Tem
muitas coisas eu ainda não percebi nesta história do Biquinho e da
família dele. E nem mesmo com a ajuda de Carmindinha e da imaginação
do Zeca Bunéu adiantei. Zeca não serve para esta história sem
malandro e Carmindinha era mais velha, não conheceu bem o nosso
companheiro. Sozinho, não tenho mais coragem de escrever só a
confusão que fez o Biquinho e a família dele saírem no nosso
musseque. O melhor é mesmo falar primeiro as pessoas; e depois
contar os casos.
Biquinho
Biquinho
era nosso mais velho e quando começou andar na escola já estava
crescido. Zeca Bunéu dizia que, na segunda, o menino era um mestre,
ninguém que lhe apanhava nas contas e na tabuada. Mas não adiantou
na terceira. A sô pessora ficou com pena dele, mas nga Xica não
podia lhe trazer mais lá na escola.
Magro
e alto, uma cabeça grande com carapinha muito preta, Biquinho, na
hora do perigo ou das partidas, ninguém como ele. Não fugia nem de
polícia, como nós. Sempre calado, a gente só lhe via irritado
quando púnhamos aquelas conversas do musseque por causa do sô
Augusto. Dessas conversas dos nossos pais e vizinhos tirávamos
assunto para xingar o Biquinho. Mas enquanto todos lamentavam de
infeliz nga Xica e, às vezes mesmo, insultavam sô Augusto de bêbado
e outras coisas, Biquinho desculpava, arranjava sempre uma maneira
para defender o pai, falando com orgulho:
— Ená!
Se eu soubesse o que tem no livro dele?! Juro, homem como ele não
tem aqui no musseque, Zeca. Se você quer, um dia ele faz
electricidade no teu pente!
— Makutu!
Não credito!
— Juro
sangue de Cristo!
A
gente duvidava, que não podia ser, e Biquinho falava o pai dele
passava os dias a ler naquele livro grande que todos conheciam.
— Os
vossos pais são mas é matumbos! — dizia o Biquinho quando a gente
fazia pouco o livro do pai. — Aquele livro lhe deram no patrão
dele!
E
falava, vaidoso, quando sô Augusto fez quinze anos de serviço lá
na oficina, o patrão lhe ofereceu aquele livro. Mas não era ideia
da cabeça do patrão, não senhor. Sô Augusto é que pediu mesmo o
livro da electricidade.
Então
sempre que passava confusão na cubata do Biquinho, nosso musseque já
sabia como acabava: sô Augusto saía debaixo da vassoura de nga
Xica, segurando o livro, cambaleando do abafado ou do palhete da
quitanda do Rascão e vinha para a rua ameaçar. Nessa hora, os
miúdos corriam para ele. Quando nos via, o pai do Biquinho estendia
o braço por cima do areal, apontava as casas novas e gritava:
— Vou
destruir tudo, tudo! É o meu feitiço!...
Os
olhos brilhavam e os braços tremiam enquanto falava.
— É
só carregar no botão. Não fica nada!
Biquinho
chegava para ele com os olhos a querer chorar, e só quando lhe via
assim sô Augusto parava as ameaças. Agarrava a cabeça do filho,
sentava com o livro no joelho e lamentava:
— Ai
mon’ami, mon’ami, a-ku-vualele uaxikelela, a-ku-vualele
uaxixima...
Depois,
quando a gente sentava à volta dele, sempre tirava um bocado de
lápis e desenhava máquinas e circuitos e dínamos, falando era para
destruir a cidade, a oficina do Bungo, aquelas casas novas que
estavam a crescer pelo areal adiante, por cima das cubatas
derrubadas.
No
musseque todos já sabiam aquelas ameaças do sô Augusto. Muita
gente estava dizer qualquer dia vinham-lhe buscar para levar no
Hospital da Caridade, onde que estão os malucos ou, pior mesmo, na
polícia. Só os meninos sentavam sem medo e ali ficavam até cair a
tarde, ouvindo falar a electricidade, dínamos, vinganças terríveis,
coisas que a gente não sabia mas assustavam. E quando ele saía
embora com o livro dele, caminho de casa, ficávamos ainda calados,
Xoxombo pensando e Zeca Bunéu depois gabava:
— Pópilas,
Bico! Teu pai é mesmo esperto. Pena ele estar a beber todo o dia…
— Vocês
não sabem, Zeca!...
— Ih!
Não sabem é o quê? Teu pai é chalado! — dizia o Zito.
Mas
o Biquinho nunca que deixava insultar no pai. Metia logo chapada ou
bassula no Zito e pelejavam. Ninguém que lhe disparatasse no pai!
Nem que fosse mais velho, como o Zito, não fazia mal, o Biquinho
lutava. E quando acabava a luta, perdendo ou ganhando, tanto fazia,
ele saía a sorrir e falava para nós:
— Esperem!
Um dia vou ser como ele, vocês vão ver! Electricista! Ninguém de
vocês que vai perceber como eu, só podem ler nos vossos livros...
Biquinho
se afastava para casa. Às vezes, nga Xica já estava chamar na
porta. Então, cada qual vinha também pelo capim abaixo e a nossa
conversa era quase sempre as palavras de sô Augusto, pai do
Biquinho, nosso silencioso companheiro.
Nga
Xica
Falar
a mãe do Biquinho é bom. Ela era nossa amiga, não estava com as
manias de dona Eva, mãe do Nanito, ou mesmo dona Guilhermina ou dona
Branca. Sempre tínhamos nossos micondos ou doces de jinguba que
ficavam um bocado queimados. Dona Guilhermina, esses não aceitava
receber, só queria pagar os bons. A mãe do Antoninho dava o açúcar,
a jinguba, a farinha. E o trabalho de nga Xica, fazer aqueles doces
que a gente tinha vontade de roubar na hora de arrefecer na tábua de
lavar, a mãe do Biquinho recebia em coisas de comer na quitanda do
sô Antunes.
Dona
Guilhermina tinha este negócio dos doces e arranjava muito dinheiro.
Ela mesmo quem se gabava. No princípio estava só com um miúdo, mas
quando passou este caso, a mãe do Antoninho mandava já quatro
criados vender na calçada da Missão, no campo dos Coqueiros, na
Baixa ainda, os doces que nga Xica fazia.
A
nossa amiga estava muito magrinha do trabalho de todos os dias.
Parecia mesmo uma miúda, Carmindinha ao pé dela era mais velha. Mas
quando a gente chegava perto e via os olhos da mãe do Biquinho,
então sabíamos que a senhora sofria. Parecia estavam sempre
lavados, sem brilho e sem cor. Don’Ana dizia era o calor do
fogareiro e do ferro. Sá Domingas falava a infeliz chorava o seu
homem; mas todas as vizinhas lamentavam a amiga, dia inteiro no
ferro, no fogão, na selha e sô Augusto gastando o dinheiro na
quitanda do Rascão, com os amigos no vinho. Um dia, capitão Abano
perguntou-lhe:
— Ouve
ainda, nga Xica! Porquê não arranja os miúdos para vender os
doces?... Assim estava lucrar mais!
E
embora na hora da zanga nga Xica batesse de vassoura em sô Augusto,
não gostava falar mal do homem nas outras pessoas. Desculpou só:
— Tem
razão, mano! Mas sabe, Augusto não pode arranjar os tabuleiros...
— Sukuama!
Com um caixote de sabão, vai ali na oficina do Zuza e pronto!
Nga
Xica continuou:
— Verdade
mesmo! Mas sabe, é a licença da Câmara. Isso é que conta!
Todo
o mundo sabia a mãe do Biquinho guardava o dinheiro para mandar
fazer o tabuleiro e tirar mesmo a licença de vender os doces, mas sô
Augusto sempre dava encontro e gastava na quitanda, apanhando
bebedeira. Às vezes, à noite, quando o homem dela voltava assim na
cubata, o dia inteiro passado lá na loja, a gente ouvia o barulho de
nga Xica e de sô Augusto pelejando, com o choro do Biquinho pelo
meio. A mulher dava-lhe surra de vassoura, ele só falava para
desculpar mas nunca levantou a mão para a companheira. E mesmo com a
cubata deles lá longe, para lá do imbondeiro, o musseque ouvia os
gritos e lamentos da infeliz, chorando o seu dinheiro. As mulheres e
as meninas mais velhas ficavam satisfeitas com estas confusões mas
os homens acabavam ralhando em suas casas. Maliciosas, trocavam entre
si, nas portas, palavras e risos:
— Ala
poça! É só beber o dinheiro da coitada!? Bem feito!
— Se
fosse meu homem... lhe mandava na esquadra!
— Não
há direito, mana! — dizia don’Ana para a mãe de Zito. — A
coitada todo o dia na selha e ele a beber o trabalho da infeliz.
Só
sá Domingas, de vez em quando, lembrando outros tempos do princípio
do musseque, dizia:
— Aiuê!
Quem lhe conheceu... O patrão até vinha lhe trazer no carro, mana!
De carro, cá em cima! O rapaz estava trabalhar no Bungo...
— Parece
puseram-lhe feitiço, mana Domingas! Um homem como ele, virar
assim?!…
Don’Ana
duvidava com a cabeça, capitão Bento Abano acrescentava:
— Já
fomos muito amigos! Verdade! Homem inteligente como ele... não
percebo!
E
a conversa saía outra vez para nga Xica, agora magrinha e feia,
bessangana bonita como era nos seus tempos de rebitas e massembas. E
a noite se fechava com elogios à beleza antiga e aos trabalhos de
agora, sempre no ferro, na selha, no fogão, o dinheiro nem dava para
continuar Biquinho na escola.
Sô
Augusto
Quem
não lhe tivesse conhecido antigamente não podia acreditar logo que
Augusto João Neto tinha sido encarregado geral da electricidade, na
grande oficina lá em baixo, no Bungo, onde já existia muito tempo.
E
era mesmo a verdade, sabida e confirmada nos mais-velhos ali no
musseque, o capitão e sua mulher, o pai do Zito e outros. Mas a
diferença entre Augusto João Neto de antigamente e sô Augusto de
agora era tão grande que a gente não acreditava. Mas quando ele
falava, desenhava as máquinas, mostrava as coisas do livro dele,
fazia electricidade no pente e outros feitiços, então deixávamos
de discutir o caso com o Biquinho.
Desde
que nos lembramos de estar ali no nosso musseque, lembramos sô
Augusto. Não sempre bêbado, é verdade; nem falando sozinho, com o
livro aberto na palma da mão e apontando, arreganhador, as casas
novas que apareciam no areal. Nalguns dias de manhã, mais calmo,
saía na Baixa e nga Xica falava ia procurar serviço.
Numa
noite sá Domingas falou muito este seu vizinho na don’Ana que
estava sempre a dizer mal dele. E nós ouvimos, olhos abertos, falar
o filho do comerciante da Funda, que o pai mandou em Luanda estudar
no Seminário. Bento Abano, no seu canto, largando o jornal,
acrescentou:
— Era
uma inteligência! Ninguém sabe porquê, até hoje! Era rapaz já de
dezoito anos, saiu no Seminário para ir aprender ofício na oficina!
— Muitas
conversas que falam, mana, muitas! Olha, minha amiga Santa, dos
Coqueiros, conheceu?, diz foi uma história de amores com uma cabrita
que ia sempre na missa com a mestra dela, senhora do Palácio!...
A
gente se chegava mais, esticava as orelhas, ouvindo falar amores, mas
capitão Bento só gostava contar o emprego de sô Augusto e
interrompia:
— Operário
como ele não tinham. Depois lhe fizeram encarregado. Electricista
como Augusto João Neto, em Luanda não havia, nesses tempos...
E
nas caras caladas de todos, falava, falava do valor daquele filho do
povo, como gostava de dizer, dos elogios dos patrões, da
consideração e respeito de toda a população.
— Não
minto, Deus sabe! Quando veio o Presidente Carmona, em 38, ele é
quem pôs a electricidade na Feira!...
E
isso era ainda tão próximo que até eu lembrava. Essa prova, que o
capitão guardava para o fim, convencia todos os vizinhos, mesmo o
pai do Zeca que dizia negro não passa de aprendiz.
Numa
noite dessas conversas o Xoxombo se meteu:
— E
aquele livro dele é o quê então?
Sá
Domingas virou para calar o filho mas pediu no homem dela:
— Diz
ainda, Bento! Estes meninos...
Com
sua voz calma, habituada a comandar no caíque, Bento Abano foi
falando, pela noite dentro, da aplicação do operário, nas suas
noites estudando todos os livros que arranjava com seu dinheiro, até
ao dia em que, fazendo quinze anos de serviço, o patrão lhe
ofereceu aquele livro grosso, mistério de todo o musseque e
maravilha dos miúdos.
Mas
a história de sô Augusto não era assim tão sabida, estava também
cheia de sombras, de casos que ninguém explicava. O operário falava
pouco, só gostava conversar os assuntos de todo o mundo e de todos
os dias. A saída no Seminário, a saída no emprego e mesmo aquele
casamento com nga Xica, num tempo em que Augusto João Neto era
considerado entre todos, eram mistérios.
— Ninguém
que sabe bem. O que é verdade, é que ele foi despedido! O
engenheiro, o filho do velho, veio tomar conta da oficina. Daí é
que começou a beber, a procurar serviço, a faltar, a ser despedido.
Sempre falando as invenções dele...
A
voz do capitão, sossegada e com aquela maneira das gentes do mar,
sussurrava nos ouvidos, nessa noite quieta e quente. E a todos nós,
meninos que gostávamos as histórias e as máquinas e feitiços de
sô Augusto, as palavras do velho capitão acordavam na nossa cabeça
a figura alta e magra, um pouco cambaleante, o livro de electricidade
numa mão, a outra estendida ameaçadora pelo areal abaixo.
E
para o Xoxombo, aluno na Missão Evangélica, o pai do Biquinho
virava aqueles velhos de barbas que estavam na Bíblia e que, no
princípio do mundo, andavam falar a vinda do Messias.
José Luandino Vieira, in Nosso Mussuque

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