domingo, 22 de junho de 2025

Enquanto Agonizo


Tull

Eram 10 horas quando regressei, com a parelha de Peabody atada atrás da carroça. Já tinham trazido o carro de onde Quick o encontrou, de rodas para o ar, na valeta, a um quilômetro e meio da nascente. Já o tinham puxado para a beira da estrada, junto i nascente, e uma dúzia de carroças encontrava-se no lugar. Foi Quick que o encontrou. Ele disse que o rio está enchendo e continuará a subir. Disse que as águas já tinham quase atingido a marca mais alta do pilar da ponte; uma coisa nunca vista.
Essa ponte não resistirá à força de tanta água”, eu disse.
Alguém já foi avisar Anse?”
Eu avisei”, disse Quick. “Ele respondeu que espera que os rapazes tenham sabido, feito a descarga e estejam agora de volta. Acha que podem carregar e fazer a travessia.”
Ele faria melhor enterrando-a em New Hope”, disse Armstid. “A ponte é velha. Eu não confiaria nela.”
Ele é teimoso: meteu na cabeça que tem de levá-la a Jefferson”, disse Quick.
Então, é melhor sair o mais cedo possível”, disse Armstid.
Anse nos recebe à porta. Barbeou-se mas não muito bem. Tem um corte longo no queixo e está vestindo as calças domingueiras e uma camisa branca de colarinho abotoado. Está bem esticada sobre as costas curvas, o que o faz parecer mais curvo ainda, por causa do branco da camisa, e seu rosto também está diferente. Encara, agora, as pessoas nos olhos, digno, o rosto trágico e compenetrado, apertando nossas mãos quando subimos ao alpendre e esfregamos os sapatos, um tanto rígidos em nossas roupas domingueiras, nossas roupas domingueiras estalando, sem olhar diretamente para ele, enquanto nos cumprimenta.
É a vontade de Deus”, dizemos.
É a vontade de Deus.”
O menino não está à vista. Peabody contou como ele entrou na cozinha, aos berros, aos tropeções e arranhando Cora, quando a encontrou cozinhando aquele peixe, e como Dewey Dell levou-o ao celeiro.
Minha parelha está em ordem?”, pergunta Peabody.
Tudo bem”, digo. “Dei-lhes ração esta manhã. E o carro também está perfeito. Sem um arranhão.”
Alguém tem de ser culpado”, ele diz. “Eu daria um níquel para saber onde aquele menino estava quando a parelha disparou.”
Se tiver alguma peça quebrada, eu conserto”, digo.
As mulheres entram em casa. Podemos ouvi-las falar e abanarem-se. Os leques fazem zis, zis, zis, e elas falando, as conversas parecendo zumbido de abelhas dentro de uma tina de água. Os homens, parados no alpendre, falam pouco, sem se olharem.
Olá, Vernon”, eles dizem. “Olá, Tull.” “Parece que a chuva não para. “Sem dúvida alguma.” “Sim, senhor. Vai chover mais ainda.” “E não demora muito.” “E não para tão cedo. É sempre assim.” Vou aos fundos da casa. Cash está tapando os buracos abertos na tampa. Prepara pregos de madeira para encaixá-los, um a um; a madeira está úmida e difícil de trabalhar.
Podia cortar uma folha de lata para tapar os buracos e ninguém notaria a diferença. Mas não importa. Já o vi perder uma hora, aparando um tarugo, como se fosse de vidro, quando poderia abaixar-se, apanhar uma dúzia de gravetos e introduzi-los nos buracos, dando o trabalho por terminado.
Quando acabamos, volto para a frente da casa. Os homens tinham-se afastado um pouco da casa e estavam sentados em tábuas e nos cavaletes onde nós o fizemos a noite passada; uns, sentados, e outros de cócoras. Whitfield ainda não chegou.
Olham-me com ar interrogativo.
Tudo pronto”, digo. “Agora ele vai pregá-la.”
Enquanto eles reerguem, Anse chega à porta e nos olha e nós voltamos ao alpendre. Esfregamos novamente os sapatos, com cuidado, esperando para ver quem entra primeiro, hesitando um pouco diante da porta. Anse está do lado de dentro da porta, digno, compenetrado. Faz-nos sinal para entrar e nos conduz ao quarto.
Já a tinham colocado no caixão, de revés. Cash o fez em forma de relógio de parede, assim, com todas as juntas e ligações chanfradas e bem aplainadas, tenso como um tambor e bem — acabado como um cesto de costura, e puseram-na dentro com a cabeça no lugar onde ficariam normalmente os pés, para não enrugar-lhe o vestido. Era seu vestido de noiva, muito fofo embaixo, e eles a tinham deitado assim, com a cabeça para os pés, a fim de acomodar melhor o vestido, e tinham feito um véu, de uma tira de mosquiteiro, para esconder os buracos de prego em sua cara.
Quando estávamos saindo, Whitfield chega. Está encharcado e enlameado até a cintura. “Que o Senhor abençoe esta casa”, diz. “Demorei porque a ponte desapareceu. Tive de descer até o antigo vau e, com a ajuda de Deus, passar nadando com o meu cavalo. Que a graça de Deus desça sobre esta casa.” Voltamos aos cavaletes e tábuas e nos sentamos ou ficamos de cócoras.
Eu sabia que a ponte não aguentava”, diz Armstid.
Estava durando muito, aquela ponte”, diz Quick.
Você quer dizer que o Senhor a manteve firme”, diz Tio Billy. “Não conheço ninguém que tocasse ali com um martelo nos últimos vinte e cinco anos.”
Há quanto tempo ela está ali, Tio Billy?”, pergunta Quick.
Foi construída em... deixe-me ver... Foi no ano de 1888”, diz Tio Billy. “Eu me lembro porque o primeiro homem a atravessá-la foi Peabody, que ia à minha casa quando Jody estava nascendo.”
Se eu passei pela ponte todas as vezes que sua mulher pariu, Billy, então ela já devia estar gasta há mais tempo”, dia Peabody.
Rimos com estrondo, e paramos repentinamente. Olhamos um para o outro, um pouco de banda. “Muitas pessoas que passaram por ela já não passarão por ponte nenhuma”, diz Houston.
É verdade”, diz Littlejohn. “Assim é.”
Conheço uma, pelos menos”, diz Armstid. “Serão precisos dois a três dias para eles a levarem à cidade, na carroça. Gastarão uma semana para ir a Jefferson e voltar.”
Por que Anse está tão ansioso em levá-la a Jefferson?”, pergunta Houston. “Prometeu a ela”, digo. “Ela queria. Ela é de lá. Não pensava em outra coisa.”
E Anse também não pensa em outra coisa”, diz Quick.
Ahn”, diz Tio Billy. “Isto é próprio de um homem que deixou sempre a vida correr, e de repente mete-se numa empresa que trará os maiores problemas a todo mundo.”
Bem, só Deus lhe permitirá cruzar o rio agora”, diz Peabody.
Anse, sozinho, não pode.”
E eu acho que Ele permitirá”, diz Quick. “Ele cuida de Anse há muito tempo.”
É verdade”, diz Littlejohn.
Depois de tanto tempo não o abandonará agora”, diz Armstid.
Acho que Ele se parece com todo mundo por aqui”, diz Tio Billy. “Acostumou-se tanto a servir que agora não pode negar ajuda.”
Cash sai. Vestiu camisa limpa; seu cabelo, molhado, foi penteado para a testa, liso e preto como se o tivesse pintado na cabeça. Acocora-se, rígido, entre nós, que o observamos.
Você se ressente deste tempo, não?”, pergunta Armstid.
Cash não responde.
Um osso partido sempre dói”, diz Littlejohn. “Um sujeito de osso partido pode prever mudança de tempo.”
Cash teve sorte de escapar só com uma perna quebrada”, diz Armstid. “Podia ter ficado aleijado, de cama a vida inteira. De que altura você caiu, Cash?”
Oito metros e meio, onze centímetros e alguns quebrados, mais ou menos”, diz Cash.
Eu me aproximo dele. “A gente escorrega facilmente em cima de tábuas molhadas”, diz Quick.
É uma pena”, eu digo. “Mas você não podia fazer nada.”
A culpa é dessas amaldiçoadas mulheres”, ele diz. “Eu o fiz de maneira que ficasse bem equilibrado. Ajustado à medida e ao peso dela.”
Se são necessárias tábuas molhadas para alguém cair, muita gente vai cair antes que esta tempestade acabe.
Você não podia evitar”, eu digo.
Pouco me importa que alguém caia. Estou preocupado é com o algodão e o milho. Peabody tampouco se importa que alguém caia. Não é mesmo, doutor? É verdade. O campo é que ficará inteiramente destroçado. Parece até que alguma coisa sempre está a lhe acontecer.
Claro que sim. Isto, aliás, é que lhe dá valor.
Se nunca acontecesse nada e todo mundo fizesse boa colheita, você acha que valia a pena ser lavrador? Bem, o diabo me leve se gosto de ver meu trabalho destruído no chão, o trabalho que me custou tanto suor.
É fato. Um cara não se incomodaria de ver sua colheita destruída pela água, se pudesse transformar-se na própria chuva.
Mas qual o homem capaz disso? Onde está a cor de seus olhos? Ahn. Deus faz crescer. E Ele pode destruir tudo, com uma chuvarada, se achar melhor assim.
Você não podia evitar”, eu digo.
A culpa é dessas amaldiçoadas mulheres”, ele diz.
Na casa, as mulheres começam a cantar. Ouvimos a primeira estrofe começar, aumentar à medida que suas vozes se firmam, e nos levantamos e vamos para a porta, tirando os chapéus e cuspindo o tabaco que mascamos. Não entramos. Paramos nos degraus, misturados, segurando os chapéus nas mãos moles, adiante ou atrás, com um pé adiante e as cabeças curvadas, olhando de banda para chapéus nas mãos e para a terra, ou, de vez em quando, para o céu e para o rosto grave, compenetrado, do companheiro.
O canto termina; as vozes trêmulas apagam-se em desfalecimento rico. Whitfield começa. Sua voz é maior que ele. Como se não lhe pertencesse. Como se ele fosse um e sua voz outro, nadando sobre dois cavalos, lado a lado, através da correnteza, e entrando na casa, um sujo de lama e o outro nem mesmo molhado, triunfante e triste. Alguém dentro de casa começa a soluçar. Parece que seus olhos e sua voz entraram dentro do corpo e puseram-se à escuta; nós mudamos de posição, descansando na outra perna, procurando os olhos um do outro, mas fingindo que não.
Afinal, Whitfield para. As mulheres voltam a cantar. No ar espesso parece que suas vozes saem do ar, escorrem unidas em tristes e confortadoras modulações. Quando cessam, é como se não houvessem desaparecido ao longe. É como se houvessem apenas desaparecido no ar. E se mudássemos de posição, nós as perderíamos, novamente, no ar à nossa volta, tristes e reconfortantes. Então eles terminam e põem os chapéus, em gestos rígidos, como se nunca tivéssemos usado chapéu.
A caminho de casa, Cora ainda canta. “Reconheço meu Deus e espero minha recompensa”, ela canta, sentada na carroça, o xale em redor dos ombros e a sombrinha aberta, embora não esteja chovendo.
Ela teve a sua”, eu digo. “Vá para onde for, foi recompensada em ver-se livre de Anse Bundren.”
Ela ficou três dias naquela caixa, esperando que Darl e Jewel retornassem, pegassem uma roda nova e voltassem para onde a carroça estava parada na valeta. Leve minha parelha, Anse, eu disse. Aguardaremos a nossa, ele disse. É o que ela faria. Sempre foi uma mulher cheia de nós nas costas. No terceiro dia, eles voltaram e a puseram na carroça e partiram e já era muito tarde. Vocês terão de dar a volta pela ponte de Samson. É preciso um dia de viagem para chegar lá. Depois, serão sessenta quilômetros até Jefferson. Leve minha parelha, Anse. Esperaremos a nossa. É o que ela faria. A um quilômetro e meio da casa nós o vimos, sentado à beira de um charco. Que eu saiba, nunca vi um peixe ali.
Ele nos olhou com seus olhos redondos e calmos, o rosto sujo, o caniço nos joelhos. Cora ainda cantava.
O dia não é favorável à pesca”, eu disse. “Venha para casa conosco e amanhã cedo você irá ao rio e pegará um peixe.”
Há um aqui”, ele disse. “Dewey Dell viu-o.”
Venha conosco. O rio é o melhor lugar.”
Há um aqui”, ele disse. “Dewey Dell viu-o.”
Reconheço meu Deus e espero minha recompensa”, cantarolava Cora.

William Faulkner, em Enquanto Agonizo

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