A
qualquer mulher que agora vem e está passando é uma do vestido
azul, por exemplo, nova, no meio do meio-dia, no foco da praça.
Todo-o-mundo aqui a pode ver — para que? — cada um de seu modo e
a seu grau. Mais, vê-a o homem, mãos vazias e pássaros voando,
cara colada às grades.
Só
em falsificado alcance a apreende, demarcada por imaginário
compartimento, como o existir da gente, pessoa sozinha numa página.
Ela não se volta, ondulável de fato se apresse, para distância.
Vexa-a e oprime-a a fachada defronte, que dita tristeza, uma cadeia é
o contrário de um pombal; recorde, aos despreocupados, em rigor, a
verdade.
Construção
alguma vige porém por si triste, nem a do túmulo, nem a da
choupana, nem a do cárcere. Importe lá que a mulher divise-se
parada ou caminhando. De seu caixilho de pedra e ferro o olhar do
homem a detém, para equilíbrio e repouso, encentrada, em moldura.
Seja tudo pelo amor de viver.
A
vida, como não a temos.
Aqui
insere o sujeito em retângulo cabeça humana com olhos com pupilas
com algo; por necessitar, não por curiosidade. Via, antemão, a
grande teia, na lâmpada do poste, era de uma aranha verde, muito
móvel, ávida. De redor, o pouco que repetidamente esperdiça-lhe a
atenção: nuvens ultravagadas, o raio de sol na areia, andorinhas
asas compridas, o telhado do urubu pousado; dor de paisagem. O céu,
arquiteto. Surgindo e sumindo-se rua andantes vultos, reiterantes. A
vida, sem escapatória, de parte contra parte.
Ele
espia, moço que se notando bem, muito prisioneiro, convidado ao
desengano. Espreita as fora imagens criaturas: menino, valete, rei;
pernas, pés, braços balançantes, roupas; um que a nenhum
fulanamente por acaso se parece; o que recorda não se sabe quando
onde; o homem com o pacote de papel cor-de-rosa. Ora — ainda —
uma mulher. A figura no tetrágono.
A
do vestido azul, esta, objeto, no perímetro de sua visão, no tempo,
no espaço. Desfaz o vazio, conforma o momentâneo, ocupa o
arbitrário segmento, possível. Opõe-se, isolante, ao que nele não
acontece, em seu foro interno; e reflexos nexos. Apenas útil. Não
ter mais curiosidade é já alguma coisa. O preso a vê. Mas,
transvista, por meio dela, uma outra — a que foi a — que nunca
mais. Seu coração não bate agradecimentos.
Da
que não existe mais, descontornada, nem pode sozinho lembrar-se,
sufoca-o refusa imensidão, o assombro abominável. Ele é réu, as
mãos, o hálito, os olhos, seus humanos limites; só a prisão o
salve do demasiado. Sempre outra vez tem de apoiar, nas tão vivas,
que passam, a vontade de lembrança dela, e contemplo: o mundo visto
em ação. Assim a do vestido azul, em relevo, fina, e aí eis,
salteada de perfil, como um retrato em branco, alheante, fixa no
perpasso. Viver seja talvez somente guardar o lugar de outrem, ainda
diferente, ausente. O sol da manhã é enganoso meio mágico, gaio
inventa-se, invade a quadrada abertura por onde ele é avistado e vê,
fenestreca. Era bom não chover.
Desde
que diluz, tem ele de se prender ali mais, ante onde as repassantes
outras mulheres, precisas: seus olhos respiram de as achar de vista.
O sol se risca, gradeado, nasce, já nos desígnios do despenhadeiro.
O absurdo. Pensa, às vezes, por descuido e espinho. A amava... — e
aquilo hediondo sob instante sucedera! — então não há liberdade,
por força menor das coisas, informe, não havia. A liberdade só
pode ser de mentira.
A
pequena fenda na parede sequestra uma extensão, afunda-a, como por
um óculo: alvéolo. A do vestido azul nele entrepaira; espessa
presença, portanto apenas visível. Assusta, a intransparência
equívoca das pessoas, enviadas. Elas não são. A alma, os olhos —
o amor da gente — apenas começam. O homem espia, dôidas as
tardes.
Espera
a brandura do cansaço. O sol morre para todos, o rubro. Entra o
carcereiro, para correr os ferros. Diz: — “Tomara que...” —
por costume. Deu-se o dia, no oblíquo anoitecer, fatos não
interrompidos; as coisas é que estão condenadas. Tem-se o preso
estendido, definido seu grabato, em contraquadro, dorme a sono solto.
Dês
madrugar, forçoso pelo reabrir as pálpebras, ele se repete, para os
quatro cantos da cela. Demais não se desprende de seu talhado posto,
de enxergar, de nada. Vivem as mulheres, que passam, encerram o
momento; delas nem adiantaria ter mais, descortinado, o que de antes
e de depois, nem o tempo inteiro. Agora, a do vestido azul, esta. Ele
não a matou, por ciúme...
À
outra — que não existe mais — soltou-a: como a um brusco
pássaro; não no claro mundo, confinada, sem certeza. Então, não
existe prisão. O a que se condenou — de, juntos, não poder mais
vir a acontecer — é como se todavia alhures estivesse acontecendo,
sempre. Os dois. Ele, porém, aqui, desconhecidamente; esta a
vermelha masmorra.
A
de azul, aqui, avistada de lado, o ar dela em torno para roxo, entre
muralhas não imagináveis. As pessoas não se libertam. O carcereiro
é velho, com rumor, nada aprendeu a despertado dizer: — “Tenho
a chave...” Se a visão cresce, o obstáculo é mutável.
Ninguém quer nascer, ninguém quer morrer. Sejam quais o sol e céu,
a palavra horizonte é escura.
Ou
então.
Que
ver — como bicho saído dos tampos da tristeza — ele quer; seus
olhos perseguem. As quantas mulheres, outroutra vez, contra acolá o
muro, vivas e quentes, o todo teatro. A de azul, agora, cabe para
surpreendida através de intervalo, de encerro: seu corpo, seguridade
imóvel — não desfeita — detardada.
Mas
ele não pode querer; e só memória. O vão, por onde vê, recorta
pedaço de céu, pelo meio a copa da árvore, o plano de onde as
pessoas desaparecem, imediatas. Escuta os passos do soldado
sentinela, são passadas mandadamente, sob a janela mesma, embora não
se veja, não.
Se
bem.
Ele
não pode arrepender-se. Tanto nem saiba de um seu transformar-se,
exato, lento, escuso. Essas mulheres, a de azul, que revêm,
desmentem-se, para muito longas viagens. Daquela. A que a gente ama:
viva vivente, que modo reavê-la? Ela, transeunte, não o amara,
conseguidamente; ele não atenta arrepender-se, chorar seria como
presenciar-se morrer.
Teme,
sob tudo, improvisa, a descentrada extensão, extravagância. Amar é
querer se unir a uma pessoa futura, única, a mesma do passado? Diz o
carcereiro: — “Há-de-o...” Nada lhe vale. Só o cansaço
— feito sobre si mesmo estivesse ele abrindo desmedidas asas — e
os relógios todos rompendo por aí a fora.
Seu
cluso é uma caixa, com ângulos e faces, sem tortuoso, não imóvel.
Dorme, julgável, persuadido, o pseudopreso: o rosto fechado mal
traduz o não-intento das sombras. Diz-se-lhe, porém, de fundo, o
que ninguém sabe, sussurro, algo; a sorte, a morte, o amor —
inerem-nos.
Sob
sorrisos, sucessivos, entredemonstrados. Percebe, reconhece, para lá
daqui, aquela, a jamais extinta, transiente, em dado lugar, nas vezes
desse tempo? Ternura entreaberta, distinguível, indesconhecível:
ela, em formato, em não azul, em oval.
Ele,
seus traços ora porém se atormentam; no sonho, mesmo, vigia que vai
despertar, lobriga. E teme, contrito, conduzido. À cara, ocorrem-lhe
maquinais lágrimas, os olhos hodiernos. Entanto de novo se apazigua,
um tanto, porventurosamente: para o amanhecer, apesar de tudo. A
liberdade só pode ser um estado diferente, e acima. A noite, o
tempo, o mundo, rodam com precisão legítima de aparelho.
Guimarães Rosa, in Tutameia
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