domingo, 8 de junho de 2025

1566 – Madrid

Mesmo perdendo, vale à pena.

Os lábios se movem, dizem palavras sem som.
Me perdoarás, Deus?
Frei Bartolomé pede clemência no Juízo Final, por ter acreditado que os escravos negros e mouros aliviariam a sorte dos índios.
Jaz estendido, úmida a testa, pálido, e não cessam de mover-se os seus lábios.
Um trovão explode, lento, ao longe. Frei Bartolomé, o nascedor, o fazedor, fecha os olhos. Embora tenha sido sempre duro de ouvido, escuta a chuva sobre o telhado do convento de Atocha. A chuva molha a sua cara. Sorri.
Um dos sacerdotes que o acompanham murmura alguma coisa sobre a estranha luz que acendeu-lhe o rosto. Através da chuva, livre de dúvida e tormento, frei Bartolomé está viajando, pela última vez, para os verdes mundos onde conheceu a alegria.
Obrigado – dizem seus lábios, em silêncio, enquanto lê as orações à luz de vaga-lumes, salpicado pela chuva que golpeia o teto de folhas de palmeiras.
Obrigado – diz, enquanto celebra missa em choupanas sem paredes e batiza crianças nuas nos rios.
Os sacerdotes fazem o sinal da cruz. Caíram os últimos grãos de areia do relógio. Alguém vira a ampulheta, para que o tempo não pare.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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