Certa
vez, na maré do passado Dunbar, houve uma mulher de muitos nomes, e
que mulher ela era.
Primeiro,
o nome de nascença: Penélope Lesciuszko.
Então
o nome de batismo no piano: Rainha dos Erros.
Em
trânsito, chamavam-na de Garota do Aniversário.
O
apelido que ela se deu foi Noiva do Nariz Quebrado.
E,
enfim, o nome de morte: Penny Dunbar.
Convenientemente,
ela veio de um lugar que era mais bem descrito por uma frase dos
livros que cresceu lendo.
Ela
veio de um mar ruidoso.
***
Muitos
anos atrás, assim como tantos antes dela haviam feito, a jovem
chegou com uma mala e um olhar franzido.
Ficou
estarrecida com a luz agressiva que encontrou aqui.
Esta
cidade.
Era
tão quente e vasta, e branca.
O
sol era uma espécie de bárbaro, um viking no céu.
Saqueava
e depredava.
Colocava
as mãos em tudo, do bloco mais alto de concreto à menor pedrinha do
mar.
No
país de onde ela veio, no Bloco do Leste, o sol era mais como um
brinquedo, uma engenhoca. Lá, naquela terra distante, eram nuvem e
chuva, gelo e neve que ditavam as regras — não aquela curiosa
bolinha amarela que aparecia de vez em quando; os dias mais quentes
eram racionados. Mesmo nas tardes mais minguadas e inférteis, havia
umidade. Garoa. Pés encharcados. Era a Europa comunista em seu auge
declinante.
De
muitas formas, isso a definiu. Fuga. Solidão.
Mais
precisamente, solitária.
Ela
jamais se esqueceria da chegada aqui, completamente aterrorizada.
Do
céu, a cidade parecia à mercê do próprio tipo de água (a
salgada), mas, em terra firme, a jovem não demorou muito para sentir
e identificar a força avassaladora do verdadeiro opressor; o rosto
dela ficou imediatamente crivado de suor. Lá fora, ela esperava
junto a um rebanho, uma horda — não, uma ralé — de pessoas
igualmente atônitas e grudentas.
Após
uma longa espera, o bando foi reunido, encurralado numa espécie de
pavilhão, banhado por luzes fluorescentes, o calor preenchendo o ar
em todas as direções.
— Nome?
— Nada. — Passaporte?
— Przepraszam?
— Merda.
O
homem de uniforme ficou na ponta dos pés e espiou por cima da
multidão de cabeças de novos imigrantes. Que bando de rostos
lamentáveis, mormacentos. Ele encontrou o homem que procurava.
— Ei,
George! Bilski! Tenho uma aqui pra você!
Foi
quando a mulher de quase vinte e um anos que aparentava dezesseis o
puxou pelo rosto, segurando a caderneta cinza diante dele como se
fosse estrangular as bordas das páginas.
— Parshporrte.
Um
sorriso, de resignação.
— Tá
bom, meu anjo.
Ele
pegou o documento e deu uma olhada no nome dela.
— Leskazna-o
quê?
Penélope
o ajudou, tímida porém desafiadora.
— Less-choosh-ko.
Ela
não conhecia ninguém aqui.
As
pessoas com quem convivera no acampamento durante nove meses, nas
montanhas austríacas, haviam se dispersado. Enquanto eram enviadas,
família depois de família, para o outro lado do Atlântico, a
jornada de Penélope Lesciuszko seria mais longa, e aqui estava ela.
Tudo que lhe restava era se dirigir ao novo acampamento, aperfeiçoar
o inglês, encontrar um emprego e um lugar para morar.
Depois,
e mais importante, comprar uma estante. E um piano.
Isso
era tudo que Penélope esperava do mundo novo e incandescente que se
abria diante dela — e, com o tempo, ela conseguiu. Isso, e muito
mais do que pediu.
***
Você
certamente já conheceu pessoas neste mundo e ouviu falar de seus
infortúnios, perguntando-se o que fizeram para merecê-los.
Nossa
mãe, Penny Dunbar, era uma delas.
Acontece
que ela jamais se descreveria como azarada; ela colocava um cacho de
cabelo louro atrás da orelha e dizia não ter arrependimentos —
explicava que tinha ganhado muito mais do que perdido, e parte de mim
tende a concordar com isso. A outra parte conclui que a má sorte
sempre deu um jeito de encontrá-la, sobretudo em momentos marcantes:
A
mãe dela morreu ao dar à luz.
Ela
quebrou o nariz um dia antes do casamento.
E
depois, claro, sua morte.
Sua
morte foi memorável.
***
Quando
ela nasceu, os problemas foram a idade e a pressão; seus pais já
estavam bem velhos para ter filhos, e, após horas de batalha e uma
cirurgia, o corpo de sua mãe ficou destroçado, morto. O pai, Waldek
Lesciuszko, ficou destroçado, vivo. Ele criou a filha da melhor
forma que pôde. Condutor de bonde, tinha muitas qualidades e
peculiaridades, e as pessoas o comparavam não ao próprio Stálin,
mas a uma estátua dele. Talvez fosse o bigode. Talvez outra coisa.
Podia ser a rigidez do homem, ou seu silêncio, pois era um silêncio
extraordinário.
Na
vida privada, contudo, havia mais detalhes. Ele tinha um total de
trinta e nove livros, dois dos quais eram sua obsessão.
Provavelmente porque cresceu em Estetino, próximo ao mar Báltico,
ou porque adorava mitologia grega. Qualquer que fosse a motivação,
Waldek sempre retornava a eles — dois épicos em que os personagens
abriam caminho pelo mar. As obras ficavam na cozinha, dispostas no
meio de uma estante empenada e comprida, arquivadas na letra H:
Ilíada.
Odisseia.
Enquanto
outras crianças pegavam no sono com histórias de cachorrinhos,
gatinhos e pôneis, Penélope cresceu com o rápido Aquiles, o
engenhoso Odisseu e todos os demais nomes e epítetos.
Havia
Zeus, o amontoador de nuvens.
Afrodite,
amante do riso.
Heitor,
o provocador.
E
sua xará: a paciente Penélope.
O
filho de Penélope e Odisseu: o inteligente Telêmaco.
E
um de seus eternos favoritos:
Agamenon,
rei dos homens.
Ela
passou muitas noites em claro na cama, viajando pelas imagens de
Homero e suas inúmeras repetições. Quantas vezes os exércitos
gregos lançaram suas embarcações no mar vinoso, no mar
ruidoso? Velejavam pela aurora de dedos róseos, e a
garotinha sossegada se encantava, seu rosto pequenino se inflamava. A
voz do pai sacolejava em ondas cada vez menores, até que ela
finalmente caía no sono.
Os
troianos poderiam retornar no dia seguinte.
Os
aqueus, com seus cabelos compridos, poderiam lançar e relançar suas
naus ao mar, para conduzi-la em outra noite, mais uma vez.
***
Waldek
Lesciuszko também transmitiu à filha outra habilidade notável; ele
a ensinou a tocar piano.
Sei
o que você deve estar pensando:
Nossa
mãe recebeu uma educação erudita.
Obras-primas
gregas na hora de dormir?
Aulas
de música clássica?
Mas
não.
Aquelas
coisas eram resquícios de outro mundo, uma época completamente
distinta. A pequena coleção de livros fora passada de geração em
geração, talvez a única posse da família. O piano foi adquirido
num carteado. O que nem Waldek nem Penélope sabiam ainda era que
ambos seriam cruciais.
Foram
eles que tornaram pai e filha mais próximos do que nunca.
E
foram eles que os separaram para sempre.
***
Eles
moravam em um apartamento no terceiro andar.
Um
prédio como outro qualquer.
À
distância, era uma luzinha em um golias de concreto.
De
perto, tinha espaço de sobra para os dois, embora fosse apertado.
O
piano empertigado ficava perto da janela — empertigado, preto,
imponente, lustroso —, e sempre nos mesmos horários, de manhã e
de noite, o velho se sentava com ela, com um ar severo e diligente.
Seu bigode ficava estático, cravado entre o nariz e a boca.
O
pai só se mexia quando virava a página da partitura para ela.
Penélope
tocava e se concentrava nas notas, sem piscar. No começo, canções
de ninar, e depois, quando ele a colocou em aulas pelas quais não
tinha condições de pagar, Bach, Mozart e Chopin. Por vezes, era o
mundo lá fora que piscava enquanto ela praticava, antes coberto de
gelo, depois castigado pelo vento; antes raios de sol, depois tempo
feio. A garota sorria quando começava. O pai dela pigarreava. O
metrônomo fazia clic.
Em
alguns momentos, ela escutava a respiração do pai nas lacunas da
música, lembrando que ele era de carne e osso, e não de pedra, como
a estátua da qual as pessoas tanto debochavam. Mesmo diante das
incursões de erros dela, quando a menina sentia a raiva do pai
tomando forma, ele se via preso entre o semblante carrancudo e o
profundamente irritado. Pelo menos uma vez na vida, ela adoraria ter
visto o homem explodir — um tapa na própria coxa, ou um puxão no
emaranhado de cabelo envelhecido. Ele nunca explodiu. Apenas ficava a
postos, segurando o galho de abeto, que usava para açoitar os dedos
da filha com uma ferroada contida toda vez que ela relaxava as mãos
ou cometia algum erro. Certa manhã de inverno, quando ela ainda era
uma criança pálida e retraída, tomou vinte e sete advertências,
por vinte e sete pecados musicais. Então o pai criou um apelido para
ela.
No
fim da aula, a neve caindo do lado de fora, ele a interrompeu e
segurou suas mãos, castigadas e pequenas e mornas. Então as fechou
com delicadeza entre os próprios dedos monolíticos.
— Juz
wystarczy, dziewczyna błędów... — disse ele, o que ela traduziu
para nós como:
— Já
chega, rainha dos erros.
Ela
tinha oito anos na época.
Quando
completou dezoito, ele decidiu tirá-la dali.
***
O
dilema, evidentemente, era o comunismo.
Uma
ideia bela e simples.
Milhares
de limitações e defeitos.
Na
infância, Penélope nunca percebeu.
Que
criança percebe?
Não
havia nada a que comparar.
Por
anos, ela não se deu conta de como o período e o lugar eram
envoltos em mistérios e segredos. Não via que, embora todos fossem
iguais, na verdade não eram. Ela nunca olhava para cima, para as
varandas de concreto, para as pessoas à espreita.
A
política era uma presença aterrorizante, e o governo controlava
tudo: trabalho, bolso, pensamentos e crenças — ou pelo menos o que
as pessoas diziam pensar e seguir. Caso alguém levantasse a menor
suspeita de filiação ao Solidarność, o movimento Solidariedade,
certamente pagaria o preço. Como eu disse, as pessoas ficavam à
espreita.
A
verdade é que aquele sempre foi um país difícil, um país triste.
Era uma terra onde invasores chegavam de todas as direções, século
após século. Se tivesse que escolher, no entanto, eu diria que era
mais difícil que triste, e no período comunista não foi diferente.
No fim das contas, era uma época em que se passava de uma longa fila
para outra, à espera de qualquer coisa, de suprimentos médicos a
papel higiênico, e provisões cada vez mais escassas de alimentos.
E
o que as pessoas podiam fazer?
Ficar
na fila.
Esperar.
Temperaturas
abaixo de zero. Nada mudava.
As
pessoas ficavam na fila.
E
esperavam.
Porque
era preciso.
***
O
que nos traz de volta a Penélope e ao pai dela.
Para
a garota, nada disso importava muito, pelo menos não naquela época.
Para
ela, era apenas uma infância.
Era
um piano e parquinhos congelados, e Walt Disney nas noites de sábado
— uma das pequenas concessões daquele mundo que se estendia por um
caminho errante rumo ao Ocidente.
Quanto
ao pai, era cuidadoso.
Vigilante.
Mantinha
a cabeça baixa e guardava todas as suas ideias políticas na
escuridão dos lábios silenciosos, mas isso não garantia conforto
algum. Preservar-se enquanto o sistema todo ao redor ruía só servia
para lhe dar mais tempo de sobrevivência, não a sobrevivência de
fato. Um inverno eterno por fim terminava, para então voltar em
tempo recorde, e lá estavam todos de novo, no trabalho:
Horas
fixas, curtas.
Relações
amigáveis, sem amizade.
Lá
estavam todos, em casa:
Em
silêncio, porém pensativos.
Existe
alguma saída?
A
resposta se formou, e foi aperfeiçoada.
Definitivamente
não para ele.
No
entanto, talvez para ela existisse.
***
Sobre
esse ínterim, o que mais pode ser dito?
Penélope
cresceu.
O
pai ficou visivelmente mais velho, o bigode visivelmente mais cinza.
Eles
viveram bons momentos, grandes momentos — e por mais velho e turrão
que fosse, Waldek surpreendia a filha uma vez por ano, se tanto, e
apostava corrida com ela até os trilhos do bonde, geralmente a
caminho de uma aula particular de música ou de um recital. Em casa,
nos últimos anos do colégio, ele fazia as vezes de parceiro no
salão de dança da cozinha, tenso e metódico. Panelas faziam
estardalhaço. Um banquinho frágil tombava. Facas e garfos caíam no
chão, e a garota ria, e o homem cedia; ele sorria. A menor pista de
dança do mundo.
Uma
das lembranças mais vívidas de Penélope era de seu aniversário de
treze anos, quando foram para casa pelo parquinho. Ela se sentia
adulta demais para essas coisas, mas mesmo assim se sentou no
balanço. Muitas décadas depois, relataria essa ocasião, mais de
uma vez, ao quarto dos cinco filhos — aquele que amava as
histórias. Ela já estava em seus últimos meses de vida, ora
perdida em devaneios, ora grogue de morfina, deitada no sofá.
— De
vez em quando — dizia ela —, ainda vejo a neve derretendo, os
prédios desbotados, inacabados. Escuto as correntes barulhentas.
Sinto as luvas dele na minha nuca.
Nossa
mãe sorria com dificuldade naquela época, seu rosto em processo de
deterioração.
— Lembro
que gritei com medo de ir muito alto. Implorei para ele parar, mas no
fundo não queria que ele parasse.
Era
isto que tornava as coisas tão difíceis:
Um
coração inundado de cores em meio a tanto cinza.
Para
ela, em retrospecto, ir embora não foi bem uma libertação, mas um
abandono. Por mais que os amasse, Penélope não queria deixar o pai
sozinho com seu elenco grego de amigos navegantes. Afinal, o que o
rápido Aquiles poderia fazer naquela terra de frio e neve? Acabaria
morrendo congelado. E será que Odisseu seria engenhoso o bastante
para fazer a companhia necessária ao pai dela, para mantê-lo vivo?
Para
ela, a resposta era clara.
Não
seria.
***
Mas
então, claro, aconteceu.
Ela
fez dezoito anos.
A
fuga foi instaurada.
Ele
levou dois longos anos.
Aparentemente,
tudo corria bem: ela terminou a escola com boas notas e conseguiu um
emprego de secretária em uma fábrica na região. Fazia anotações
durante as reuniões, era responsável por todas as canetas. Cuidava
da papelada, contabilizava os grampeadores. Era esse o ofício dela,
sua função naquele mundo, e certamente havia outras muito piores.
Foi
mais ou menos nessa época que ela passou a integrar alguns conjuntos
musicais, acompanhando pessoas pela cidade e apresentando composições
próprias também. Waldek a incentivava bastante, e em pouco tempo
ela já estava viajando para tocar. As restrições eram cada vez
menos monitoradas, por conta da desordem geral e (o que era mais
ameaçador) da certeza de que as pessoas poderiam até partir, mas
seus familiares ficavam. De qualquer forma, volta e meia Penélope
era liberada para atravessar a fronteira, e chegou até a ir além da
Cortina uma vez. Em momento algum ela imaginou que seu pai estivesse
plantando a semente da deserção; ela gostava de sua vida, estava
feliz.
Mas
o país, à época, estava em ruínas. Os corredores dos mercados
estavam praticamente vazios. As filas, cada vez maiores.
Muitas
vezes, na neve, no granizo e na chuva, pai e filha passavam horas em
pé à espera de pão, e quando chegava a vez deles não restava mais
nada — e ele logo se deu conta. Ele sabia.
Waldek
Lesciuszko.
A
estátua de Stálin.
Era
uma ironia, na verdade, porque ele não disse uma palavra; estava
decidindo por ela, forçando-a a ser livre, ou, no mínimo, impondo a
escolha a ela.
Ele
nutriu o plano, dia após dia, e então chegou o momento.
Ele
enviaria a filha a Viena, na Áustria, para tocar em um concerto —
um festival de artes —, e deixaria claro que ela não deveria
voltar nunca mais.
E
foi assim que, para mim, nós, os garotos Dunbar, surgimos.
Markus Zusak, in O construtor de pontes

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