O dicionário dos meninos registrasse
talvez
àquele tempo
nem do que doze nomes.
Posso agora nomear nem do que oito:
água,
pedras, chão, árvore, passarinhos,
rã, sol,
borboletas...
Não me lembro de outros.
Acho que mosca fazia parte.
Acho que lata também.
(Lata não era substantivo de raiz
moda água,
sol ou pedras, mas soava para nós
como se
fosse raiz.)
Pelo menos a gente usava lata como se
usássemos
árvore ou borboletas.
Me esquecia da lesma e seus risquinhos
de
esperma nas tardes do quintal.
A gente já sabia que esperma era a
própria
ressurreição da carne.
Os rios eram verbais porque escreviam
torto
como se fossem as curvas de uma cobra.
Lesmas e lacraias também eram
substantivos
verbais
Porque se botavam em movimento.
Sei bem que esses nomes fertilizaram a
minha
linguagem.
Eles deram a volta pelos primórdios e
serão
para sempre o início dos cantos do
homem.
Manoel de Barros, em Memórias Inventadas – A segunda infância
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