Vai
chegar dentro de poucos dias. Grande e botticellesca figura, mas
passará despercebida. Não terá fotógrafos à espera, no Galeão.
Ninguém, por mais afoito que seja, saberá prestar-lhe essa
homenagem epitelial e difusa, que tanto assustou Ava Gardner. Estará
um pouco por toda parte, e não estará em lugar nenhum. Tem uma
varinha mágica, mas as coisas por aqui não se deixam comover
facilmente, ou, na sua rebeldia, se comovem por conta própria, em
horas indevidas, de sorte que não devemos esperar pelas
consequências diretas do seu sortilégio.
Sua
visita é, teoricamente, sempre pontual, mas nunca estamos preparados
para recebê-la. Ou faz um inverno tardio, que nos retém em casa,
com medo das mil formas de resfriado que assaltam o homem moderno, e
para as quais há duas mil injeções válidas por uma semana de
publicidade, e nenhuma forma de defesa real senão a velha forma de
nos considerarmos doentes; ou um calor de cinema refrigerado, mas sem
aparelho funcionando, e tão burros e entorpecidos ficamos que, se
uma deusa da Hélade pousasse no Arpoador suas divinas plantas, não
moveríamos um dedo para festejá-la.
Particularmente,
devemos estar menos preparados do que nunca, para acolher com a
devida disposição de alma essa visita. Emergimos de acontecimentos
dos quais o menos que se pode dizer é que são tristes, porque são
principalmente feios. Muitos perderam a graça de existir, sem crime
ou sem ódio. Houve tanta infração ao modo natural e gostoso de
viver sem ofensa ao vizinho e sem fazer mal ao grupo, que chegamos a
duvidar de nós mesmos, e nos perguntamos qual será o próximo
abuso, que furtos ou assassinatos estão programados para os próximos
dias. Os que se mataram não quiseram esperar a visita, que talvez os
salvasse. São, como se vê, tempos impróprios para a recepção aos
mensageiros aéreos.
Passará,
assim, por nós, e poucos a identificarão. Poucos, isto é, os
sujeitos para quem os negócios mais importantes são os menos
corpóreos de todos: uma nuvem, uma irisação do ar, no jogo entre
céu e água. Não os botânicos, mas os que amam as árvores, e não
pensam em estudá-las, nem mesmo em se recolherem à sua sombra.
Pessoas para quem elas existem como árvores, autônomas, plenas de
sentido telúrico, sublimes, e tais como em si mesmas a natureza as
esculpiu. Pessoas que têm o costume estranho de cheirar a atmosfera,
quando não há fumaças hostis a empestá-la, nem gritos de
candidatos, nem as mil confusões da cidade de cimento e tédio. Que
brisa de selvas longínquas trouxe até uns poucos esse feixe de
essências tão poderosas, e ao mesmo tempo tão secretas, que
ninguém mais as percebe, e no entanto esses privilegiados com elas
se inebriam? Um ar viageiro, lépido, refinado na solidão das mais
altas serranias, ou mesmo, como descobriu o poeta, varando as
cachoeiras, circula especialmente para as narinas desses poucos, e
consigo traz outros bens. São lembranças antigas ou novas,
palpitantes, ligadas a vestidos leves e a corridas pelo campo, em que
o corpo é tão animal e, contudo, se dissolve na luz matizada. São
ecos, músicas de pássaros ou de câmara, sussurros, matinadas,
sinos; ou serão trompas de caçadores, aboio de vaqueiros, cantiga
de meninas na roda. E lembrança de água a despencar-se de pedras
limosas, entre borboletas frenéticas e azuis, tinhorões nativos,
seixos reluzentes, a vaga suspeita de uma cobra-coral, e os membros
nus recebendo com volúpia casta — sim, pois natural — a espadana
fria que lava os pensamentos mais soturnos. Como cheira esse ar
mineiro, goiano, amazônico, paulista, pernambucano, sulino,
piauiense, universal! As frutas se acumpliciam para transmitir-lhe
sabor, e são novas cargas de sensações, que vão do tato a se
enlevar no manuseio de superfícies sedosas, crespas, deslizantes ou
herméticas, passando pela vista, que se perde nas gamas infinitas da
coloração, até esse resumo ou síntese do prazer, que o paladar
fornece pela simples penetração de uma goiaba ou de um cambucá. E
vêm as flores, com seus significados e segredos distintos, e também
os bichos, que se tornaram mais ligeiros, seja porque o ar influiu
neles, seja porque melhor nos abrimos à sua familiaridade. Que se
passa na terra? Nada. Apenas uma visita. Aqui, ali, às vezes fora de
tempo, ou talvez contínua, porque em nossa desordem e riqueza de
jeitos terrestres nunca sabemos ao certo quando ela veio, quando se
foi, se vai demorar, se tomou o lugar de outras visitas menos
deliciosas, se a temos em redor, se está só nos livros, ou se
habita principalmente nossa fantasia.
Uns
a nomeiam primavera. Eu lhe chamo estado de espírito.
Carlos Drummond de Andrade, in Fala, Amendoeira
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