Deixou
na portaria de Clarice Lispector uma pasta de plástico azul com um
maço de poemas manuscritos, assinados I. J., e um bilhete em que se
identificava como filho de Maria Jansen, pintora e professora de
artes de quem talvez se lembrasse. Partiu ligeiro, com medo de topar
com Clarice Lispector, e pegou um ônibus para a faculdade na Ilha do
Governador. De noite, em casa, sua mãe respondeu que não, ninguém
tinha ligado para ele, muito menos Clarice Lispector.
No
domingo seguinte estremeceu ao ouvir a voz da própria, com seu
sotaque estrangeiro, convidando-o para um café segunda à tarde. Ele
não contava com um tête-à-tête, teria preferido uma carta
comentando os poemas, mas matou a aula para comparecer ao apartamento
na hora marcada. Tocou a campainha com suor nas mãos e, mais que
frustração, sentiu alívio ao saber pela empregada que Clarice
Lispector tinha saído para o cinema. Logo mais à noite custou a
reconhecer a mesma empregada, de saia curta e sombra nos olhos, que
lhe entregou em casa uma pasta de plástico azul. Pensou que fossem
seus poemas rejeitados, mas era um exemplar de A Maçã no Escuro,
com dedicatória de Clarice Lispector para o jovem poeta I. J.,
afetuosamente. A caligrafia vacilante, meio infantil, mais parecia
obra da empregada, ditada pela patroa.
Ele
sabia de cor cada vírgula dos romances e contos de Clarice
Lispector. Poderia ganhar milhões num desses concursos de
conhecimentos se a televisão se interessasse por escritores
refinados. Já da sua vida privada, do seu modo de ser, sabia o pouco
que ela deixava entrever em crônicas de jornal, e foi a mãe quem
lhe contou que a letra ruim de Clarice Lispector era consequência de
um acidente que quase lhe custou a vida. Contou da noite em que ela
dormiu com um cigarro aceso entre os dedos, de como sua cama e seu
quarto pegaram fogo, de como foi hospitalizada com queimaduras pelo
corpo inteiro, sobretudo na mão direita, que por pouco não lhe
amputaram. Depois de meses de internação voltou para casa decidida
a se dedicar às artes plásticas e, insatisfeita com as reiteradas
experiências autodidáticas, acabou por chamar Maria Jansen para lhe
dar aulas. Tinha a intenção de aprender a pintar com a mão
esquerda, à maneira do seu íntimo amigo, o poeta e romancista Lúcio
Cardoso, que após um derrame cerebral ficou com o lado direito do
corpo paralisado. Ou a exemplo de Paul Klee, sugeriu minha mãe, que
era escritor destro e pintor canhoto. Foram não mais que três ou
quatro aulas, depois ela perdeu a paciência, achou que não levava
jeito para a coisa. Ficou de telefonar na outra semana a fim de
manter contato, marcar um chá em Copacabana, fazer fofoca, visitar o
Museu de Arte Moderna.
Telefonou
para a professora agora, com dois anos de atraso, mas era para saber
do filho dela, o jovem poeta que a deixara a tarde inteira plantada
em casa. Maria Jansen nem sabia que tinha um filho poeta, e lhe
passou uma descompostura quando ele chegou da faculdade. Mal o deixou
entrar, pois Clarice Lispector estava enfurecida e mandara dizer que
só o esperaria até as sete da noite. Ele tomou um táxi e chegou lá
em dez minutos, pronto a assumir a culpa pela confusão da agenda
dela. Ela mesma abriu a porta e não pareceu enfurecida; tinha a cara
sisuda que ele sempre imaginou, mas serena. Ia cumprimentá-la, mas
lembrou a tempo que ela provavelmente lhe negaria a mão direita,
talvez mole, quebradiça, desagradável ao tato. Ela tomou a
iniciativa de beijá-lo nas faces, depois o instalou no sofá de dois
lugares, sentando-se na poltrona mais próxima. Na mesa de centro
estava o maço de poemas de I. J., aparentemente intacto, além de
uma revista Vogue italiana e uma bandeja com bule, açucareiro e três
xícaras de café. Para ele uma terceira presença seria bem-vinda,
de preferência alguém extrovertido que sentasse ao seu lado, se
servisse de café e quebrasse o gelo do silêncio que se fez na sala.
Maior que o desconforto de encarar Clarice Lispector em silêncio,
sentado rijo na ponta do sofá, era o seu receio de sem querer baixar
a vista e visualizar — ela gostava da palavra visualizar — a mão
direita dela, sabe lá com que deformações, cicatrizes e enxertos
de pele. Ele temia não conseguir disfarçar a repulsa, mas ao mesmo
tempo começou a sentir uma curiosidade aflitiva, uma atração
vertiginosa pela mão lesada. Tinha certeza de que a qualquer
momento, quando ela estivesse distraída, ele não resistiria a
espiar de relance aquela mão. Ela talvez o pressentisse, porque de
repente levantou o braço esquerdo e consultou ostensivamente seu
relógio, fazendo questão de que ele também o visse, como a indicar
que o tempo de visita estava esgotado. Mas em ato contínuo desandou
a falar de Maria Jansen, de como a conhecera em sua primeira
individual, de como era bonito seu último marido, de como gostaria
que ela aparecesse mais a miúdo para um café. Falava sempre a fitar
os olhos dele, e não passeando os olhos ao redor, como as pessoas
costumam fazer quando a mente divaga, buscando uma recordação ou um
raciocínio desgarrado. Com esforço ele sustentava o olho a olho com
Clarice Lispector, mesmo quando viu de esguelha uma fumaça que subia
ao lado dela; por um átimo chegou a imaginar que sua mão queimada
ainda fumegasse. Mas só podia ser um cigarro que ela acendera e
tragara furtivamente, enquanto o ilusionava com o relógio no pulso
esquerdo. E agora levava o cigarro à boca com tal naturalidade, que
afinal a mão direita lhe pareceu tão sã e elegante quanto a outra,
com a diferença de uns dedos um pouco mais magros e ossudos. E a
pele da região parecia apenas ligeiramente escurecida, como se ela
costumasse viajar de carro com um braço para fora da janela.
Ela
esmagou o cigarro no cinzeiro e se inclinou sobre a mesa, em direção
aos manuscritos do jovem poeta. Em vez de apanhá-los, porém,
afastou-os a fim de aproximar a bandeja e alcançar o bule, que
levantou com a mão direita, firme, sem tremores. Encheu meia xícara,
perguntou como ele gostava do café, depois pousou o bule não de
volta na bandeja, mas um palmo adiante, bem em cima dos manuscritos;
o café, doce demais, estava gelado. Daí a pouco uma onda quebrou no
mar, uma vizinha soltou uma gargalhada, um alarme de carro disparou
na rua e o toque do sino da igreja do Leme foi a senha para ele se
levantar. Alegou necessidade de estudar para uma prova, e ela se
espantou que ele cursasse faculdade, pois aparentava no máximo
dezesseis, nunca dezenove anos. Se soubesse, teria lhe oferecido um
uísque, que ficaria para outra ocasião. Se é que haveria outra
ocasião, pois ela sabia o quanto os estudos eram puxados, e aos
dezenove ele já devia ter coisas mais interessantes a fazer, como
sair com a namorada para um cinema ou um restaurante. Mas também
poderia trazer a namorada, que ela gostaria de conhecer, e nem os
censuraria se fumassem maconha na sua frente.
Veja
lá, disse a mãe com ironia, veja lá se você não está se
apaixonando. Ele lhe avisara que talvez se atrasasse para o jantar,
porque depois da faculdade ia visitar Clarice Lispector mais uma vez.
Veja lá, filho, veja lá porque ela tem uma queda por rapazes
frágeis, disse caindo na risada. Para além dos costumeiros deboches
da mãe, ele não entendia por que Clarice Lispector desejara um novo
encontro se insistia em ignorar seus poemas; na mesa de centro, os
manuscritos agora jaziam debaixo de uma dúzia de revistas, ao lado
da bandeja de café. Ele nunca o mencionaria, mas já tinha observado
como em sua coluna de jornal ela frequentemente felicitava autores
desconhecidos que lhe enviavam originais. No mais das vezes, porém,
devia se tratar de elogios caridosos, que jamais o enganariam. Em
outras crônicas, ela não escondia a vaidade ao ser procurada por
jovens leitores que a compreendiam claramente, ali onde alguns
críticos profissionais a consideravam hermética. Então ele
resolveu falar de sua interpretação pessoal para tal ou qual texto
dela, a fim de saber se fazia sentido. Logo se arrependeu, porque
Clarice Lispector não parava de se remexer no assento, até que lhe
perguntou de supetão: para você o que é o amor? Enquanto ele
tentava responder falando para dentro, ela se debruçou sobre a
bandeja e lhe serviu meia xícara de café ainda quente mas amargo.
Serviu-se ela também, acendeu um cigarro e pegou a leitura mais à
mão, uma revista de bordo da Alitalia com mapas do mundo e rotas
aéreas. É possível que ela o chamasse em casa por apreciar
especialmente o estado contemplativo dele, ao passo que o silêncio
dela pouco a pouco ia deixando de intimidá-lo. Ele começava a ficar
à vontade para se recostar no sofá e correr os olhos pela sala: o
retrato dela por De Chirico, o lustre, a mesa de jantar e, claro, a
cadeira de jacarandá e a escrivaninha onde ela devia escrever. Estar
em silêncio com Clarice Lispector não diferia muito de ler Clarice
Lispector, só era um modo mais intenso de o fazer, para quem como
ele tinha os livros dela em permanência na cabeça. Com o anoitecer,
sem escutar sua respiração e o folheio de páginas, reparou na
poltrona vazia e entendeu que ela o deixara só na sala, se é que
não tinha simplesmente saído de casa. Levantou-se, andou de lá
para cá na penumbra, chamou baixinho seu nome, espiou a cozinha, o
corredor, foi até o hall de entrada, e quando abriu a porta para ir
embora, uma ventania escancarou a janela da sala e levantou as
cortinas. Como que surgida de trás das cortinas, Clarice Lispector o
chamou para ver como era bela a sua fatia de mar por entre as paredes
de edifícios. No breu da noite, ele não só viu a espuma branca das
ondas, como respirou a maresia combinada com o cheiro de banho dos
cabelos dela.
As
palavras da mãe volta e meia lhe reverberavam na cabeça, mas ele
custava a crer que Clarice Lispector pudesse se envolver a sério com
um rapaz que tinha idade para ser seu filho. Até a madrugada em que
despertou com seu telefonema; o aparelho tocava na sala, longe da
mãe, que só dormia com drogas pesadas. Clarice Lispector parecia
exultante por enfim achar alguém insone igual a ela para conversar
às quatro e meia da manhã. Inclusive — ela gostava da palavra
inclusive — não era de hoje que pensava em lhe telefonar para
contar a novidade: trocara de empregada. Pela primeira vez na vida
tinha uma cozinheira de mão-cheia, que sabia até fazer cuscuz, e
gostaria de convidá-lo qualquer noite para um jantar a dois, com
champanhe e sem hora para terminar. Nos dias seguintes, infelizmente,
estaria ocupada a revisar as provas do seu novo romance, que haviam
acabado de chegar da gráfica. Houve ainda um quiproquó, pois a
editora deu por falta da primeira parte do material enviado, sem
atinar que o romance principiava de fato com uma vírgula; mais tarde
telefonaram para cobrar a última página, porque o romance terminava
com dois-pontos. Não, não se decidira ainda entre dois títulos, só
lhe revelava em sigilo que o romance falava de um casal profundamente
enamorado, sem pressa de consumar o seu amor. Mas ela queria mesmo
era ouvir a sua voz, saber da sua vida, se ele ainda tinha namorada
firme, se de vez em quando também se sentia só.
Ele
não tinha amigos próximos na faculdade e fora daquele âmbito era
invisível: não praticava esportes, não saía com a turma para
beber, não participava dos movimentos estudantis. No intervalo das
aulas, contudo, a uns poucos conhecidos já mostrara seu exemplar de
A Maçã no Escuro autografado pela célebre escritora, que o
tratava por poeta. A incrédulos colegas e professores, também se
permitira detalhar o apartamento dela, a poltrona onde ela lia, o
sofá onde ele se deitava, a máquina de escrever portátil, blocos e
tiras de papel, cortinas esvoaçantes, a janela com vista para o mar.
Às vezes também descrevia os cabelos dela em desalinho, a boca
entreaberta, a blusa decotada, o relógio de prata, eventualmente até
falava com ternura da sua mão ferida. O fato é que, de um modo ou
de outro, ele começava a ser conhecido entre estudantes de letras
como o amante secreto de Clarice Lispector. Alheio a tais rumores,
depois do último telefonema ele passou dias e noites em claro, entre
a apreensão e a expectativa do convite para o jantar romântico.
Transcorrida uma semana, deixou na portaria dela uma carta em que lhe
abria o coração: dizia que a ela, e somente a ela, podia confiar
seus sentimentos mais íntimos, suas inseguranças, seus pudores, em
suma, sua falta de traquejo com mulheres; acreditava, porém, que
inspirados em seu novo livro, eles também poderiam ser um casal
profundamente enamorado, sem pressa de consumar o seu amor. Numa
folha à parte, encaminhou um poema de recente feitura, acreditando
que Clarice Lispector, se escrevesse em versos, o assinaria com
gosto. Na falta de resposta, dias mais tarde telefonou para ela, que
após nove toques atendeu pedindo perdão mas não podia interromper
sua tarefa. Seus erres franceses soaram mais ríspidos que o
habitual, mas nem por isso ele se acabrunhou; nutria o sonho de um
dia ser ele a publicar um livro e imaginava o estado de nervos de
quem se confronta com um reles revisor para impor sua sintaxe, sua
pontuação peculiar, seu direito de escrever errado. Tornou a ligar
na manhã seguinte, mas dessa vez uma empregada com voz vacilante
respondeu que a patroa estava de repouso. Ele preferiu deixar passar
o fim de semana para telefonar de novo, mas então tocava, tocava, e
ninguém mais atendia.
Pediu
para Aparecida lhe trazer os esmaltes de unha, que pretendia
experimentar em suas telas, agora que voltava a se aventurar na
pintura. Era como uma terapia para superar a náusea que sempre se
seguia ao desenlace de um trabalho de meses, se não de anos.
Ensaiava dessa vez pintar com a mão direita, mas não podia se
concentrar em seu labor com um telefone que tocava o dia inteiro;
mandou Aparecida tirar o fone do gancho, não tinha condições de
atender sequer suas irmãs. Não deu meia hora e o porteiro comunicou
a Aparecida pelo interfone que aquele moço branquelo trazia um buquê
de rosas para madame. Instruído a deixar as flores na portaria, o
moço mandou avisar que o telefone da casa estava com defeito, porque
só dava sinal de ocupado. Ver o filho de Maria Jansen parado com
rosas vermelhas na calçada oposta ao seu edifício inspirava em
Clarice Lispector um vago sentimento de culpa, semelhante ao que lhe
dava a visão de crianças dormindo ao relento, ou mendigando à
porta dos restaurantes que ela frequentava à beira-mar; se pudesse,
alimentaria todas as crianças famintas, abrigaria todas as criaturas
abandonadas do Brasil.
Quando
começou a chover forte, viu o menino se retirar com as flores e lhe
ocorreu telefonar para Maria Jansen, que no dia seguinte retomou as
aulas semanais com a antiga aluna. Entre uma e outra pincelada, elas
falavam de cinema, das peças em cartaz, de viagens, de moda, um
pouco de política, falavam de homens. Relembravam seus casamentos,
seus affairs, suas esparrelas, e a sorrir as duas admitiram
que já não namoravam, uma porque tinha ficado fria, outra porque
estava queimada. Os homens da vida de Clarice Lispector eram agora
seus dois filhos, que mais dia menos dia regressariam da temporada
que passavam no estrangeiro com o pai diplomata. Outro dia ela até
se alvoroçou com a campainha, mas era o entregador da editora com um
pacote de livros. Como prova do seu desapego pela própria
literatura, os vinte exemplares do seu novo romance permaneceram uma
semana empacotados no meio da sala. Só os desembrulhou para dar um
presente a Maria Jansen, que gostou menos da capa que do título: Uma
Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. Quando a
professora pediu que Clarice Lispector o autografasse para o filho,
desejosa de fazer uma surpresa ao seu maior fã, ela desconversou,
dizendo que a leitura de poesia era essencial para a formação de
aspirantes à literatura. Buscou uma primeira edição de Boitempo,
de Carlos Drummond de Andrade, que o menino tinha de ler
absolutamente, e anexou ao livro um bilhete para o grande poeta, que
com certeza lhe faria uma dedicatória caprichada. Carlos inclusive
morava a dois passos da casa dele, entre Copacabana e Ipanema, e
malgrado a fama de tímido, adorava uma boa prosa e estaria sempre
disponível para recebê-lo com uma garrafa de uísque. Quanto aos
poemas do filho, mandou Maria Jansen dizer que era melhor ele imitar
o que ela própria fez na juventude: queimá-los. Se I. J. quisesse
realmente ser poeta, necessitava esquecer Clarice Lispector.
Veja
lá, resmunga a mãe, veja lá se você não deixa de novo tudo fora
do lugar. Cada vez que ela escuta movimentos na cozinha, já sabe que
até para fritar batatas terá de tatear a bancada da pia, gavetas,
prateleiras, à procura dos seus utensílios. Irritada, pergunta ao
filho quando é que finalmente ele vai tomar tenência e se mudar;
com o espólio do pai, recursos não lhe faltam para comprar um bom
imóvel. Mas em dez segundos Maria Jansen se enche de remorsos,
sabendo que o filho seria incapaz de abandoná-la ao cuidado de
estranhos. É ele quem arruma a cama dela, quem a penteia e pinta a
raiz dos seus cabelos, quem à noite põe para tocar músicas antigas
e se calhar até a tira para dançar na sala. Para o serviço pesado
ele atura diaristas e olhe lá, porque não há uma que dê conta da
faxina sem mexer nos seus livros e papéis espalhados por todos os
cômodos do apartamento. Isso a mãe compreende bem, pois nada a
angustia mais do que lhe fugir às mãos algum material indispensável
à criação dos seus quadros de arte tátil. Ontem lhe faltaram os
frascos de goma-arábica, e não precisou do olfato para intuir que
estavam no quarto do filho, que colava recortes no mural dedicado a
Clarice Lispector. Nas pausas do trabalho, é esse o único
passatempo a que ele se dá, herdado em certa medida do talento
pictórico de Maria Jansen. Ela não se cansa de incentivá-lo a
espairecer, dar uma volta na praia, respirar os ares do Jardim
Botânico, mas ele só sai de casa uma vez por ano, quando leva rosas
brancas para Clarice Lispector no cemitério israelita. A maior parte
do tempo passa trancado no quarto diante do computador, onde tem
acesso a publicações do mundo inteiro. Nessas horas é que lhe vale
seu vasto conhecimento de idiomas, adquirido a partir da necessidade
de ler em língua estrangeira as medíocres traduções da obra de
Clarice Lispector. Entretanto Maria Jansen daria tudo para voltar ao
tempo em que mandava o pirralho desligar a televisão e ir para a
cama, pois diante da tela ele agora só depara com desilusão e
sofrimento. Há dias em que ele se revolta por não encontrar em
jornais e sites uma nota sequer sobre Clarice Lispector. Pior,
contudo, é quando proliferam matérias a respeito dela, onde ele
sempre esbarra em imprecisões e graves equívocos que o obrigam a se
dirigir aos jornais, solicitando retificações em cartas que nunca
são publicadas. A esta altura, o nome dele já deve ser familiar nas
redações, mas ninguém se lembra de procurá-lo quando se prepara
uma reportagem de fôlego sobre Clarice Lispector. Biografias dela
são lançadas todo ano, mas em parte alguma haverá menção a quem
conviveu com a escritora numa fase em que ela não gozava do
prestígio que só fez crescer depois de sua morte. Seu consolo são
os poemas em prosa que ele escreve e faz circular na rede com a
assinatura dela. Com orgulho incontido divide com a mãe esses
escritos e sua repercussão, algumas vezes superior à dos textos
autênticos. Mas ele sabe que a mãe não é favorável a suas
atividades, o que atribui a ciúmes de Clarice Lispector. Maria
Jansen jura que não tem ciúme algum, só lamenta que por amor
àquela mulher ele tenha desperdiçado a beleza e o vigor da
juventude. Antes de completar setenta anos, porém, ele ainda está
em tempo de encontrar uma mulher nova que oxalá lhe dê um ou dois
filhos. Poderia morar com toda a família naquele amplo apartamento,
e nem a cegueira a impediria de olhar pelos netos e vigiar a nora. Se
fosse o caso, Maria Jansen até faria gosto em receber em casa um
homem como companheiro do seu filho, com direito à adoção de um
casal de gêmeos. Vá à merda, mãe, reage o filho, numa rara quebra
do linguajar escorreito de Clarice Lispector. Vá se foder, diz entre
dentes para divertimento da mãe, que se gaba de ser uma mulher
moderna aos noventa e tantos anos. Pode ser imaginação, ou mesmo
audição excessiva, mas em certas noites Maria Jansen suspeita de
estranhos ruídos no quarto dele. Ultimamente deu para despertar com
uns farfalhares de seda e quem sabe uns passos de salto fino no
assoalho. Veja lá, filho, ela diz, veja lá se não vai para a rua
vestido de Clarice Lispector.
Chico Buarque, in Anos de chumbo e outros contos
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