Com
toda a certeza, a garota do furoshiki de sembazuru nada
adivinhara das intenções de Chikako. Terminou de preparar o chá
sem qualquer perturbação, e vinha agora pessoalmente apresentar a
taça a Kikuji, diante de quem a depôs.
Kikuji
provou o chá primeiro e depois contemplou a taça de oribe: um
esmalte negro pincelado de branco num ponto em que sobressaía,
também em negro, a fina folha dum feto novo.
— Lembra-se
dela, não? — perguntou-lhe Chikako de longe.
— Parece,
sim... — respondeu num tom incerto, largando a taça.
— Ante
esse suave renovo de feto, a gente tem mesmo o sentimento de estar
nos montes — explicou Chikako. — É uma taça que combina à
perfeição com os primeiros dias da primavera, e sei que seu pai a
usava com frequência. A estação já vai um pouco adiantada agora,
mas não há de ser menos agradável ao Sr. Mitani servir-se dessa
taça em recordação.
— Oh!
tratando-se de objeto tão precioso — replicou, — não é tão
importante que meu pai o tenha tido em mãos. Se se pensa que esta
taça data da época Momoyama, quando o grande Rikyu ainda vivia, e
que tem passado de geração em geração, há perto de quatro
séculos, pelas mãos sábias de tantos mestres de chá, o lugar
ocupado por meu pai nessa filiação se torna pouco significativo.
Kikuji
teria querido com essas palavras apartar de si o recente sentido da
taça, mas contra a vontade recaiu nele. Do Sr. Ota à esposa, dessa
a seu pai e dele a Chikako, a taça fora transmitida; e agora o Sr.
Ota e o pai, os dois homens, estavam mortos, enquanto as duas
mulheres ali estavam, na reunião de chá. Pode-se dizer que certos
objetos têm um destino incomum, e o da taça, só por aquele pequeno
fragmento de sua história, já era bem singular. Ainda mais que
todas ou quase todas as pessoas presentes, a Sra. Ota e a filha,
Chikako, a Srta. Inamura, outras moças ainda, teriam levado a velha
taça aos lábios, tocando-a com as mãos, afagando sua delicada
matéria.
Para
maior surpresa de Kikuji, a Sra. Ota de repente declarou:
— Também
eu gostaria de saborear o chá nesta taça.
Era
de indagar-se se essa mulher era uma tola ou de despudorada
indiscrição, e a Kikuji doía ver sua filha conservar mortificada
os olhos baixos.
A
moça dos pássaros brancos recomeçou a preparação, desta vez para
a Sra. Ota. A assistência inteira observava cada um de seus gestos.
Não, a Srta. Inamura seguramente nada sabia da sombria história da
taça negra de oribe: realizava cada gesto segundo o ensino que
recebera. Seu estilo era despojado, sem idiossincrasias pessoais. A
retidão e sobriedade de sua atitude, a linha inflexível que
mantinha do alto do busto à ponta dos joelhos, tudo exprimia uma
distinção indiscutível.
Folhagens
novas cruzavam suas sombras na janela atrás dela, e a luz difusa
pousava com um doce reflexo em seus ombros, deslizando pelas mangas
do quimono, a enriquecer-lhe as cores; mesmo os seus cabelos pareciam
brilhar. Nessa transparência, excessivamente clara para uma sala de
chá, resplendia a flor de sua juventude. Utilizava uma seda vermelho
vivo como guardanapo, o que não chocava entre suas mãos juvenis,
dando ao invés uma impressão de grande frescor. A cada gesto,
dir-se-ia que uma rosa encarnada desabrochava. E em volta dela, como
que voavam mil pássaros brancos.
O
Sra. Ota, com a taça de oribe na mão, observou:
— O
verde do chá neste preto evoca as primeiras folhas primaveris,
quando os brotos se abrem.
Privara-se
com cuidado de dizer que a taça tinha sido outrora um dos preciosos
objetos de seu falecido esposo.
Como
manda o costume, agora que a sessão de chá chegava ao fim,
passou-se ao que se chama o exame das peças, isto é, à entendida
apreciação dos objetos artísticos escolhidos para a reunião. As
moças, que evidentemente bastante ignoravam nesse setor,
contentavam-se em escutar as explicações dadas por Chikako.
A
bilha de água (mizusachi) como o bule de bambu (chachaku)
eram peças da coleção do pai de Kikuji, o que evitaram de
mencionar tanto Chikako como esse.
As
convidadas, uma a uma, se despediram e foram embora, mas Kikuji, o
último, permanecia em seu lugar. A Sra. Ota se aproximou e lhe
disse:
— Suplico-lhe
que me desculpe se há pouco o desgostei; mas, vendo-o, como poderia
deixar de pensar no passado?
— Que
distinção você adquiriu!
Falava
com sinceridade e as lágrimas lhe umedeciam os olhos.
— E
a senhora sua mãe... Ai! Teria gostado de assistir a seus funerais,
mas, no fim, não me atrevi...
O
rosto de Kikuji crispou-se.
— Que
tristeza! Primeiro, seu pai, depois a mãe!
— Vai
para casa agora?
— Não
logo, não...
— Gostaria
tanto que nos pudéssemos voltar a ver! Teria tanta coisa a lhe
contar...
Da
peça ao lado, Chikako acabara de chamar Kikuji e a Sra. Ota se
retirou, não sem deixar transparecer quanto estava penalizada e
cheia de remorsos. Sua filha, que a esperava no jardim, cumprimentou
Kikuji junto com a mãe, lançando-lhe um longo olhar como para lhe
comunicar alguma coisa.
Com
algumas alunas e a empregada, Chikako, na peça contígua,
movimentava-se para repor tudo em ordem.
— Do
que estava lhe falando a Sra. Ota? — atacou em seguida Chikako.
— Oh!
nada de especial.
— Cuidado
com ela. Não se deixe levar pelas atitudes doces e os ares de
inocência dessa mulher.
Tem
sempre esse aspecto de quem leva tudo com o coração, mas no fundo
nunca se sabe o que está pensando. É uma criatura estranha!
— Nem
por isso ela deixa de vir regularmente às suas reuniões, não é
verdade? — retorquiu Kikuji com uma ponta de ironia. — Desde
quando, ao certo, ela tem vindo?
Mas
sem esperar a resposta, na impaciência de escapar àquela atmosfera
venenosa, saiu, seguido por Chikako.
— Que
tal a achou? É um amor, não?
— Sim,
claro; mas confesso que teria sido muito melhor encontrá-la noutra
parte que não aqui. A sua presença, a da Sra. Ota, o fantasma do
meu pai... tudo isso!
— Mas
você se perturba com essas coisas! Ora! A Sra. Ota não tem nada
absolutamente a ver com a Srta. Inamura.
— Mas
me constrangeu, veja.
— Ela?
Como pode ser? Fico triste por que a presença da Sra. Ota tenha sido
tão importuna para você, e me desculpo de novo. Mas deixe a Srta.
Inamura, por favor, fora de tudo isso! É diferente.
— Se
assim o quer. Mas, por hoje, peço licença para ir embora.
Desejava
cortar logo, pois se continuasse a falar caminhando, Chikako não o
abandonaria. Quando se viu só, diante das azaléias em botão que
atapetavam o pé do outeiro, respirou fundo. Recriminava-se
amargamente por ter aceito o convite de Chikako, e no entanto a
emoção que o penetrara ao ver a moça dos pássaros brancos nele
permanecia com todo o vigor. Sem dúvida a ela devia o fato de o
coração não lhe pesar demais depois de ter topado com duas amantes
de seu pai ao mesmo tempo. . . Mas uma surda cólera o sacudia à
idéia de que as duas mulheres lá estavam, bem vivas, a lhe falar de
seu pai, enquanto a sua própria mãe estava morta. E em seguida, no
espírito, reviu as detestáveis manchas de Chikako.
A
folhagem nova fremia com a brisa refrescante da noite; Kikuji tirara
o chapéu e caminhava lentamente, com ele à mão. Acercando-se à
porta do templo, percebeu lá longe, de pé, um pouco escondida na
sombra, a Sra. Ota. Depressa, olhou em volta, almejando evitá-la.
Seguindo por uma ou outra das encostas que flanqueavam a porta, teria
podido atravessar. Mas continuou pelo mesmo caminho certo, e os
traços de seu rosto endureceram.
A
viúva o notara também de longe, e avançou ao seu encontro, com as
faces acaloradas.
— Esperava-o
— lhe disse. — Queria revê-lo ainda uma vez. Vai decerto me
julgar terrivelmente indiscreta, mas me era impossível admitir que
se afastasse assim, sem ao menos saber se teríamos uma oportunidade
de nos rever.
— E
sua filha, onde está?
— Fumiko
seguiu na frente, junto com as amigas.
— Sabia
que você me esperava?
— Sim
— respondeu, olhando-o no rosto.
— Isso
não lhe agradava, não é certo? Há pouco já me senti inquieto por
ela: se diria que não pode me ver.
Kikuji
falara de modo encoberto, num tom equívoco, ao mesmo tempo magoado e
zombeteiro.
— Sim,
creio que lhe é penoso encontrá-lo.
— Meu
pai há de ter sido sem dúvida para ela motivo de muitas penas —
disse, subentendendo: como você, para o menino que eu fui.
— Oh!
não, não é o que você pensa — protestou a Sra. Ota. -— Ao
contrário, seu pai amava muito Fumiko. É tudo isso, justamente, o
que eu queria poder lhe explicar um dia; é disso que eu queria tanto
lhe falar. No início, a pequena se mostrou muito desconfiada com
ele, que era gentilíssimo para ela. Depois, pelo fim da guerra,
quando os bombardeios aumentaram, ela súbito mudou inteiramente e só
tinha o desejo de devotar-se a seu pai. Devotar é por certo uma
palavra excessiva — não era mais que uma menina na época — mas,
por exemplo, ela teria ido ao fim do mundo para lhe trazer um frango
ou peixe, lhe buscar arroz, pelo qual saía sem se importar com o
perigo das bombas que explodiam. Seu pai se surpreendia com essa
brusca transformação e meu coração sofria vendo o que o amor
filial levava a criança a fazer. Meu tormento de consciência foi
mais que duplicado.
Kikuji
ficava assim só agora a par da origem dos impressionantes presentes
que seu pai não raro levava para casa, desses gêneros mais que
preciosos na época, com os quais toda a família se beneficiava.
— Nunca
entendi muito bem por que a minha filha mudou tão de repente. Talvez
tenha pensado que corríamos o risco de morrer a cada dia. Terá tido
piedade de mim. O fato é que ela realmente se consagrou a seu pai,
com toda a sua vontade e todas as forças.
O
trágico duma guerra que chegava ao catastrófico fim bem que
poderia, com efeito, nela apagar mais ou menos a lembrança do pai
que perdera, para se prender mais que nunca à presença viva da mãe,
seu único bem, e compreender até que ponto o amor do pai de Kikuji
constituía para a mãe o único recurso.
— Reparou
no anel que Fumiko usava hoje? — perguntou a Sra. Ota.
— Não.
— Pois
bem, foi um presente do seu pai. Não ignora que ele se acostumara a
voltar para casa ao primeiro sinal de alarme, mesmo quando se achava
conosco. Fumiko fazia então questão absoluta de acompanhá-lo,
dizendo que não se podia saber que perigos ele teria de enfrentar no
caminho. E uma vez que foi embora assim, não voltou. “Pelo menos
que tenha podido chegar até a casa dele, eu me dizia; lá encontrará
abrigo!” Mas me perguntava se não tinham os dois morrido no
caminho. No outro dia, pela manhã, ela voltou. Contou-me que
acompanhara seu pai até a porta de casa, tinham podido chegar até
lá. Mas, na volta, teve de recorrer a um abrigo de emergência, já
não sei mais de que espécie, e aí passar a noite. Foi depois desse
incidente que seu pai, quando chegou em nossa casa, lhe deu o anel.
“Agradecendo por ontem de noite, Fumi-chan!” — lhe disse. Que
se sentisse envergonhada diante de você com esse anel, creio poder
entender.
Ao
ouvi-la, Kikuji experimentava dissabor. Como era grotesco da parte da
Sra. Ota acreditar, como parecia, que aquela história só
despertasse nele simpatia! No entanto, coisa estranha, não sentia
por ela ódio nem desconfiança. Dela emanava uma calidez tão doce
que, sem que ele soubesse no que consistia, deixava-o desarmado.
Se
a filha se devotara assim até o sacrifício, foi sem dúvida por não
poder suportar ver a mãe tão abandonada em sua pena. Quanto à Sra.
Ota, sem falar mais que da filha, não transmitia de modo menos
transparente o grande amor que tinha por ela. Sim, foi esse amor o
que ela viera confessar. Mas a quem? A quem se abria assim em
confidencia? Kikuji se deu conta de que ela não fazia aparentemente
diferença entre o filho e o pai. A ternura que por ele tão
naturalmente extravasava correspondia para ela a abrir o coração
diante do pai.
Quanto
ao rancor que antes partilhara com sua mãe contra a Sra. Ota, se não
fora de todo abolido, perdera muito da virulência. Kikuji ia ao
ponto de se dizer que, se não tomasse cuidado, chegaria, a despeito
de si mesmo, a ouvir com os sentimentos do pai a essa mulher que
tanto o amara. Não se encaminhava já na quimera duma longa
intimidade com ela?
Sentia
agora em si mesmo por que o pai, que rompera tão rápido com
Chikako, ficou preso à outra até a morte. Compreendia também o
desdém que Chikako devia ter por essa mulher. Ainda há instantes,
não se sentira ele mesmo tentado a fazer sofrer essa presa fácil,
torturando-a como quisesse?
— Vem
seguido às reuniões de Kurimoto? — lançou-lhe de imprevisto. —
No entanto ela não teve dúvidas em atormentá-la o que podia,
antigamente!
— Sim...
Foi ela que me escreveu depois da morte do seu pai — confessou a
Sra. Ota curvando a cabeça. — Sentia-me tão só... E não sabia
me defender de nada que se referisse à memória dele.
— E
a sua filha, sempre vem junto?
— Oh!
Mas certamente a contragosto.
Andando
sempre, tinham atravessado a passagem de nível, depois a estação,
e prosseguiam direto avante, em direção à colina do lado oposto do
Templo Engakuji.
Yasunari Kawabata, in Nuvens de Pássaros Brancos

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