A espiã
Na fazenda de dom Antonio Sola, nas
margens do rio Lurín, cresceram melões grandes como sóis. É a
primeira vez que por aqui se plantam essas frutas trazidas da
Espanha; e o capataz envia ao amo dez amostras para seu prazer e
glória. A enormidade destes melões é comparável à grandeza dos
rabanetes do vale de Cuzapata, dos quais se diz que se pode amarrar
cinco cavalos aos seus ramos.
Dois índios levam a Lima, em dois
sacos, a oferenda do capataz. O capataz deu-lhes uma carta para que
entregassem, com os melões, a dom Antonio Sola:
– Se comerem algum melão –
advertiu – a carta dirá.
Na metade do caminho, quando estão a
um par de léguas da Cidade dos Reis, os índios se sentam em um
barranco para descansar.
– E que sabor terá esta fruta tão
estranha?
– Haverá de oferecer maravilhas.
– E se provarmos? Um melão.
Unzinho.
– Carta canta – adverte um
dos índios.
Olham a carta, odeiam a carta. Buscam
uma prisão para ela. Escondem a carta atrás de uma pedra, de onde
não possa ver nada, e com rápidas dentadas devoram um melão, polpa
de água doce, delícia jamais imaginada, e depois comem outro, para
igualar as cargas.
Então apanham a carta, que guardam
entre suas roupas, jogam os sacos às costas e continuam seu caminho.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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