Há
um sistema de objetos frios e impenetráveis que circunda o poeta.
Uma constelação indiferente, mas da qual ele não se livra, tanto
que – nave em descontrole – ela persiste e avança em sua viagem
rumo ao poema. O poeta não passa de um refém dos objetos. Para o
melhor, ou o pior, eles definem a poesia que escreve.
A
imagem dessa constelação de objetos inacessíveis, mas mortais, me
vem durante a leitura da Poesia completa, de Odylo Costa,
filho, que seu filho Virgilio Costa organizou para a editora
Aeroplano. Odylo, poeta injustamente esquecido, ele mesmo projetado
para fora de si, parecendo um objeto que o circunda. “Coisificado”,
se diria nos anos 1950.
Odylo
Costa, filho, nasceu em 1914, em São Luís do Maranhão, e faleceu
com 65 anos incompletos, no Rio. A grafia de seu nome, de que nunca
abdicou (não Odylo Costa Filho, mas o “filho” em minúscula, a
vírgula a separá-lo do nome), indica, talvez, a atenção que o
poeta conferia a esse mundo paralelo, barrado pela vírgula cortante.
De um lado, o nome, herdado do pai, Odylo de Moura Costa. De outro, a
filiação – a herança, essa longa série de laços inertes mas
persistentes –, isto é, o “filho”.
Filho
de quê? A poesia de Odylo está repleta de pistas delicadas mas
visíveis. Um passeio pelo índice de Poesia completa oferece uma
rota de sinais. A noite, que arrasta o passado. As cartas de amor, as
cantigas de amigo, as memórias da cidade natal, extensa cadeia
afetiva que alimenta os poemas. Os anjos, a vida de Nossa Senhora, os
bichos no céu, sistema de objetos do culto religioso. Correntes,
longas caudas de vestimentas antigas, os panos reparadores da fé.
Tudo o que um poeta carrega.
Penso
em outros poetas. Muitos reclamam do catolicismo caseiro que pinga
dos versos de Adélia Prado; da loucura latente, mas atordoante, que
lateja nos poemas de Hilda Hilst; da fé política que alimenta a
poesia de Ferreira Gullar; do lastro primitivo sobre o qual avança
Manoel de Barros. Muitos os veem como vícios a serem no máximo
perdoados. Ou como sintomas – talvez graves – de ordem psíquica.
Alguns, ainda, os tomam simplesmente como defeitos, que diminuem a
poesia. Servem, enfim, de agasalhos, ou mordaças, com que os
confinamos em longas séries de tradições, de escolas poéticas, de
“fases”.
Grilhões
do nome, dos quais um poeta não se livra. Se o poeta os abandona,
mata-se. Basta ver o caso de Fernando Pessoa, estilhaçado em tantos
heterônimos, como se fosse sempre outro e outro e outro. Contudo,
vestígios constantes – de aposta na metamorfose – neles
permanecem. Para o poeta, a poesia não é um objeto exterior, é um
objeto interior.
Tomo
os versos de Pessoa, que me ajudam a pensar: “O mundo exterior
existe como um ator num palco: ele está lá, mas é outra coisa”.
Que outra coisa? A mesma coisa – é o mesmo poeta que, nos objetos
do mundo, como num espelho, se repete. Não será por acaso que a
Poesia completa de Odylo se abre com um poema luminoso como “Ao
leitor”.
“Vejo-me
aqui repetido!/ E eu me quisera sempre novo,/ embora se repita a
vida,/ repitam-se as canções do povo”, Odylo começa. Não: o
poeta não aceita a repetição por preguiça ou por apatia. Não se
trata de uma desistência. Não depõe suas armas de poeta, mas antes
a elas se agarra com firmeza. O motivo aparece no último dos cinco
quartetos: “Sempre é novo/ o olhar que inventa um novo mundo”. O
poeta, pois, parte do olhar e não da coisa. A poesia não está nos
objetos, que se repetem em ritmo maçante e massacrante, mas nas
novas visões que ele descortina.
A
poesia, portanto, não se passa no mundo. Tampouco se passa nas
palavras. Passa-se entre os dois – passa-se no olho. Odylo foi um
poeta do olho. No poema seguinte, “Epígrafe”, ele resume sua
estratégia: “Se não tenho tudo o que amo,/ materialmente, tudo é
meu/ noutra espécie transverberada/ que é para mim Inferno e Céu”.
Mais forte que o sistema dos objetos é a pressão da fantasia que,
em Odylo, se resume na dualidade do Bem e do Mal. Ela, sim, molda os
objetos. Dela, sim, o poeta fala, os objetos como desculpas.
Nem
é bem de Odylo que se trata, mas – novamente o olho – da maneira
como o poeta vê. Todo poeta, mesmo o mais materialista, tem sua
metafísica, grande armadura com a qual ultrapassa as coisas do mundo
físico, os objetos inertes, e deles se apropria para chegar, enfim,
ao poema. Em um poema chamado justamente “Objetos”, Odylo resume:
“No fechado silêncio dos objetos/ mais simples mora um toque de
magia”. Magia dos objetos ou do poeta que os observa? Das coisas ou
do olho de poeta?
Lembra,
então, de uma arraia pintada, dois séculos antes, por Chardin:
“Disforme, aberta/ em sangue e dentes, agressiva e forte”.
Observa Odylo que, com a passagem do tempo, muitas glórias se
emudeceram. Não essa pintura. “Aquela arraia sobrevive à morte.”
A arraia, objeto indiferente que inspirou o pintor barroco? Ou o
olhar do mesmo pintor?
Encontra
Odylo uma imagem invertida de si no poeta espanhol do século XVII
Lope de Vega. “Dos libros, tres pinturas, cuatro flores,/ pediu
Lope para ser feliz.” Prendia, assim, a felicidade à posse de
objetos, como se a ligação do poeta com o mundo se fizesse através
de chaves e fortes cadeados. “Não falou de riquezas nem de
amores./ Esse pouco de pobre – não mais – quis.” No fecho do
soneto, “Glosa a Lope de Veja”, Odylo inverte, porém, o desejo
de seu ascendente espanhol. “De coisa alguma havemos precisão”,
escreve. “Livros, quadros e flores, que doidice!/ Basta-nos ser de
um só Amor providos.”
É
no amor, que resulta sempre de um olhar com o qual alguém se debruça
sobre o outro, que as coisas se decidem, e não nas próprias coisas.
A ideia-chave replica na epígrafe que Odylo toma de Luís de Camões:
“Nos olhos me levais alma e sentidos”. Através do grande túnel
do olhar, os objetos se arrastam e se ligam. E é nesse longo
despejar para dentro que eles se transformam em poesia. Escrito o
poema – invertendo a lição de Clarice, que descartou as palavras
para ficar com o sentido –, podemos jogar os objetos fora. E ficar,
como fazia Odylo, com a força das palavras.
José
Castello, in Sábados inquietos
Nenhum comentário:
Postar um comentário