Ora
pois, chegou o momento de cessar o trabalho e entoar o cântico e
desmanchar o corpo em sacolejos convulsos. Teus amigos se dividiram
em duas hostes: a que se retraiu para montes e praias, e a que,
vestindo os disfarces mais leves, saiu por aí saracoteando e
gritando. Entre as duas formas de viver o carnaval, ficaste sozinho e
desarmado: no centro do acontecimento, sem participar dele.
Velhos
carnavais afloram a tua memória. Por tê-los brincado, conquistaste
o direito de eximir-te aos novos. Foste moço e ainda não és velho.
Recusas-te a aderir; recusas-te a fugir. Elegeste para estes quatro
dias o pijama, o livro, o jardinzinho, o cigarro, a música, o sono,
a paz. E todas essas riquezas, vais desfrutá-las a dois passos do
clube de onde desce e se espraia um rumor rouco de água rolando,
coral frenético onde se misturam imagens e interesses da vida
cotidiana, penas de amor, invocações a uma alegria que é apenas
prazer, a um prazer que busca subjugar o tempo e dissolver o
importuno senso da realidade, mais duro e agressivo que a realidade
mesma. Tua situação é quase a de um sábio recolhido ao hospício,
ou a do puma no jardim zoológico, entre siriemas e quatis. Essas
coisas não te dizem respeito, e passas ileso entre elas. Mas evita o
orgulho; se há uma razão pessoal para não ceder ao calendário,
sobram mil outras para obedecer-lhe. Tua razão individual é uma
vitória sobre os ritos, que ainda não amadureceu para outros, e
talvez jamais amadureça. Repara nos velhos foliões que se esbaldam
junto a brotinhos. Se são autênticos, não podes condená-los,
embora também não os invejes. A criança, e não o sátiro,
continua neles a desenvolver um jogo pueril, e, mortos, amanhã
sorrirá na lembrança desses velhos um pouco do que dançaram.
O
carnaval não mudou senão nas formas aparentes, e não tens direito
de suspirar que naquele tempo, sim, era melhor, e hoje tudo é
porcaria, da decoração aos sambas. O carnaval cresce e se agita
dentro de cada um, seja ou não patrocinado pela prefeitura, e
dinamiza músculos e cordas vocais, restituindo ao homem um pouco da
animalidade comprometida menos pela civilização que pelo seu uso
mecânico. O poeta imaginou compor um carnaval, como o de Schumann,
“todo subjetivo”. São todos subjetivos, quando vividos intensa e
profundamente na zona sensível de cada um, que transforma e valoriza
a circunstância exterior. Não te rebaixes a falar mal do carnaval
que já não te procura.
Estás
só. É bom estar só, quando companhias sutis nos embalam, como
sejam o livro muito folheado, o navio de Segall na parede, um gato
austero. Outros estão sós, como tu, mas presos a uma inibição ou
a uma disciplina. Para os doentes no hospital, o dia é mais longo,
para as enfermeiras é mais árido. Motorneiros e condutores, nossos
irmãos admiráveis, estão sós no infinito barulho e promiscuidade,
na ilha de trabalho a que se condenaram. E o faroleiro no seu farol,
o aviador na sua máquina, e esse homem ou essa mulher sem rosto, que
velam por um gerador ou mexem uma panela na chapa de ferro, e que
ajudam a vida a continuar, em sua humildade sem prêmio.
Entre
o prazer e a abstenção, encontraste no carnaval este secreto
encanto: é uma festa que a uns permite a extroversão, a outros dá
ensejo de fugas marítimas ou campestres, e a ti oferece o exercício
da arte difícil e nobre de estar só.
Carlos Drummond de Andrade, in Fala, Amendoeira
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