Mesmo perdendo, vale à pena.
Os lábios se movem, dizem palavras
sem som.
– Me perdoarás, Deus?
Frei Bartolomé pede clemência no
Juízo Final, por ter acreditado que os escravos negros e mouros
aliviariam a sorte dos índios.
Jaz estendido, úmida a testa, pálido,
e não cessam de mover-se os seus lábios.
Um trovão explode, lento, ao longe.
Frei Bartolomé, o nascedor, o fazedor, fecha os olhos. Embora tenha
sido sempre duro de ouvido, escuta a chuva sobre o telhado do
convento de Atocha. A chuva molha a sua cara. Sorri.
Um dos sacerdotes que o acompanham
murmura alguma coisa sobre a estranha luz que acendeu-lhe o rosto.
Através da chuva, livre de dúvida e tormento, frei Bartolomé está
viajando, pela última vez, para os verdes mundos onde conheceu a
alegria.
– Obrigado – dizem seus lábios,
em silêncio, enquanto lê as orações à luz de vaga-lumes,
salpicado pela chuva que golpeia o teto de folhas de palmeiras.
– Obrigado – diz, enquanto celebra
missa em choupanas sem paredes e batiza crianças nuas nos rios.
Os sacerdotes fazem o sinal da cruz.
Caíram os últimos grãos de areia do relógio. Alguém vira a
ampulheta, para que o tempo não pare.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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