quarta-feira, 18 de junho de 2025

1568 – Los Teques

Guaicaipuro

Nunca mais o rio refletirá seu rosto, seu penacho de altas plumas. Esta vez os deuses não escutaram sua mulher, Urquía, que pedia que não o tocassem balas nem doenças e que nunca o sono, irmão da morte, esquecesse de devolvê-lo ao mundo ao fim de cada noite.
A tiros, os invasores derrubaram Guaicaipuro. Desde que os índios o tinham escolhido como chefe, não houve trégua neste vale nem nas serras de Ávila. Na recém-nascida cidade de Caracas se benziam ao dizer, em voz baixa, seu nome. Frente à morte e seus funcionários, o último dos livres caiu gritando matem-me, matem-me, livrem-se do medo.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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