sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Capítulo Não Eclesiástico

Não há quem não venda a sua própria mãe por três milhões de florins. Digo-o por experiência própria, pois acabo de vender a minha ao estudante Vinícius, que tinha necessidade urgente de uma mãe para poder chorar-lhe sobre os ombros.
De minha parte creio ter feito um bom negócio, pois minha mãe pertencia à espécie dita totalitária, e tenho mesmo razões suficientes para acreditar que ela nunca me pôs no mundo, apesar de suas lágrimas hipócritas e de seu ar de Santíssima Virgem; receio apenas que tenha agido mal com o pobre estudante Vinícius, ocultando-lhe o verdadeiro caráter de minha mãe, que ele supõe seja uma mãe igual às outras, talvez por ser órfão desde a infância. (Acrescente-se que mister Boss, ao saber da transação, ofereceu-me vinte milhões de dólares para desfazer o negócio e dar-lhe preferência no caso, piscando-me um olho matreiro e esverdeado que nada lembrava o seu olhar de ódio quando em companhia do príncipe Danilo; mas eu sou infelizmente um homem de palavra, e o estudante Vinícius a esta hora já está de plena posse de minha mãe, podendo fazer dela o uso que bem lhe aprouver, segundo as cláusulas do contrato).
E com isso eu fiquei sendo o único órfão do mundo que ainda tem mãe viva, o que não deixa de ser uma situação trágica e ao mesmo tempo engraçada. Posso, é verdade, comprar também uma outra mãe, inclusive pelo crediário, mas penso que já não será a mesma coisa, dada a espécie de mães que o mundo de hoje está produzindo. Antigamente, antes de haverem inventado a matéria plástica e o radar, tudo era mais simples mas em compensação mais humano, e uma mãe que se prezasse dava leite de verdade e sabia amar de verdade os seus filhos, não se mancomunando com os senhores do momento e os eternos inimigos do gênero humano, mesmo em tempos difíceis e de terríveis provações. A propósito, manda a verdade que se diga que minha mãe não participou da última farsa da cadeira elétrica que ontem, mais uma vez, fui obrigado a representar na presença do inquisidor e de toda a sua camarilha; é possível, porém, que estivesse resfriada ou mesmo paralítica, e que sua ausência não deva ser levada à conta de uma compaixão súbita por mim ou de um ódio não menos repentino pelos meus algozes.
Afora essa pequena transação, que quase provoca um conflito internacional com mister Boss, nada de importante ocorreu hoje neste pequeno mundo cercado de muralhas em que somos forçados a viver nossas diferentes vidas, enquanto não vem a resposta da carta que mandei ao Times e que a esta hora já deve estar nos esgotos de Londres, se é que algum espião não a interceptou e não a levou ao conhecimento do Papa. Agora, sentado à pequena mesa do meu quarto, enquanto não resolvem apagar as luzes e deixar-me na escuridão, posso tranquilamente escrever estas linhas do meu diário de guerra e de paz, e conversar em tom de confidência com o meu irmão gêmeo duplamente prisioneiro dentro de mim, usando para isso do papel e dos lápis que inexplicavelmente nunca me faltaram aqui dentro, desde o dia em que senti o desejo de escrever e quebrei uma cadeira na cabeça do diretor para manifestar-lhe esse meu desejo. (É possível que todas estas páginas que tenho escrito venham a ser um dia censuradas e destruídas no espaço de dois minutos, sem a menor consideração pelo retraio que nelas traço de uma época tumultuosa e terrível, que muito haveria de pasmar aos pósteros, se é que ainda haverá disso no mundo futuro. De qualquer forma, escrevendo-as estou cumprindo um dever para comigo mesmo, o que é essencial, e enchendo o tempo que me sobra em meio aos tolos e aos tiranos que me cercam da manhã à noite, o que me parece uma ocupação digna e tão válida como outra qualquer).
(Amanhã é dia de Natal, segundo me informou o secretário do legado pontifício, em geral tão calado — e a ordem é irmos todos, sem exceção de um só, assistir à missa das sete horas, se necessário debaixo de vara e com metralhadora à vista. O regime é mesmo de liberdade, não resta a menor dúvida).
Mas você, meu irmão, já imaginou o romance sensacional que poderemos escrever um dia sobre esta experiência bélica a que estamos sendo submetidos em pleno tempo de paz, se é que se pode chamar de paz a este estado de angústia permanente e de ódios gratuitos que marca todos os nossos passos, mesmo e sobretudo durante o sono? Não é qualquer romance que tem um legado pontifício, um sobrinho de Napoleão, um premio Nobel de Química e outras personagens de tamanha importância vivendo uma vida verdadeira e no entanto fantástica, sob as ordens de energúmenos que nem sequer se dão ao trabalho de vestir fardas para impor a sua autoridade, como se tudo fosse apenas uma farsa trágica e não crua realidade, com suplícios chineses, banho a hora certa, hora certa de dormir e despertar (e até mesmo de defecar), impossibilidade absoluta de copular com indivíduos do sexo oposto, e outras barbaridades que só mesmo o cérebro de um homem poderia arquitetar e pôr em prática, por ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. Se conseguíssemos, os dois, pôr no papel tudo isso que realmente estamos vivendo nesta ratoeira internacional, onde nem sequer o queijo é de boa qualidade, por certo seríamos tomados por loucos ou por mentirosos da pior espécie, quando não por extremistas sem escrúpulo e interessados apenas na perturbação da paz social, que reina neste e noutros impérios deste mundo tão perfeito; uma coisa porém seria certa, e não tenhamos dúvida a este respeito, e é que, assim fazendo, teríamos escrito um dos livros mais sérios e pungentes que jamais foram escritos pela mão do homem, como o Don Quixote por exemplo ou as Aventuras do Barão de Munchhausen, para só citar dois exemplos realmente dignos. Resta saber se não nos matarão antes disso, ou se nós mesmos não nos mataremos levados por um resto de dignidade e de sublime vergonha, como aconteceu ao ator Papanatas, de saudosa memória.
Mais alguns aforismos que, aproveitando esta trégua do meu espírito, escrevo para o representante do imperador da Abissínia, que ontem me presenteou com uma rã viva e bem coaxante, dos mais belos exemplares que tenho visto em minhas muitas andanças pelo mundo:
* Corpo, sinônimo de cadáver.
* Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si. Para muita gente a música se resume apenas nestas sete notas.
* Quando Paul Claudel me perguntou se eu não acreditava em Deus, eu lhe respondi:
Qual deles?
* Com os três milhões de florins pagos pelo estudante Vinícius vou comprar uma máquina de fabricar aforismos. Assim poupo tempo, raciocínio e sobretudo lápis, que é o que há aqui de mais importante, quase tão raro quando a borracha, que não existe.
Não me lembro de ter nascido. Meu registro de nascimento é um blefe. Sou tão velho quanto a África.
Vou reescrever a história do Cristo. É só me darem lápis suficientes para isso.
(Apagaram-se as luzes).

Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia

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