Conselhos
que mães dão para filhas antes do casamento fazem parte do folclore
de todos os povos. Variam de cultura para cultura e mudam com o
tempo, pois o que uma filha de antigamente ouvia da mãe, quando
havia pelo menos uma presunção de virgindade, era muito diferente
do que ouve hoje. Como não há mais nada a ser ensinado sobre as
surpresas e as artimanhas de uma noite de núpcias — a não ser o
que a filha pode ensinar à mãe — os conselhos devem tratar de
aspectos práticos da vida em comum com um homem. Ou com um marido,
que é o homem no cativeiro, portanto, ainda mais perigoso. Por
exemplo.
É
importantíssimo estabelecer, desde o primeiro minuto de um
casamento, os perímetros de poder de cada um.
— Importantíssimo,
minha filha. Escute.
— Estou
escutando, mamãe.
— Acabou
a lua-de-mel. É o primeiro dia do casamento real. Deste momento em
diante, vocês não são mais apenas duas pessoas apaixonadas. São
coabitantes.
— Certo,
mamãe.
— Entende?
Coabitantes. Vão ocupar o mesmo espaço, e o espaço é que define a
relação entre as pessoas. Não é a cama. A cama é um espaço para
tréguas, negociações, troca de prisioneiros etc. O verdadeiro
espaço em que se decide um relacionamento é fora da cama. É tudo
que não é cama. Você está me ouvindo?
— Estou,
mamãe.
— Muito
bem. E o primeiro dia normal de vocês. O primeiro em que vocês
passarão mais tempo fora da cama do que na cama. O dia em que
começará a se delinear a rotina do seu casamento, as regras
implícitas da sua coabitação. Você precisa deixar claro o seu
perímetro de poder, desde o primeiro momento. Como um bicho
marcando, com a urina, os limites do seu território.
— Ai,
mamãe!
— O
assunto é sério, minha filha. Escute. Primeiro dia normal. Você
precisa definir o seu espaço. Cravar a sua bandeira antes que ele
crave a dele. O que você faz?
— Ahn...
Ocupo todo o armário do banheiro com as minhas coisas.
— Não.
— Exijo
uma linha de telefone só pra mim.
— Não.
— O
quê, então?
— O
controle remoto.
— O
controle remoto?!
— Da
televisão. Apodere-se dele. É o seu alvo prioritário. Sua primeira
ação. Sua cabeça-de-ponte. Quem domina o controle remoto da
televisão, domina o casamento. Você está me ouvindo? Defenda a sua
posse do controle remoto a qualquer custo. Ceda em outras coisas,
ofereça compensações. Mas não largue o controle remoto. Quando
sair, leve o controle remoto com você. Durma com ele embaixo do
travesseiro, ou acorrentado ao seu pulso. Use-o pendurado no pescoço.
— Como
é que eu vou andar com um controle remoto de televisão pendurado no
pescoço, mamãe?
— Você
quer elegância ou um casamento que dê certo? E quem sabe? Você
pode lançar uma moda.
— Não
sei...
— Minha
filha, ouça o que eu digo. Não faça o que eu fiz. Deixei que seu
pai assumisse o controle remoto desde o primeiro dia, e ele nunca
mais largou. Minha vida tem sido um inferno. Sabe por quê? Porque
minha mãe não me avisou. Ela era do tempo em que essas coisas nem
eram discutidas. Deus me livre, falar sobre controle remoto com o meu
pai. Ele era capaz de me expulsar de casa.
— Pensando
bem, o papai não larga mesmo o controle...
— Seu
pai não viu mais de cinco segundos de nenhum programa nos últimos
dez anos. Até dormindo ele muda de canal, o dedão não pára. Só
posso acompanhar minhas novelas em segmentos de cinco segundos, de
cinco em cinco minutos. Confundo tudo. Na outra noite, achei que a
Jade estava de caso com um macaco do Discovery Channel.
— Acho
que você tem razão, mamãe...
— Pegue
o controle remoto, minha filha!
Luís Fernando Veríssimo, in Sexo na Cabeça
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