Destino houvesse querido que
me pertencesse.
Disseram-me,
mais tarde, que a minha mãe era bonita, e dizem que, quando mo
disseram, eu não disse nada. Era já apto de corpo e alma,
desentendido de emoções, e o falarem ainda não era uma notícia de
outras páginas difíceis de imaginar.
O
meu pai, que vivia longe, matou-se quando eu tinha três anos e nunca
o conheci. Não sei ainda porque é que vivia longe. Nunca me
importei de o saber. Lembro-me da notícia da sua morte como de uma
grande seriedade às primeiras refeições depois de se saber.
Olhavam, lembro-me, de vez em quando para mim. E eu olhava de troco,
entendendo estupidamente. Depois comia com mais regra, pois talvez,
sem eu ver, continuassem a olhar-me.
Sou
todas essas coisas, embora o não queira, no fundo confuso da minha
sensibilidade fatal.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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