Voltaire
não tinha agente literário. Não o teve ele nem nenhum escritor do
seu tempo e de largos tempos mais. O agente literário simplesmente
não existia. O negócio, se assim lhe quisermos chamar, funcionava
com dois únicos interlocutores, o autor e o editor. O autor tinha a
obra, o editor os meios para publicá-la, nenhum intermediário entre
um e outro. Era o tempo da inocência. Não quer isto dizer que o
agente literário tenha sido e continue a ser a serpente tentadora
nascida para perverter as harmonias de um paraíso que,
verdadeiramente, nunca existiu. Porém, directa ou indirectamente, o
agente literário foi o ovo posto por uma indústria editorial que
havia passado a preocupar-se muito mais com um descobrimento em
cadeia de best-sellers que com a publicação e a divulgação de
obras de mérito. Os escritores, gente em geral ingénua que
facilmente se deixa iludir pelo agente literário do tipo chacal ou
tubarão, correm atrás de promessas de vultosos adiantamentos e de
promoções planetárias como se disso dependesse a sua vida. E não
é assim. Um adiantamento é simplesmente um pagamento por conta, e,
quanto a promoções, todos temos a obrigação de saber, por
experiência, que as realidades ficam quase sempre aquém das
expectativas.
Estas
considerações não são mais que uma modesta glosa da excelente
conferência pronunciada por Basilio Baltasar em finais de Novembro
no México, com o título de “A desejada morte do editor”, na
sequência de uma entrevista dada ao El País pelo famoso agente
literário Andrew Wylie. Famoso, digo, embora nem sempre pelas
melhores razões. Não me atreveria, nem seria este o lugar adequado,
a resumir as pertinentes análises de Basilio Baltasar a partir da
estulta declaração do dito Wylie de que “O editor é nada, nada”
e que me recorda as palavras de Roland Barthes quando anunciou a
morte do autor… Afinal, o autor não morreu, e o ressurgimento do
editor amante do seu trabalho está nas mãos do editor, se assim o
quiser. E também nas mãos dos escritores a quem vivamente recomendo
a leitura da conferência de Basilio Baltasar, que deverá ser
publicada, e um seu consequente debate.
José Saramago, in O caderno
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