quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Nuvens de Pássaros Brancos | III


Com toda a certeza, a garota do furoshiki de sembazuru nada adivinhara das intenções de Chikako. Terminou de preparar o chá sem qualquer perturbação, e vinha agora pessoalmente apresentar a taça a Kikuji, diante de quem a depôs.
Kikuji provou o chá primeiro e depois contemplou a taça de oribe: um esmalte negro pincelado de branco num ponto em que sobressaía, também em negro, a fina folha dum feto novo.
Lembra-se dela, não? — perguntou-lhe Chikako de longe.
Parece, sim... — respondeu num tom incerto, largando a taça.
Ante esse suave renovo de feto, a gente tem mesmo o sentimento de estar nos montes — explicou Chikako. — É uma taça que combina à perfeição com os primeiros dias da primavera, e sei que seu pai a usava com frequência. A estação já vai um pouco adiantada agora, mas não há de ser menos agradável ao Sr. Mitani servir-se dessa taça em recordação.
Oh! tratando-se de objeto tão precioso — replicou, — não é tão importante que meu pai o tenha tido em mãos. Se se pensa que esta taça data da época Momoyama, quando o grande Rikyu ainda vivia, e que tem passado de geração em geração, há perto de quatro séculos, pelas mãos sábias de tantos mestres de chá, o lugar ocupado por meu pai nessa filiação se torna pouco significativo.
Kikuji teria querido com essas palavras apartar de si o recente sentido da taça, mas contra a vontade recaiu nele. Do Sr. Ota à esposa, dessa a seu pai e dele a Chikako, a taça fora transmitida; e agora o Sr. Ota e o pai, os dois homens, estavam mortos, enquanto as duas mulheres ali estavam, na reunião de chá. Pode-se dizer que certos objetos têm um destino incomum, e o da taça, só por aquele pequeno fragmento de sua história, já era bem singular. Ainda mais que todas ou quase todas as pessoas presentes, a Sra. Ota e a filha, Chikako, a Srta. Inamura, outras moças ainda, teriam levado a velha taça aos lábios, tocando-a com as mãos, afagando sua delicada matéria.
Para maior surpresa de Kikuji, a Sra. Ota de repente declarou:
Também eu gostaria de saborear o chá nesta taça.
Era de indagar-se se essa mulher era uma tola ou de despudorada indiscrição, e a Kikuji doía ver sua filha conservar mortificada os olhos baixos.
A moça dos pássaros brancos recomeçou a preparação, desta vez para a Sra. Ota. A assistência inteira observava cada um de seus gestos. Não, a Srta. Inamura seguramente nada sabia da sombria história da taça negra de oribe: realizava cada gesto segundo o ensino que recebera. Seu estilo era despojado, sem idiossincrasias pessoais. A retidão e sobriedade de sua atitude, a linha inflexível que mantinha do alto do busto à ponta dos joelhos, tudo exprimia uma distinção indiscutível.
Folhagens novas cruzavam suas sombras na janela atrás dela, e a luz difusa pousava com um doce reflexo em seus ombros, deslizando pelas mangas do quimono, a enriquecer-lhe as cores; mesmo os seus cabelos pareciam brilhar. Nessa transparência, excessivamente clara para uma sala de chá, resplendia a flor de sua juventude. Utilizava uma seda vermelho vivo como guardanapo, o que não chocava entre suas mãos juvenis, dando ao invés uma impressão de grande frescor. A cada gesto, dir-se-ia que uma rosa encarnada desabrochava. E em volta dela, como que voavam mil pássaros brancos.
O Sra. Ota, com a taça de oribe na mão, observou:
O verde do chá neste preto evoca as primeiras folhas primaveris, quando os brotos se abrem.
Privara-se com cuidado de dizer que a taça tinha sido outrora um dos preciosos objetos de seu falecido esposo.
Como manda o costume, agora que a sessão de chá chegava ao fim, passou-se ao que se chama o exame das peças, isto é, à entendida apreciação dos objetos artísticos escolhidos para a reunião. As moças, que evidentemente bastante ignoravam nesse setor, contentavam-se em escutar as explicações dadas por Chikako.
A bilha de água (mizusachi) como o bule de bambu (chachaku) eram peças da coleção do pai de Kikuji, o que evitaram de mencionar tanto Chikako como esse.
As convidadas, uma a uma, se despediram e foram embora, mas Kikuji, o último, permanecia em seu lugar. A Sra. Ota se aproximou e lhe disse:
Suplico-lhe que me desculpe se há pouco o desgostei; mas, vendo-o, como poderia deixar de pensar no passado?
Que distinção você adquiriu!
Falava com sinceridade e as lágrimas lhe umedeciam os olhos.
E a senhora sua mãe... Ai! Teria gostado de assistir a seus funerais, mas, no fim, não me atrevi...
O rosto de Kikuji crispou-se.
Que tristeza! Primeiro, seu pai, depois a mãe!
Vai para casa agora?
Não logo, não...
Gostaria tanto que nos pudéssemos voltar a ver! Teria tanta coisa a lhe contar...

Da peça ao lado, Chikako acabara de chamar Kikuji e a Sra. Ota se retirou, não sem deixar transparecer quanto estava penalizada e cheia de remorsos. Sua filha, que a esperava no jardim, cumprimentou Kikuji junto com a mãe, lançando-lhe um longo olhar como para lhe comunicar alguma coisa.
Com algumas alunas e a empregada, Chikako, na peça contígua, movimentava-se para repor tudo em ordem.
Do que estava lhe falando a Sra. Ota? — atacou em seguida Chikako.
Oh! nada de especial.
Cuidado com ela. Não se deixe levar pelas atitudes doces e os ares de inocência dessa mulher.
Tem sempre esse aspecto de quem leva tudo com o coração, mas no fundo nunca se sabe o que está pensando. É uma criatura estranha!
Nem por isso ela deixa de vir regularmente às suas reuniões, não é verdade? — retorquiu Kikuji com uma ponta de ironia. — Desde quando, ao certo, ela tem vindo?
Mas sem esperar a resposta, na impaciência de escapar àquela atmosfera venenosa, saiu, seguido por Chikako.
Que tal a achou? É um amor, não?
Sim, claro; mas confesso que teria sido muito melhor encontrá-la noutra parte que não aqui. A sua presença, a da Sra. Ota, o fantasma do meu pai... tudo isso!
Mas você se perturba com essas coisas! Ora! A Sra. Ota não tem nada absolutamente a ver com a Srta. Inamura.
Mas me constrangeu, veja.
Ela? Como pode ser? Fico triste por que a presença da Sra. Ota tenha sido tão importuna para você, e me desculpo de novo. Mas deixe a Srta. Inamura, por favor, fora de tudo isso! É diferente.
Se assim o quer. Mas, por hoje, peço licença para ir embora.
Desejava cortar logo, pois se continuasse a falar caminhando, Chikako não o abandonaria. Quando se viu só, diante das azaléias em botão que atapetavam o pé do outeiro, respirou fundo. Recriminava-se amargamente por ter aceito o convite de Chikako, e no entanto a emoção que o penetrara ao ver a moça dos pássaros brancos nele permanecia com todo o vigor. Sem dúvida a ela devia o fato de o coração não lhe pesar demais depois de ter topado com duas amantes de seu pai ao mesmo tempo. . . Mas uma surda cólera o sacudia à idéia de que as duas mulheres lá estavam, bem vivas, a lhe falar de seu pai, enquanto a sua própria mãe estava morta. E em seguida, no espírito, reviu as detestáveis manchas de Chikako.
A folhagem nova fremia com a brisa refrescante da noite; Kikuji tirara o chapéu e caminhava lentamente, com ele à mão. Acercando-se à porta do templo, percebeu lá longe, de pé, um pouco escondida na sombra, a Sra. Ota. Depressa, olhou em volta, almejando evitá-la. Seguindo por uma ou outra das encostas que flanqueavam a porta, teria podido atravessar. Mas continuou pelo mesmo caminho certo, e os traços de seu rosto endureceram.
A viúva o notara também de longe, e avançou ao seu encontro, com as faces acaloradas.
Esperava-o — lhe disse. — Queria revê-lo ainda uma vez. Vai decerto me julgar terrivelmente indiscreta, mas me era impossível admitir que se afastasse assim, sem ao menos saber se teríamos uma oportunidade de nos rever.
E sua filha, onde está?
Fumiko seguiu na frente, junto com as amigas.
Sabia que você me esperava?
Sim — respondeu, olhando-o no rosto.
Isso não lhe agradava, não é certo? Há pouco já me senti inquieto por ela: se diria que não pode me ver.
Kikuji falara de modo encoberto, num tom equívoco, ao mesmo tempo magoado e zombeteiro.
Sim, creio que lhe é penoso encontrá-lo.
Meu pai há de ter sido sem dúvida para ela motivo de muitas penas — disse, subentendendo: como você, para o menino que eu fui.
Oh! não, não é o que você pensa — protestou a Sra. Ota. -— Ao contrário, seu pai amava muito Fumiko. É tudo isso, justamente, o que eu queria poder lhe explicar um dia; é disso que eu queria tanto lhe falar. No início, a pequena se mostrou muito desconfiada com ele, que era gentilíssimo para ela. Depois, pelo fim da guerra, quando os bombardeios aumentaram, ela súbito mudou inteiramente e só tinha o desejo de devotar-se a seu pai. Devotar é por certo uma palavra excessiva — não era mais que uma menina na época — mas, por exemplo, ela teria ido ao fim do mundo para lhe trazer um frango ou peixe, lhe buscar arroz, pelo qual saía sem se importar com o perigo das bombas que explodiam. Seu pai se surpreendia com essa brusca transformação e meu coração sofria vendo o que o amor filial levava a criança a fazer. Meu tormento de consciência foi mais que duplicado.
Kikuji ficava assim só agora a par da origem dos impressionantes presentes que seu pai não raro levava para casa, desses gêneros mais que preciosos na época, com os quais toda a família se beneficiava.
Nunca entendi muito bem por que a minha filha mudou tão de repente. Talvez tenha pensado que corríamos o risco de morrer a cada dia. Terá tido piedade de mim. O fato é que ela realmente se consagrou a seu pai, com toda a sua vontade e todas as forças.
O trágico duma guerra que chegava ao catastrófico fim bem que poderia, com efeito, nela apagar mais ou menos a lembrança do pai que perdera, para se prender mais que nunca à presença viva da mãe, seu único bem, e compreender até que ponto o amor do pai de Kikuji constituía para a mãe o único recurso.
Reparou no anel que Fumiko usava hoje? — perguntou a Sra. Ota.
Não.
Pois bem, foi um presente do seu pai. Não ignora que ele se acostumara a voltar para casa ao primeiro sinal de alarme, mesmo quando se achava conosco. Fumiko fazia então questão absoluta de acompanhá-lo, dizendo que não se podia saber que perigos ele teria de enfrentar no caminho. E uma vez que foi embora assim, não voltou. “Pelo menos que tenha podido chegar até a casa dele, eu me dizia; lá encontrará abrigo!” Mas me perguntava se não tinham os dois morrido no caminho. No outro dia, pela manhã, ela voltou. Contou-me que acompanhara seu pai até a porta de casa, tinham podido chegar até lá. Mas, na volta, teve de recorrer a um abrigo de emergência, já não sei mais de que espécie, e aí passar a noite. Foi depois desse incidente que seu pai, quando chegou em nossa casa, lhe deu o anel. “Agradecendo por ontem de noite, Fumi-chan!” — lhe disse. Que se sentisse envergonhada diante de você com esse anel, creio poder entender.
Ao ouvi-la, Kikuji experimentava dissabor. Como era grotesco da parte da Sra. Ota acreditar, como parecia, que aquela história só despertasse nele simpatia! No entanto, coisa estranha, não sentia por ela ódio nem desconfiança. Dela emanava uma calidez tão doce que, sem que ele soubesse no que consistia, deixava-o desarmado.
Se a filha se devotara assim até o sacrifício, foi sem dúvida por não poder suportar ver a mãe tão abandonada em sua pena. Quanto à Sra. Ota, sem falar mais que da filha, não transmitia de modo menos transparente o grande amor que tinha por ela. Sim, foi esse amor o que ela viera confessar. Mas a quem? A quem se abria assim em confidencia? Kikuji se deu conta de que ela não fazia aparentemente diferença entre o filho e o pai. A ternura que por ele tão naturalmente extravasava correspondia para ela a abrir o coração diante do pai.
Quanto ao rancor que antes partilhara com sua mãe contra a Sra. Ota, se não fora de todo abolido, perdera muito da virulência. Kikuji ia ao ponto de se dizer que, se não tomasse cuidado, chegaria, a despeito de si mesmo, a ouvir com os sentimentos do pai a essa mulher que tanto o amara. Não se encaminhava já na quimera duma longa intimidade com ela?
Sentia agora em si mesmo por que o pai, que rompera tão rápido com Chikako, ficou preso à outra até a morte. Compreendia também o desdém que Chikako devia ter por essa mulher. Ainda há instantes, não se sentira ele mesmo tentado a fazer sofrer essa presa fácil, torturando-a como quisesse?
Vem seguido às reuniões de Kurimoto? — lançou-lhe de imprevisto. — No entanto ela não teve dúvidas em atormentá-la o que podia, antigamente!
Sim... Foi ela que me escreveu depois da morte do seu pai — confessou a Sra. Ota curvando a cabeça. — Sentia-me tão só... E não sabia me defender de nada que se referisse à memória dele.
E a sua filha, sempre vem junto?
Oh! Mas certamente a contragosto.
Andando sempre, tinham atravessado a passagem de nível, depois a estação, e prosseguiam direto avante, em direção à colina do lado oposto do Templo Engakuji.

Yasunari Kawabata, in Nuvens de Pássaros Brancos

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