Recerto.
Quem foi? Do qual só o todo pouco sei, porém, desfio e amostro, e
digo. O que realça; reclara. Ou para rir, da graça que não se
ache, do modo do que cabe no oco da mão, pingos primeiros em
guarda-chuva. E eu mesmo me refiro: a ele. Reconheço, agradeço,
desconheço. Em nome dele seja — sim e sim.
Porque,
eu era moço, restei sem pai e mãe, só entre os poucos mal
perdoados estranhos, quando varejou minha terra a bexiga-preta,
acabando com as pessoas e as palavras. De de-pressas lágrimas, me
entendo. Desde aí tive duas memórias.
Distribuíram
então de eu vir, aonde se constava residido um tio meu, Joaquim
José, incerto, mas capaz de me amparar, nestas montanhas chuvosas.
Foi conforme viam que era preciso, eu estando premido de tosse,
demais da febre permanecente, meio tísico. Minha mente se passava
ainda perto dos mortos, medonhos de lembrar, o mundo não dá a
ninguém inocência nem garantia.
Saúde
de lugar aqui tão em ordem me molestou, eu gostava de ficar com a
boca aberta. Entendi por que é que as pessoas nascem em datas
separadas. Tirante a moça, que avistei, ao pé do chafariz, no vão
de luz da tarde. Em bruscos de vergonha, duvidei. Mesmo para um
desconhecido, eu desvalesse, sujo nos cansaços, soez, sem muda de
camisa e calça. Do jeito, a mocinha trigueira contemplei: não a
formosura, nem caridade, mas um agrado singular, o de que ela não
causava prejudicar a ninguém. Depois figurei que era bonita, mais
tarde.
Não
havendo cá nenhum Joaquim José, com desconfianças me trataram, eu
sem nem moeda em mão, para gastos. Detido no chão, em metade de
choupana que o tempo abria, resolvi, ia me ficar jazido ali, eu não
era para como viver, não sabia.
Mas,
não se pode, porém, a fome começa, necessidades, profundo o corpo
mesmo é incômodo, o viver vem é assim. Me levaram, aí, por regra,
para a casa-dos-pobres, quem de mim veio cuidar foi o pai dela,
caroável, o Daça; os olhos daquela moça tinham adivinhado de me
acompanhar no particular de minhas aflições. Se chamava Cilda.
Ele
falou, eu em febre, certas surdinas. Sem remédio nada estava, porque
um homem havia, que ajudava geral. Só isso ele vem me disse, no
desimpedido do ouvido, o Daça: que se podia ter amparo e concerto,
por um Rebimba, o bom, parado em seu lugar, a-pique alto, no termo de
estiradas léguas.
E
não iam todos então a ele, rendedouro a agradecidos e ingratos,
rico de beneficiar os desvalidos, da bondade que não piscava? —
porém revolvi.
— “Uns...”
— o Daça me enfronhou, assim logo ouvi com o coração, em face os
rubôres dela, a filha, cri. A alegria me conciliou, dito que os
olhos ora me brilhavam. Tudo eu quisesse, o fervor, fato de vida.
Rebimba, o bom, forte provedoria desse, e a mim, o mais precisado.
Saí,
do frio para o quente, levantado sarado. Agora me viam correto,
prestes iam arranjar para mim serviços leves, já no trato cordial.
Devido ao Daça. Só que, de supetão, então, meu tio apareceu, me
abraçou, nesses lumes de acaso. Negociante ele era, porém no outro,
próximo arraial, porém por nome Aquino Jaques. Se não me achasse,
não me via, se não me visse não me achava.
Trouxe
do meu lado tanta mudança, no jogo da balança quinhoã, o tido
consoante o querido.
Feliz
perturbado virei, pude amornar lugar, viver a sabor. Tio Quim leal
para mim, e a tia, quieta, maninha. E rareei. Esqueci, de tudo,
muito; conforme o encargo da natureza.
Nos
anos, me denuncio, cá mal vim, e Cilda quase nem vi, a que, em
passado justo instante, me tinha notado rapaz de repente diverso,
desfeito de maldades. Razoo o que põe o amor, que eu escuto. Ela
persistida se crescia — como é como uma fruta azul a água fechada
na cisterna.
Não
valia pôr lembrança, porém, no Daça, que esmolara minha desgraça
e baboseara inventado aquilo do Rebimba, o bom, me enganando, nas
muitas imaginações. Ojeriza dele me desgostava, instinto de
ingratidão, a foro e medida que eu melhorava e aumentava, mais
ganhando, e não deixava de exceder o modo. Doer, qualquer cabeça
pode. Daqui a futuro, eu indo, como quem viaja sem ver os lados.
Tio
Quinjoca de fato morreu, conforme o destino produz, em paz, me deixou
sócio, já encaminhado, medrado de fortuna. O que foi só ligeiro,
porém, como sonho não se agarra, como perfumes passantes. Tudo o
que era, eram dívidas e perdas, por trás, pagamentos obrigados em
prazo, a gente ia quebrar falência, tive de ver o avesso. A verdade
me adoeceu. A tia rezava à parte, não me aborrecia. Mas a hora da
forca. Me lembrei da miséria, prostrado.
Mas,
o bom, Rebimba! Maiormente, o melhor, em caso qualquer ele havia de
me valer, eu soubesse, demorando o pensamento. Já valente me
levantei, desassustado, achei a tramontana.
Aqui
a Cilda, amorável, sempre de mim gostava, calada, à beira do
chafariz, toda outrora. A gente se casou, pelo pai dela abençoados,
de tão velhinho já caduco, o Daça, não contava mais nada de
Rebimba, o bom, nem o nome do lugar onde esse parava, de tudo se
esquecera. De fato, também logo ia morrer, com seus queridos cabelos
brancos. A gente quer mas não consegue furtar no peso da vida.
Aquietado
feliz, dobrei meus tempos, o comum, conforme nem se dá fé, no
apropositar as coisas. De Rebimba, o bom, com ninguém mais
conversei, o escondido.
Só
às curtas vezes, sem detenças, fazia tenção de um dia ir lá, a
ele, retamente, quando dúvida ou desar me apoquentavam; me animava
de coragem esse recurso, adiante mas remoto, certo e velho como as
ideias, alcançadiço.
Nem
isso prossegui, por fim, eu, remisso; porque estando real fartado,
prosperidoso. Cilda, minha mulher, arredava de mim o que de nosso
canto não fizesse parte, os pontos da inquietação. Com doçuras.
Em
tanto, pois, que, vinda a hora, por primeira vez ela me iludiu,
fiquei viúvo. Esse, foi o sofrimento. Para o que assim, nem Rebimba,
o bom, tinha socorro: o querido consoante o perdido. Eu acabei, de
certo modo.
Não
era só saudades. Nem o vezo descoroçoado das horas de antigamente,
por baque de achaques e ilusão de terrores. Só se a gente tem
dentro de si uma cobra grossa, serpente, que acorda, aperta e
estragulha. Mais me perseguia o desconhecer do espírito.
Meus
filhos e filhas não me traziam consolo. Nem a recordação de Cilda,
tão honrosa, o Daça, tio Quim Joca, a Tia: para eles, todos, eu não
tinha sido eu, devidamente, não pagara o bem com o bem, bastante. O
mundo era para os outros, e nem sei se mesmo isto, de feder eu
imaginava os existentes e os falecidos. Da bexiga-preta, tantos tão
de repente amontoadamente mortos, as caras com apostemas e buracos.
Disso, temi ficar louco. Dito que temia já o fétido de meu bafo.
No
entanto, viajei, duro o caminho que era obrigação.
Daqui
longemente, de volta passei por arraial chamado o Rio-do-Peixe, onde
forte grave música se ouvindo, e procissão de gente caminhando,
naquele alto lugar. Me cheguei, indaguei, escutei: se enterrava
Rebimba, o bom, pessoa qualificada!
Ele
estava público, guardado no caixão. Descobri a cabeça, acompanhei,
também, por tudo solucei, eu, endoençamingas. Mas o povo ria,
porém, ao tempo que choravam, por imponentes entusiasmos, por aquele
homem ter havido e existido. Refalo. Só ele era bom, protetor de
quem e quantos, da melhor sagacidade.
Sorri,
ri, por o contrário de chorar, também. O que dura. Ora eu não
tenha medo de morrer, os castigos, os hábitos. Salvadamente — em
ovo. Porque envelheci, a vida não me puxa mais a orelha. Com
certeza, o mundo hoje está em paz. Repenso em Rebimba, o bom,
valedor. O mal não tem miolo. — “Louvado seja o que há!” —
escrevi, altíssimo, para renovas memórias.
Guimarães Rosa, in Tutameia
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