quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Emoção

Débora. O nome já é um atestado de saúde, com suas vogais explosivas. Ela tem 19 anos e faz sensação na praia com seu corpão que o biquíni só tapa aqui e alizinho. Os seios transbordam. Com cada uma das suas pernas daria para fazer outra mulher, e que mulher! Ela corre na praia diariamente, faz surfe, musculação e contam que todos os dias, no almoço, come um homem, dos pequenos. E deu bola para o Pio.
O Pio, que recebeu este nome da mãe religiosa, mas o desmente desde os 13, mal pôde acreditar. Os amigos o incentivaram: “Vai nessa.” Mas com uma condição. Tinha que contar tudo. Mulher como aquela tinha que ser compartilhada, mesmo que fosse só contando. Por uma elementar questão de justiça social. Débora e Pio começaram a namorar. Na primeira noite foram passear de automóvel atrás dos cômoros. A praia tinha grandes cômoros, que os antigos chamavam “motéis que andam”. No dia seguinte, enquanto a Débora fazia seu jogging, os amigos cercaram o Pio.
Conta.
O Pio hesitou. Queriam ouvir mesmo?
Conta.
Fomos para trás dos cômoros.
Alguns começaram a salivar neste ponto. Outros aguardavam o desenrolar dos acontecimentos. Outros, ainda, pediram detalhes.
Como é que ela estava vestida?
Shorts.
Ai!
Chegamos atrás dos cômoros e começamos a conversar...
Corta os créditos e o diálogo. Chega ao principal.
Não houve.
O quê?
Na hora eu... eu…
Conta!
Comecei a chorar.
Abriu-se uma clareira de espanto. A chorar? O Pio ficara emocionado, era isso. Chorava convulsivamente. E Débora até teve que dirigir o carro, na volta. Os amigos se entreolharam. Depois olharam para a Débora, que acabara de passar na corrida. Era compreensível. O Pio era assim, sei lá. Emotivo. Mas ninguém ali podia dizer como reagiria com a Débora, um dia atrás dos cômoros. Ninguém.

Luís Fernando Veríssimo, in Sexo na cabeça

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