Débora.
O nome já é um atestado de saúde, com suas vogais explosivas. Ela
tem 19 anos e faz sensação na praia com seu corpão que o biquíni
só tapa aqui e alizinho. Os seios transbordam. Com cada uma das suas
pernas daria para fazer outra mulher, e que mulher! Ela corre na
praia diariamente, faz surfe, musculação e contam que todos
os dias, no almoço, come um homem, dos pequenos. E deu bola para o
Pio.
O
Pio, que recebeu este nome da mãe religiosa, mas o desmente desde os
13, mal pôde acreditar. Os amigos o incentivaram: “Vai nessa.”
Mas com uma condição. Tinha que contar tudo. Mulher como aquela
tinha que ser compartilhada, mesmo que fosse só contando. Por uma
elementar questão de justiça social. Débora e Pio começaram a
namorar. Na primeira noite foram passear de automóvel atrás dos
cômoros. A praia tinha grandes cômoros, que os antigos chamavam
“motéis que andam”. No dia seguinte, enquanto a Débora fazia
seu jogging, os amigos cercaram o Pio.
— Conta.
O
Pio hesitou. Queriam ouvir mesmo?
— Conta.
— Fomos
para trás dos cômoros.
Alguns
começaram a salivar neste ponto. Outros aguardavam o desenrolar dos
acontecimentos. Outros, ainda, pediram detalhes.
— Como
é que ela estava vestida?
— Shorts.
— Ai!
— Chegamos
atrás dos cômoros e começamos a conversar...
— Corta
os créditos e o diálogo. Chega ao principal.
— Não
houve.
— O
quê?
— Na
hora eu... eu…
— Conta!
— Comecei
a chorar.
Abriu-se
uma clareira de espanto. A chorar? O Pio ficara emocionado, era isso.
Chorava convulsivamente. E Débora até teve que dirigir o carro, na
volta. Os amigos se entreolharam. Depois olharam para a Débora, que
acabara de passar na corrida. Era compreensível. O Pio era assim,
sei lá. Emotivo. Mas ninguém ali podia dizer como reagiria com a
Débora, um dia atrás dos cômoros. Ninguém.
Luís Fernando Veríssimo, in Sexo na cabeça
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