Até
a Revolução Científica, a maioria das culturas humanas não
acreditava em progresso. Elas pensavam que a Era de Ouro estava no
passado e que o mundo estava estagnado, se não ruindo. A adesão
estrita à sabedoria das eras poderia, talvez, trazer de volta os
bons velhos tempos, e a engenhosidade humana poderia melhorar esse ou
aquele aspecto da vida cotidiana. No entanto, considerava-se
impossível que o conhecimento humano fosse capaz de superar os
problemas fundamentais do mundo. Se até mesmo Maomé, Jesus, Buda e
Confúcio – que sabiam tudo o que há para se saber – foram
incapazes de abolir a fome, a doença, a pobreza e a guerra do mundo,
como poderíamos esperar fazer isso?
Muitos
credos sustentavam que algum dia um messias apareceria e colocaria
fim a todas as guerras, à fome e até mesmo à própria morte. Mas a
noção de que a humanidade pudesse fazer isso adquirindo novos
conhecimentos e inventando novas ferramentas era menos do que risível
– era arrogante. A história da Torre de Babel, a história de
Ícaro, a história do Golem e incontáveis outros mitos ensinavam as
pessoas que qualquer tentativa de ir além das limitações humanas
inevitavelmente levaria à frustração e ao desastre.
Quando
a cultura moderna admitiu que havia muitas coisas importantes que
ainda não sabíamos, e quando a admissão da ignorância se casou
com a ideia de que as descobertas científicas poderiam nos dar novas
capacidades, as pessoas começaram a suspeitar que o progresso real
poderia ser possível, afinal. À medida que a ciência começou a
resolver um problema insolúvel atrás de outro, muitos se
convenceram de que a humanidade poderia superar todo e cada um dos
problemas que a aflige adquirindo e aplicando novos conhecimentos. A
pobreza, a doença, as guerras, a fome, a velhice e a própria morte
não eram o destino inevitável da humanidade. Eram simplesmente
fruto da nossa ignorância.
Um
exemplo famoso é o relâmpago. Muitas culturas acreditavam que o
relâmpago fosse o martelo de um deus furioso, usado para punir os
pecadores. Em meados do século XVIII, em um dos experimentos mais
celebrados da história científica, Benjamin Franklin empinou uma
pipa durante uma tempestade com relâmpagos para testar a hipótese
de que o relâmpago é simplesmente uma corrente elétrica. As
observações empíricas de Franklin, somadas ao seu conhecimento
sobre as características da energia elétrica, lhe permitiram
inventar o para-raios e desarmar os deuses.
A
pobreza é outro exemplo. Muitas culturas viam a pobreza como parte
inescapável deste mundo imperfeito. De acordo com o Novo Testamento,
logo antes da crucificação uma mulher untou Cristo com um bálsamo
precioso no valor de 300 denários. Os discípulos de Jesus
repreenderam a mulher por gastar uma soma tão grande de dinheiro em
vez de dá-la aos pobres, mas Jesus a defendeu, dizendo: “Sempre
tendes os pobres convosco, e podeis fazer-lhes bem, quando quiserdes;
mas a mim nem sempre me tendes” (Marcos 14:7). Hoje, cada vez menos
pessoas, incluindo cada vez menos cristãos, concordam com Jesus
nesse aspecto. A pobreza é, cada vez mais, vista como um problema
técnico passível de intervenção. É amplamente sabido que
políticas baseadas nas últimas descobertas em agronomia, economia,
medicina e sociologia podem eliminar a pobreza.
E,
de fato, muitas partes do mundo já se livraram das piores formas de
privação. Ao longo da história, as sociedades padeceram de dois
tipos de pobreza: a pobreza social, que nega a algumas pessoas as
oportunidades disponíveis para outras; e a pobreza biológica, que
põe em risco a própria vida dos indivíduos por falta de alimento e
abrigo. Talvez a pobreza social jamais seja erradicada, mas em muitos
países a pobreza biológica é coisa do passado.
Até
pouco tempo atrás, a maioria das pessoas estavam muito próximas da
linha de pobreza biológica, abaixo da qual um indivíduo carece das
calorias necessárias para sobreviver. Até mesmo pequenos
infortúnios ou erros de cálculo podiam facilmente empurrá-las para
baixo dessa linha, para a morte pela fome. Desastres naturais e
calamidades provocadas pelo homem frequentemente precipitavam
populações inteiras no abismo, causando a morte de milhões. Hoje,
a maior parte das pessoas do mundo tem uma rede de proteção
estendida abaixo delas. Os indivíduos são protegidos de infortúnios
pessoais por meio de seguro, previdência social financiada pelo
Estado e uma série de ONGs locais e internacionais. Quando uma
calamidade atinge uma região inteira, os esforços mundiais de ajuda
humanitária muitas vezes conseguem evitar o pior. As pessoas ainda
sofrem com uma série de degradações, humilhações e doenças
associadas à pobreza, mas na maioria dos países ninguém está
morrendo de fome. Na verdade, em muitas sociedades há mais pessoas
correndo o risco de morrer de obesidade do que de fome.
Yuval
Noah Harari, in Sapiens: uma breve história da humanidade
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