quinta-feira, 12 de outubro de 2023

A rainha dos erros


Certa vez, na maré do passado Dunbar, houve uma mulher de muitos nomes, e que mulher ela era.
Primeiro, o nome de nascença: Penélope Lesciuszko.
Então o nome de batismo no piano: Rainha dos Erros.
Em trânsito, chamavam-na de Garota do Aniversário.
O apelido que ela se deu foi Noiva do Nariz Quebrado.
E, enfim, o nome de morte: Penny Dunbar.
Convenientemente, ela veio de um lugar que era mais bem descrito por uma frase dos livros que cresceu lendo.
Ela veio de um mar ruidoso.

***

Muitos anos atrás, assim como tantos antes dela haviam feito, a jovem chegou com uma mala e um olhar franzido.
Ficou estarrecida com a luz agressiva que encontrou aqui.
Esta cidade.
Era tão quente e vasta, e branca.
O sol era uma espécie de bárbaro, um viking no céu.
Saqueava e depredava.
Colocava as mãos em tudo, do bloco mais alto de concreto à menor pedrinha do mar.
No país de onde ela veio, no Bloco do Leste, o sol era mais como um brinquedo, uma engenhoca. Lá, naquela terra distante, eram nuvem e chuva, gelo e neve que ditavam as regras — não aquela curiosa bolinha amarela que aparecia de vez em quando; os dias mais quentes eram racionados. Mesmo nas tardes mais minguadas e inférteis, havia umidade. Garoa. Pés encharcados. Era a Europa comunista em seu auge declinante.
De muitas formas, isso a definiu. Fuga. Solidão.
Mais precisamente, solitária.
Ela jamais se esqueceria da chegada aqui, completamente aterrorizada.
Do céu, a cidade parecia à mercê do próprio tipo de água (a salgada), mas, em terra firme, a jovem não demorou muito para sentir e identificar a força avassaladora do verdadeiro opressor; o rosto dela ficou imediatamente crivado de suor. Lá fora, ela esperava junto a um rebanho, uma horda — não, uma ralé — de pessoas igualmente atônitas e grudentas.
Após uma longa espera, o bando foi reunido, encurralado numa espécie de pavilhão, banhado por luzes fluorescentes, o calor preenchendo o ar em todas as direções.
Nome? — Nada. — Passaporte?
Przepraszam?
Merda.
O homem de uniforme ficou na ponta dos pés e espiou por cima da multidão de cabeças de novos imigrantes. Que bando de rostos lamentáveis, mormacentos. Ele encontrou o homem que procurava.
Ei, George! Bilski! Tenho uma aqui pra você!
Foi quando a mulher de quase vinte e um anos que aparentava dezesseis o puxou pelo rosto, segurando a caderneta cinza diante dele como se fosse estrangular as bordas das páginas.
Parshporrte.
Um sorriso, de resignação.
Tá bom, meu anjo.
Ele pegou o documento e deu uma olhada no nome dela.
Leskazna-o quê?
Penélope o ajudou, tímida porém desafiadora.
Less-choosh-ko.
Ela não conhecia ninguém aqui.
As pessoas com quem convivera no acampamento durante nove meses, nas montanhas austríacas, haviam se dispersado. Enquanto eram enviadas, família depois de família, para o outro lado do Atlântico, a jornada de Penélope Lesciuszko seria mais longa, e aqui estava ela. Tudo que lhe restava era se dirigir ao novo acampamento, aperfeiçoar o inglês, encontrar um emprego e um lugar para morar.
Depois, e mais importante, comprar uma estante. E um piano.
Isso era tudo que Penélope esperava do mundo novo e incandescente que se abria diante dela — e, com o tempo, ela conseguiu. Isso, e muito mais do que pediu.

***

Você certamente já conheceu pessoas neste mundo e ouviu falar de seus infortúnios, perguntando-se o que fizeram para merecê-los.
Nossa mãe, Penny Dunbar, era uma delas.
Acontece que ela jamais se descreveria como azarada; ela colocava um cacho de cabelo louro atrás da orelha e dizia não ter arrependimentos — explicava que tinha ganhado muito mais do que perdido, e parte de mim tende a concordar com isso. A outra parte conclui que a má sorte sempre deu um jeito de encontrá-la, sobretudo em momentos marcantes:
A mãe dela morreu ao dar à luz.
Ela quebrou o nariz um dia antes do casamento.
E depois, claro, sua morte.
Sua morte foi memorável.

***

Quando ela nasceu, os problemas foram a idade e a pressão; seus pais já estavam bem velhos para ter filhos, e, após horas de batalha e uma cirurgia, o corpo de sua mãe ficou destroçado, morto. O pai, Waldek Lesciuszko, ficou destroçado, vivo. Ele criou a filha da melhor forma que pôde. Condutor de bonde, tinha muitas qualidades e peculiaridades, e as pessoas o comparavam não ao próprio Stálin, mas a uma estátua dele. Talvez fosse o bigode. Talvez outra coisa. Podia ser a rigidez do homem, ou seu silêncio, pois era um silêncio extraordinário.
Na vida privada, contudo, havia mais detalhes. Ele tinha um total de trinta e nove livros, dois dos quais eram sua obsessão. Provavelmente porque cresceu em Estetino, próximo ao mar Báltico, ou porque adorava mitologia grega. Qualquer que fosse a motivação, Waldek sempre retornava a eles — dois épicos em que os personagens abriam caminho pelo mar. As obras ficavam na cozinha, dispostas no meio de uma estante empenada e comprida, arquivadas na letra H:
Ilíada. Odisseia.
Enquanto outras crianças pegavam no sono com histórias de cachorrinhos, gatinhos e pôneis, Penélope cresceu com o rápido Aquiles, o engenhoso Odisseu e todos os demais nomes e epítetos.
Havia Zeus, o amontoador de nuvens.
Afrodite, amante do riso.
Heitor, o provocador.
E sua xará: a paciente Penélope.
O filho de Penélope e Odisseu: o inteligente Telêmaco.
E um de seus eternos favoritos:
Agamenon, rei dos homens.
Ela passou muitas noites em claro na cama, viajando pelas imagens de Homero e suas inúmeras repetições. Quantas vezes os exércitos gregos lançaram suas embarcações no mar vinoso, no mar ruidoso? Velejavam pela aurora de dedos róseos, e a garotinha sossegada se encantava, seu rosto pequenino se inflamava. A voz do pai sacolejava em ondas cada vez menores, até que ela finalmente caía no sono.
Os troianos poderiam retornar no dia seguinte.
Os aqueus, com seus cabelos compridos, poderiam lançar e relançar suas naus ao mar, para conduzi-la em outra noite, mais uma vez.

***

Waldek Lesciuszko também transmitiu à filha outra habilidade notável; ele a ensinou a tocar piano.
Sei o que você deve estar pensando:
Nossa mãe recebeu uma educação erudita.
Obras-primas gregas na hora de dormir?
Aulas de música clássica?
Mas não.
Aquelas coisas eram resquícios de outro mundo, uma época completamente distinta. A pequena coleção de livros fora passada de geração em geração, talvez a única posse da família. O piano foi adquirido num carteado. O que nem Waldek nem Penélope sabiam ainda era que ambos seriam cruciais.
Foram eles que tornaram pai e filha mais próximos do que nunca.
E foram eles que os separaram para sempre.

***

Eles moravam em um apartamento no terceiro andar.
Um prédio como outro qualquer.
À distância, era uma luzinha em um golias de concreto.
De perto, tinha espaço de sobra para os dois, embora fosse apertado.
O piano empertigado ficava perto da janela — empertigado, preto, imponente, lustroso —, e sempre nos mesmos horários, de manhã e de noite, o velho se sentava com ela, com um ar severo e diligente. Seu bigode ficava estático, cravado entre o nariz e a boca.
O pai só se mexia quando virava a página da partitura para ela.
Penélope tocava e se concentrava nas notas, sem piscar. No começo, canções de ninar, e depois, quando ele a colocou em aulas pelas quais não tinha condições de pagar, Bach, Mozart e Chopin. Por vezes, era o mundo lá fora que piscava enquanto ela praticava, antes coberto de gelo, depois castigado pelo vento; antes raios de sol, depois tempo feio. A garota sorria quando começava. O pai dela pigarreava. O metrônomo fazia clic.
Em alguns momentos, ela escutava a respiração do pai nas lacunas da música, lembrando que ele era de carne e osso, e não de pedra, como a estátua da qual as pessoas tanto debochavam. Mesmo diante das incursões de erros dela, quando a menina sentia a raiva do pai tomando forma, ele se via preso entre o semblante carrancudo e o profundamente irritado. Pelo menos uma vez na vida, ela adoraria ter visto o homem explodir — um tapa na própria coxa, ou um puxão no emaranhado de cabelo envelhecido. Ele nunca explodiu. Apenas ficava a postos, segurando o galho de abeto, que usava para açoitar os dedos da filha com uma ferroada contida toda vez que ela relaxava as mãos ou cometia algum erro. Certa manhã de inverno, quando ela ainda era uma criança pálida e retraída, tomou vinte e sete advertências, por vinte e sete pecados musicais. Então o pai criou um apelido para ela.
No fim da aula, a neve caindo do lado de fora, ele a interrompeu e segurou suas mãos, castigadas e pequenas e mornas. Então as fechou com delicadeza entre os próprios dedos monolíticos.
Juz wystarczy, dziewczyna błędów... — disse ele, o que ela traduziu para nós como:
Já chega, rainha dos erros.
Ela tinha oito anos na época.
Quando completou dezoito, ele decidiu tirá-la dali.

***

O dilema, evidentemente, era o comunismo.
Uma ideia bela e simples.
Milhares de limitações e defeitos.
Na infância, Penélope nunca percebeu.
Que criança percebe?
Não havia nada a que comparar.
Por anos, ela não se deu conta de como o período e o lugar eram envoltos em mistérios e segredos. Não via que, embora todos fossem iguais, na verdade não eram. Ela nunca olhava para cima, para as varandas de concreto, para as pessoas à espreita.
A política era uma presença aterrorizante, e o governo controlava tudo: trabalho, bolso, pensamentos e crenças — ou pelo menos o que as pessoas diziam pensar e seguir. Caso alguém levantasse a menor suspeita de filiação ao Solidarność, o movimento Solidariedade, certamente pagaria o preço. Como eu disse, as pessoas ficavam à espreita.
A verdade é que aquele sempre foi um país difícil, um país triste. Era uma terra onde invasores chegavam de todas as direções, século após século. Se tivesse que escolher, no entanto, eu diria que era mais difícil que triste, e no período comunista não foi diferente. No fim das contas, era uma época em que se passava de uma longa fila para outra, à espera de qualquer coisa, de suprimentos médicos a papel higiênico, e provisões cada vez mais escassas de alimentos.
E o que as pessoas podiam fazer?
Ficar na fila.
Esperar.
Temperaturas abaixo de zero. Nada mudava.
As pessoas ficavam na fila.
E esperavam.
Porque era preciso.

***

O que nos traz de volta a Penélope e ao pai dela.
Para a garota, nada disso importava muito, pelo menos não naquela época.
Para ela, era apenas uma infância.
Era um piano e parquinhos congelados, e Walt Disney nas noites de sábado — uma das pequenas concessões daquele mundo que se estendia por um caminho errante rumo ao Ocidente.
Quanto ao pai, era cuidadoso.
Vigilante.
Mantinha a cabeça baixa e guardava todas as suas ideias políticas na escuridão dos lábios silenciosos, mas isso não garantia conforto algum. Preservar-se enquanto o sistema todo ao redor ruía só servia para lhe dar mais tempo de sobrevivência, não a sobrevivência de fato. Um inverno eterno por fim terminava, para então voltar em tempo recorde, e lá estavam todos de novo, no trabalho:
Horas fixas, curtas.
Relações amigáveis, sem amizade.
Lá estavam todos, em casa:
Em silêncio, porém pensativos.
Existe alguma saída?
A resposta se formou, e foi aperfeiçoada.
Definitivamente não para ele.
No entanto, talvez para ela existisse.

***

Sobre esse ínterim, o que mais pode ser dito?
Penélope cresceu.
O pai ficou visivelmente mais velho, o bigode visivelmente mais cinza.
Eles viveram bons momentos, grandes momentos — e por mais velho e turrão que fosse, Waldek surpreendia a filha uma vez por ano, se tanto, e apostava corrida com ela até os trilhos do bonde, geralmente a caminho de uma aula particular de música ou de um recital. Em casa, nos últimos anos do colégio, ele fazia as vezes de parceiro no salão de dança da cozinha, tenso e metódico. Panelas faziam estardalhaço. Um banquinho frágil tombava. Facas e garfos caíam no chão, e a garota ria, e o homem cedia; ele sorria. A menor pista de dança do mundo.
Uma das lembranças mais vívidas de Penélope era de seu aniversário de treze anos, quando foram para casa pelo parquinho. Ela se sentia adulta demais para essas coisas, mas mesmo assim se sentou no balanço. Muitas décadas depois, relataria essa ocasião, mais de uma vez, ao quarto dos cinco filhos — aquele que amava as histórias. Ela já estava em seus últimos meses de vida, ora perdida em devaneios, ora grogue de morfina, deitada no sofá.
De vez em quando — dizia ela —, ainda vejo a neve derretendo, os prédios desbotados, inacabados. Escuto as correntes barulhentas. Sinto as luvas dele na minha nuca.
Nossa mãe sorria com dificuldade naquela época, seu rosto em processo de deterioração.
Lembro que gritei com medo de ir muito alto. Implorei para ele parar, mas no fundo não queria que ele parasse.
Era isto que tornava as coisas tão difíceis:
Um coração inundado de cores em meio a tanto cinza.
Para ela, em retrospecto, ir embora não foi bem uma libertação, mas um abandono. Por mais que os amasse, Penélope não queria deixar o pai sozinho com seu elenco grego de amigos navegantes. Afinal, o que o rápido Aquiles poderia fazer naquela terra de frio e neve? Acabaria morrendo congelado. E será que Odisseu seria engenhoso o bastante para fazer a companhia necessária ao pai dela, para mantê-lo vivo?
Para ela, a resposta era clara.
Não seria.

***

Mas então, claro, aconteceu.
Ela fez dezoito anos.
A fuga foi instaurada.
Ele levou dois longos anos.
Aparentemente, tudo corria bem: ela terminou a escola com boas notas e conseguiu um emprego de secretária em uma fábrica na região. Fazia anotações durante as reuniões, era responsável por todas as canetas. Cuidava da papelada, contabilizava os grampeadores. Era esse o ofício dela, sua função naquele mundo, e certamente havia outras muito piores.
Foi mais ou menos nessa época que ela passou a integrar alguns conjuntos musicais, acompanhando pessoas pela cidade e apresentando composições próprias também. Waldek a incentivava bastante, e em pouco tempo ela já estava viajando para tocar. As restrições eram cada vez menos monitoradas, por conta da desordem geral e (o que era mais ameaçador) da certeza de que as pessoas poderiam até partir, mas seus familiares ficavam. De qualquer forma, volta e meia Penélope era liberada para atravessar a fronteira, e chegou até a ir além da Cortina uma vez. Em momento algum ela imaginou que seu pai estivesse plantando a semente da deserção; ela gostava de sua vida, estava feliz.
Mas o país, à época, estava em ruínas. Os corredores dos mercados estavam praticamente vazios. As filas, cada vez maiores.
Muitas vezes, na neve, no granizo e na chuva, pai e filha passavam horas em pé à espera de pão, e quando chegava a vez deles não restava mais nada — e ele logo se deu conta. Ele sabia.
Waldek Lesciuszko.
A estátua de Stálin.
Era uma ironia, na verdade, porque ele não disse uma palavra; estava decidindo por ela, forçando-a a ser livre, ou, no mínimo, impondo a escolha a ela.
Ele nutriu o plano, dia após dia, e então chegou o momento.
Ele enviaria a filha a Viena, na Áustria, para tocar em um concerto — um festival de artes —, e deixaria claro que ela não deveria voltar nunca mais.
E foi assim que, para mim, nós, os garotos Dunbar, surgimos.

Markus Zusak, in O construtor de pontes

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