Não
há quem não venda a sua própria mãe por três milhões de
florins. Digo-o por experiência própria, pois acabo de vender a
minha ao estudante Vinícius, que tinha necessidade urgente de uma
mãe para poder chorar-lhe sobre os ombros.
De
minha parte creio ter feito um bom negócio, pois minha mãe
pertencia à espécie dita totalitária, e tenho mesmo razões
suficientes para acreditar que ela nunca me pôs no mundo, apesar de
suas lágrimas hipócritas e de seu ar de Santíssima Virgem; receio
apenas que tenha agido mal com o pobre estudante Vinícius,
ocultando-lhe o verdadeiro caráter de minha mãe, que ele supõe
seja uma mãe igual às outras, talvez por ser órfão desde a
infância. (Acrescente-se que mister Boss, ao saber da transação,
ofereceu-me vinte milhões de dólares para desfazer o negócio e
dar-lhe preferência no caso, piscando-me um olho matreiro e
esverdeado que nada lembrava o seu olhar de ódio quando em companhia
do príncipe Danilo; mas eu sou infelizmente um homem de palavra, e o
estudante Vinícius a esta hora já está de plena posse de minha
mãe, podendo fazer dela o uso que bem lhe aprouver, segundo as
cláusulas do contrato).
E
com isso eu fiquei sendo o único órfão do mundo que ainda tem mãe
viva, o que não deixa de ser uma situação trágica e ao mesmo
tempo engraçada. Posso, é verdade, comprar também uma outra mãe,
inclusive pelo crediário, mas penso que já não será a mesma
coisa, dada a espécie de mães que o mundo de hoje está produzindo.
Antigamente, antes de haverem inventado a matéria plástica e o
radar, tudo era mais simples mas em compensação mais humano, e uma
mãe que se prezasse dava leite de verdade e sabia amar de verdade os
seus filhos, não se mancomunando com os senhores do momento e os
eternos inimigos do gênero humano, mesmo em tempos difíceis e de
terríveis provações. A propósito, manda a verdade que se diga que
minha mãe não participou da última farsa da cadeira elétrica que
ontem, mais uma vez, fui obrigado a representar na presença do
inquisidor e de toda a sua camarilha; é possível, porém, que
estivesse resfriada ou mesmo paralítica, e que sua ausência não
deva ser levada à conta de uma compaixão súbita por mim ou de um
ódio não menos repentino pelos meus algozes.
Afora
essa pequena transação, que quase provoca um conflito internacional
com mister Boss, nada de importante ocorreu hoje neste pequeno mundo
cercado de muralhas em que somos forçados a viver nossas diferentes
vidas, enquanto não vem a resposta da carta que mandei ao Times e
que a esta hora já deve estar nos esgotos de Londres, se é que
algum espião não a interceptou e não a levou ao conhecimento do
Papa. Agora, sentado à pequena mesa do meu quarto, enquanto não
resolvem apagar as luzes e deixar-me na escuridão, posso
tranquilamente escrever estas linhas do meu diário de guerra e de
paz, e conversar em tom de confidência com o meu irmão gêmeo
duplamente prisioneiro dentro de mim, usando para isso do papel e dos
lápis que inexplicavelmente nunca me faltaram aqui dentro, desde o
dia em que senti o desejo de escrever e quebrei uma cadeira na cabeça
do diretor para manifestar-lhe esse meu desejo. (É possível que
todas estas páginas que tenho escrito venham a ser um dia censuradas
e destruídas no espaço de dois minutos, sem a menor consideração
pelo retraio que nelas traço de uma época tumultuosa e terrível,
que muito haveria de pasmar aos pósteros, se é que ainda haverá
disso no mundo futuro. De qualquer forma, escrevendo-as estou
cumprindo um dever para comigo mesmo, o que é essencial, e enchendo
o tempo que me sobra em meio aos tolos e aos tiranos que me cercam da
manhã à noite, o que me parece uma ocupação digna e tão válida
como outra qualquer).
(Amanhã
é dia de Natal, segundo me informou o secretário do legado
pontifício, em geral tão calado — e a ordem é irmos todos, sem
exceção de um só, assistir à missa das sete horas, se necessário
debaixo de vara e com metralhadora à vista. O regime é mesmo de
liberdade, não resta a menor dúvida).
Mas
você, meu irmão, já imaginou o romance sensacional que poderemos
escrever um dia sobre esta experiência bélica a que estamos sendo
submetidos em pleno tempo de paz, se é que se pode chamar de paz a
este estado de angústia permanente e de ódios gratuitos que marca
todos os nossos passos, mesmo e sobretudo durante o sono? Não é
qualquer romance que tem um legado pontifício, um sobrinho de
Napoleão, um premio Nobel de Química e outras personagens de
tamanha importância vivendo uma vida verdadeira e no entanto
fantástica, sob as ordens de energúmenos que nem sequer se dão ao
trabalho de vestir fardas para impor a sua autoridade, como se tudo
fosse apenas uma farsa trágica e não crua realidade, com suplícios
chineses, banho a hora certa, hora certa de dormir e despertar (e até
mesmo de defecar), impossibilidade absoluta de copular com indivíduos
do sexo oposto, e outras barbaridades que só mesmo o cérebro de um
homem poderia arquitetar e pôr em prática, por ter sido criado à
imagem e semelhança de Deus. Se conseguíssemos, os dois, pôr no
papel tudo isso que realmente estamos vivendo nesta ratoeira
internacional, onde nem sequer o queijo é de boa qualidade, por
certo seríamos tomados por loucos ou por mentirosos da pior espécie,
quando não por extremistas sem escrúpulo e interessados apenas na
perturbação da paz social, que reina neste e noutros impérios
deste mundo tão perfeito; uma coisa porém seria certa, e não
tenhamos dúvida a este respeito, e é que, assim fazendo, teríamos
escrito um dos livros mais sérios e pungentes que jamais foram
escritos pela mão do homem, como o Don Quixote por exemplo ou as
Aventuras do Barão de Munchhausen, para só citar dois exemplos
realmente dignos. Resta saber se não nos matarão antes disso, ou se
nós mesmos não nos mataremos levados por um resto de dignidade e de
sublime vergonha, como aconteceu ao ator Papanatas, de saudosa
memória.
Mais
alguns aforismos que, aproveitando esta trégua do meu espírito,
escrevo para o representante do imperador da Abissínia, que ontem me
presenteou com uma rã viva e bem coaxante, dos mais belos exemplares
que tenho visto em minhas muitas andanças pelo mundo:
*
Corpo, sinônimo de cadáver.
*
Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si. Para muita gente a música se resume
apenas nestas sete notas.
*
Quando Paul Claudel me perguntou se eu não acreditava em Deus, eu
lhe respondi:
Qual
deles?
*
Com os três milhões de florins pagos pelo estudante Vinícius vou
comprar uma máquina de fabricar aforismos. Assim poupo tempo,
raciocínio e sobretudo lápis, que é o que há aqui de mais
importante, quase tão raro quando a borracha, que não existe.
• Não
me lembro de ter nascido. Meu registro de nascimento é um blefe. Sou
tão velho quanto a África.
• Vou
reescrever a história do Cristo. É só me darem lápis suficientes
para isso.
(Apagaram-se
as luzes).
Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia
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