Aroma
de mirra, de aloés e cássia exala de tuas vestes, desde as casas de
marfim.
(Salmos,
XLIV, 9)
Quando,
numa segunda-feira de março, as mulheres da cidade amanheceram
grávidas, Botão-de-Rosa sentiu que era um homem liquidado.
Entretanto não se preocupou, absorto em pentear os longos cabelos.
Concluído
o penteado, passou a alisar a barba com uma escova especial umedecida
em perfume. Nesse instante ouviu gritos vindos da rua. Não
distinguia bem o que gritavam, mas de uma coisa estava certo: vinham
pegá-lo. — Deu de ombros e buscou uma fita colorida para prender a
cabeleira.
Antes
de despir a camisola de seda, escolheu para o dia o seu melhor traje:
uma túnica branca, bordada a ouro, e calças de um tecido azul com
tachas prateadas, presente dos companheiros do conjunto de guitarras
— Molinete, Zelote, Judô, Pedro Taguatinga, Simonete, Bacamarte,
André-Tripa-Miúda, Ion, Mataqueus, Pisca, Filipeto e Bartô — com
os quais acertara novo encontro no Festival. Até lá Taquira teria o
filho. (Fora obrigado a separar-se da companheira porque os pais
recusaram a recebê-lo em casa, alegando que não eram casados. Teve,
à época, vaga premonição de que jamais se reencontrariam.)
Separou
as meias, o cinturão de fivela dourada e procurou uma sandália que
combinasse com o vestuário. Sua escolha recaiu numa de solas
grossas, apropriadas ao péssimo calçamento da cidade.
O
clamor crescia lá fora, aumentava-lhe a impaciência: não podiam
esperar que acabasse de se aprontar? Ou temiam pela sua fuga? Malta
de ignorantes, como poderia fugir? Antes que apelassem para a força,
procurou acalmá-los, mostrando-se na varanda.
A
turba emudeceu à sua presença. Fez-se um silêncio hostil, os olhos
enfurecidos cravados na sua figura tranquila. Um moleque atirou-lhe
uma pedra certeira na testa e a multidão de novo se assanhou:
Cabeludo! Estuprador! Piolhento!
Quando
compreenderiam? — Retrocedeu até a sala. Não por covardia, apenas
para estancar o sangue que começava a descer pela face e certamente
lhe mancharia a roupa.
Medicava-se
ainda e ouviu baterem na porta. Era o sargento, comandante do
destacamento, acompanhado de seis soldados e um mandado de prisão.
Nem leu o papel. Alçando a mão, num apelo mudo, para que o
esperassem, voltou ao quarto. Após jogar suas coisas na maleta,
colocar nos dedos os anéis e no pescoço os colares, seguiu os
policiais.
A
autoridade deles devia ser grande, pois cessaram as vaias, ouvindo-se
somente o rosnar de alguns populares. Das sacadas, em todo o
percurso, mulheres com os rostos protegidos por máscaras, que
ocultavam as deformações da gravidez, observavam ansiosas o
cortejo. As únicas janelas fechadas pertenciam à residência dos
pais de Taquira.
O
delegado, um tenente reformado, recebeu-o com afetada cortesia,
indiferente à hostilidade geral contra o prisioneiro:
— O
senhor é acusado de estupro e de ter engravidado as... —
Interrompeu a frase para atender ao telefone:
— Pronto.
Às ordens, meritíssimo. Estou atento. Novas diligências? Quantas
quiser. Encontraram drogas? Mudarei o rumo dos interrogatórios.
O
telefonema perturbara-o. Menos empertigado e sem afetação,
voltou-se para o detido:
— Houve
um equívoco: você está preso sob suspeita de traficar heroína. —
Fez uma pequena pausa e, embaraçado, prosseguiu:
— Pode
depor sem constrangimento. O seu defensor, doutor José Inácio —
apontava para um rapaz que acabara de entrar na sala —,
testemunhará a nossa isenção. Queremos a verdade.
A
verdade. O que significaria? Tempos atrás lhe fizeram igual pergunta
e nada respondera. Também agora, e nos dias subsequentes,
permaneceria calado.
Alheio
às perguntas capciosas, Botão só se preocupava com a aflição do
seu patrono, talvez a única pessoa a desconhecer que fora designado
exclusivamente para dar aparência de legalidade ao processo.
O
mutismo do indiciado não irritou o militar. Parecia até agradá-lo.
Mandou que o recolhessem ao cárcere. (Antes de acareá-lo com as
testemunhas, procederia a outras investigações, visando esclarecer
certos pontos obscuros da denúncia.)
O
advogado, que permanecera na sala, indagou:
— Por
que acusam o meu cliente de traficante de drogas, se antes o
incriminavam de estuprador e cúmplice de centenas de adultérios?
— Que
ingenuidade, amigo. Você está há pouco tempo entre nós e ignora
que aqui só prevalece a vontade do Juiz, proprietário da maior
parte das casas da cidade, inclusive dos prédios públicos, da
companhia telefônica, do cinema, das duas farmácias, de cinco
fazendas de gado, do matadouro e da empresa funerária. Se decidiu
que esse palhaço cometeu outro delito, não nos cabe discutir e sim
preparar as provas necessárias à sua condenação.
— Penso
que o seu dever é agir com imparcialidade, conforme declarou
anteriormente, e impedir o arbítrio dos poderosos.
Nesse
instante, em frente à Delegacia, a população começou a vociferar:
Lincha! Mata! Enforca!
O
oficial parecia se divertir com a situação:
— O
seu constituinte não tem muitas chances de sobreviver. Alguém
cuidará dele. A Justiça ou o povo.
José
Inácio saiu preocupado com a sorte do prisioneiro. Além de ter
contra si a animosidade de todos, nem ao menos se declarava inocente.
Sua
preocupação se transformou em medo ao ver-se encarado pelos homens
que se postavam na rua. Olhavam-no carrancudos e silenciosos.
No
hotel a recepção não foi melhor. O hoteleiro e os hóspedes, que
antes o tratavam com acentuada simpatia, passaram a evitá-lo.
A
mudança de tratamento o magoava: se não procurara nem fora chamado
pelo acusado na qualidade de advogado, e se acompanhava o processo
como defensor dativo de um maníaco sexual, que posteriormente seria
transformado em traficante de drogas, por que colocá-lo em situação
idêntica à do réu?!
Durante
a semana tentaram, sem êxito, arrancar uma confissão de
Botão-de-Rosa. Mudo e impassível, ouvia desatento o que lhe
perguntavam repetidamente:
— Quer
falar agora? Quem lhe fornecia os entorpecentes?
O
interrogatório não se estendia muito e logo mandavam-no de volta à
cela.
Ao
chegar a vez das testemunhas, estas asseguraram que, no momento da
prisão, o indiciado carregava heroína consigo.
A
polícia deu-se por satisfeita com os depoimentos e considerou-os
suficientes para caracterizar o delito.
Preenchidas
as últimas formalidades, os autos foram remetidos à Justiça.
Se
para o advogado o inquérito policial transbordava de
irregularidades, algumas gritantes, como a ausência do auto de
prisão em flagrante, maior escândalo lhe causaria o transcurso da
instrução criminal, inteiramente fora das normas processuais.
Verificando
que seu cliente seria julgado pelo Tribunal do júri, procurou o
promotor e lhe disse que iria arguir incompetência de juízo se o
réu não fosse enquadrado no ritual da lei que tratava de
entorpecentes.
— O
senhor está pilheriando ou é um incompetente. Em que se baseia para
usar tão esdrúxulo recurso?
Surpreso
com a resposta intempestiva, pediu licença para consultar o Código
de Processo Penal, que retirou de uma estante ao lado.
À
medida que avançava na leitura, mais chocado ficava, pensando ter em
suas mãos uma edição falsificada, ou então nada aprendera nos
cursos da Faculdade.
Numa
pequena livraria comprou um exemplar da Constituição e todos os
códigos, porque talvez tivesse que reformular seu aprendizado
jurídico.
Leu
até de madrugada. A cada página lida, se abismava com a preocupação
do legislador em cercear a defesa dos transgressores das leis penais.
Principalmente no capítulo dos entorpecentes, onde não se permitia
apresentar determinados recursos, requerer desaforamento. A violação
de seus artigos era considerada crime gravíssimo contra a sociedade
e punível por tribunal popular. As penas variavam entre dez anos de
reclusão, prisão perpétua ou morte.
José
Inácio ficou boquiaberto: pena de morte! Ela fora abolida cem anos
atrás! Ou teria estudado em outros livros?
Em
compensação, ocorrendo a pena capital, admitia-se apelar para
instância superior.
Desorientado,
abandonou os compêndios.
Passou
os dias seguintes a remoer o assunto, enquanto na porta do hotel um
número crescente de indivíduos mal-encarados aguardava sua saída,
para segui-lo impiedosamente pelas ruas da cidade. Também recebia
constantes ameaças pelo telefone e cartas anônimas.
Aos
poucos, se acovardava, perdia a esperança de conseguir absolver seu
constituinte.
Na
véspera do julgamento, atemorizado, resolveu abandonar a cidade.
Tomara
as providências para a viagem e só faltava pagar as contas, quando
apareceu o delegado:
— Não
vai me dizer que pretende escapar ao júri de amanhã? Sua fuga seria
uma desconsideração ao Juiz. Aliás, trago um recado dele. Pediu-me
para lhe dizer que não gostou de sua displicência na instrução
criminal. Espera, daqui para frente, o exato cumprimento de suas
obrigações como defensor do réu. — E, dando fim à sua missão,
ordenou ao rapaz que guardava as malas do hóspede:
— Leva
tudo de volta para cima.
A
escolta de Botão-de-Rosa encontrou forte resistência para entrar no
Fórum. Uma pequena e exaltada multidão, que impedia a passagem,
investiu sobre o prisioneiro a bofetadas e pontapés.
Os
militares presenciaram, complacentes, o espancamento e só tomaram a
decisão de intervir quando viram a vítima sangrar. Violentos, a
golpes de sabres, afastaram da porta os desordeiros.
Dentro
do edifício deram-se conta de que não podiam introduzir no recinto
do tribunal o prisioneiro, tal o estado de suas roupas, rasgadas de
cima a baixo.
Alguém,
que assistira à agressão da janela de uma casa nas vizinhanças,
mandou-lhes uma capa feminina para cobrir a nudez de Botão.
Sentado
no banco dos réus, entre dois soldados, Botão-de-Rosa mal conseguia
mover as pálpebras, as pernas começavam a inchar. Levantou-se,
arquejante, a uma ordem do Juiz, que deu início ao interrogatório
de praxe. Nada respondeu e nem poderia fazê-lo caso desejasse. Os
lábios estavam intumescidos, os dentes abalados doíam ao contato
com a língua.
— Inocente
ou culpado? — Foi a última pergunta que lhe fizeram e a repetiu
para si mesmo, deixando transparecer alguma turbação no rosto.
O
magistrado encerrou a inquirição com uma advertência:
— Embora
não esteja obrigado a nos responder, o seu silêncio poderá ser
interpretado em prejuízo da própria defesa.
O
promotor falava havia mais de duas horas. Repisava argumentos,
insistia em detalhes insignificantes. Ao notar que ninguém lhe
prestava atenção, tratou de terminar o enfadonho
discurso
com a leitura de uma carta sem assinatura, na qual denunciavam o
acusado de traficante de heroína e maconha.
— Uma
carta anônima! E essa maconha, não mencionada anteriormente? É um
acinte ao tribunal apresentar uma prova desse tipo — aparteou o
defensor.
— Ela
merece fé. Posso exibir o laudo da perícia, constante de minucioso
estudo grafológico, que afirma ser de Judô, um dos componentes do
conjunto musical do indiciado, a autoria da denúncia.
— Pobre
companheiro — murmurou Botão —, deve ter-se vendido por algumas
doses de entorpecentes. Não conseguia viver sem a droga. Por que
culpá-lo agora? Uma testemunha a menos não o absolveria. —
Voltou-se para trás: a formação do grupo com músicos
inexperientes, pouco dinheiro, ideia de malucos. As cidades do
caminho, aplausos e vaias, a orquestra crescendo. O aparecimento de
Taquira. — Esquecera o corpo maltratado e obrigaram-no a retornar à
realidade:
— Senhores
jurados, a acusação do Ministério Público, além de inepta, é
tendenciosa. O réu não cometeu o delito que lhe atribuem. Poderia,
no máximo, ser processado como cúmplice de numerosos adultérios,
mas isso não seria conveniente para a cidade, pois a transformaria
num imenso antro de cornos. — Era o advogado de defesa que
discursava e pretendia com a última frase desmascarar os que
aplicavam a justiça no lugar. Surpreendeu-o, entretanto, a repulsa
instantânea da assistência e jurados, que avançaram, enraivecidos,
em sua direção.
O
Juiz fez soar repetidamente a campainha, ameaçando evacuar o
recinto. Por fim, com a colaboração dos soldados, conseguiu que
todos voltassem a seus lugares.
José
Inácio encolhera-se num canto e, convocado a retornar à tribuna,
obedeceu amedrontado, disposto a abreviar suas considerações.
Falava com cautela, pesando as palavras, algumas ambíguas, as ideias
desconcatenadas e a negar crimes que a própria acusação não
atribuía ao incriminado.
Havia
total descompasso entre o que afirmava e os apartes do promotor:
— Como
poderia engravidar meninas de oito e matronas de oitenta anos?
— Protesto!
O delito em pauta se refere unicamente a estupefacientes!
— Os
casos de gravidez em massa, ocorridos nesta localidade, não podem
ser atribuídos ao denunciado.
— Antes
da vinda desse marginal nosso povo tinha hábitos saudáveis,
desconhecia os vícios das grandes metrópoles.
O
Presidente do Tribunal leu a sentença que condenava Botão-de-Rosa à
pena de morte, a ser cumprida no dia seguinte, e exortou a todos que
respeitassem a integridade física do condenado, deixando ao verdugo
a tarefa de eliminá-lo.
A
recomendação final do magistrado alarmou o defensor: e a sua
segurança, quem a garantiria?
O
delegado percebeu, de longe, o temor que o afligia e veio a seu
encontro:
— Não
precisa ter medo. Basta ser compreensivo. O sentenciado só escapará
da forca se houver apelação, pois a Suprema Corte tem por norma
transformar as penas máximas em prisão perpétua. Se você não
recorrer, lhe garantiremos uma rendosa banca de advocacia. A promessa
é do Juiz.
José
Inácio reviu, mentalmente, as diversas fases do processo, o
cerceamento da defesa do réu, permitido por uma legislação
absurda. Sentiu-se na obrigação de apelar e impedir que cometessem
terrível iniquidade. Não havia outra opção, contudo vacilava. O
duro espancamento de seu constituinte deveria ser tomado como um
aviso do que lhe poderia acontecer, caso apelasse. E por que trocar
as possibilidades de sucesso na sua carreira profissional pela vida
de um pobre-diabo que se negava a defender-se e nem se importava com
sua própria condenação?
Desistiu
do recurso.
Além
da cama, Botão pouco encontrou na cela. Tinham levado as roupas, os
objetos de uso pessoal, inclusive o dentifrício e a escova de
dentes.
Deitou-se
nu e aguardou a noite.
Às
seis da manhã vieram buscá-lo, porém teve dificuldade em
levantar-se. Os membros, ressentidos da surra da véspera, não lhe
obedeciam. Para erguer-se, foi necessária a ajuda do carcereiro.
Os
soldados, à sua espera numa das salas da delegacia, conduziram-no ao
local da execução. Caminhada áspera, na qual se empenhou em seguir
firme, os ombros erguidos.
Do
alto do patíbulo, na praça vazia, pela primeira vez lhe pesava a
solidão. E os companheiros? E Taquira?
Abaixou
a cabeça: esquecerão, sempre esquecemos.
Jogou
longe a capa e, desnudo, ofereceu o pescoço ao carrasco.
Murilo Rubião, in Obra Completa

Nenhum comentário:
Postar um comentário