24.
Hoje, como me oprimisse a sensação
do corpo aquela angústia antiga que por vezes extravasa, não comi
bem, nem bebi o costume, no restaurante, ou casa de pasto, em cuja
sobreloja baseio a continuação da minha existência. E como, ao
sair eu, o criado verificasse que a garrafa de vinho ficara no meio
voltou-se para mim e disse: “Até logo, Sr. Soares, e desejo as
melhoras.”
Ao toque de clarim desta frase simples
a minha alma aliviou-se como se num céu de nuvens o vento de repente
as afastasse. E então reconheci o que nunca claramente reconhecera,
que nestes criados de café e de restaurante, nos barbeiros, nos
moços de frete das esquinas, eu tenho uma simpatia espontânea,
natural, que não posso orgulhar-me de receber dos que privam comigo
em maior intimidade, impropriamente dita...
A fraternidade tem subtilezas.
Uns governam o mundo, outros são o
mundo. Entre um milionário americano, com bens na Inglaterra, ou
Suíça, e o chefe socialista da aldeia — não há diferença de
qualidade mas apenas de quantidade. Abaixo destes estamos nós, os
amorfos, o dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o
mestre-escola John Milton, o vadio Dante Alighieri, o moço de fretes
que me fez ontem o recado, ou o barbeiro que me conta anedotas, o
criado que acaba de me fazer a fraternidade de me desejar aquelas
melhoras, por eu não ter bebido senão metade do vinho.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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