sexta-feira, 16 de maio de 2025

1565 – Caminho de Lima

A espiã

Na fazenda de dom Antonio Sola, nas margens do rio Lurín, cresceram melões grandes como sóis. É a primeira vez que por aqui se plantam essas frutas trazidas da Espanha; e o capataz envia ao amo dez amostras para seu prazer e glória. A enormidade destes melões é comparável à grandeza dos rabanetes do vale de Cuzapata, dos quais se diz que se pode amarrar cinco cavalos aos seus ramos.
Dois índios levam a Lima, em dois sacos, a oferenda do capataz. O capataz deu-lhes uma carta para que entregassem, com os melões, a dom Antonio Sola:
Se comerem algum melão – advertiu – a carta dirá.
Na metade do caminho, quando estão a um par de léguas da Cidade dos Reis, os índios se sentam em um barranco para descansar.
E que sabor terá esta fruta tão estranha?
Haverá de oferecer maravilhas.
E se provarmos? Um melão. Unzinho.
Carta canta – adverte um dos índios.
Olham a carta, odeiam a carta. Buscam uma prisão para ela. Escondem a carta atrás de uma pedra, de onde não possa ver nada, e com rápidas dentadas devoram um melão, polpa de água doce, delícia jamais imaginada, e depois comem outro, para igualar as cargas.
Então apanham a carta, que guardam entre suas roupas, jogam os sacos às costas e continuam seu caminho.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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