segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Para Clarice Lispector, com candura

Deixou na portaria de Clarice Lispector uma pasta de plástico azul com um maço de poemas manuscritos, assinados I. J., e um bilhete em que se identificava como filho de Maria Jansen, pintora e professora de artes de quem talvez se lembrasse. Partiu ligeiro, com medo de topar com Clarice Lispector, e pegou um ônibus para a faculdade na Ilha do Governador. De noite, em casa, sua mãe respondeu que não, ninguém tinha ligado para ele, muito menos Clarice Lispector.
No domingo seguinte estremeceu ao ouvir a voz da própria, com seu sotaque estrangeiro, convidando-o para um café segunda à tarde. Ele não contava com um tête-à-tête, teria preferido uma carta comentando os poemas, mas matou a aula para comparecer ao apartamento na hora marcada. Tocou a campainha com suor nas mãos e, mais que frustração, sentiu alívio ao saber pela empregada que Clarice Lispector tinha saído para o cinema. Logo mais à noite custou a reconhecer a mesma empregada, de saia curta e sombra nos olhos, que lhe entregou em casa uma pasta de plástico azul. Pensou que fossem seus poemas rejeitados, mas era um exemplar de A Maçã no Escuro, com dedicatória de Clarice Lispector para o jovem poeta I. J., afetuosamente. A caligrafia vacilante, meio infantil, mais parecia obra da empregada, ditada pela patroa.
Ele sabia de cor cada vírgula dos romances e contos de Clarice Lispector. Poderia ganhar milhões num desses concursos de conhecimentos se a televisão se interessasse por escritores refinados. Já da sua vida privada, do seu modo de ser, sabia o pouco que ela deixava entrever em crônicas de jornal, e foi a mãe quem lhe contou que a letra ruim de Clarice Lispector era consequência de um acidente que quase lhe custou a vida. Contou da noite em que ela dormiu com um cigarro aceso entre os dedos, de como sua cama e seu quarto pegaram fogo, de como foi hospitalizada com queimaduras pelo corpo inteiro, sobretudo na mão direita, que por pouco não lhe amputaram. Depois de meses de internação voltou para casa decidida a se dedicar às artes plásticas e, insatisfeita com as reiteradas experiências autodidáticas, acabou por chamar Maria Jansen para lhe dar aulas. Tinha a intenção de aprender a pintar com a mão esquerda, à maneira do seu íntimo amigo, o poeta e romancista Lúcio Cardoso, que após um derrame cerebral ficou com o lado direito do corpo paralisado. Ou a exemplo de Paul Klee, sugeriu minha mãe, que era escritor destro e pintor canhoto. Foram não mais que três ou quatro aulas, depois ela perdeu a paciência, achou que não levava jeito para a coisa. Ficou de telefonar na outra semana a fim de manter contato, marcar um chá em Copacabana, fazer fofoca, visitar o Museu de Arte Moderna.
Telefonou para a professora agora, com dois anos de atraso, mas era para saber do filho dela, o jovem poeta que a deixara a tarde inteira plantada em casa. Maria Jansen nem sabia que tinha um filho poeta, e lhe passou uma descompostura quando ele chegou da faculdade. Mal o deixou entrar, pois Clarice Lispector estava enfurecida e mandara dizer que só o esperaria até as sete da noite. Ele tomou um táxi e chegou lá em dez minutos, pronto a assumir a culpa pela confusão da agenda dela. Ela mesma abriu a porta e não pareceu enfurecida; tinha a cara sisuda que ele sempre imaginou, mas serena. Ia cumprimentá-la, mas lembrou a tempo que ela provavelmente lhe negaria a mão direita, talvez mole, quebradiça, desagradável ao tato. Ela tomou a iniciativa de beijá-lo nas faces, depois o instalou no sofá de dois lugares, sentando-se na poltrona mais próxima. Na mesa de centro estava o maço de poemas de I. J., aparentemente intacto, além de uma revista Vogue italiana e uma bandeja com bule, açucareiro e três xícaras de café. Para ele uma terceira presença seria bem-vinda, de preferência alguém extrovertido que sentasse ao seu lado, se servisse de café e quebrasse o gelo do silêncio que se fez na sala. Maior que o desconforto de encarar Clarice Lispector em silêncio, sentado rijo na ponta do sofá, era o seu receio de sem querer baixar a vista e visualizar — ela gostava da palavra visualizar — a mão direita dela, sabe lá com que deformações, cicatrizes e enxertos de pele. Ele temia não conseguir disfarçar a repulsa, mas ao mesmo tempo começou a sentir uma curiosidade aflitiva, uma atração vertiginosa pela mão lesada. Tinha certeza de que a qualquer momento, quando ela estivesse distraída, ele não resistiria a espiar de relance aquela mão. Ela talvez o pressentisse, porque de repente levantou o braço esquerdo e consultou ostensivamente seu relógio, fazendo questão de que ele também o visse, como a indicar que o tempo de visita estava esgotado. Mas em ato contínuo desandou a falar de Maria Jansen, de como a conhecera em sua primeira individual, de como era bonito seu último marido, de como gostaria que ela aparecesse mais a miúdo para um café. Falava sempre a fitar os olhos dele, e não passeando os olhos ao redor, como as pessoas costumam fazer quando a mente divaga, buscando uma recordação ou um raciocínio desgarrado. Com esforço ele sustentava o olho a olho com Clarice Lispector, mesmo quando viu de esguelha uma fumaça que subia ao lado dela; por um átimo chegou a imaginar que sua mão queimada ainda fumegasse. Mas só podia ser um cigarro que ela acendera e tragara furtivamente, enquanto o ilusionava com o relógio no pulso esquerdo. E agora levava o cigarro à boca com tal naturalidade, que afinal a mão direita lhe pareceu tão sã e elegante quanto a outra, com a diferença de uns dedos um pouco mais magros e ossudos. E a pele da região parecia apenas ligeiramente escurecida, como se ela costumasse viajar de carro com um braço para fora da janela.
Ela esmagou o cigarro no cinzeiro e se inclinou sobre a mesa, em direção aos manuscritos do jovem poeta. Em vez de apanhá-los, porém, afastou-os a fim de aproximar a bandeja e alcançar o bule, que levantou com a mão direita, firme, sem tremores. Encheu meia xícara, perguntou como ele gostava do café, depois pousou o bule não de volta na bandeja, mas um palmo adiante, bem em cima dos manuscritos; o café, doce demais, estava gelado. Daí a pouco uma onda quebrou no mar, uma vizinha soltou uma gargalhada, um alarme de carro disparou na rua e o toque do sino da igreja do Leme foi a senha para ele se levantar. Alegou necessidade de estudar para uma prova, e ela se espantou que ele cursasse faculdade, pois aparentava no máximo dezesseis, nunca dezenove anos. Se soubesse, teria lhe oferecido um uísque, que ficaria para outra ocasião. Se é que haveria outra ocasião, pois ela sabia o quanto os estudos eram puxados, e aos dezenove ele já devia ter coisas mais interessantes a fazer, como sair com a namorada para um cinema ou um restaurante. Mas também poderia trazer a namorada, que ela gostaria de conhecer, e nem os censuraria se fumassem maconha na sua frente.
Veja lá, disse a mãe com ironia, veja lá se você não está se apaixonando. Ele lhe avisara que talvez se atrasasse para o jantar, porque depois da faculdade ia visitar Clarice Lispector mais uma vez. Veja lá, filho, veja lá porque ela tem uma queda por rapazes frágeis, disse caindo na risada. Para além dos costumeiros deboches da mãe, ele não entendia por que Clarice Lispector desejara um novo encontro se insistia em ignorar seus poemas; na mesa de centro, os manuscritos agora jaziam debaixo de uma dúzia de revistas, ao lado da bandeja de café. Ele nunca o mencionaria, mas já tinha observado como em sua coluna de jornal ela frequentemente felicitava autores desconhecidos que lhe enviavam originais. No mais das vezes, porém, devia se tratar de elogios caridosos, que jamais o enganariam. Em outras crônicas, ela não escondia a vaidade ao ser procurada por jovens leitores que a compreendiam claramente, ali onde alguns críticos profissionais a consideravam hermética. Então ele resolveu falar de sua interpretação pessoal para tal ou qual texto dela, a fim de saber se fazia sentido. Logo se arrependeu, porque Clarice Lispector não parava de se remexer no assento, até que lhe perguntou de supetão: para você o que é o amor? Enquanto ele tentava responder falando para dentro, ela se debruçou sobre a bandeja e lhe serviu meia xícara de café ainda quente mas amargo. Serviu-se ela também, acendeu um cigarro e pegou a leitura mais à mão, uma revista de bordo da Alitalia com mapas do mundo e rotas aéreas. É possível que ela o chamasse em casa por apreciar especialmente o estado contemplativo dele, ao passo que o silêncio dela pouco a pouco ia deixando de intimidá-lo. Ele começava a ficar à vontade para se recostar no sofá e correr os olhos pela sala: o retrato dela por De Chirico, o lustre, a mesa de jantar e, claro, a cadeira de jacarandá e a escrivaninha onde ela devia escrever. Estar em silêncio com Clarice Lispector não diferia muito de ler Clarice Lispector, só era um modo mais intenso de o fazer, para quem como ele tinha os livros dela em permanência na cabeça. Com o anoitecer, sem escutar sua respiração e o folheio de páginas, reparou na poltrona vazia e entendeu que ela o deixara só na sala, se é que não tinha simplesmente saído de casa. Levantou-se, andou de lá para cá na penumbra, chamou baixinho seu nome, espiou a cozinha, o corredor, foi até o hall de entrada, e quando abriu a porta para ir embora, uma ventania escancarou a janela da sala e levantou as cortinas. Como que surgida de trás das cortinas, Clarice Lispector o chamou para ver como era bela a sua fatia de mar por entre as paredes de edifícios. No breu da noite, ele não só viu a espuma branca das ondas, como respirou a maresia combinada com o cheiro de banho dos cabelos dela.
As palavras da mãe volta e meia lhe reverberavam na cabeça, mas ele custava a crer que Clarice Lispector pudesse se envolver a sério com um rapaz que tinha idade para ser seu filho. Até a madrugada em que despertou com seu telefonema; o aparelho tocava na sala, longe da mãe, que só dormia com drogas pesadas. Clarice Lispector parecia exultante por enfim achar alguém insone igual a ela para conversar às quatro e meia da manhã. Inclusive — ela gostava da palavra inclusive — não era de hoje que pensava em lhe telefonar para contar a novidade: trocara de empregada. Pela primeira vez na vida tinha uma cozinheira de mão-cheia, que sabia até fazer cuscuz, e gostaria de convidá-lo qualquer noite para um jantar a dois, com champanhe e sem hora para terminar. Nos dias seguintes, infelizmente, estaria ocupada a revisar as provas do seu novo romance, que haviam acabado de chegar da gráfica. Houve ainda um quiproquó, pois a editora deu por falta da primeira parte do material enviado, sem atinar que o romance principiava de fato com uma vírgula; mais tarde telefonaram para cobrar a última página, porque o romance terminava com dois-pontos. Não, não se decidira ainda entre dois títulos, só lhe revelava em sigilo que o romance falava de um casal profundamente enamorado, sem pressa de consumar o seu amor. Mas ela queria mesmo era ouvir a sua voz, saber da sua vida, se ele ainda tinha namorada firme, se de vez em quando também se sentia só.
Ele não tinha amigos próximos na faculdade e fora daquele âmbito era invisível: não praticava esportes, não saía com a turma para beber, não participava dos movimentos estudantis. No intervalo das aulas, contudo, a uns poucos conhecidos já mostrara seu exemplar de A Maçã no Escuro autografado pela célebre escritora, que o tratava por poeta. A incrédulos colegas e professores, também se permitira detalhar o apartamento dela, a poltrona onde ela lia, o sofá onde ele se deitava, a máquina de escrever portátil, blocos e tiras de papel, cortinas esvoaçantes, a janela com vista para o mar. Às vezes também descrevia os cabelos dela em desalinho, a boca entreaberta, a blusa decotada, o relógio de prata, eventualmente até falava com ternura da sua mão ferida. O fato é que, de um modo ou de outro, ele começava a ser conhecido entre estudantes de letras como o amante secreto de Clarice Lispector. Alheio a tais rumores, depois do último telefonema ele passou dias e noites em claro, entre a apreensão e a expectativa do convite para o jantar romântico. Transcorrida uma semana, deixou na portaria dela uma carta em que lhe abria o coração: dizia que a ela, e somente a ela, podia confiar seus sentimentos mais íntimos, suas inseguranças, seus pudores, em suma, sua falta de traquejo com mulheres; acreditava, porém, que inspirados em seu novo livro, eles também poderiam ser um casal profundamente enamorado, sem pressa de consumar o seu amor. Numa folha à parte, encaminhou um poema de recente feitura, acreditando que Clarice Lispector, se escrevesse em versos, o assinaria com gosto. Na falta de resposta, dias mais tarde telefonou para ela, que após nove toques atendeu pedindo perdão mas não podia interromper sua tarefa. Seus erres franceses soaram mais ríspidos que o habitual, mas nem por isso ele se acabrunhou; nutria o sonho de um dia ser ele a publicar um livro e imaginava o estado de nervos de quem se confronta com um reles revisor para impor sua sintaxe, sua pontuação peculiar, seu direito de escrever errado. Tornou a ligar na manhã seguinte, mas dessa vez uma empregada com voz vacilante respondeu que a patroa estava de repouso. Ele preferiu deixar passar o fim de semana para telefonar de novo, mas então tocava, tocava, e ninguém mais atendia.
Pediu para Aparecida lhe trazer os esmaltes de unha, que pretendia experimentar em suas telas, agora que voltava a se aventurar na pintura. Era como uma terapia para superar a náusea que sempre se seguia ao desenlace de um trabalho de meses, se não de anos. Ensaiava dessa vez pintar com a mão direita, mas não podia se concentrar em seu labor com um telefone que tocava o dia inteiro; mandou Aparecida tirar o fone do gancho, não tinha condições de atender sequer suas irmãs. Não deu meia hora e o porteiro comunicou a Aparecida pelo interfone que aquele moço branquelo trazia um buquê de rosas para madame. Instruído a deixar as flores na portaria, o moço mandou avisar que o telefone da casa estava com defeito, porque só dava sinal de ocupado. Ver o filho de Maria Jansen parado com rosas vermelhas na calçada oposta ao seu edifício inspirava em Clarice Lispector um vago sentimento de culpa, semelhante ao que lhe dava a visão de crianças dormindo ao relento, ou mendigando à porta dos restaurantes que ela frequentava à beira-mar; se pudesse, alimentaria todas as crianças famintas, abrigaria todas as criaturas abandonadas do Brasil.
Quando começou a chover forte, viu o menino se retirar com as flores e lhe ocorreu telefonar para Maria Jansen, que no dia seguinte retomou as aulas semanais com a antiga aluna. Entre uma e outra pincelada, elas falavam de cinema, das peças em cartaz, de viagens, de moda, um pouco de política, falavam de homens. Relembravam seus casamentos, seus affairs, suas esparrelas, e a sorrir as duas admitiram que já não namoravam, uma porque tinha ficado fria, outra porque estava queimada. Os homens da vida de Clarice Lispector eram agora seus dois filhos, que mais dia menos dia regressariam da temporada que passavam no estrangeiro com o pai diplomata. Outro dia ela até se alvoroçou com a campainha, mas era o entregador da editora com um pacote de livros. Como prova do seu desapego pela própria literatura, os vinte exemplares do seu novo romance permaneceram uma semana empacotados no meio da sala. Só os desembrulhou para dar um presente a Maria Jansen, que gostou menos da capa que do título: Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. Quando a professora pediu que Clarice Lispector o autografasse para o filho, desejosa de fazer uma surpresa ao seu maior fã, ela desconversou, dizendo que a leitura de poesia era essencial para a formação de aspirantes à literatura. Buscou uma primeira edição de Boitempo, de Carlos Drummond de Andrade, que o menino tinha de ler absolutamente, e anexou ao livro um bilhete para o grande poeta, que com certeza lhe faria uma dedicatória caprichada. Carlos inclusive morava a dois passos da casa dele, entre Copacabana e Ipanema, e malgrado a fama de tímido, adorava uma boa prosa e estaria sempre disponível para recebê-lo com uma garrafa de uísque. Quanto aos poemas do filho, mandou Maria Jansen dizer que era melhor ele imitar o que ela própria fez na juventude: queimá-los. Se I. J. quisesse realmente ser poeta, necessitava esquecer Clarice Lispector.
Veja lá, resmunga a mãe, veja lá se você não deixa de novo tudo fora do lugar. Cada vez que ela escuta movimentos na cozinha, já sabe que até para fritar batatas terá de tatear a bancada da pia, gavetas, prateleiras, à procura dos seus utensílios. Irritada, pergunta ao filho quando é que finalmente ele vai tomar tenência e se mudar; com o espólio do pai, recursos não lhe faltam para comprar um bom imóvel. Mas em dez segundos Maria Jansen se enche de remorsos, sabendo que o filho seria incapaz de abandoná-la ao cuidado de estranhos. É ele quem arruma a cama dela, quem a penteia e pinta a raiz dos seus cabelos, quem à noite põe para tocar músicas antigas e se calhar até a tira para dançar na sala. Para o serviço pesado ele atura diaristas e olhe lá, porque não há uma que dê conta da faxina sem mexer nos seus livros e papéis espalhados por todos os cômodos do apartamento. Isso a mãe compreende bem, pois nada a angustia mais do que lhe fugir às mãos algum material indispensável à criação dos seus quadros de arte tátil. Ontem lhe faltaram os frascos de goma-arábica, e não precisou do olfato para intuir que estavam no quarto do filho, que colava recortes no mural dedicado a Clarice Lispector. Nas pausas do trabalho, é esse o único passatempo a que ele se dá, herdado em certa medida do talento pictórico de Maria Jansen. Ela não se cansa de incentivá-lo a espairecer, dar uma volta na praia, respirar os ares do Jardim Botânico, mas ele só sai de casa uma vez por ano, quando leva rosas brancas para Clarice Lispector no cemitério israelita. A maior parte do tempo passa trancado no quarto diante do computador, onde tem acesso a publicações do mundo inteiro. Nessas horas é que lhe vale seu vasto conhecimento de idiomas, adquirido a partir da necessidade de ler em língua estrangeira as medíocres traduções da obra de Clarice Lispector. Entretanto Maria Jansen daria tudo para voltar ao tempo em que mandava o pirralho desligar a televisão e ir para a cama, pois diante da tela ele agora só depara com desilusão e sofrimento. Há dias em que ele se revolta por não encontrar em jornais e sites uma nota sequer sobre Clarice Lispector. Pior, contudo, é quando proliferam matérias a respeito dela, onde ele sempre esbarra em imprecisões e graves equívocos que o obrigam a se dirigir aos jornais, solicitando retificações em cartas que nunca são publicadas. A esta altura, o nome dele já deve ser familiar nas redações, mas ninguém se lembra de procurá-lo quando se prepara uma reportagem de fôlego sobre Clarice Lispector. Biografias dela são lançadas todo ano, mas em parte alguma haverá menção a quem conviveu com a escritora numa fase em que ela não gozava do prestígio que só fez crescer depois de sua morte. Seu consolo são os poemas em prosa que ele escreve e faz circular na rede com a assinatura dela. Com orgulho incontido divide com a mãe esses escritos e sua repercussão, algumas vezes superior à dos textos autênticos. Mas ele sabe que a mãe não é favorável a suas atividades, o que atribui a ciúmes de Clarice Lispector. Maria Jansen jura que não tem ciúme algum, só lamenta que por amor àquela mulher ele tenha desperdiçado a beleza e o vigor da juventude. Antes de completar setenta anos, porém, ele ainda está em tempo de encontrar uma mulher nova que oxalá lhe dê um ou dois filhos. Poderia morar com toda a família naquele amplo apartamento, e nem a cegueira a impediria de olhar pelos netos e vigiar a nora. Se fosse o caso, Maria Jansen até faria gosto em receber em casa um homem como companheiro do seu filho, com direito à adoção de um casal de gêmeos. Vá à merda, mãe, reage o filho, numa rara quebra do linguajar escorreito de Clarice Lispector. Vá se foder, diz entre dentes para divertimento da mãe, que se gaba de ser uma mulher moderna aos noventa e tantos anos. Pode ser imaginação, ou mesmo audição excessiva, mas em certas noites Maria Jansen suspeita de estranhos ruídos no quarto dele. Ultimamente deu para despertar com uns farfalhares de seda e quem sabe uns passos de salto fino no assoalho. Veja lá, filho, ela diz, veja lá se não vai para a rua vestido de Clarice Lispector.

Chico Buarque, in Anos de chumbo e outros contos

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