Guaicaipuro
Nunca
mais o rio refletirá seu rosto, seu penacho de altas plumas. Esta
vez os deuses não escutaram sua mulher, Urquía, que pedia que não
o tocassem balas nem doenças e que nunca o sono, irmão da morte,
esquecesse de devolvê-lo ao mundo ao fim de cada noite.
A
tiros, os invasores derrubaram Guaicaipuro. Desde que os índios o
tinham escolhido como chefe, não houve trégua neste vale nem nas
serras de Ávila. Na recém-nascida cidade de Caracas se benziam ao
dizer, em voz baixa, seu nome. Frente à morte e seus funcionários,
o último dos livres caiu gritando matem-me, matem-me, livrem-se
do medo.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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