Começou
um dia bonito, com muito sol, daqueles que só tem em Dezembro, em
que as cigarras refilam nos troncos das acácias e o calor sem vento
põe manchas vermelhas nos olhos da gente. Meio-dia quase, na sombra
da gajajeira, os meninos falavam os brinquedos que iam ter de tarde,
dos que gostavam.
— Ai,
Zeca! Este ano vamos só receber nossas xatetes de corda, não é?
— Vão
ter mas é tuji! — gozava o Zito, triste desde o princípio da
conversa.
Discutiam
se Menino Jesus é o mesmo que Papai Noel, cada um defendendo sua
sabedoria, no meio dos sorrisos um pouco tristes do Xoxombo:
— Makutu!
Meu pai diz é os pais dos meninos que põem os brinquedos!...
O
Zito concordou, sabia muito bem, o pai dele também estava dizer a
mesma coisa. O Zeca Bunéu ainda quis, com as partes dele, defender o
Menino Jesus, mas Xoxombo aconselhou:
— Zeca,
deixa só! Se você encontra lá no sapato, te juro é o teu pai que
põe lá. Como é o Papai Noel podia carregar os brinquedos para
todos os miúdos?
O
Zeca calou-se, resmungando qualquer coisa, mas quando chegou na hora
do almoço recomendou para o amigo lhe esperar, para irem juntos
nessa tarde. O Zito saiu embora mais cedo, estava mesmo muito triste,
não tinha senha de receber brinquedos. Nesse ano ainda começou ir
na escola outra vez, mas depois teve de sair. O pai andou sem serviço
uns meses e só o que a mãe lavava não chegava.
Na
hora das três horas, com o calor pesando nas costas e o sol a
brilhar lá em cima no céu muito azul sem andorinhas nem ferrões,
Zeca e Xoxombo desceram na Ingombota, naquele caminho que leva no
Casuno. Sá Domingas e dona Branca vieram na porta aconselhar juízo
como sempre, ficando a ver-lhes afastar pelo areal abaixo, caminho da
Pedreira. Nesse ano, a distribuição ia passar lá em cima, no
jardim grande onde dantes tocava a música, é por isso os meninos
saíram cedo para apanhar lugar e receber bons brinquedos.
Pelo
caminho, andando com depressa como eles, encontravam outros miúdos,
de quedes ou pé descalço, mas todos com a cara satisfeita,
mostrando as senhas e falando os brinquedos que queriam. E o Zeca,
contente sempre que via muita gente, ria e falava, gritava às vezes
nalgum menino da escola dele, gozando. Xoxombo, no lado dele, com a
bata branca bem engomada, caminhava pensativo.
— Xê,
Xoxombo! Poça, você parece viu cazumbi!
— Não
é, Zeca! Estou pensar este ano só deram-me uma senha...
— Deixa
lá. Às vezes não precisa senha. Lembra nos outros anos?
Sim,
nos outros anos era bom. Só as senhoras que apareciam lá na escola
a dizer que ia ter distribuição de brinquedos indicavam o dia e o
sítio e pronto: todos podiam ir. Mas nesse ano, não. Chegaram, os
meninos levantaram alegres, já lhes conheciam, mas não falaram com
eles. Deixaram o monte de senhas e foram embora. Depois a professora
é que deu uma a cada. Como ia arranjar um brinquedo na Tunica?
Os
pés suados, cobrindo-se do pó vermelho da areia, vinham de todos os
lados da Ingombota, da Mutamba, do hospital, apareciam mais miúdos,
alguns de bata, alguns mesmo vestindo calção de fazenda e sapato de
cabedal; outros, os que vinham mais lá de cima, doutros musseques,
correndo de pé descalço. As miúdas da «Kibeba» passavam em fila,
com a sua farda descolorida de encarnado, rindo e olhando, a velha
professora sempre a ameaçar. Nas suas caras tristes tinha, naquela
hora, mais alegria, os olhos brilhavam quando se metiam mesmo com
elas.
Subindo
o Casuno, Zeca e Xoxombo chegaram no Largo do Palácio. Aí, uma
multidão empurrava-se até na estátua, mexendo parecia é o mar com
a calema, na direcção das grades verdes do grande jardim. Meninos e
meninas das escolas e colégios da Baixa, com suas fardas
caqui-verdes ou batas brancas bem engomadas, esperavam, impacientes,
na forma. As professoras, o suor a correr parecia era chuva,
abanando-se com o jornal, tomavam conta. Às vezes corriam no fim da
forma para puxar as orelhas ou pôr chapada naqueles que saíam da
fila para descansar na sombra ou para falar nos miúdos atrevidos. O
sol malandro não tinha vestido nuvens nesse dia e sorria,
arreganhando na cabeça de todos. Assim o Keko, filho do sô Laureano
da Câmara, desmaiou e lhe levaram na torneira do jardim, para molhar
a cabeça. E, pelo meio das filas, uma quantidade de miúdos
desordenados que tinham vindo sozinhos, corriam, brincavam, davam
pinhões nos outros e as suas gargalhadas e insultos perturbavam as
sérias professoras que falavam não havia direito deixarem vir assim
a malandragem dos musseques para o meio dos meninos educados.
As
grades do jardim estavam cheias de criançada, pareciam fio da luz
carregado de pardais. Gritos que estava na hora; assobios, pedidos
para as senhoras lá dentro, tudo isso fazia uma confusão no ar que
o Zeca Bunéu gostava. Empoleirado numa grade, ria, batia as palmas
enquanto Xoxombo punha os olhos grandes nas largas mesas cheias de
brinquedos. Era tambores, era cornetas, era carros, apitos, bonecos,
tudo. As senhoras, suando, abriam mais sacos, tiravam mais, punham
montanhas de coisas que admiravam os olhos e a boca de todos.
— Mira
só, Zeca! Xatete de corda é muito!
— Mia
siôra, me guarda aquela carrinha!
— Só
quero aquele tambor!
E
então nas quatro horas ninguém que podia com a confusão. Doceiros
andavam no meio da gente vendendo os doces de jinguba, de coco,
micondos e quitaba, perseguidos no grupo dos mais malandros que
queriam tirar mesmo sem pagar. Mães de meninos passavam com os
miúdos pela mão, para não perder. Os polícias, de farda branca
dos dias de feriado e os cipaios com as botas engraxadas, apareciam
para berridar quem pisava no capim, nos canteiros, quem sentava no
passeio, quem bebia na torneira, quem atravessava na rua…
De
cima das acácias floridas do largo, carregadas de camisas brancas,
azuis, verdes, parecia era pássaros, alguns começaram mijar em cima
de quem estava cá em baixo. Foi uma confusão, com os polícias a
sacudir os paus e os miúdos, agarrados pareciam cigarras, a rir lá
em cima. E depois deixavam-se cair na relva e fugiam para a grande
multidão da porta, reviengando nos cipaios.
Aí
mesmo é que era impossível ficar. Meninos e meninas, mamãs e papás
apertavam, empurravam, pisavam, mas ninguém que queria sair, e a
porta não abria. Chorando, passou um miúdo com seu fato azul de
marinheiro, chamando a mãe. Xoxombo e Zeca riram o infeliz e
logo-logo alguém fez-lhe pouco:
— Aiuê,
aiuê! Os meninos vão-me comer! Mam’etu’ê...
— Xê
miúdo! Quando você faz chichi sua mãe lhe pega?
Foi
então que no grande carro preto chegaram um senhor alto de fato
branco e uma senhora com vestido verde; os polícias começaram
afastar os meninos com jeito e falando bem, parecia tinham é medo do
senhor do fato branco que adiantou sorrir na gente, passando a mão
na cabeça dos miúdos mais perto, a mulher dele dava um beijo numa
menina que entregou-lhe o ramo de flores.
De
dentro do jardim, puxando os vestidos para baixo e penteando com os
dedos, cada qual a querer passar na frente da outra, as senhoras
vieram nas corridas abrir a porta. Nessa hora, os polícias quiseram
segurar a miudagem para o senhor do fato branco entrar devagar, mas
qual, não puderam. Sem respeito, aos gritos e gargalhadas, por cima
das flores, os montes de miúdos empurraram e desataram a correr na
direcção das mesas. Os que estavam pendurados nas grades saltaram o
muro debaixo das pancadas dos polícias zangados e, atropelando os
vasos, lançaram-se também para os montes de brinquedos.
Foi
uma confusão maluca. Meninos mais velhos empurrando os monandengues,
pisando nas meninas que começavam chorar e a chamar a sô pessora,
pinhões, pelejas mesmo ali, vasos a cair, as flores partidas,
gargalhadas, gritos e os mais atrevidos, já na frente, agarrando os
brinquedos e escondendo na camisa, as senhoras a bater reguadas e os
polícias a empurrar e chapar mesmo os mais salientes.
De
repente, no meio deste barulho todo, o senhor do fato branco apareceu
atrás das mesas. Era muito alto, toda a gente lhe viu. Por um tempo,
parecia feitiço mesmo, tudo ficou calado. Podia-se ouvir o vento a
rir da confusão nas folhas das árvores e das buganvílias de muitas
cores, cheias de borboletas; os passarinhos a cantar lá em cima e a
música da água a cair no tanque grande, lá no fundo do jardim,
descendo nas pedras vestidas de avencas e fetos.
Cá
fora, na rua e no largo, ainda tinha o barulho dos passos e das
palavras dos atrasados, correndo. No céu sempre azul, o sol ria os
meninos de pé, sem chapéu, esperando os brinquedos. De senha na
mão, os da frente ficaram a ouvir, sem perceber nada, o discurso que
pôs o senhor do fato branco, falando a educação, o civismo,
brinquedos, o Menino Jesus. Quando ele acabou de falar a conversa
dele, as senhoras todas bateram as palmas e começaram a atirar fitas
de papel azul, verde, amarelo, que subiam no ar e se deitavam em cima
das trepadeiras, prendendo-se depois nos braços, nos pescoços, nas
pernas dos miúdos e ficando a cobrir o jardim com uma grande teia de
aranha de papel colorido.
Assim,
começou a distribuição. As senhoras, suadas, davam brinquedos para
todos os lados, sorrindo ou xingando, não podendo aviar todos os
miúdos que empurravam as mesas, abanavam as senhas, gritavam,
pediam:
— Só
quero uma corneta!
— Me
dá embora aquele carro!
— Ai
minha siôra! P’ra quê eu quero a boneca, não tenho irmãs!
E
nessas exigências começaram tirar nuns para dar nos outros; os que
lhes recebiam começavam chorar ou pelejavam com os novos donos; as
senhoras, aflitas, gritavam para os polícias separarem os que já
tinham brinquedos; os polícias não esperavam: puxavam do cassetete,
levantavam em cima da cabeça e com a outra mão, toca de empurrar;
os que ainda não tinham, iam na confusão da berrida, outros levavam
mesmo mais brinquedos.
Naquela
confusão do princípio, Zeca se separou do Xoxombo, muitos miúdos
deram-lhe pinhão e quando gritou pelo amigo só o barulho de todos é
que respondeu. Mas pensou bastava assobiar assobio lá do nosso
musseque, na saída ia-lhe dar encontro com certeza. Assim, correu
para a mesa na frente dele, gritando:
— M’nha
senhora! M’nha siôra! Quero só uma camioneta de corda, uma
camioneta de corda!
Agarrou
ainda um miúdo que estava querer passar, e quando viu a professora
do Xoxombo chamou:
— Ai,
menina Cândida! Menina bonita! Me dá só a xatete de corda!
Esse
Zeca era um descarado. A professora quando ia a passar ouviu mesmo as
palavras desse Zeca Bunéu sem vergonha, viu os olhos malandros do
menino, com a boca toda aberta num sorriso, sacudindo a senha.
— Mas
tu não és da minha escola?
— Mas
eu conheço mesmo na menina, menina Candinha, me dá só...
E
o Zeca insistia, empurrava a mesa, esticava o braço, pedindo a
xatete, aquele brinquedo que ele tinha sonhado, para carregar a
areia, os burgaus, zunir com ela nas curvas, brincar de chofer lá no
musseque. Desde essa hora atrás das grades, estava mirar aquela
xatete grande, encarnada, com pneus de borracha mesmo, e agora
esticava o pescoço, os olhos, os dedos, mostrando bem o brinquedo
que queria.
A
professora mirou na cara do Zeca, aquela cara de malandro que toda a
gente gosta. Sorrindo, foi no monte de brinquedos onde que estava
brilhar a camioneta de corda. Azar do Zeca! Nessa hora, quando ia-lhe
agarrar, um senhor magro, professor da Escola Sete, apareceu com as
pressas dele, começou dizer é preciso despachar, já são cinco
horas, pegou um apito, deu no Zeca e recebeu-lhe a senha.
— Pronto!
Vai-te embora. Vêm para aqui estes miúdos vadios… musseque,
musseque!...
Se
o polícia desse com o cassetete na cabeça do Zeca, ele não ficava
assim como ficou, não. Zeca Bunéu não é miúdo de chorar, lhe
conhecemos bem; mas naquela hora nada que ele podia fazer: parecia
era torneira, as lágrimas a correr, a sair sem soluços, só o
choro. No coração do Zeca parece tinha-se partido tudo, nada que
valia a pena agora, sem xatete de corda, sem senha, empurrado assim
pelo senhor magro, quando a menina bonita ia-lhe dar a prenda.
Palavra que aquela xatete ele não ia estragar, ia-lhe guardar e
tratar bem, a menina era bonita, nem sabia como é o Xoxombo não
gostava dela.
As
lágrimas quentes a correr na cara, o menino saiu, levando empurrões
de todos, parecia era boneco. Com o apito na mão, sentou no capim,
sem força para andar. Já tinha menos barulho, o vento se ouvia
melhor, brincando nas folhas, mas não ria. Conversava devagarinho,
devagarinho, os paus pareciam estavam com pena do Zeca.
Fora
do jardim o barulho continuava, ruído de todos os brinquedos e de
todas as alegrias, das trocas, das cassumbulas, dos roubos dos mais
velhos nos mais novos; lá dentro, as plantas quebradas, o capim
pisado e arrancado, os vasos espalhando a areia e as flores pelo
chão, misturando-se nos papéis brancos das senhas, correndo por
entre as fitas azuis, verdes, amarelas enroladas pelo chão, parecia
tinha passado ali o vento dos dias de chuva. As senhoras,
despenteadas e suadas, distribuíam os últimos brinquedos nos mais
miúdos, já só apito, língua-de-gato, ventoinha de papel.
O
sol da tardinha, triste também, queria ainda espreitar por cima do
Palácio. E o choro do Zeca pesava, fazia-lhe continuar ali sentado,
a pensar a xatete encarnada que andava querer muito tempo. Deixava as
lágrimas cair na cara queimada do sol do musseque e, com a raiva
dele, pisava o capim verde, estragava. Não sei o que o Zeca ia
fazer, naquela hora, se não aparecesse o Xoxombo. Coitado do
Xoxombo! A bata suja e rota, um olho magoado, o ranho a correr na
cara, chorando também.
— Xoxombo!
Xoxombo! Quem te bateu? Diz já Xoxombo, diz já p’ra lhe
agarrarmos!
É
assim o Zeca. Quando alguém está mal, ele fica logo bom para lhe
ajudar. Sem parar de soluçar, Xoxombo mostrou-lhe a língua-de-gato
amachucada.
— Xoxombo!
Diz então? Te bateram?
O
menino fez que sim com a cabeça e depois, engolindo lágrimas e
ranho, começou contar:
— A
sô pessora me deu-me uma xatete de corda que eu lhe pedi. Depois, na
confusão, um senhor me tirou a xatete e deu num miúdo branco que
estava pedir!
Limpando
as lágrimas na manga da bata suja, Xoxombo falou que tinha refilado,
mas o polícia ainda puxou-lhe as orelhas e ele então pelejou no
miúdo que tinha-lhe roubado a xatete.
— A
sô pessora veio separar e me deu esta porcaria!...
Arrumou
com o brinquedo e, com a raiva dele, pisou até ser só um buraco sem
feitio, ali no chão.
*
No
fim da tarde que caiu devagar, enquanto meninos subiam a Ingombota ou
desciam para a Mutamba, rindo seus brinquedos, mostrando uns nos
outros para fazer raiva ou fazendo pouco, Zeca e Xoxombo, abraçados,
não falavam para ninguém. Vieram pelos becos, pelos caminhos do
areal, devagarinho, Xoxombo chorando às vezes, Zeca insultando o
senhor do fato branco, as professoras, os meninos da forma, toda a
gente. Quando estava zangado, ninguém que escapava.
Só
quando não tinha mais sol nas ruas é que apareceram no nosso
musseque. Tristes, rotos e sujos e sem brinquedos. As mães já
estavam zangadas, indo e vindo nas portas, os outros miúdos já
tinham passado muito tempo. Por isso Xoxombo não escapou o guico de
sá Domingas, mas ele não tinha mais lágrimas de chorar. Deixou
ainda bater e depois, no quarto, Tunica demorou tempo a lhe consolar,
para dormir. Em casa do mestre sapateiro só passou barulho, dona
Branca meteu no meio e apaziguou. Mas durante dois dias ninguém mais
viu o Xoxombo ou o Zeca na brincadeira.
Esta
conversa também nunca mais falaram para ninguém. Deitaram fora as
camionetas de papelão que eles tinham feito e, no caderno dele, uma
noite, o Xoxombo escreveu:
“Eu
e o Zeca fomos nos brinquedos. Nos meninos brancos deram camioneta de
corda e a mim não porque sou muito preto. Mas no Zeca também não
deram e ele é branco. O filho de sô Laureano da Câmara recebeu.
Não percebo.”
José Luandino Vieira, in Nosso Musseque

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