Sou um homem inteiro
O homem ferido por todos
Por uma flecha perdida do caos
Humano terreno desmesurado
E sem receio desmesuradamente o declaro
Desmesurado porque não sou um burguês nem de raça debilitada
Sou talvez bárbaro
Desmesurado obsessivo
Bárbaro isento de rotinas e de caminhos determinados
Não aceito vossas cômodas cadeiras nomeadas
Sou o anjo selvagem que caiu uma manhã
Nas vossas plantações de preceitos
Poeta
Antipoeta
Culto
Anticulto
Animal metafísico carregado de angústias
Animal espontâneo justo sangrando com seus problemas
Solitário como um paradoxo
Fatal paradoxo
Flor de contradições dançando um fox-trot
Sobre o sepulcro de Deus
Sobre o bem e o mal
Sou um peito que grita e um cérebro que sangra
Sou um tremor de terra
Os sismógrafos assinalam minha passagem pelo mundo
Rangem as rodas da terra
Vou às cavaleiras de minha morte
Vou colado à minha morte como um pássaro ao céu
Como uma flecha na árvore que cresce
Como o nome na carta que envio
Vou colado à minha morte
Vou pela vida colado à minha morte
Apoiado no bastão de meu esqueleto
Matai a terrível dúvida
E a espantosa lucidez
Homem de olhos abertos na noite
Até ao fim dos séculos
Enigma-asco dos contagiosos instintos
Como os sinos da exaltação
Passarinheiro de luzes mortas que passam com pés de espectro
Com os pés indulgentes do arroio
Que as nuvens arrastam e mudam de rumo
Na roleta do céu joga-se nosso destino
Ali onde morrem as horas
O grave cortejo das horas que massacram o mundo
Joga-se nossa alma
E a sorte que voa todas as manhãs
Sobre as nuvens com os olhos cheios de lágrimas
Abre a ferida das últimas crenças sangrando
Quando a espingarda desgostosa do humano refúgio
Desaloja os pássaros do céu
Contempla-te ali fraterno animal sem nome
Junto ao bebedouro de teus próprios limites
Sob a benigna aurora
Que fustiga o tecido das marés
Olha ao longe a fileira de homens
Saindo da fábrica com os mesmos anseios
Mordidos pela mesma eternidade
Pelo mesmo furacão de vagabundos fascínios
Cada um traz sua informe palavra
E os pés atados à sua própria estrela
As máquinas avançam na noite do diamante fatal
Avança o deserto com suas ondas sem vida
Passam as montanhas passam os camelos
Além passa a fileira de homens entre fogos-fátuos
A caminho da pálpebra tumular.
Vicente Huidobro, em Altazor
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