sábado, 7 de outubro de 2023

Botão-de-rosa


Aroma de mirra, de aloés e cássia exala de tuas vestes, desde as casas de marfim.
(Salmos, XLIV, 9)

Quando, numa segunda-feira de março, as mulheres da cidade amanheceram grávidas, Botão-de-Rosa sentiu que era um homem liquidado. Entretanto não se preocupou, absorto em pentear os longos cabelos.
Concluído o penteado, passou a alisar a barba com uma escova especial umedecida em perfume. Nesse instante ouviu gritos vindos da rua. Não distinguia bem o que gritavam, mas de uma coisa estava certo: vinham pegá-lo. — Deu de ombros e buscou uma fita colorida para prender a cabeleira.
Antes de despir a camisola de seda, escolheu para o dia o seu melhor traje: uma túnica branca, bordada a ouro, e calças de um tecido azul com tachas prateadas, presente dos companheiros do conjunto de guitarras — Molinete, Zelote, Judô, Pedro Taguatinga, Simonete, Bacamarte, André-Tripa-Miúda, Ion, Mataqueus, Pisca, Filipeto e Bartô — com os quais acertara novo encontro no Festival. Até lá Taquira teria o filho. (Fora obrigado a separar-se da companheira porque os pais recusaram a recebê-lo em casa, alegando que não eram casados. Teve, à época, vaga premonição de que jamais se reencontrariam.)
Separou as meias, o cinturão de fivela dourada e procurou uma sandália que combinasse com o vestuário. Sua escolha recaiu numa de solas grossas, apropriadas ao péssimo calçamento da cidade.
O clamor crescia lá fora, aumentava-lhe a impaciência: não podiam esperar que acabasse de se aprontar? Ou temiam pela sua fuga? Malta de ignorantes, como poderia fugir? Antes que apelassem para a força, procurou acalmá-los, mostrando-se na varanda.
A turba emudeceu à sua presença. Fez-se um silêncio hostil, os olhos enfurecidos cravados na sua figura tranquila. Um moleque atirou-lhe uma pedra certeira na testa e a multidão de novo se assanhou: Cabeludo! Estuprador! Piolhento!
Quando compreenderiam? — Retrocedeu até a sala. Não por covardia, apenas para estancar o sangue que começava a descer pela face e certamente lhe mancharia a roupa.
Medicava-se ainda e ouviu baterem na porta. Era o sargento, comandante do destacamento, acompanhado de seis soldados e um mandado de prisão. Nem leu o papel. Alçando a mão, num apelo mudo, para que o esperassem, voltou ao quarto. Após jogar suas coisas na maleta, colocar nos dedos os anéis e no pescoço os colares, seguiu os policiais.
A autoridade deles devia ser grande, pois cessaram as vaias, ouvindo-se somente o rosnar de alguns populares. Das sacadas, em todo o percurso, mulheres com os rostos protegidos por máscaras, que ocultavam as deformações da gravidez, observavam ansiosas o cortejo. As únicas janelas fechadas pertenciam à residência dos pais de Taquira.

O delegado, um tenente reformado, recebeu-o com afetada cortesia, indiferente à hostilidade geral contra o prisioneiro:
O senhor é acusado de estupro e de ter engravidado as... — Interrompeu a frase para atender ao telefone:
Pronto. Às ordens, meritíssimo. Estou atento. Novas diligências? Quantas quiser. Encontraram drogas? Mudarei o rumo dos interrogatórios.
O telefonema perturbara-o. Menos empertigado e sem afetação, voltou-se para o detido:
Houve um equívoco: você está preso sob suspeita de traficar heroína. — Fez uma pequena pausa e, embaraçado, prosseguiu:
Pode depor sem constrangimento. O seu defensor, doutor José Inácio — apontava para um rapaz que acabara de entrar na sala —, testemunhará a nossa isenção. Queremos a verdade.
A verdade. O que significaria? Tempos atrás lhe fizeram igual pergunta e nada respondera. Também agora, e nos dias subsequentes, permaneceria calado.
Alheio às perguntas capciosas, Botão só se preocupava com a aflição do seu patrono, talvez a única pessoa a desconhecer que fora designado exclusivamente para dar aparência de legalidade ao processo.
O mutismo do indiciado não irritou o militar. Parecia até agradá-lo. Mandou que o recolhessem ao cárcere. (Antes de acareá-lo com as testemunhas, procederia a outras investigações, visando esclarecer certos pontos obscuros da denúncia.)
O advogado, que permanecera na sala, indagou:
Por que acusam o meu cliente de traficante de drogas, se antes o incriminavam de estuprador e cúmplice de centenas de adultérios?
Que ingenuidade, amigo. Você está há pouco tempo entre nós e ignora que aqui só prevalece a vontade do Juiz, proprietário da maior parte das casas da cidade, inclusive dos prédios públicos, da companhia telefônica, do cinema, das duas farmácias, de cinco fazendas de gado, do matadouro e da empresa funerária. Se decidiu que esse palhaço cometeu outro delito, não nos cabe discutir e sim preparar as provas necessárias à sua condenação.
Penso que o seu dever é agir com imparcialidade, conforme declarou anteriormente, e impedir o arbítrio dos poderosos.
Nesse instante, em frente à Delegacia, a população começou a vociferar: Lincha! Mata! Enforca!
O oficial parecia se divertir com a situação:
O seu constituinte não tem muitas chances de sobreviver. Alguém cuidará dele. A Justiça ou o povo.


José Inácio saiu preocupado com a sorte do prisioneiro. Além de ter contra si a animosidade de todos, nem ao menos se declarava inocente.
Sua preocupação se transformou em medo ao ver-se encarado pelos homens que se postavam na rua. Olhavam-no carrancudos e silenciosos.
No hotel a recepção não foi melhor. O hoteleiro e os hóspedes, que antes o tratavam com acentuada simpatia, passaram a evitá-lo.
A mudança de tratamento o magoava: se não procurara nem fora chamado pelo acusado na qualidade de advogado, e se acompanhava o processo como defensor dativo de um maníaco sexual, que posteriormente seria transformado em traficante de drogas, por que colocá-lo em situação idêntica à do réu?!

Durante a semana tentaram, sem êxito, arrancar uma confissão de Botão-de-Rosa. Mudo e impassível, ouvia desatento o que lhe perguntavam repetidamente:
Quer falar agora? Quem lhe fornecia os entorpecentes?
O interrogatório não se estendia muito e logo mandavam-no de volta à cela.
Ao chegar a vez das testemunhas, estas asseguraram que, no momento da prisão, o indiciado carregava heroína consigo.
A polícia deu-se por satisfeita com os depoimentos e considerou-os suficientes para caracterizar o delito.
Preenchidas as últimas formalidades, os autos foram remetidos à Justiça.

Se para o advogado o inquérito policial transbordava de irregularidades, algumas gritantes, como a ausência do auto de prisão em flagrante, maior escândalo lhe causaria o transcurso da instrução criminal, inteiramente fora das normas processuais.
Verificando que seu cliente seria julgado pelo Tribunal do júri, procurou o promotor e lhe disse que iria arguir incompetência de juízo se o réu não fosse enquadrado no ritual da lei que tratava de entorpecentes.
O senhor está pilheriando ou é um incompetente. Em que se baseia para usar tão esdrúxulo recurso?
Surpreso com a resposta intempestiva, pediu licença para consultar o Código de Processo Penal, que retirou de uma estante ao lado.
À medida que avançava na leitura, mais chocado ficava, pensando ter em suas mãos uma edição falsificada, ou então nada aprendera nos cursos da Faculdade.
Numa pequena livraria comprou um exemplar da Constituição e todos os códigos, porque talvez tivesse que reformular seu aprendizado jurídico.

Leu até de madrugada. A cada página lida, se abismava com a preocupação do legislador em cercear a defesa dos transgressores das leis penais. Principalmente no capítulo dos entorpecentes, onde não se permitia apresentar determinados recursos, requerer desaforamento. A violação de seus artigos era considerada crime gravíssimo contra a sociedade e punível por tribunal popular. As penas variavam entre dez anos de reclusão, prisão perpétua ou morte.
José Inácio ficou boquiaberto: pena de morte! Ela fora abolida cem anos atrás! Ou teria estudado em outros livros?
Em compensação, ocorrendo a pena capital, admitia-se apelar para instância superior.
Desorientado, abandonou os compêndios.
Passou os dias seguintes a remoer o assunto, enquanto na porta do hotel um número crescente de indivíduos mal-encarados aguardava sua saída, para segui-lo impiedosamente pelas ruas da cidade. Também recebia constantes ameaças pelo telefone e cartas anônimas.
Aos poucos, se acovardava, perdia a esperança de conseguir absolver seu constituinte.
Na véspera do julgamento, atemorizado, resolveu abandonar a cidade.
Tomara as providências para a viagem e só faltava pagar as contas, quando apareceu o delegado:
Não vai me dizer que pretende escapar ao júri de amanhã? Sua fuga seria uma desconsideração ao Juiz. Aliás, trago um recado dele. Pediu-me para lhe dizer que não gostou de sua displicência na instrução criminal. Espera, daqui para frente, o exato cumprimento de suas obrigações como defensor do réu. — E, dando fim à sua missão, ordenou ao rapaz que guardava as malas do hóspede:
Leva tudo de volta para cima.

A escolta de Botão-de-Rosa encontrou forte resistência para entrar no Fórum. Uma pequena e exaltada multidão, que impedia a passagem, investiu sobre o prisioneiro a bofetadas e pontapés.
Os militares presenciaram, complacentes, o espancamento e só tomaram a decisão de intervir quando viram a vítima sangrar. Violentos, a golpes de sabres, afastaram da porta os desordeiros.
Dentro do edifício deram-se conta de que não podiam introduzir no recinto do tribunal o prisioneiro, tal o estado de suas roupas, rasgadas de cima a baixo.
Alguém, que assistira à agressão da janela de uma casa nas vizinhanças, mandou-lhes uma capa feminina para cobrir a nudez de Botão.
Sentado no banco dos réus, entre dois soldados, Botão-de-Rosa mal conseguia mover as pálpebras, as pernas começavam a inchar. Levantou-se, arquejante, a uma ordem do Juiz, que deu início ao interrogatório de praxe. Nada respondeu e nem poderia fazê-lo caso desejasse. Os lábios estavam intumescidos, os dentes abalados doíam ao contato com a língua.

Inocente ou culpado? — Foi a última pergunta que lhe fizeram e a repetiu para si mesmo, deixando transparecer alguma turbação no rosto.
O magistrado encerrou a inquirição com uma advertência:
Embora não esteja obrigado a nos responder, o seu silêncio poderá ser interpretado em prejuízo da própria defesa.

O promotor falava havia mais de duas horas. Repisava argumentos, insistia em detalhes insignificantes. Ao notar que ninguém lhe prestava atenção, tratou de terminar o enfadonho
discurso com a leitura de uma carta sem assinatura, na qual denunciavam o acusado de traficante de heroína e maconha.
Uma carta anônima! E essa maconha, não mencionada anteriormente? É um acinte ao tribunal apresentar uma prova desse tipo — aparteou o defensor.
Ela merece fé. Posso exibir o laudo da perícia, constante de minucioso estudo grafológico, que afirma ser de Judô, um dos componentes do conjunto musical do indiciado, a autoria da denúncia.
Pobre companheiro — murmurou Botão —, deve ter-se vendido por algumas doses de entorpecentes. Não conseguia viver sem a droga. Por que culpá-lo agora? Uma testemunha a menos não o absolveria. — Voltou-se para trás: a formação do grupo com músicos inexperientes, pouco dinheiro, ideia de malucos. As cidades do caminho, aplausos e vaias, a orquestra crescendo. O aparecimento de Taquira. — Esquecera o corpo maltratado e obrigaram-no a retornar à realidade:
Senhores jurados, a acusação do Ministério Público, além de inepta, é tendenciosa. O réu não cometeu o delito que lhe atribuem. Poderia, no máximo, ser processado como cúmplice de numerosos adultérios, mas isso não seria conveniente para a cidade, pois a transformaria num imenso antro de cornos. — Era o advogado de defesa que discursava e pretendia com a última frase desmascarar os que aplicavam a justiça no lugar. Surpreendeu-o, entretanto, a repulsa instantânea da assistência e jurados, que avançaram, enraivecidos, em sua direção.
O Juiz fez soar repetidamente a campainha, ameaçando evacuar o recinto. Por fim, com a colaboração dos soldados, conseguiu que todos voltassem a seus lugares.
José Inácio encolhera-se num canto e, convocado a retornar à tribuna, obedeceu amedrontado, disposto a abreviar suas considerações. Falava com cautela, pesando as palavras, algumas ambíguas, as ideias desconcatenadas e a negar crimes que a própria acusação não atribuía ao incriminado.
Havia total descompasso entre o que afirmava e os apartes do promotor:
Como poderia engravidar meninas de oito e matronas de oitenta anos?
Protesto! O delito em pauta se refere unicamente a estupefacientes!
Os casos de gravidez em massa, ocorridos nesta localidade, não podem ser atribuídos ao denunciado.
Antes da vinda desse marginal nosso povo tinha hábitos saudáveis, desconhecia os vícios das grandes metrópoles.

O Presidente do Tribunal leu a sentença que condenava Botão-de-Rosa à pena de morte, a ser cumprida no dia seguinte, e exortou a todos que respeitassem a integridade física do condenado, deixando ao verdugo a tarefa de eliminá-lo.
A recomendação final do magistrado alarmou o defensor: e a sua segurança, quem a garantiria?
O delegado percebeu, de longe, o temor que o afligia e veio a seu encontro:
Não precisa ter medo. Basta ser compreensivo. O sentenciado só escapará da forca se houver apelação, pois a Suprema Corte tem por norma transformar as penas máximas em prisão perpétua. Se você não recorrer, lhe garantiremos uma rendosa banca de advocacia. A promessa é do Juiz.
José Inácio reviu, mentalmente, as diversas fases do processo, o cerceamento da defesa do réu, permitido por uma legislação absurda. Sentiu-se na obrigação de apelar e impedir que cometessem terrível iniquidade. Não havia outra opção, contudo vacilava. O duro espancamento de seu constituinte deveria ser tomado como um aviso do que lhe poderia acontecer, caso apelasse. E por que trocar as possibilidades de sucesso na sua carreira profissional pela vida de um pobre-diabo que se negava a defender-se e nem se importava com sua própria condenação?
Desistiu do recurso.

Além da cama, Botão pouco encontrou na cela. Tinham levado as roupas, os objetos de uso pessoal, inclusive o dentifrício e a escova de dentes.
Deitou-se nu e aguardou a noite.
Às seis da manhã vieram buscá-lo, porém teve dificuldade em levantar-se. Os membros, ressentidos da surra da véspera, não lhe obedeciam. Para erguer-se, foi necessária a ajuda do carcereiro.
Os soldados, à sua espera numa das salas da delegacia, conduziram-no ao local da execução. Caminhada áspera, na qual se empenhou em seguir firme, os ombros erguidos.
Do alto do patíbulo, na praça vazia, pela primeira vez lhe pesava a solidão. E os companheiros? E Taquira?
Abaixou a cabeça: esquecerão, sempre esquecemos.
Jogou longe a capa e, desnudo, ofereceu o pescoço ao carrasco.

Murilo Rubião, in Obra Completa

Nenhum comentário:

Postar um comentário