32.
Sinfonia
de uma noite inquieta
Dormia
tudo como se o universo fosse um erro; e o vento, flutuando incerto,
era uma bandeira sem forma desfraldada sobre um quartel sem ser.
Esfarrapava-se
coisa nenhuma no ar alto e forte, e os caixilhos das janelas sacudiam
os vidros para que a extremidade se ouvisse. No fundo de tudo,
calada, a noite era o túmulo de Deus (a alma sofria com pena de
Deus).
E,
de repente — nova ordem das coisas universais agia sobre a cidade
-, o vento assobiava no intervalo do vento, e havia uma noção
dormida de muitas agitações na altura. Depois a noite fechava-se
como um alçapão, e um grande sossego fazia vontade de ter estado a
dormir.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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