Vinte
e seis horas. Era o que durava a viagem de ônibus para o Rio. Sem
diploma de nada, sem muita ideia do que pretendia da vida, eu
resolvera deixar Porto Alegre e ir ser indeciso num lugar maior: o
mundo. Começando pelo Leme, onde uma tia querida me deu cama e
comida. Objetivo imediato: ganhar dinheiro. Objetivo secundário: ir
para Londres, como todo mundo. Vago objetivo final: fazer alguma
coisa em cinema, se dirigir filmes ou vender pipocas, o destino é
que diria.
Um
companheiro de vagabundagem e ambições difusas em Porto Alegre, o
Machado, tinha feito a mudança antes, e encontrei-o cheio de planos
para vencer no Rio, começando por uma indústria de máscaras para
dormir, fáceis de fazer porque dispensavam os furos. Nem esta ideia
nem as várias outras que tivemos bebendo “gin fizz” na varanda
do Hotel Miramar, onde se reuniam gaúchos na mesma situação que
nós, e onde a frase mais repetida, para nos convencermos de que a
disponibilidade sexual do Rio compensava tudo, era “Haja pau”,
deram certo. Também nos faltava capital. Quem não tinha tia comia
na “Espaguetilândia” ou no Beco da Fome da Prado Júnior. O “gin
fizz” no fim da tarde era a nossa única extravagância, nosso
único desfrute da mágica de estar em Copacabana. O Machado era um
virador. Com boa aparência e boa conversa, metia-se onde quisesse e
às vezes me levava junto, e um dia nos vimos convivendo com um grupo
internacional que fazia um filme chamado, se não me falha a memória,
o que eu duvido, Copacabana Palace. E o Machado namorou a Mylene
Demongeot. E fez grande sucesso na varanda do Hotel Miramar contando
que tinham chegado às vias. Como eu não tinha visto, não podia
confirmar o feito, e só dei fé por amizade. Comeu, comeu. Anos mais
tarde, reencontrei o Machado e ele me contou que era escultor, com
uma grande reputação mundial. Certo, certo, disse eu, lembrando-me
afetuosamente do seu passado de contador de vantagens improváveis.
Pouco depois entrei numa exposição de fotografias de “Artistas do
século”, e lá estava, entre fotos gigantescas do Matisse e do
Picasso, uma foto gigantesca do Machado!
Ninguém
entendeu o comentário que fiz diante da foto, depois de me recuperar
da surpresa.
— Ele
comeu mesmo!
Luís Fernando Veríssimo, in Sexo na cabeça
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