1
Filena:
eu que mal vos fiz,
que
sempre a matar-me andais,
uma
vez, quando me olhais,
outra
quando me fugis:
vi-vos,
e logo vos quis
tão
inseparavelmente,
que
nem a vista ao presente
ao
menos sabe dizer-me,
entre
ver-vos, e render-me
qual
foi primeiro acidente.
2
Vós
sois tão esquiva, e tal,
que
outras cousas não sabendo,
da
vossa esquivança entendo,
que
o meu amor me fez mal:
não
cabe em meu natural
fugir,
de quem me maltrata,
e
se me sai tão barata
a
vingança de querer-vos,
quero
amar-vos, e sofrer-vos,
porque
fiqueis mais ingrata.
3
Não
sinto esta pena atroz,
que
me fazeis padecer,
antes
folgo de morrer,
vendo,
que morro por vós:
e
se com passo veloz
vejo
a morte já chegar,
não
sinto ver-me acabar,
sinto
a glória, que vos cresce,
que
uma ingrata não merece
a
glória de me matar.
4
Vivam
vossas esquivanças,
e
vossa crueldade viva,
que
a sem razão de uma esquiva
acredita
as esperanças:
tudo
tem certas mudanças,
também
se muda o rigor,
e
se Amor me dá valor
para
sofrer-vos, e amar-vos,
claro
está, que hão de mudar-vos
firmezas
do meu amor.
Gregório de Matos, in Antologia poética
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